A Minha Queda Será Por Você

23 A descoberta de Saphiro e os preparativos para o baile!


Notas iniciais
Pessoal, demorei a vir por aqui, sumi, eu sei. No entanto, tenho uma boa notícia: tenho uma penca de capítulos para postar! Tentarei por todos os que já postei em outros sites aqui ainda esse final de semana, começando por hoje! Boa leitura, espero que gostem!

A minha queda será por você

Capítulo 23 – A descoberta de Saphiro e os preparativos para o baile!

Era madrugada, porém o amanhecer não tardaria a chegar. A cidade estava pacata, os cidadãos descansavam após o susto que tomaram. Provavelmente, muitos deles ainda pensariam no evento ocorrido outra noite, e provavelmente já não vissem o reino em que viviam como a terra sagrada e tranquila onde qualquer um almejaria viver.

Apenas um homem caminhava pela cidade. Em passos calmos, observando o próprio reflexo no piso envidraçado, Saphiro dirigia-se ao local onde a última gota de cristal negro jazia. Foi cauteloso, não se aventurou a ir mais cedo para não correr o risco de ser seguido. Poderia ter se teletransportado, no entanto, preferiu caminhar, assim poderia apreciar a paisagem de prédios monumentais em contraste com a natureza exuberante, e, também, teria mais tempo para pensar no que dizer caso conseguisse entrar em contato com a garota misteriosa que lhe passou a mensagem perturbadora.

“Nemesis, o que terá sido feito de nosso planeta?” — pensava aflito. Ainda era um príncipe, ainda possuía um povo. Perdido em reflexões, permitiu que seus instintos o guiassem até a ruela onde ele estava certo de que um caco de cristal negro remanescera. Finalmente no lugar, ajoelhou-se e pôs a mão direita, isenta da luva azul, sobre o piso. — Está desativado, mas sei que está aqui. — fechou os olhos, concentrando-se na pequena pedra. A lua negra em sua testa brilhou sutilmente e o fez sentir uma pontada na nuca. Respirou fundo e insistiu — É Saphiro, estou tentando entrar em contato com quem quer que seja. Respondam-me!

Ametista despertou de súbito, Quartzy dormia ajoelhada ao lado de sua cama, com a cabeça sobre o colchão. A pequenina soberana suspirou ao ver como a sua mais fiel súdita havia se acomodado. Entretanto, Quartzy não era o foco naquele momento, havia uma voz distante zunindo em sua mente, e ela sabia que a conhecia.

“Respondam-me!” — a voz soou mais forte e a fez estremecer. Fraca, levantou-se, embora as pernas estivessem trêmulas. O coração saltitou mesmo cansado e ainda que lhe roubasse o ar, a disposição, não a impediu de seguir se segurando pelas pilastras até o salão vazio, lugar onde poderia ter privacidade. Jogou-se sentada sobre o tatame em que costumava sentar, à frente dele havia lapidado um pedaço maior de cristal negro. Com as mãos sobre ele, não poupou energias:

— Saphiro, é você? — soou rouca.

— Sim! Sim, sou eu! — a imagem da jovem de cabelos lilases formou-se turva na mente do nemesiano — E você quem é?

— Sou a princesa Ametista, a regente de Nemesis nesse momento...

— Como está Nemesis?

— Ah, Nemesis... — ela suspirou — Nemesis é um planeta de sobreviventes, mas, a cada dia que passa, menos de nós existem nesse lugar... A escassez de recursos é o que tem matado muitos nemesianos. Nós, os poucos que vivemos em situação melhor já não encontramos meios de ajudar os mais necessitados, e em breve até nós, a família real como se diria, estaremos passando necessidade... A Terra é a nossa única opção de sobrevivência, o planeta que também deveria ser nosso e que nos foi negado.

— Mas, se nos entendemos com os terrestres no passado, por que eles não nos ajudaram? Acreditei que a política de Sailor Moon fosse a de ajudar ao próximo, não importando quem fosse... Isso não faz sentido. Houve mais algum atrito?

