A Minha Queda Será Por Você

30 A única certeza do coração


Notas iniciais
Eu não disse que iria postar até o 30 hoje? Consegui cumprir a promessa! Eis mais um capítulo enorme (tem de ser, tem muito personagem, muito drama, e muitos "etc"s) para distrair a quem puder! Boa leitura!

A minha queda será por você

Capítulo 30 – A única certeza do coração.

Luna e Artêmis estavam de volta, uniram-se aos dois príncipes e à rainha na espera de um sinal de Saphiro. O rapaz de cabelos negros caídos pelos ombros notou a pedra preciosa cintilar no meio do salão e sobressaltou-se:

— Vejam! – apontou para a luz branca formando-se outra vez, nela a imagem de Saphiro se fez.

Irmão, estou em Nemesis conforme o combinado. — a voz soou séria e fria como há tempos fora — Ainda a pouco, Ametista, atual líder de nosso clã, libertou o rei Helios do poder do cristal negro. O Trio Amazonas deve retornar de Elysium com ele em pouco tempo.

As mãos da regente terrestre relaxaram sobre os braços cristalizados do trono, os ombros desceram em alívio, o suspirar foi audível.

— Muito bem, então, príncipe Diamante? — Rini olhou-o sem disfarces, todas as suas nuances acusavam o desejo urgente de vê-lo partir.

— Amanhã partirei. — eis a resposta — Tem a minha palavra.

— Por que esperar um dia? Tão logo Helios chegar você pode ir! — ela argumentou. — Quanto mais cedo for, mais cedo poderá regressar de lá!

— Não, ainda não. Deixe-me esperar ao menos um dia a princesa despertar. Preciso vê-la bem. — disse firme.

Está certo, meu irmão, — Saphiro respondeu do outro lado — os avisarei aqui.

— Saphiro! — Rini o chamou antes que o sinal fosse extinto — Obrigada! — lhe sorriu.

O rapaz feito de azul não esboçou reação, virou as costas e desapareceu junto à luz esbranquiçada, a holografia se desfez, o salão tornou ao normal.

— Artemis, Luna, por favor, vão ao porão do palácio receber o Trio Amazonas e Helios, preciso ir até Crystal... Como a médica disse, daqui em diante a única coisa que pode ajudá-la é o poder do Cristal de Prata. — estava desesperada por ver o marido, entretanto, a filha precisava mais de sua atenção. Levantou-se do trono, aflita caminhou em direção à saída do extenso cômodo, uma mão a impediu de prosseguir.

— Majestade, deixe-me ir junto! — Damien, suplicante, apertou-lhe o braço. Atrás, Diamante surgiu de braços cruzados, à espreita.

— Sinto muito, príncipes, mais tarde poderão vê-la. — libertou-se do toque cristalino, foi-se embora.

Em passos acelerados chegou à porta onde Sailor Star Fighter mantinha-se de sentinela. Contemplando a rainha à frente, a marinheira desencostou-se da porta e curvou-se, dando-lhe passagem. Silenciosa, Rini entrou no quarto e fechou a porta. Como disse: seriam só ela e Crystal naquele quarto. Sem tardar a plateia se fez do outro lado, todos ansiosos no corredor: os príncipes, as marinheiras das estrelas, a princesa vermelha, a rainha mais bela do universo, a antiga sailor mais poderosa de toda a galáxia e as atuais protetoras do reino, todos observavam por debaixo da porta uma luz branca escapar, quietos torciam pelo melhor. Por horas ficaram lá, até a luminosidade perecer e o tilintar próprio do cristal prateado se extinguir. Nas profundezas do castelo, Luna e Artêmis receberam os homens vindos de Elysium. O trio fiel carregou Helios com cuidado, o honrado marido e pai não estava mais sob influência do cristal negro, porém sentia-se fraco em decorrência do contato direto com a pedra maligna. Cuidadosos, levaram o antigo unicórnio ao quarto e deitaram-no. Ele, exausto, lutou para não adormecer... Em vão. Não resistiu. Antes de entregar-se ao sono, segurou a mão de Olho de Tigre e perguntou por Rini. O líder do trio, temendo preocupá-lo, achou melhor deixar que a esposa lhe contasse as más novas, disse apenas que estava ocupada com outros assuntos e logo viria.

