A Minha Queda Será Por Você

17 A lágrima de cristal negro


“Mas que manhã mais demorada!” — Crystal pensava a apoiar a cabeça em uma mão, sentada na carteira ao lado do quadro de vidro onde Sailor Wind escrevia imensos resultados de cálculos com um tipo de tinta neon. Pareceria tão mágico... Se não fosse matemática. Já cochilara umas três vezes durante as explicações, por isso não fazia ideia de como a guerreira dos ventos havia chegado àquela conclusão. Os olhos da princesa estavam fundos de tanto sono, quase não dormiu e para completar a desgraça já correra ao banheiro algumas vezes durante a aula, sem dúvidas a quantidade de torta que comeu na madrugada não caíra bem. Quando a cabeça teimava em pender para a frente, sentia uma régua de acrílico arder na nuca, era Yumi, sempre tão “delicada”. — “Por que comigo, santa senhora da lua?” — resmungava em pensamentos.

Em contraste ao desânimo de Crystal, os olhos de Marine brilhavam diante de tanta informação. O melhor desempenho sempre fora o dela, resolver cada questão de matemática, física ou química era como um desafio, uma batalha travada dentro de seu cérebro. Parecia uma máquina escrevendo no papel, preenchia páginas tão rápido que Reiko ficava boquiaberta na cadeira de trás. Hina possuía talento para as línguas e artes, não era tão habilidosa com ciências exatas, contudo, se salvava. Obviamente a pior da turma e que era mais chamada à atenção era a princesa.

Sailor Wind terminou o expediente, a aula seguinte foi de História, outra disciplina que Crystal não suportava mais. Não queria saber dos feitos da avó, não nessa manhã, não queria ouvir sobre as batalhas das Sailors ou como se formou o reino depois da era glacial, estava farta de ser lembrada do quanto se parecia com a ancestral, principalmente porque no fundo, desejava ter sido-a para corresponder o amor de Diamante no passado, pois acreditava que se fosse Serena ele jamais a rejeitaria. Terrível admitir, mas, quanto mais sonhava com o príncipe e almejava a voracidade de seus afagos, mais a inveja de Sailor Moon tornava-se clara.

“Isso não é certo, não é! — passou as mãos pelo rosto, simplesmente não conseguia parar de pensar em toda a situação, só queria encontrar um meio de se reaproximar de Diamante. — “Preciso fazer alguma coisa, arrumar um motivo... O irmão dele me deu esperanças! Ah, se ao menos ele sentisse por mim algo parecido pelo que sentiu por vovó... Eu não precisaria de nada mais, nada”! — suspirou e abriu um sorriso bobo.

— E então princesa? — a voz de Hotaru a trouxe de volta à realidade momentânea.

— Flores! — Crystal afirmou como se fizera uma grande descoberta.

— Essa é boa! — Marine disse achando graça.

— O quê? — a filha dos reis piscou os olhos, confusa.

— Esqueça, deixarei passar em branco dessa vez porque você me parece muito abatida... — A marinheira do silêncio coçou a nunca, conformada.

— Qual foi a pergunta? — Crystal olhou para as amigas, atordoada.

As meninas riram, a jovem loura e esperta afagou a cabeça de Crystal como se acariciasse uma mascote. Todas já estavam acostumadas com o comportamento distraído e desajeitado da pobrezinha.

— Essa é a nossa querida princesinha! — Marine brincou.

— Para com isso! — Crystal enrubesceu.

...

Olho de Peixe e Olho de Tigre pularam juntos quando adentraram o salão de jogos e presenciaram Olho de Águia roncando em cima da mesa de bilhar. Tigre, como sempre arteiro, andou nas pontas dos pés até a mesa e puxou um taco que estava apoiado em seu canto.

— Shh... — antes que Peixe perguntasse o que ele estava fazendo, com um gesto mandou-o ficar quieto. Como um felino de movimentos leves, apoiou-se sobre a mesa e lentamente aproximou a ponta do taco ao nariz do companheiro que dormia.

Atchim! — Olho de Águia espirrou e acordou assustado, coçando o nariz todo sujo de giz, Tigre não tivera pena, arregaçou a narina do dorminhoco com o ápice do objeto.

A dupla que presenciou o despertar cômico se curvou aos risos, Peixe precisou apoiar-se à parede, ria tanto que lhe faltou o ar.

— Podem rir! — Águia disse fanhoso — Mas, duvido se tiveram uma noite tão boa quanto à minha!

— Pare de se gabar, seu papagaio! Que foi? Teve lindos sonhos com a sereia de seu coraçãozinho? — Tigre debochou às gargalhadas.