— Saphiro, tudo é bem mais complicado do que parece... Sailor Moon pode nos ter perdoado, mas os terrestres, principalmente a filha dela não. Houve um tempo, quando a Rainha Serena regia, em que Nemesis, mesmo tão sombrio, havia condições de ser habitado. Tivemos que permanecer aqui, pois a experiência de convivência com o povo da Terra não deu certo. Isso foi muito antes de eu nascer, meus pais contaram-me a história. Depois que Grande Sábio foi derrotado, um acordo de paz foi selado entre Terra e Nemesis. A Rainha Serena, grata pelo sacrifício do príncipe Diamante, teve a ideia de tentar trazer para o planeta azul alguns de nós, meu pai e sua família foram uns deles. Os terrestres, em poucos meses, não tardaram a reivindicar o nosso retorno ao planeta natal. Havia além do rancor, uma concorrência acirrada, pois, em pouco tempo, nosso povo se mostrou mais sagaz e dedicado. Os habitantes da Terra sentiam-se diminuídos, muitos acreditavam que não deveríamos possuir os mesmos direitos que eles por conta de nossa história passada, outros nos chamavam de bandidos, ladrões e alegavam que deveríamos ser exilados. Diante clima hostil, alguns membros de nosso clã resolveram tomar uma atitude, pois não suportavam mais as humilhações diárias. Então, pequenos conflitos se deram início, e ao longo do tempo, esses pequenos conflitos cresceram até se transformarem em uma guerra civil. Por termos habilidades que os terrestres não possuíam, adquirimos vantagem nas batalhas. Muitos terrestres morreram em combate, na verdade muito mais terrestres do que nemesianos. A Rainha estava em um impasse muito grande, pelo que meu pai me contou ela não planejava desistir de nós, o rei Endymion, por sua vez, foi racional e a convenceu de que não haveria outro jeito. Eles precisavam fazer uma escolha. A rainha ainda tentou purificar os Black Moon instalados em Tóquio de Cristal, mas, temerosos de que sem seus poderes seriam presas fáceis para os civis terráqueos, se recusaram a abrir mão deles. Enfim, não houve outra forma de resolver a questão... A decisão dos reis de Tóquio de Cristal foi a de mandar os nemesianos de volta ao seu lugar de origem. Em troca disso, a rainha nos enviaria suprimentos e nos ajudaria a tornar Nemesis um planeta sustentável e agradável de habitar. Quem selou esse acordo com a rainha foi meu pai, ele era apenas um general na época, vocês sequer devem ter ouvido falar de nós, não somos de origem nobre...

— Se não é nobre, como chegou ao trono? — Saphiro questionou.

— Vocês não deixaram herdeiro algum e eram sozinhos, não possuíam primos, tios, nada. Nemesis estava sem um regente, éramos vítimas de uma anarquia. Alguns desejavam que a rainha de Tóquio de Cristal nos regesse, outros não só discordavam, mas repudiavam a ideia. Meu pai e outros cinco generais formaram um conselho, decidiram que o próximo rei ou rainha de Nemesis deveria ser escolhido por meio de votação. Como meu pai foi o homem que mais ajudou na estruturação do planeta, naturalmente venceu... Alguns dizem que não foi só por isso, mas porque minha mãe possuía dons incríveis e todos os nemesianos a admiravam muito... Porém, os dons de minha mãe, ao mesmo tempo em que eram uma benção eram uma maldição... E a levaram embora muito cedo.

— Deixe-me ver se entendi, vocês querem tomar a Terra porque em Nemesis não sobreviverão? E, para isso, precisam de nós? Você, como regente, não deveria temer que meu irmão desejasse retomar o lugar dele no trono? Afinal, ele possui sangue real e você não...

— Saphiro, assim como minha mãe, eu possuo os dons. Posso entrar nos sonhos de uma pessoa e manipulá-los, eu vejo coisas, possuo uma sensibilidade aguçada para outras, posso trazer os mortos de volta, mas, esses talentos consomem as minhas energias e a cada dia se torna mais difícil respirar...

— Você está doente?

— Não, mais do que isso. Eu estou morrendo. — a voz de Ametista estremeceu como se na garganta tivesse se formado um nó. — e mesmo que Quartzy, a pessoa mais apta a me tratar, componha todos os remédios possíveis, a minha morte está batendo à porta e, conforme o tempo passa, mais difícil torna-se retardar a sua entrada. Eu estou morrendo, Saphiro...

— Eu sinto muito. — sentiu o coração apertar, sequer conhecia a mulher, contudo, havia algo no tom de voz dela que o entristecia.

— Sabendo que me restava pouco tempo, adiantei o meu fim quando os trouxe de volta. Tenho esperanças de que seu irmão ainda possua dentro de si aquele antigo sonho de viver na Terra e compartilhá-la com todos os de nosso planeta, e você, com o seu bom senso, pode ajudá-lo e guiá-lo nessa conquista.