A maçaneta da porta do quarto de Crystal girou, Rini mostrou a face por trás da nobre madeira pintada de branco e dourado.

— Entrem. — fitou os dois príncipes e gesticulou com uma mão. Um quase atropelou o outro, até que Diamante cedeu e deu passagem ao odioso rival.

Damien, enfim, à frente, ajoelhou-se ao lado da princesa adormecida. Os olhos azuis cintilaram tristes, os cantos da boca curvaram-se para baixo. Ele baixou a cabeça, não suportou vê-la daquele jeito. O príncipe ebúrneo, por sua vez, parou de pé à ponta da cama, rolou os orbes violeta desde a face pálida e abatida da menina até seus braços, amargou-se ao contemplar o pulso costurado, enrolado em esparadrapo, de certo ela levara muitos pontos ali, notou também o tubo ligando o braço dela a um recipiente já vazio, sinais recentes de que recebera sangue. De quem teria sido?

— Não sei quando ela irá acordar. — Rini quebrou o silêncio — É provável que acorde ainda hoje, mas não é certo.

— Eu disse que ficaria um dia a mais apenas, um dia ficarei. — Diamante falou, tocando o lençol do leito.

— Ela está bem? — Fighter, ansiosa, bateu à porta e falou do outro lado.

— Está descansando. — Rini respondeu. — Príncipe Damien, preciso conversar com Diamante um instante, está bem? — aproximou-se e tocou-lhe o ombro — pedirei para chamá-lo quando terminarmos aqui.

— Mas... — preocupado, olhou-a e olhou-o, tentando entender o que se passava.

— Por favor. — ela frisou, educada, e adiante, Diamante encarou-o como quem vislumbra um monte de lixo. Pela mulher, Damien foi educado e fingiu não ter notado, levantou-se elegantemente e saiu, fechou a porta com cuidado.

Ao lado da cama de Crystal havia uma poltrona, Rini sentou lá. Diamante, quieto, andou até ficar de pé ao lado da rainha. O casal pousava o olhar no mesmo objeto: a menina adormecida em feições atormentadas.

— Não posso culpá-lo, pois sou tão culpada quanto você. — ela finalmente se manifestou.

Ele nada disse, olhou-a de canto, tentando compreender onde ela queria chegar.

— Crystal detestava quando eu a penteava! — riu nostálgica — Quando ela era criança, eu dividia seus cabelos em duas partes e fazia os rolinhos de minha mãe nela. Era só eu dar as costas e ela os desfazia, dizia que davam dor de cabeça... Quem diria? É tradição de família, minha mãe os usava, eu os uso, naturalmente ela também os usaria, mas não, que menina teimosa! Ela os desfazia numa rapidez incrível, e quando eu ia ver lá estava ela com suas marias-chiquinhas, simples... Mas, tão Ela! — conforme relembrava, os olhos e os lábios estremeciam, quando dava por si ela já precisava enxugar as pálpebras úmidas. — E os vestidos? Ah, ela não suportava os brancos, os cor-de-rosa pior ainda! Eram as cores favoritas da mamãe, mas Crystal não, ela sempre amou os tons de roxo, lilás... Violeta. — encarou-o diretamente nos olhos — Violeta! — riu desgostosa. — E eu, tonta, não vi... Não vi!

— Aonde quer chegar com isso? — Intrigado, perguntou.

— Quantas vezes esteve a sós com minha mãe? Acho que três, no máximo, não é? — ela apoiou as mãos nos joelhos, tornando a olhar a filha. Seu tom de voz era calmo, até mesmo amistoso.