— Espera, espera! — Olho de Peixe, recomposto, tocou o ombro de Olho de Tigre para acalmá-lo — Olha o pescoço dele! — apontou para o amigo sentado em cima da mesa — Está cheio de hematomas!

— Mas, hein? — o homem louro arregalou os olhos para ver se estava enxergando direito — O que é isso, Águia?

— Isso o quê? — o jovem arqueou uma sobrancelha, achando que era outra brincadeira de mau gosto.

— Isso! — o mais baixo e delicado dos três exclamou, mostrando o estrago para o fatigado em um espelho portátil.

— Ah! — Olho de Águia gritou, era possível comparar o seu timbre com o de uma gaivota. O rosto inteiro ficou de um tom vermelho intenso. Tentou esconder o pescoço com as duas mãos, estava coberto de marcas consequentes dos “beijos violentos” de Mizumi. — Minha nossa, não pensei que ficaria tão visível!

— Toma isso aqui! — Peixe pegou um lenço amarelo que estava sobre o balcão do bar onde eles bebiam de vez em quando.

— Está maluco? Vou ficar parecendo uma mulherzinha com isso!

— Tem uma ideia melhor, gênio? — Peixe ironizou.

— Já dá para explicar quem foi que te espancou? — o felino grunhiu, irritado pela curiosidade.

— Ah, Tigre... — a ave sorriu confiante, desfazendo o clima de constrangimento em um piscar de olhos — Morra de inveja!

— Inveja do seu pescoço de Dálmata? — retrucou.

— Não, amigo! Sinta inveja porque levei a mestra dos mares para a cama! — enfatizou a última palavra da frase.

— Ah sim, claro!

— Isso é sério, Águia? — Peixe perguntou surpreso e sério.

— É claro que é! Ela estava tão ansiosa por isso que acabou extrapolando. — passou a mão pelo pescoço, convencido. — Transamos a noite inteira como dois coelhos!

— Mas, ela não gosta de você! — Peixe gritou.

— Se não gostasse, por que teria cedido? — respondeu em tom de briga.

— Seu tonto, nem percebe quando é usado!

— Quem disse que fui o usado? E se fui eu quem a usou? Ela está caidinha por mim!

— Ai, mas que burro! — Peixe cobriu o rosto com uma mão e em passos largos aproximou-se da porta — Depois não diga que não avisei! — saiu.

— Será que eu fui o único que viajou nessa conversa? — Olho de Tigre comentou confuso.

...

As horas, embora devagar, enfim passaram e aquele tormento de aulas chegou ao fim. O dia estava ensolarado, com exceção de Crystal, as outras meninas iriam com as mais velhas à costureira que tinha uma grife na cidade. Escolheriam os modelos de vestido, experimentariam, seria um passeio divertido.

“Pena que o meu já está pronto. Queria tanto ir à cidade... Poderia chamar o príncipe, ele gostaria. Mas, tudo bem, já tive uma ideia para ir falar com ele! “— tentou ser positiva.

Reiko falava pelos cotovelos, gesticulava com as mãos como queria que seu vestido fosse moldado, Hina ia quieta como sempre, o jeito espalhafatoso da amiga de cabelos negros a deixava sem graça. Mizumi – a líder da caravana – esperava as garotas que vinham acompanhadas de Hotaru e Yumi.

— E então, queridas? Prontas para o passeio? — A bela Sailor Ocean pôs as mãos na cintura a sorrir.

— Esperem por mim! — Olho de Peixe gritou desesperado. — Eu quero escolher o meu vestido também!

— Não esquecemos de você, Peixinho! — ela respondeu, parada no mesmo lugar.

— Você... — ele fez um bico emburrado — Depois precisamos ter uma conversinha!

— O que eu fiz? — riu.

— Você sabe muito bem, no momento só me ajude a escolher o meu vestido! — mesmo de birra, abraçou-se ao braço da Sailor como se fossem grandes amigos.

— Oh, está bem, “senhora”! — Mizumi se deixou levar pelo rapaz afeminado.

...

Jade e Quartzy carregaram a franzina soberana até o salão principal onde os recém-chegados aguardavam de pé. Onyx demonstrava certa ansiedade em um largo sorriso e nas mãos nervosas que ele abria e fechava, o comportamento do cientista causava calafrios em Aoi, escondida por trás de seu amo e agarrando-lhe a capa. Chegando ao espaçoso cômodo, Ametista foi posta sentada sobre o tatame pelas suas auxiliares.

— Então, é você. — ela falou pausadamente, enquanto com uma das mãos enxugou o suor da testa e dos cantos do rosto — Muitos rumores circulam a seu respeito.