— Entendo o seu sonho, também o tenho. O que não entendo é o desejo de vingança, afinal, eu e meu irmão estamos vivendo aqui agora, a família real nos aceitou e se tudo der certo, meu irmão e a princesa ficarão juntos. Eles estão apaixonados.

— E você acha que a rainha aceitará isso? Acha que já não tentamos outra vez esse convívio? Você precisa entender uma coisa Saphiro: a rainha Rini é a última pessoa na face do universo que nos aceitará de volta. Sabe por que Nemesis está em decadência? Porque Rini, assim que assumiu o trono com Helios, deixou de nos mandar suprimentos. Porque Rini, na última conferência holográfica que fizemos, nos proibiu de pisar na Terra.

— ... O quê?

— Sim, Saphiro. É exatamente como eu digo. Rini, a rainha de Tóquio de Cristal, nos renegou. Eu possuo gravada a conferência como prova disso. E foi desde esse dia, há alguns anos, que planejamos retomar a nossa vingança.

— Então, por que ela nos aceita aqui?

— Ela não os aceita, ela os mantém aí.

— Como assim?

— Simples. Enquanto vocês estiverem no palácio, ela e o marido sabem que não atacaremos. De certa forma, vocês estão sendo feitos de reféns.

— Não pode ser...

— Em algum momento ela demonstrou afeto por vocês? Seja sincero...

— Não, ela deixa claro que não confia em nós. Mas, a filha dela é diferente, eu garanto! E não só a filha, mas, muitas outras pessoas dentro do palácio! Somos bem tratados no aspecto geral, estamos vivenciando coisas boas, experiências calorosas que nunca antes tivemos e... — Saphiro reparou que os cidadãos de Tóquio de Cristal começavam a sair de suas casas para irem trabalhar — Eu preciso ir agora — sussurrou — A nossa conversa não terminou, e garanto que meu irmão não ficará alheio a tudo isso.

— Até mais, Saphiro... — assim que o contato foi encerrado, o corpo de Ametista pendeu sobre o tatame. A jovenzinha desfaleceu lânguida.

Terminada a conversa, o rapaz teletransportou-se para os seus aposentos no palácio. Somente lá, ao olhar através do vidro da janela notou que o sol há pouco nascera. Teria que descansar se quisesse ir ao baile à noite. Um baile... que importância teria isso depois de tudo o que ouvira sobre Nemesis e Terra? Hina. Hina era quem importava naquele antro de dissimulados, pensava. Uma pitada de rancor o invadiu inevitavelmente, e em segredo, desejou que Rini pagasse pelos danos que os Black Moon sofreram e ainda sofriam.

— Essa sensação me é conhecida... — refletiu enquanto sentia um gosto amargo nos lábios e um calor no sangue. Raiva, sede de vingança. Era isso? Não, não conseguiria dormir por mais que desejasse, o sono parecia um sonho distante. Como fazer aquilo passar? O que evitava que ele fosse consumido pelo ódio e encontrasse uma forma de voltar ao seu planeta para vingar-se do povo da Terra? — Hina! — Constatou. Em passos acelerados chegou à porta do quarto da menina. Fez menção de bater, no entanto, conteve a mão à porta e nela encostou a testa.

Respirou fundo, não poderia demonstrar o que sentia para ela, sequer poderia compartilhar o que vivenciara e tudo o que descobrira. Não conseguia vê-la como parte de um complô para mantê-lo refém e ao mesmo tempo suspeitava que fosse uma possibilidade.

Não bateu, abriu a porta com força e num impulso entrou no quarto. Hina dormia abraçando o próprio lençol, trajava uma camisola de seda dourada, seus cabelos de fogo estavam soltos e esparramados sobre a cama.

— Hina... — sussurrou o seu nome enquanto acomodava-se em um divã em frente à cama.

— Hum? — o sono dela não era tão pesado, ouviu perfeitamente seu nome ser chamado. Abriu os olhos devagar e surpreendeu-se com o Black Moon sentado à sua frente de vigília. Com o lençol próximo à boca abafou um grito de susto, sentou-se instantaneamente e cobriu-se dos ombros aos pés — Saphiro, o que faz aqui? Que horas são?

Silêncio. Não recebeu satisfação alguma. Em um piscar de olhos ele já estava colado a ela, abraçando-a com toda a força que tinha, quase a sufocando. O impulso de abraçá-la foi tão forte que a fez cair deitada, e seu corpo, obviamente, por cima do dela. A mocinha corou no ato, o calor do corpo da guerreira de fogo emanou tão intensamente que cobriu o dele.