— Três. — respondeu confuso — A primeira foi quando ataquei Tóquio de Cristal, apenas cruzamos olhares, ela era rainha. A segunda também foi no século XXX, no entanto ela estava na forma de Sailor Moon, e a terceira foi quando... — pausou para um longo respirar — a protegi da morte com a minha vida.

— Pois é... — suspirou — Não deu tempo para você conhecer o lado desengonçado dela. Quando eu era criança, mesmo depois de Sailor Moon ter derrotado o Fantasma da Morte e salvado Tóquio de Cristal, permaneci a viajar para o passado e a conviver com ela, minha mãe, no auge da adolescência. Há o lado de Serena Tsukino, a pessoa que você conheceu como Nova Rainha Serena, desastrado, preguiçoso e exageradamente emotivo. Creio que no pouco tempo de convivência que vocês tiveram não houve oportunidade para conhecer essa faceta dela... Estou enganada?

— Não. — mesmo desconfiado, esboçou meio sorriso só de imaginar — Só vi essas características em Crystal.

— Oh, sim! Elas são idênticas! — estranhamente, a regente gargalhou — Você precisava ver como eu e minha mãe nos relacionávamos em Tóquio do passado! Como éramos dois extremos, sempre nos atritávamos! Lembro-me até hoje de como era o tom de voz dela ao me chamar de "pentelha"! Ah sim, bons tempos! Com Crystal não é diferente! É comilona, chorona, irresponsável e preguiçosa! Só não me chama de "pentelha" porque sou sua mãe, estou um grau acima na hierarquia, mas aposto que pelas costas, ou então em pensamentos, é isso o que ela pensa de mim! — coçou o nariz, terminando o riso — Ai, ai... — respirou com calma — Me desculpe por isso, é inevitável não rir quando penso sobre...

— Entendo... — piscou os olhos, ainda mais confuso. Aquela era a mulher que o hostilizava? Aquela, sentada ali a papear com ele como se fossem amigos de longa data? Aonde ela queria chegar com aquilo?

— Por serem tão parecidas, não só nos defeitos como você vê, mas também pelo modo como encaram as coisas... Sempre otimistas, sonhadoras, compassivas... Eu alimentei essa esperança dentro de mim... — levou uma mão ao peito — Quando minha mãe se foi, senti um vazio enorme dentro de mim. Apesar de todas as briguinhas bestas eu a amava muito, e também a admirava mais do que tudo! — o tom jocoso se desfez — Só eu sei o que senti quando ela e meu pai optaram por descansar... Eles viveram tantos séculos, já estavam cansados, é verdade! A vida longa, em algum momento, deve tornar-se repetitiva demais, eles mereciam descanso, mas... — cobriu a face com uma mão, buscando forças — é duro lidar com despedidas, acho que os seres humanos jamais aprenderão a dizer adeus...

— Diga logo, aonde quer chegar? — já estava ficando muito ansioso com toda aquela conversa. Ela deveria querer dizer algo importante a ele. O que seria?

— Quando Crystal nasceu e olhei nos olhos dela, tive certeza de que, de algum modo, minha mãe estava ali... Conforme minha menina crescia e desenvolvia a sua personalidade, esse meu sentimento cresceu e tornou-se concreto. Eu tinha certeza de que Crystal era a reencarnação de minha mãe, e isso me deixava tão feliz que mal pude enxergar o quanto essa minha crença machucava a minha filha! Sim, eu programei toda uma vida para ela! Pouco depois de ela completar cinco anos de idade, pensei comigo: se minha mãe regressou, meu pai também deve estar por aí! Por que não? E então, comuniquei-me com os regentes dos diferentes planetas do sistema solar, até encontrar os de Sedna, não tão distante de Nemesis, inclusive. Conversei com os reis de lá e eles comentaram sobre seu filho mais velho, três anos à frente de Crystal. Mandaram-me uma imagem dele e fiquei assombrada! Tão similar a meu pai como Crystal à minha mãe!

— Só que Crystal tem cabelos castanhos. — o Black Moon complementou.