— Devo admitir que boa parte deles é verdadeira! — o homem pálido de aspecto insano se exaltou.

— Então assassinou o próprio pai e estuprou a mãe? — Jade deu um passo à frente.

— Não. — Onyx riu — a parte sobre mamãe é mentira! — cruzou os braços.

— O que fez com sua família não nos diz respeito — Ametista tentou cortar o assunto o mais rápido possível — Sabe por que está aqui, Onyx? — repousou as mãos sobre os joelhos.

— A senhorita anda muito pálida, não? — o homem analisou-a, esbanjando um sorriso despreocupado — Fraquinha demais para uma soberana.

— Não provoque. — Jade avisou. Seu tom demonstrava explicitamente a vontade de torcer o pescoço do convidado.

— Imagino perfeitamente qual rumor sobre minha pessoa me trouxe aqui, princesa. — Onyx sabia ser muitas coisas, menos respeitoso em seu tom e gestos. — Ouviu falar de minhas criações...

— E de sua capacidade de visitar a Terra sem precisar sair de Nemesis. — Ametista completou.

— Oh, isso... — O cientista, bastante à vontade, despiu-se do jaleco e jogou-o sobre as mãos de Akai — Cuidado para não amassá-lo, sim? Boa menina! — afagou o rosto da jovenzinha emburrada — É verdade, descobri um meio de vigiar um ponto específico de Tóquio de Cristal, e não só isso. — começou a andar pelo salão, até encontrar o local onde se ativava o holograma. Com facilidade colocou-o para funcionar. Como uma lupa, a imagem do planeta Terra se aproximava, logo o reino de cristal surgia, e ia além: chegava à imagem de uma das ruas lapidadas de pedra preciosa, embora de belíssima arquitetura, não parecia diferente do resto das outras que existiam lá.

— Sim, linda rua, linda arquitetura, lindas árvores. E? — Jade cruzou os braços.

— Deixe que ele prossiga. — Ametista a encarou e fez sinal de silêncio com o dedo indicador.

— Obrigado, majestade. — o homem fez uma breve e debochada reverência. Em seguida, ajeitou os fios negros de cabelo que caíram à frente dos olhos e tornou a andar em volta do holograma. — Nessa rua, há muito tempo, o antigo príncipe, com a ajuda de Black Lady, “esculpiu” um enorme cristal negro. Quando Sailor Moon e suas amigas derrotaram o Grande Sábio com o poder do cristal de prata, nosso monumento desapareceu quase por completo do planeta azul, não deixou resquícios visíveis. Por muito tempo, a existência de um pequeno caco de cristal negro perdido nas profundezas do solo permaneceu desconhecida. Era tão pequeno e insignificante que sequer possuía o poder de sugar energia ao seu redor... Vossa majestade conhecia essa história?

— Como desconfiei... — Ametista sussurrou enquanto Quartzy e Jade a encaravam.

— Aquele caquinho insignificante, minha senhora, é nada menos do que a chave, o elo que possuímos com o planeta Terra. É graças a ele que consigo observar, e recentemente, descobri que posso fazer mais que isso. Tendo parte de cristal negro em minhas mãos, posso me comunicar com o fragmento em Tóquio de Cristal e mandar algumas de minhas crias para sondar, colher materiais...

—... O quê? — Quartzy arregalou os olhos e pôs uma das mãos sobre a boca.

— Infelizmente, não há como eu ou vocês irmos até lá por esse caminho, nossos corpos se desmaterializariam no meio da jornada, contudo, minhas criaturas são feitas de cristal negro líquido, podem locomover-se eximiamente e chegarem a Terra inteiras.

— E ele tem a capacidade de construir novos óvinis, senhorita Ametista. — Topázio complementou.

— Em um ano, ou talvez menos, posso construir um esplêndido arsenal para nosso clã invadir a Terra. — Onyx ajeitou os óculos e alargou o sorriso.

— Antes de qualquer coisa, responda-me: como soube que esse resquício mínimo de cristal existia? — Ametista o encarava incessantemente.

— Rumores, querida majestade! E a senhorita? — o tom de pergunta pareceu mais de desafio.

— Deve ter ouvido rumores sobre mim também, não é mesmo, Onyx? Deve saber de meus poderes telecinéticos, minha sensibilidade...

— Certamente. Assim como sei que é por isso que é respeitada. — o cientista olhou-a de cima a baixo com ares de ironia. Jade a todo o momento desejava decepar-lhe a cabeça.