— Saphiro? — quase não conseguiu se pronunciar, o ar lhe faltava por diversos motivos, o primeiro deles era a timidez excessiva.

— Só me deixe ficar assim por um tempo, pode fazer isso por mim? — um pouco mais brando, ele se manifestou. A resposta dela foi um abraço suave e carinhos desajeitados nos cabelos azul safira. — Obrigado, Hina.

— O que houve com você? — ainda nervosa, falou com dificuldade.

— Estou confuso...

— Sobre o quê?

— Sobre mim, sobre tudo. — desabafou.

— Sobre tudo? — ela soou apreensiva, até um pouco triste.

— Sim, Hina.

— ... Sobre nós?

Ele se calou, desencostou o queixo do ombro dela, ergueu o rosto e a encarou. Os olhos verdes marejados entregavam-se, Hina estava por chorar. Não poderia ser uma mentira, percebia no olhar da jovenzinha tímida a apreensão. Antes que uma lágrima caísse ele a enxugou do canto do olho dela.

— Perdoe-me, não é sobre tudo assim... Expressei-me mal.

— Então sobre o que é? — embora aliviada por ele ainda ser o seu namorado, estava aflita pelo estado em que Saphiro se encontrava.

— Infelizmente não é algo que eu possa compartilhar, até porque somente eu posso resolver o que fazer...

— Se você não pode falar, como posso ajudar? — segurou a mão dele em seu rosto, mantendo-a lá.

— Só me deixe ficar aqui, com você... — enfim, recobrando a razão, também se mostrou envergonhado. — Não se preocupe, eu não farei nada que...

— Tudo... Tudo bem! — ela se adiantou e o calou com um beijo desajeitado, quase infantil. Nos primeiros segundos Saphiro ficou sem reação de tão perplexo. Aos poucos, começou a se sentir sereno, o calor em seu sangue permaneceu, todavia por outro motivo: uma sensação gostosa, de conforto e de acalento. Retribuiu suavemente, apreciando a temperatura morna e a maciez dos lábios rosados, da língua lisa e calma que abraçava a dele num encaixe perfeito.

De corpos selados, era possível sentir o coração dela aos pulos e o dele batendo no mesmo ritmo. Desejou que aquele ato de aconchego não se findasse jamais, no entanto, na medida em que se prolongava mais relaxado ele ficava. De repente, o sono surgiu impiedoso.

Saphiro cessou o beijo aos poucos e, ainda de olhos fechados, tocou sua testa à dela e pediu-lhe em baixo tom:

— Eu posso descansar nos seus braços?

— Cla-claro! — gaguejou, acanhada.

O rapaz sorriu em agradecimento, em seguida aconchegou o rosto no busto macio e quente de Hina e a pobrezinha ficou paralisada, mal acreditava que até então não desmaiara. Ao mesmo tempo em que estava morrendo de vergonha, orgulhava-se de si própria. Riu discretamente, fechou os olhos e afagou os cabelos dele novamente, de leve, brincando com os fios. Não demorou para que a respiração dele pesasse e ela percebesse que o seu querido namorado adormecera na posição em que estava. Que alegria era tê-lo ali sob seus cuidados! Aliviada por Saphiro ter se acomodado, adormeceu confortada. Os singelos raios solares adentrando o quarto e refletindo em suas peles não os incomodaram.

Mal saberia Hina como havia “ajudado” Saphiro, mesmo sem de nada saber ou nada demais fazer.

...

— O que é isso? — batidas insistentes na porta fizeram Mizumi levantar. Sutilmente irritada, girou a maçaneta dourada com firmeza. — Passarinho? — Não abriu a porta de todo — Demorou a me procurar, até estranhei! — riu — O que é isso em seu pescoço? — aproximou a mão do lenço amarelo ali amarrado, entretanto ele a impediu.

— Só para confirmar que iremos ao baile juntos, apesar de que isso já está um tanto óbvio, não é mesmo? — cruzou os braços e alargou um sorriso galante na face.

— Se está tão óbvio por que resolveu vir ao meu quarto a essa hora da manhã apenas para constatar? — bocejou.

— Vai ao baile comigo? — Olho de Águia não conseguiu conter um tom de euforia.

— Oh, então você não tem tanta certeza quanto parece... — maliciosa, rebateu.

— É claro que eu tenho! Ainda mais depois de tudo o que nós... — corou.