— Sim, lindos cabelos castanhos... o traço distintivo o qual nunca dei tanta importância. Minha mãe, antes de ser loura, em outra vida teve os cabelos prateados, você sabia?

— Não imaginava. — suspirou — Que linda deveria ser! — devaneou por segundos.

— Enfim, sem perceber, tracei o destino de Crystal sem me preocupar com o que ela sentia sobre isso. Pequei como as mães geralmente pecam. Toda mãe, de alguma forma, induz os filhos a seguirem pelo caminho que elas consideram ser o certo... Mas, fui longe demais... Eu, sem querer, enegreci a alma da minha filha... Olhe! — passou a mão pela franja da menina, afastou os cabelos deixando à mostra a testa limpa.

— A lua desapareceu! — ele se assustou.

— Sim... — Rini baixou a cabeça, os cabelos cobriram-lhe os olhos — Você sabe o que isso significa?

— Não faço ideia... — sentou-se na cama a fitá-la, assombrado.

— A lua dourada na testa é a insígnia daqueles que sofrem e exercem influência sobre o Cristal de Prata. Os poderes de Crystal estão selados.

— Como? Quem os selou?

— Ela própria. — pousou a testa sobre a da filha — O seu coração está dilacerado a ponto de não possuir forças para controlar o cristal sagrado lunar... A alma dela está enfraquecida.

— Isso é por causa do ataque que sofreu! O Cristal Negro pode anular os poderes do Cristal de Prata e...

— O Cristal Negro foi apenas o suporte, o bloqueio de Crystal é a sua tristeza. Como uma menina que mal sabe quem é, pode ser inteira? Deusa Selene, o que eu fiz? — sussurrou a última frase, daí em diante cessou o discurso, passou a soluçar, desconsolada. Uma mão, fria, tocou-lhe o ombro despertando a sua atenção.

Diamante a fitava, agoniado. Seria possível ele se apiedar por seu estado? Ele simplesmente a compreendia, porque se sentia como ela. Da forma dele, fez Crystal se ver sombra da avó. E, pior: fê-ladesejar se tornar a própria avó só para ter o seu amor.

— Eu sinto muito, Rini, sinto muito! — desabafou, ajoelhou-se ao lado dela. Ambos observavam a princesa, lânguida, questionavam que espécie de sonho ela poderia estar tendo.

— Você a ama de verdade? — perguntou, aflita — Diga-me com toda a sinceridade, Diamante.

— Eu... — olhou a face sofrida da pobrezinha, o ferimento em seu braço, olhou as próprias mãos, por fim encontrou os olhos da rainha — Não sei mais viver sem ela. — confessou — Não me vejo sem ela. E todas as coisas que você diz serem os defeitos de Crystal, bem, elas me atraem como nunca antes outra coisa me atraiu. Só que, não posso mentir, é claro que ela me lembra Sailor Moon, e é claro que isso me confunde.

— Eu não quero mais que minha filha sofra, Diamante... Do fundo do meu coração, não aguento mais vê-la assim. Portanto, se você puder trazê-la de volta ao que era, serei grata pelo resto da vida, mas, se por um acaso algo dentro de você disser que não é a ela quem você ama, mas a minha mãe, por favor, deixe-a em paz, é tudo o que peço! Tudo o que anseio é a felicidade de minha filha, você pode entender isso, não pode? — tocou-lhe a mão com firmeza, e, pela primeira vez, fez o discurso amigavelmente. — Perguntarei outra vez: você a ama de verdade?

— Sim. — respondeu de pronto.

— Então, eu imploro, traga-a de volta. — encostou o rosto no ombro dele, vulnerável.

O príncipe estremeceu dos pés aos cabelos, o sangue pareceu congelar nas veias. Fitou-a sobre o ombro, a regente humildemente fechara os olhos, entre as sobrancelhas um risco de preocupação, nos lábios uma curvatura tristonha. Ele jamais esperaria um gesto como aquele dela, nem em um milhão de anos imaginaria que aquela criatura se despiria do orgulho para fazer pedidos, quase ajoelhar-se diante ele. Em outros tempos, sentir-se-ia poderoso e satisfeito, no presente não saberia descrever. Outros diriam que o grande príncipe Diamante estava comovido.