— Certa noite, em sonho, viajei até o planeta azul e pairando sobre ele, vi um ponto de luz negra, uma lágrima de energia a brilhar no piso envidraçado da rua. Mergulhei como se fosse feito de água, transpassei todas as camadas de cristal transparente e espesso até ser soterrada pela terra marrom e agarrada por raízes. Por instantes, acreditei que sufocaria ali mesmo e não mais despertaria, que seria o meu fim. Quase me arrependi de minha peripécia... E então, vi a pequena luz negra vindo até mim, guiando-me para mais fundo, até onde as raízes mais longas não chegavam. Estava lá, quase chamando pelo meu nome, uma pequena gota de cristal negro. Senti nela a vontade de nosso antigo príncipe, o desejo ancestral quase esquecido por nós de viver no planeta que é nosso por direito. Aproximei meus dedos e senti o indicador ser perfurado pela ponta do cristal. Uma gota de sangue meu caiu sobre ele, e nesse exato momento, o fiasco de energia que ele emanava tornou-se um farol. Um farol de energia e uma luz de esperança para Nemesis. Da Terra viajei para Ilusão, o fantástico mundo dos sonhos mais belos... Meu anseio por uma vida melhor para todos nós materializou-se em uma gota de cristal negro gêmea àquela que na Terra está. Ela escorreu de meus olhos e afundou sobre o grande lago do mundo onírico. Seu brilho negro mesclado a uma fraca luz púrpura indicou-me o que fazer: sou fraca, doente, não durarei muito tempo para guiar o nosso povo. O trono, por direito, é de príncipe Diamante, e eu sabia que poderia trazê-lo de volta, ainda possuía poderes para isso. Entretanto, quando usei minhas forças para resgatar a alma do regente, encontrei um grande buraco dentro dela, metade do espírito faltava... Raciocinei que esta falta estivesse ligada à perda do irmão mais novo, e mesmo sabendo o quão perigoso seria trazer mais uma vida, arrisquei-me por motivo nobre: Saphiro foi um alquimista como você, e embora jovem, era um rapaz sábio e bom conselheiro. Enfim, trouxe os dois, mas cometi uma distração grave: não notei que o último desejo de ambos foi viver na Terra, como todos nós, e por esse motivo, quando reviveram, seus corpos surgiram lá e não aqui. Então, temos um problema, porque ando enfraquecida demais para conseguir comunicar-me com eles por sonhos, uma das vezes em que estive em Ilusão fui atingida pelo poder do cristal de prata, tive sorte de depois conseguir comunicar-me rapidamente com príncipe Diamante, só que não foi o suficiente para deixá-lo a par de nossa situação em Nemesis... Esquecidos, abandonados... Então, Onyx, tenho uma missão nobre a oferecer-lhe e creio que será de seu interesse aceitá-la, afinal, trabalhando por nossa causa não precisará ficar exilado em um pântano qualquer, recuperará o respeito das pessoas por você, e creio que tanto quanto nós você anseie por vingança, e mais, por um lugar melhor para chamar de lar. O que me diz?

— Dite a missão, ó soberana! — ele abriu os braços a rir.

— Quero que mande algumas de suas criaturas à Terra, faça com que elas procurem os príncipes. Pode falar por elas?

— Sim, é possível transmitir mensagens.

— Que elas comuniquem-se com príncipe Diamante e Saphiro, para que assim eles percebam que a família da lua branca não é tão boa quanto parece. Eles precisam acordar para a nossa realidade e voltar para seu lugar de origem.

— Mas, minhas criaturas não podem trazê-los de volta, seus corpos não suportariam a viagem.

— O primeiro passo é convencê-los a não confiar naquela rainha dissimulada. O transporte para trazê-los de volta vem em seguida, não desejo que venham forçados. Virão por vontade própria.

— Princesa Ametista, e quanto à invasão? Como Onyx disse, o arsenal pode ser criado, ele desenvolveu a capacidade de multiplicar cristal negro! Por que não aproveitamos e acabamos logo com isso? — Topázio aproximou-se da jovem sentada sobre o tatame. — Ao invés de todo esse procedimento complicado, criemos óvnis de uma vez e partamos para a batalha!

— Topázio, eu preciso que príncipe Diamante esteja aqui o quanto antes para assumir meu lugar, depois disso ele mesmo ordenará o ataque. O mais importante é que ele esteja aqui para assumir o trono, eu já não tenho muito tempo...

— E por que não escolhe um de nós como seu substituto? — o cavaleiro dourado questionou.