— Hmm... — apoiou as mãos nos ombros dele, massageando-os, e assim o fez ruborizar ainda mais. Essa era a grande diversão: vê-lo perder as estribeiras. Aproveitou-se de que Águia distraíra-se e, ágil como uma raposa, arrancou-lhe o pano amarelo. A pele do homem estava coberta de hematomas e ela sabia muito bem o porquê. Não aguentou, curvou o corpo e gargalhou insistentemente, precisou apoiar-se do outro lado da porta para não perder as forças — Eu não acredito, então foi por isso que ainda não tinha me procurado? Eu sinto muito, passarinho, da próxima vez pego um pouco mais leve com você!

— Quando será a próxima? — invadiu o quarto, estava tão eufórico que mal teve tempo para se constranger pelas marcas no pescoço. — Quando? — a segurou pelos braços.

— Bem, vou pensar. Agora, por favor, volte para o seu quarto e durma mais um pouco. Hoje à noite teremos um longo baile e não queremos ficar sonolentos no meio da festa, não é mesmo?

— Então vai ao baile comigo?

— Reservo uma valsa para você, prometo! — pôs o lenço amarelo nas mãos dele e o encaminhou ao corredor — Nos encontramos lá! — fechou a porta e a trancou.

Olho de Águia ficou parado no meio do corredor por um tempo, atônito. Coçou a nuca na tentativa de compreender o que estava acontecendo. Em um dia ela parecia sedenta por ele, e no presente o fazia pensar que era indesejado. Que maluquice, pensava. Ela deveria estar num mau momento, pensava.

— Bom-dia. — a voz de Hotaru o trouxe de volta.

— Ah, bom-dia Sailor Saturno. — sorriu um pouco desajeitado.

— Por que está parado na frente do quarto de Sailor Ocean, Olho de Águia? É mais um dos vários admiradores dela? — riu de leve.

— Vários admiradores? — soou enciumado.

— Não sabia? Muitos homens almejam conquistar o coração de Sailor Ocean, no entanto, até hoje nenhum conseguiu. Mizumi foi cortejada até por príncipes de planetas exóticos, de galáxias longínquas, já lhe foram oferecidos todos os tipos de tesouros e mesmo planetas inteiros em troca de seu amor. Só que Mizumi jamais pôde retribuí-los... — suspirou — É... E quem sabe o que se passa dentro do coração de uma “sereia”?

— Sereia... As sereias enfeitiçam os homens para depois arrastá-los até o fundo do mar e devorá-los... — Águia baixou o olhar lembrando-se do que Mizumi uma vez lhe dissera.

— Não fique triste! — Hotaru tocou-lhe o ombro — Quem sabe você não tem a sorte de ser o escolhido dela?

— É, as chances estão ao meu favor! — buscou ânimo, fechou os punhos, enrijeceu os braços mostrando confiança.

— Garanto que terá muito mais chances se esconder as marcas no pescoço! — Sailor Saturno apontou para a flanela amassada em uma das mãos dele.

— Droga, quase esqueci! — rubro como um rubi, quase se enforcou com o pano amarelo de tão nervoso que ficara.

— Calma, calma! — aos risos, Hotaru afrouxou o nó, aliviando-o, depois ajeitou a flanela de modo que cobrisse o maior número de hematomas possíveis. — Pronto, agora sim você está decente o bastante para lutar pelo amor de uma mulher!

— Obrigado. — riu, já descontraído.

— Que tal me acompanhar até o salão? Os últimos preparativos para o baile estão sendo feitos. Seria bom ter mais alguém para nos ajudar!

— Está bem, não custa nada. — Águia concordou, e então, ele acompanhou a Sailor do silêncio pelos vastos corredores lapidados em ouro e cristal. Admirou os arranjos de flores moldando as altas pilastras, apreciou o doce perfume que impregnava o ambiente enaltecendo-o ainda mais. O que mais o surpreendeu foi o salão: assim como os corredores, possuía os belos arranjos em branco e lilás de rosas. Próximo à grande escada de corrimões dourados havia um palco onde uma pequena orquestra de cordas e piano tocaria durante à noite. No centro, sobre um pedestal de cristal a princesa cantaria a sua canção. O teto do salão parecia uma grande cúpula de um planetário onde astros e planetas cintilavam em conjunto num jogo de cores e nebulosas fantástico. Após um grande espaço redondo e branco como uma lua cheia, onde os pares dançariam a noite inteira, estavam as mesas adornadas por galhos, rosas, pérolas e cristais. Uma névoa branca circulava pelo chão, além de luzes elétricas, para criar um clima de romance, a rainha decidiu que castiçais com velas brancas seriam adequados. Em cada mesa, um elegante castiçal de cristal com três velas brancas foi colocado. E, através das cortinas madrepérola adornando as enormes janelas que iam do chão ao teto, Olho de Águia podia ver a extensa varanda toda iluminada, assim como os jardins. O piso estava coberto por pétalas brancas e azuis. Tudo estava perfeito. — O que falta arrumar? — perguntou extasiado por todo aquele ambiente.