Ah, sim! Comovido... Dentro dele, ele próprio ria-se disso. Esboçou um sorriso discreto, os dentes mostraram-se apaziguados. Rini abriu os olhos e, ao ver tal sorriso, assegurou-se de que o homem que tanto a assustara na infância não estava hostil. Ao menos naqueles minutos, naquele quarto, a zelarem pela saúde da princesa eles eram amigos. Depois, quem saberia dizer?

— Obrigada... — ela sussurrou, e, finalmente, se levantou, recobrando a postura de realeza — Daqui por diante, acredito que tudo há de melhorar. — olhou-o pela última vez e saiu do quarto, havia um marido para abraçar e cuidar. Assim que passou pela porta, Damien e Seiya entraram quase esganiçados.

— Você é o ser mais esquisito que já conheci! — Diamante comentou ao notar a mudança repentina de gênero do kinmokiniano.

— Não é hora para isso! — Seiya deu de ombros — Vim vê-la antes de partir, eu e meus amigos precisamos voltar para Kinmoku essa noite, nosso planeta e nossos assuntos nos esperam... — suspirou, olhou ao lado, notou a rosa que deixara para Crystal no mesmo vaso. — Acho que não terei oportunidade de pedir desculpas pelo meu ato impensado no baile. Só quero que ela saiba que não agi de má fé. Mas que droga! Todos são testemunhas de que ela tomou a forma de Sailor Moon durante a canção!

— Então você era apaixonado por Sailor Moon? — o nobre príncipe da Lua Negra deixou escapar um breve riso — "Que irônico"!

— O que a Sailor Moon tinha de tão especial assim, hein? É tratada como uma Deusa por todos... — Damien sentou-se na poltrona ao lado da cama de Crystal, intrigado.

— Sério que você não sabe sobre ela? — Seiya quase pulou, surpreso.

— Não muito... E não sei se me interessa saber. Pelo que vejo, mencionar o nome dela só traz sofrimento à princesa. — apoiou os cotovelos sobre os joelhos e o queixo sobre as mãos. Trajava roupas sociais tão negras quanto os próprios cabelos, e especialmente nesse dia, luvas brancas de algodão adornavam seus dedos e cobriam-lhe até os pulsos. Suas vestes não poderiam ser mais inconvenientes na concepção do nemesiano.

— Assim como ela se parece com a avó, você se parece com o avô dela — o solista dos Three Lights deixou escapar espontaneamente a observação. Diamante bufou, tão espontâneo quanto.

— Isso é detestável! — Damien respondeu, irritado.

Os três passariam horas ali, discutindo, alfinetando-se, vislumbrando Crystal na esperança que acordasse, entretanto Sailor Wind os enxotou alegando que a princesa precisava descansar, e em parte ela estava certa. Diamante teimou a sair, e só se foi porque os outros rapazes o arrastaram para fora. Enquanto isso, Rini enfim encontrou-se com o marido. Ao vê-lo repousando, deitou-se ao seu lado e abraçou-o forte. Helios despertou sorridente e calmo, satisfeito em vê-la lá, pronta para jogar-se em seus braços e neles se abrigar a vida inteira. Em um triz ficou a par de toda a situação no palácio, da partida de Saphiro e da prometida partida de Diamante pela manhã. Respirou fundo, manteve a calma, não quis alarmar a esposa, disse-lhe palavras de conforto, acariciou os longos cabelos róseos até que ela adormecesse confortada em seu peito. Enquanto ela dormia, ele lançava os orbes áureos ao teto, pensativo:

"Estamos dando a eles exatamente o que querem".

...