— Você é esperto! Jade se pôs em frente à Ametista — Pensa que não percebo o seu empenho em tentar convencer e pressionar nossa senhorita? Esqueça! Você nunca será o príncipe! — agarrou a gola de tecido negro por baixo da armadura reluzente dele — Nessa você não vai se dar bem... — encarou-o no fundo dos olhos.

Topázio nada respondeu, apenas correspondeu o olhar hostil de Jade à altura. Por meros segundos, um silêncio sepulcral se instalou no recinto. Guerreiro e guerreira travaram uma batalha silente com seus olhares, memórias antigas se reavivaram rápidas como um sopro na mente de ambos e se foram quando mãos delicadas tocaram os ombros de Jade, puxando-os.

— Jade... Jade! Solte-o, por favor... — Quartzy pediu, calmamente segurou a mão da outra e a tirou da gola de Topázio — Acalme-se, sabe muito bem que isso tudo não vale à pena.

A mulher obedeceu, afastou-se aos poucos, ainda olhando nos olhos dourados que fitavam-na de maneira detestável. Odiava como era encarada por ele e de tudo o que recordava toda vez que seus olhos se encontravam.

— Está decidido, Onyx. Já sabe o que fazer. — Ametista tentou ignorar o ocorrido entre seus dois súditos e não pensar muito sobre as coisas que Jade disse. Ela, mais do que ninguém, sabia da ambição de Topázio e nunca se iludiu acreditando que cativaria algo de bom dele, todavia, era exímio guerreiro e necessário dentro daquele conflito. — Preciso descansar. Jade, acompanhe-me por favor... Quartzy, mostre ao cientista os aposentos dele.

— Como quiser, princesa. — a mais delicada das mulheres presentes fez breve reverência e caminhou para o corredor — Siga-me, por favor — pediu à Onyx.

— Por que não? — ele foi atrás, apreciando os quadris da mulher com corpo de bailarina.

— Ei, ei! Abusado, toma isso aqui! — Akai embolou o jaleco cinza nas mãos e jogou para o cientista como se fosse uma bola de vôlei.

Topázio encostou-se em uma pilastra de braços cruzados e ficou em silêncio. Aoi, uma de suas fiéis servas, fitou-o preocupada. Apoiou o rosto em seu ombro e abraçou um de seus braços. Ele suspirou, preparando-se para a outra que chegava aos pulos para agarrar seu outro braço em um acesso de ciúmes. Não se mexeu, permitiu-as agarrá-lo como quisessem enquanto sua mente dava voltas e borbulhava.

“Às vezes sinto saudades daquele tempo...” — admitiu para si mesmo, pensando em Jade.

...

Enquanto todos no palácio se movimentavam para os preparativos do baile, Crystal andava pela estufa com uma cesta em mãos, analisando cada flor. Mal sabia a princesinha que mais cedo o homem que dominava seus pensamentos esteve lá. Fitou as flores azuis e suspirou.

— São muito poucas... O que fazer? — olhou para os lados até notar a quantidade de rosas brancas existentes. Pôs uma mão no queixo, pensativa. Teve uma ideia. Alegre e saltitante, colheu algumas daquelas rosas. Desajeitada, não pode evitar ferir levemente os dedos com os espinhos, porém, não desistiu. Encheu a cesta de rosas brancas. — Agora, preciso arrumar um jeito de torná-las azuis... — olhou para os lados e lembrou-se do ateliê de artes plásticas.

Abraçando a cesta com as duas mãos, foi correndo até o local desejado. Chegando lá, colocou sobre uma grande mesa cheia de vidros de tinta a sua cesta de flores. Arrumou pincéis e tudo de que precisava, pegou as rosas uma à uma e pintou-as da cor certa. Um bom tempo depois, com a roupa, o rosto e mãos cheios de gotículas azuis, inclusive o cabelo, terminou o serviço. Arrumou um papel e fita bem bonitos, fez um embrulho meio desajeitado e seu buquê estava pronto. Entortou os lábios, um pouco desapontada. Esperava que sua obra de arte ficasse mais bonita e chamativa.

— Até que não está tão ruim, vai... — tentou se convencer.

Tinha que deixá-las secar e cuidar para que ninguém as visse. Sorte que as meninas haviam saído para fazer compras e além delas, ninguém mais costumava visitar o ateliê. Saiu discretamente, trancou a sala e caminhou rumo ao palácio. Precisava de um banho urgentemente. Da janela do quarto, Diamante a via passar. Quando notou que a princesinha viraria o rosto em sua direção, o nemesiano fechou as cortinas rapidamente e apoiou as costas nelas. Suspirou e fechou os olhos recordando do beijo dado debaixo da grande árvore.