— Bom-dia, Olho de Águia! — Helios acenou do centro do salão, Rini o abraçava de lado. — Que bom que veio! O que achou do salão? Será que Crystal gostará?

— Se ela não gostar deve ser maluca! — arregalou os olhos.

— Ei, olha lá como você fala da minha filha! – Rini riu.

— Está perfeito, Rini. Creio que tudo favorecerá... — Helios falou alegre.

— Favorecerá para o quê? — Olho de Águia coçou o canto do rosto, curioso.

— Ora, é um baile! Para que acha que servem os bailes? — Sailor Saturno perguntou.

— Para dançar? — parecia tão óbvio para ele.

— Para conhecer pessoas! — Hotaru respondeu.

— Bem, já que está aqui, que tal vir à cozinha conosco para ver qual será o cardápio? — Rini o puxou pelo braço, empolgada. O integrante do trio Amazonas não fez nada além de acompanhá-la. Hotaru obtivera êxito em distraí-lo.

Na vasta cozinha branca, sobre uma mesa retangular de extensão, aos olhos do pássaro, infindável, os empregados da família da Lua Branca finalizavam os detalhes dos doces e do grande bolo redondo, de quase dez andares de acordo com as contas de Olho de Águia, junto aos empregados estava Olho de Peixe, divertindo-se ao adornar os doces com flores esculpidas em glacê, pintadas de prata e lilás, as mesmas cores da infinidade de flores no salão. Antes de perguntar onde estaria Olho de Tigre, o companheiro de cabelos e olhos cerúleos já o entregou, dizendo que o galante felino dormia feito um gato gordo e sedentário, de barriga para cima, pernas abertas a ronronar. Todos riram.

As primeiras horas da manhã correram tranquilas, apesar de tudo o que ainda devia ser preparado para a noite. Sailor Wind, como sempre, interpretava o papel de “megera” e ia de quarto em quarto, acordar cada uma das meninas. Nesse dia em especial, decidira acordar Crystal por último, afinal de contas, era o dia dela. Ao ouvir batidas na porta, Hina em supremo desespero acabou, ao esticar braços e pernas num súbito, atirando Saphiro da cama. Em sussurros pediu mil desculpas, para a sorte de ambos o rapaz podia teletransportar-se sem deixar vestígios e assim o fez, partiu para o próprio aposento. Como desculpa, Hina disse que foi ela a cair da cama, a guardiã dos ventos não a questionou. Depois de Hina, as vítimas foram na seguinte ordem: Reixo; que já levantou disposta, Marine; já estava desperta a ler um livro, Crystal; resmungona ao acordar, como sempre. Depois de “recrutar” cada jovenzinha, Yumi levou-as à um dos enormes cômodos daquele palácio perfeito onde diversos profissionais incumbidos de embelezá-las estavam à espera. Diante de tantas penteadeiras e dos belos vestidos que mandaram fazer expostos em manequins cristalinos, Reiko foi a que mais se animou. Além dela, Olho de Peixe, que já havia terminado de ajudar na cozinha estava a postos, estava sentado em frente a um dos espelhos iluminados, já fazendo exigências sobre qual penteado e maquiagem queria, além disso, exigia também que fossem exclusivos para ele, de modo que mocinha alguma pudesse estar aos seus pés. As meninas divertiram-se, com exceção da guardiã da mãe-natureza, que garantia a ele ser muito mais atraente, não importasse o penteado ou a cor da sombra nos olhos. Após cada uma, ou melhor, cada um decidir como seria a “arte final”, foram encaminhados aos banhos de beleza, às manicuras, e assim se sucederia naquele dia. Crystal e Hina ainda ensaiariam mais uma vez com Mizumi, a única daquelas garotas que se produziria sozinha, e certamente estaria estonteante à noite, afinal, a sua beleza natural era por si só uma vantagem singular.