Com o rei em segurança, os visitantes notaram que era chegada a hora de arrumarem as coisas para partir. Havia muito a se resolver no palácio de cristal, os soberanos da próspera Tóquio se ocupariam dali em diante a cuidar dos assuntos preocupantes, mal poderiam dar atenção aos hóspedes e, de fato, todos os acomodados no luxuoso lar real vieram apenas para o baile, já deveriam ter partido. Galáxia sugerira aos companheiros voltarem a Kinmoku naquela noite, a única que ficaria algum tempo mais era Neherenia, a bela rainha só partiria quando se certificasse de que os reis estivessem em melhores ânimos. Mera desculpa, tudo o que almejava era um momento com Helios, apenas para dizer-lhe adeus. Não fazia ideia de quando o veria novamente.

As guardiãs do palácio tornaram às suas rotinas, Sailor Wind ficou de sentinela à porta do quarto de Crystal, Sailor Ocean perambulava pelos corredores, Sailor Nature decidiu ir cavalgar, Sailor Acqua mergulhou em um livro na biblioteca, Olho de Águia e Olho de Tigre uniram-se em uma partida de bilhar na sala de jogos, Sailor Saturno ninguém saberia dizer onde estava, Damien foi à sua nau espacial, aterrissada sobre a água no porto de uma praia particular da família real, Diamante, exausto, acabou por dormir e Olho de Peixe, refletindo sobre os recentes acontecimentos, decidiu por caminhar pelos jardins da morada real. Em passos firmes, chutando pedrinhas pelo caminho, teve os pensamentos cortados pelo som de um choro intenso. Parou, olhou para cada lado e entre flores, gramado, árvores e luzes de vagalumes introduzindo o púrpura anoitecer, deparou-se com um coreto envidraçado, mal enxergava as formas lá dentro, pois todo o cristal estava embaçado e úmido.

— Isso aqui está uma sauna de tão quente! — resmungou assim que entrou — Ih, você? — tapou os lábios com a mão escamosa. Viu-a apoiar o rosto nas teclas do piano, os cabelos alaranjados cobriam-lhe todo o rosto avermelhado, ao seu redor uma aura laranja como o fogo emanava. — Mas, o que é isso? — ele se aproximou, tocou-lhe os ombros, antes de afastar-se bruscamente ao sentir as palmas das mãos arderem ouviu o som chiado delas tostando. — Credo! — gritou, agudo como um apito — Vá tomar um banho, assim você vai explodir!

— Não consigo controlar essa chama dentro de mim... — aos prantos, desabafou — Está me consumindo por dentro! — ergueu a face, as lágrimas mal escorriam, em contato com a pele evaporavam — Está doendo!

— Acho melhor levarmos você para o palácio, não acha? — Peixe sugeriu.

— Não importa onde eu esteja, só ele pode abrandar isso! — cobriu os olhos com as mãos.

—... Ele? Oh! — caiu a ficha — O lindinho que foi embora, é verdade! Eu sabia que vocês tinham alguma coisa! Tinha de haver um motivo para ele me rejeitar, apesar de que, desculpe a sinceridade, sou muito mais bonita do que você! — cruzou os braços e empinou o nariz — Enfim, dizem que o amor é aleatório, então tudo bem! Até porque... — sorriu sapeca pensando em Damien — já vi coisa melhor! — percebendo que suas brincadeiras não estavam ajudando-a a melhorar, aproximou-se outra vez, ainda que temeroso e quase tonto de tanto calor — Vamos sair daqui, sim? Você precisa de um pouco de água, desse jeito vai derreter! — gesticulou com as mãos para que ela levantasse. Hina, submissa, ergueu-se de cabeça baixa e meio desorientada saiu do refúgio.

Lá fora, encontraram Mizumi. A guerreira dos mares prontamente abraçou a pobrezinha, Olho de Peixe pasmou-se ao notar que o calor emanado de Hina não provocou uma bolha de queimadura na estonteante Sailor Ocean. O corpo da ruivinha soltou fumaça pelos poros, ela, por dentro, chamuscava-se em lamento, até que a energia de um mar sereno a abrandou devagar, logo os soluços diminuíram, os ombros pouco chacoalharam, e ela, de olhos fechados, amorteceu-se.