— Ah! Te achei! — uma voz e um puxão no braço despertaram a atenção de Crystal , a menina virou o rosto para ver quem era e se deparou com Olho de Tigre, confuso ao notá-la banhada de tinta azul — Mas o que é isso, princesa? Resolveu pintar paredes? — riu.

— Ei! “O que é isso” pergunto eu! Pode soltar meu braço, por favor? — ela arregalou os olhos e sentiu o rosto queimar de vergonha pelo estado em que se encontrava. Assim que o homem a soltou, ela escondeu os braços para trás e agarrou a saia com as mãos, limpando-as no tecido.

— Escute, seu pai pediu para que eu a ensinasse a valsar. Não querendo me gabar, mas sou muito bom nisso, sabe? — Exibiu seu charme ao passar a mão nos cabelos dourados e esbanjar um sorriso galante.

— Ai, mas, agora? Olhe o meu estado! — resmungou.

— Vá tomar um banho e vestir roupas limpas, estarei esperando-a no salão de baile do palácio.

“E essa agora? Eu dançando valsa? É para rir ou para chorar?” — Emburrada, pensou enquanto em passos pesados, como os de crianças de birra, andava rumo a seu quarto. Sentiu-se aliviada ao entrar na banheira e desfrutar de um banho relaxante. A água gradativamente ficava azulada conforme a tinta se desprendia de alguns fios de cabelo e das mãos da princesa. — Parece a cor do cabelo dele... — sussurrou ao contemplar a coloração azul clara da água. Enfim, parou de enrolar no banho, vestiu-se, prendeu o cabelo nas duas marias-chiquinhas altas de sempre e foi ao seu destino. Ao chegar ao enorme salão redondo com uma cúpula de vidro e barras douradas no teto, deparou-se com o integrante do Trio Amazonas vestido em traje de gala branco.

— Bem vinda, princesinha! — ele abriu os braços e um largo sorriso.

— Minha nossa... — disse para si mesma, dando-se conta de que vestia uma de suas roupas mais simples enquanto Olho de Tigre exagerava na elegância — Definitivamente, não nasci para isso!

— Ah, pare de reclamar! Será divertido, verá! Agora, concede-me a honra? — o rapaz ergueu a mão a ela.

— Fazer o quê? — Crystal, resignada, deu a mão a Tigre, que num curto instante a puxou e a rodopiou de uma vez. A garota sentiu a mente girar junto com o corpo e quase se desequilibrou. Desajeitada, tentou acompanhar os passos dele, mas o homem era um exímio dançarino e de início já parecia querer ensaiar passos dignos de um tango.

— Mais empenho, princesinha! Já pisou em meu pé umas oito vezes! Como pretende cativar o coração de um belo príncipe na noite de seus sonhos desse jeito? Deve haver uma bailarina dentro de você, procure! — Falava animado, enquanto desviava das possíveis pisadas no pé e girava com a menininha atordoada pelo salão.

— Calma, vá mais devagar! Estou ficando tonta! — Ela alertou.

— Querida, você precisa se esforçar porque se for para conquistar alguém só pela aparência... — Ele comentou.

— Como é que é? — Crystal parou bruscamente os passos, fincou os pés no chão e pôs as mãos na cintura, indignada.

— Opa! Não foi bem isso que quis dizer, princesinha! — Tigre sorriu completamente sem jeito — É que você ainda tem um corpo infantil, sabe? E um jeitinho tão pueril... É claro que você é bonitinha, mas precisa de... Precisa de... — repousou a mão sobre o queixo, pensando em como poderia completar aquela frase de modo que ajeitasse a gafe dita.

— De quê? Vai, fala! — disse em tom autoritário, batendo um dos pés no chão com força — Ta dizendo que sou sem graça?

— De modo algum! Só não muito encorpada...

— Ta me chamando de tábua?! — soou ainda mais indignada, o rosto já estava rubro de irritação.

— Ai meu Deus! — Olho de Tigre cobriu a testa com uma mão — Não é nada disso, você deve fazer o tipo de alguém, querida!

— Ora, com certeza eu faço o tipo de muitas pessoas, ta?!

— Não viemos aqui para discutir, mas para dançar! — ele tentou cortá-la.

— Pois eu não quero e não vou dançar com você, seu metido e sem graça! Saiba que também não faz o meu tipo, ta bem? Eu jamais desejaria que um homem como você se interessasse por mim! — cruzou os braços

— Não minta para si mesma! Eu sou o tipo de toda mulher que tem bom gosto! — como sempre, o lado de galanteador se mostrou em jogadas de cabelo e um sorriso conquistador – Se eu quisesse você estaria na minha mão, mas respeito muito seu pai para isso! Além do mais, já tenho outra pessoa em vista... Uma jovem loura, tão bela quanto a Vênus...