Diferindo um pouco das meninas e de Olho de Peixe, os rapazes não se preocupavam tanto com as aparências. A rainha mandara deixar para cada um deles alguns trajes de gala, de modo que eles escolhessem os que mais apetecessem ao gosto de cada um. Toda aquela atenção especial desconcertou Saphiro, que ainda não tivera tempo de procurar o irmão para conversar. O nemesiano mais novo se identificou com uma farda azul-celeste de ombreiras e botões prateados, a calça, em contraste, cor de mármore. Príncipe Diamante, como sempre, optou pelo branco. Não haveria outra cor que combinasse com ele, acreditava. E, como sempre, necessitava de uma capa para sentir-se nobre. No entanto, a capa que escolhera era diferente da que usava rotineiramente, prendia-se no traje ebúrneo por um broche prateado um pouco acima do peito esquerdo, diferia na cor também: era violeta como seus olhos, além de bordada em fios de tom um pouco mais escuro do que o tecido, contrastando levemente, nada muito exagerado. No peitoral branco, pedrinhas pequenas reluziam, como pequenas medalhas, lapidadas na pedra que lhe dera nome. Eram tão pequeninas que para vê-las todas era necessário colocá-las contra a luz. Olho de Tigre, o mais “cheguei”, encolheu um traje dourado, adornado por uma capa vermelha. Não podendo ser mais exagerado, ele mesmo pediu a uma costureira para pregar medalhas no peito e nos ombros, esculpidas da pedra de seu nome e envolvidas por ouro. Olho de Águia, por fim, optara por um traje verde-água cuja gola cobrisse todo o seu pescoço, as mangas soltas, parecidas com as de uma túnica, diferentemente do príncipe nemesiano e de Olho de Tigre, não quis usar pedrinhas ou medalhas, acreditava que a beleza estava justamente na simplicidade.

Helios e Rini, como reis, foram tratados particularmente. Para a data especial, ambos decidiram usar os trajes dos antigos reis. Rini foi quem deu a ideia, mas quando viu o marido trajando o smoking de seu pai não se conteve e caiu na gargalhada, deixando-o sem jeito. Quase o fez desistir do traje, mas desculpou-se e encheu-o de elogios. Já o antigo pegasus, ao vê-la no vestido branco cujo laçarote lembrava asas de borboleta, inebriou-se e perdeu-se na visão. Estava linda, quer dizer, ainda mais linda do que o normal.

... O grande relógio de cristal que havia no centro do reino badalou sete vezes e meia, era sinal de que em apenas meia-hora o espetáculo do ano se daria. Nas ruas luzes coloridas cintilavam, envolviam casas, prédios, postes e árvores. Ao mesmo tempo em que o baile estava por vir, o povo lá fora festejava.

“Por que será que toda a cidade está tão alegre? Afinal, que data é hoje?" — Diamante pensou ao vislumbrar a paisagem da janela de seu quarto. — “Mas, o que é isso?” — se perguntou ao focar os olhos no céu púrpuro iluminado pela grande lua branca. Além das estrelas reluzentes, luzes de todas as cores brilhavam e se aproximavam, assim que ficavam mais próximas o príncipe Black Moon notava que não se tratavam de astros, mas de naves. Pessoas importantes, provavelmente de outros planetas chegavam para celebrar, entretanto, nenhuma das naves o fazia lembrar dos óvnis de sua terra. — “Por que não há nenhuma aeronave de Nêmesis no meio dessas?” — indagava, enquanto via um ponto de luz vermelho, o últimos de todos eles, chegar como uma estrela cadente. Assim que se tornava mais visível, ele tomava a forma de uma antiga caravela, o seu exterior parecia feito de madeira, claro que apenas parecia, o material deveria ser muito resistente se veio do espaço. Junto com a nau espacial uma nuvem vermelha vinha como se anunciasse uma tempestade. Eis a tempestade: uma chuva de pétalas vermelhas e perfumadas cobriu toda Tóquio de Cristal, algumas delas caíram sobre o parapeito da janela de Diamante, ele apanhou uma na palma da mão e uma sensação desagradável o fez espremê-la — “Esse aroma me dá náuseas e... e me faz lembrar do...” — a memória de um homem mascarado o irritou ainda mais — “que bobagem!” — fechou as cortinas.

Enfim, o relógio badalou oito da noite. O momento em que, além de os visitantes, os moradores daquele palácio começaram a se aglomerar no grande salão.