— Pobrezinha... — afagou os cachos de fogo — Não sabe lidar com o imenso poder que tem, e ele se mistura com as suas emoções... Obrigada por tentar ajudá-la, Olho de Peixe.

— Que coisa esquisita! — ele analisou as palmas ligeiramente queimadas. — Droga, espero que não fiquem cicatrizes!

— Desculpe... — Hina pediu, envergonhada.

— Escute, Sailor Fire — Ocean segurou-lhe o rosto com as duas mãos —, você precisa aprender a lidar com as suas emoções ou pode causar estragos muito feios. Entende o que quero dizer?

— Sim...

— Vá tomar um banho e descansar, hoje estamos todos folgados, mas amanhã as aulas retornam para você e para as meninas! — falou como uma mãe para a filha. A menina obedeceu e se foi, depois disso, Mizumi foi até Olho de Peixe e calmamente cativou suas mãos, num breve e gelado sopro em cada palma desfez as queimaduras.

— Incrível! — arregalou os olhos surpreso.

— Agora está tudo bem, pode ir... — sorriu pacata.

— Sailor Ocean, escute, aproveitando que estamos aqui, quero te pedir uma coisa. — pareceu ter um estalo na mente.

— Sim?

— Não brinque com os sentimentos de Águia. — mostrou-se sério.

— Que conversa é essa? — ela riu e jogou as fartas ondas para trás, ajeitando-as — O passarinho é um homem adulto, não precisa que interceda por ele!

— Ele pode até se comportar como um galã, mas é um desajeitado e é meu amigo, por isso, não brinque com seus sentimentos. Olho de Águia gosta de você.

— É mesmo? E de quantas mais?

— Ele só faz pose de volúvel, Sailor Ocean, mas é um grande bobalhão! — revirou os olhos ao descrever o companheiro — Olho de Tigre não fica atrás, Deus do céu! — cobriu a testa — Estou bem servido com esses dois.

— Hmm... — ela pousou o indicador no queixo, pensativa. Em seguida, sorriu como se nada acontecera — Bela atitude a sua, protegendo o seu amigo! Admiro muito isso! Agora é minha vez de aproveitar esse momento em que estamos a sós para te fazer uma pergunta. — piscou um olho, intimidando-o.

— Pois faça! — fez-se de destemido.

— O que viu no espelho dos sonhos da princesa naquele momento? — deu um passo à frente, eliminando qualquer distância entre ambos — Não se faça de bobo, fale logo.

— É que, eu... — os ossos quase saíram do encaixe, trêmulos. Peixe encolheu-se e olhou ao redor, nervoso.

— Você sempre soube do envolvimento daqueles dois, diga logo a verdade, Peixinho! A mim eles nunca enganaram... — suspirou entediada, a alegação calma e direta surpreendeu o rapazote.

— Você hein! — vermelho como o morango mais maduro, pôs as mãos na cintura e bateu os pés com firmeza. — Bom, vamos lá! — pigarreou — Vi o óbvio! O pior pesadelo da princesa Crystal: príncipe Diamante aos beijos e abraços com sua avó, de uma forma... Digamos... Imprópria para se descrever, e ela lá, assistindo, sem poder fazer nada além de aceitar que aqueles beijos e abraços jamais serão destinados a ela. É, foi isso mesmo! — deu de ombros, como se não fosse importante.

— Imprópria, sei. — a guardiã riu espontânea — Você é tão bobinho! — passou os dedos pelo topo da cabeça do Amazona como se ele fosse um mascote — Olhe só, eu tive uma ideia e creio que tem tudo para dar certo, para isso a sua participação é imprescindível.

— Que ideia? — sacudiu a cabeça e jogou os cabelos para trás, irritado.