— Marine? — Crystal arregalou os olhos e começou a rir tanto que teve de pôr uma mão na barriga — Que idiota! Duvido que ela vá te dar bola! Pago para ver!

— Ora! Ela está caidinha por mim! — dessa vez, o felino era quem ficava com a face rosada — Espera! Quem disse que é ela?

Enquanto a discussão ficava cada vez mais calorosa, Olho de Tigre e Crystal sequer notavam outra presença além da deles no grande salão. Ambos se encaravam e quase gritavam um com o outro como duas crianças briguentas. Ofensas rasas como “magrela”, “gato escaldado” soaram e só pararam quando os dois escutaram um riso discreto vindo da porta do cômodo. Era Diamante, encostado em uma posição confortável e de braços cruzados como se estivesse à espera.

— Parabéns pela maturidade, professor! — bateu três palmas para Olho de Tigre — Realmente, é assim que se ensina alguém a dançar, você tem futuro.

— E o que você sabe sobre dançar? — Tigre o encarou.

O coração de Crystal pareceu levar marteladas enquanto Diamante caminhava calmamente até ela em silêncio. Como ele chegou lá? Há quanto tempo a observava? Sentia-se envergonhada por seu comportamento, mal conseguia encará-lo. Como se não bastasse o clima mórbido que havia pairado sobre ela e o príncipe, o dono de seus pensamentos ainda havia de assistir aquela cena deprimente? O universo conspirava contra ela?

— Venha, eu a ensinarei. — Diamante segurou as mãos pequeninas e notou leves cortes nos dedos os quais ela tentou esconder — O que foi isso?

— Não foi nada! — ainda não o encarando, apertou suas mãos, nervosa.

— Ponha seus pés sobre os meus. — ele pediu depois de colocar uma das mãos de Crystal em seu ombro e puxá-la pela cintura.

Ela apenas acatou com delicadeza, ao ficar sobre os pés de Diamante adquiriu altura suficiente para encostar o queixo no ombro dele. Estava confusa, tremia, e ao mesmo tempo sentia-se feliz por ele estar ali, apesar de ser estranho o seu comportamento. Como um homem que fora tão rude outra hora agora se comportava de maneira tão gentil? Não importava, ele estava ali e isso bastava. Fechou os olhos e se deixou ser levada pelos passos dele para lá e para cá, até esqueceu-se da presença de Olho de Tigre, encostado na parede, constrangido por ter falhado. Enquanto a princesinha não continha a ternura tanto em seus gestos como no semblante, Diamante era mais discreto. Não demonstrava emoção no olhar ou no toque, embora por dentro seu espírito incandescesse. Sabia que não poderia correr o risco de despertar qualquer desconfiança no subordinado do rei, já se arriscara por Olho de Peixe tê-lo flagrado. Desejava continuar morador daquele paraíso, desejava estar próximo da menina que estava em seus braços. Quando Olho de Tigre finalmente deixou o cômodo, entregue ao tédio, o príncipe nemesiano apertou Crystal nos braços enquanto a induzia a valsar, sentiu-a tremer ligeiramente, sentiu a mão ser apertada, porém, nada disse. O que dizer? O que fazer? Fora tão ríspido, ainda estava confuso, não havia discurso que pudesse ajudá-lo.

— Me desculpe, não levo muito jeito... — Crystal, constrangida pelo silêncio, se manifestou.

— Você aprenderá rápido...

— Se você me ensinar. — ergueu o rosto e fitou-o, tímida. — Você pode?

— Já não o faço? — continuou os movimentos pelo salão, conduzindo-a sobre seus pés.

— Digo, não só hoje... Mas, até a data do baile. Pode? — Disse cada palavra com cautela.

— Está bem. — suspirou, era difícil agir naturalmente e conter o ar de surpresa por ela tratá-lo como se nada de ruim houvesse acontecido.

— Eba! — rapidamente, a Crystal de sempre mostrou-se: eufórica, saltitante, sorridente – Podemos marcar um horário à tarde, depois das aulas! Nos encontramos aqui, ou onde você preferir! E...

— Acalme-se, princesa! — a animação da menina foi tanta que sem querer seus pés pesaram sobre os de Diamante, apertando-os. Ele não se conteve e riu. — Que seja depois de suas aulas... Podemos aproveitar e conversar sobre o que aconteceu... — Recobrou o ar de seriedade e pesar, todavia, antes que pudesse entrar no assunto difícil, os braços frágeis e delicados o abraçaram, uma bochecha rosada repousou sobre seu peito fazendo sua voz emudecer.