— Tigrinho, então você vai mesmo comigo? Estou contente! — disse Reiko empolgada ao ver o homem, todo pomposo, à porta de seu quarto a erguer-lhe o braço. Sem cerimônias, a jovem dos longos cabelos negros deu-lhe o dela e segurou-o com firmeza. O grande decote dela chamou a atenção de Tigre por longos segundos, notoriamente desnorteando-o. O riso de Reiko o trouxe de volta ao mundo. Até descerem as escadarias e sentarem-se à uma mesa ele não a encarou, tentou esconder por trás dos cabelos dourados o rubor da face, claro que não conseguiu.

Hina e Saphiro, por sua vez, encontraram-se pelo corredor. Os pobrezinhos não sabiam o que fazer ou o que dizer, estavam constrangidos não só pela ocasião, inédita à ambos, mas também pelo último momento que desfrutaram na manhã daquele dia.

— Então? — Saphiro perguntou, sem saber como agir. Vê-la naquele vestido o deixava fora de si, não poderia se esquecer da bela visão que tivera: Hina vestindo-o em frente ao espelho. Além disso, foi naquele mesmo dia em que ele tomou coragem de beijá-la e ela desfaleceu.

— Acho que... bem... Primeiro eu tenho que tocar a música de Crystal... Mas, depois... — conforme falava enrubescia mais.

— Depois nós... Bem... dançamos, não é isso? — ele completou encarando-a.

— Se você quiser... — respondeu insegura.

— Desde que dance apenas comigo, eu quero. — retrucou tímido, mas sorridente.

— E-está bem! — baixou os enormes olhos verdes e pousou as mãos nas bochechas que ardiam.

— Hina, precisamos de você! — Mizumi a chamou e rapidamente ela foi aos pulos, imensamente sem jeito e, ao mesmo tempo, feliz. Saphiro riu levemente ao vê-la partir e, sem demora, desceu ao salão onde toda aquela gente estava reunida, sentou-se à mesa com o irmão mais velho. Sentiu-se satisfeito de estar ali com Diamante, deixaria para contar sobre a conversa que tivera com Ametista depois do evento da Lua branca. Infelizmente a mesa à frente do palco fora reservada aos reis, portanto os dois Black Moon tiveram de se contentar com uma mesa no centro, ainda assim, a visão do piano e do pedestal de cristal era perfeita.

Em um instante, os refletores apontaram-se para a grande escadaria. Hina e Mizumi desceram à frente, a mais velha carregava um violino, a jovenzinha ruiva um livro de partitura. Caminharam aos seus devidos lugares no palco. Todos os presentes esperavam ansiosos, inclusive um homem encapuzado e de pé, com as costas encostadas na larga parede, atrás de todas as mesas.

— Em nome desse encontro especial, a princesa apresentará um número para vocês, composto por ela e sua amiga, Hina. — Mizumi apontou a guardiã do fogo, que sentada em frente ao piano se encolheu, acanhada. — Por favor, princesa Crystal, pode descer! — os convidados aplaudiram, convidativos.

“Coragem, Crystal!” — a princesinha disse a si própria em pensamentos, enquanto vagarosamente se mostrava para todos no topo dos degraus, o seu vestido ebúrneo como algumas das rosas dos adornos refletiu todas as luzes, quase se tornando um arco-íris.

— Sailor Moon? — Diamante sussurrou, assombrado. Poderia jurar tê-la visto através de Crystal por um milésimo de segundo, até que os cabelos dourados transformaram-se em castanhos diante seus olhos arregalados. — Não... — suspirou, com o coração acelerado a acalmar-se. Sentiu-se confuso, pensou que já houvesse superado essa sensação. Saphiro apenas o observou calado.

— Esperei tanto tempo por isso... — outro homem sussurrou, aquele que estava nos fundos do salão. Abaixou o capuz e então seu rosto foi revelado. Os nigérrimos fios de cabelo estavam presos em um baixo rabo-de-cavalo, nos olhos azuis profundos a imagem de Crystal sorridente e corada, já posicionada no palco, se refletiu

... e com um iniciar dos toques de Hina nas teclas do piano, o tão esperado evento se iniciava.

Continua...

Notas finais
Pessoal, finalmente está chegando o momento tão esperado: o baile! Como ficou grande, dividi em dois capítulos! São muitos personagens, é um evento grande, espero que nada fique confuso e que eu tenha dado a devida atenção a cada personagem presente! Comentem, deixem opiniões, tudo é sempre de grande ajuda! Kissus!