— Obrigada... — ela disse, suave — Estou muito feliz! — sorria de olhos fechados, aliviada. —Estamos combinados assim então!

— Crystal, princesa, onde você está? — a voz de uma criada soava dos corredores — Sua mãe a chama!

Ela se afastou dele dando dois passos largos para trás com os braços a balançar, recuperara o jeito infantil e meigo em questão de segundos. Crystal era assim – chorona, mas alegre, frágil, mas rápida em se recuperar das quedas que a vida lhe proporcionava. De qualquer forma, não perdia o estranho brilho.

— Até mais, príncipe! — acenou contente e abandonou o salão aos saltos, como um coelho.

Diamante permaneceu parado onde estava, apenas a observou se afastar. Algo pulsava dentro de si fazendo seu sangue bombear intensamente. Quase podia sentir-se quente. Repentinamente, um pensamento perigoso percorria-lhe a mente: — “Ela é minha, não devo abrir mão disso por temer que outro venha e tire-a de mim”.

...

— Acho que apenas esse quarto é, pelo menos, duas vezes maior do que a área em que eu vivi todos esses anos. — Onyx jogou-se sobre a enorme cama redonda no centro do cômodo negro e contemplou o próprio reflexo no teto espelhado — Sinto-me parte da realeza! — riu e passou a língua pelos lábios, fitando a jovem que o acompanhara até lá com o canto dos olhos.

Quartzy fez questão de não por um pé dentro de lá, observava o gênio da porta, assustada e desconfiada.

— Desculpe-me pelos modos. Entenda, não é sempre que possuo a companhia de uma mulher. — Sentou-se, passando as mãos sobre o lençol aveludado. — Acho que é a primeira vez em anos que saberei o que é um bom descanso.

— Há muitos boatos sobre o seu exílio, me pergunto qual deles será verdadeiro... O que faz com que uma pessoa seja confinada em um pântano durante tanto tempo?

— O que é isso que vejo em seus olhos? Pena? — riu — Confesso que esse tipo de sentimento por mim é novidade.

— Acredito que, não importa quem seja ou o que tenha feito, ninguém merece um castigo como esses. Lamento que tenha perdido tantos anos de vida na solidão.

— Quartzy é seu nome, não? Você é diferente. — encarou-a. — Nem parece habitante desse planeta.

— Talvez eu faça questão de manter alguma humanidade em mim. — a jovem olhou para o chão e respirou fundo.

— Então é você, nesse lugar, quem é digna de pena. Pobre Quartzy! — o traço distintivo de Onyx, o deboche, não tardou a mostrar suas facetas — Vou lhe contar um segredo, doce Quartzy: Eu não me arrependo de nada que fiz, tampouco me sinto mal por ter vivido sozinho por longa temporada. Todos os meus feitos, um dia, serão lembrados como gloriosos para a história de Nemesis. Mas, e você? Será uma anônima, uma ninguém, a garota frustrada que tentou ir contra o movimento.

— Não desejo fama, cientista. — apesar de ser a mais delicada dali, soou firme e séria — Não desejo glória banhada pelo sangue de outros. Por mais que a rainha da Terra não tenha sido justa conosco, por mais que aquela mulher não nos tenha permitido dividir o planeta azul como pessoas normais, não desejo que um reino inteiro seja destruído por um único ser humano que nos desprezou. Sei que não era esse o desejo de nossos ancestrais, e sim, possuo esperanças de que quando eles vierem ao nosso encontro, pessoalmente dirão isso à princesa Ametista e a farão mudar de ideia. Só desejo que a história de Nemesis seja pacífica. — virou as costas e começaria a se afastar.

— Coitadinha, isso é impossível! — Onyx gargalhou — Doce Quartzy, amanhã uma de minhas criaturas será enviada à Terra para se comunicar com os príncipes, e esse será apenas o início do conflito. Eles virão para cá de fato, mas, virão tão indignados com a conduta dos integrantes da Lua Branca que possuirão a nossa mesma sede de vingança. Os príncipes trarão uma esperança para Nemesis, sim. Mas esta esperança está longe de ser algo pacífico, conforme-se. Príncipe Diamante enfatizará a ideia de Ametista e você não pode mudar isso.

— O que o faz ter tanta certeza de tudo o que diz? — a melhor amiga de Ametista pareceu assombrada com o discurso do alquimista.

— Espere e verá. — Onyx esboçou um largo sorriso, esbanjou a arcada dentária branca e perfeita. Por trás daqueles dentes unidos, que maus agouros se esconderiam?

Continua...