— Você é o mais sensível dos guardiões de Elysium, faz-se de indiferente, mas se importa tanto com os sentimentos da princesa que os manteve em segredo. — foi interrompida por um resmungo — E, além disso, — prosseguiu — Pode trazer à tona o espelho dos sonhos dela e invadi-lo. A minha pergunta é, só você pode entrar no espelho que expõe, ou qualquer outra pessoa pode?

— Como assim, você quer invadir as fantasias da princesa? — saltou desacreditado.

— Eu? Ah, não! — cruzou os braços — Já me bastam as minhas! — riu — Quero que você guie o príncipe Black Moon através do espelho. O que acha?

— Acho que os reis não gostariam nada disso, Mizumi. — recobrou a seriedade — Principalmente a rainha.

— Pense, Peixinho, você é inteligente! O mal que se apoderou da princesa não é físico! A doença dela está no mais profundo de seu ser, você foi expectador disso. Você, mais do que eu, conhece a única cura para evitar que a princesa Crystal caia em sua própria escuridão.

— A rainha falou algo sobre isso com você? — estava boquiaberto.

— Ai, ai, Peixinho! — bocejou — Sei que pareço jovem, possuo uma pele de pêssego — acariciou a própria bochecha —, cabelos sedosos — enrolou nos dedos as largas ondas — e, de fato, sou jovem de idade! No entanto, possuo dentro de mim uma antiga semente estelar conhecedora da história do mundo, da história da família da Lua Branca e da história do sagrado Cristal de Prata. Ouça-me com atenção: para ser guardiã do Cristal e ser honrada com a insígnia da Lua Branca, Crystal precisa possuir um coração firme e puro, uma alma grande, compreende?

Anh... — coçou o queixo, intrigado.

— As incertezas da princesa a tornam incapaz de lidar com o poder que jaz em seu interior. Ela, por si só, é feita dele, no entanto, ela própria se isola dele ao se render à dúvida. Somente algo de que ela tenha certeza, ou seja, algo que seja a grande verdade para ela, pode trazê-la de volta e devolver-lhe o brilho...

— O príncipe! — respondeu animado, como se desvendasse um enigma — O príncipe Diamante é a grande verdade dela, Sailor Ocean! Ela pode duvidar de tudo, até da própria identidade, mas sabe bem de quem gosta! Ele é a certeza!

— Oh, muito bem, Peixinho! — aplaudiu e riu — Então, o que me diz? Pode fazer Diamante entrar através do espelho?

— Bom, poder eu não poderia... Afinal, invadir os sonhos de alguém é proibido, o costume é olhar apenas, nunca entrar... Só que, num caso como esse, se é para o bem... Ah! Que seja! — deu de ombros outra vez.

— Não se arrependerá, prometo! — entrelaçou os dedos aos dele e puxou-o consigo, aos pulos, quase arrastando-o ao palácio.

...

— O momento que você tão arduamente adiou é chegado, enfim... — Topázio, rígido, aproximou-se de Quartzy, abraçada à pálida princesa. — Ridículo, esperou tanto para conhecer o príncipe e não aguentará um dia mais. Como se sente, Ametista?

— Não me subestime, Topázio. — ofegante, respondeu calma. — Para quem segurou as pontas por anos, o que será um dia?

— Ainda que o conheça, que troquem meia dúzia de palavras, não estará aqui para ver como tudo sucederá. O que a faz ter tanta certeza de que as coisas acontecerão conforme o seu desejo?

— Eu tenho fé, Topázio. — ofegou — Fé. Conhece essa palavra?

O cavaleiro soltou uma risada esnobe e breve.

— Senhora, fique quieta, por favor! — a fiel súdita acariciou os lisos fios lilases e acomodou a franzina soberana nos braços, confortando-a. Naquele abraço, sentia avidamente o coração de Ametista acelerado, prestes a explodir — Você precisa tomar a poção, senão...

— Não... — a enferma tocou o braço da amiga e o afagou — Chega, Quartzy. — sorriu serena — Está bom assim, não... Está perfeito. — aninhou-se no colo frio e macio. — Obrigada... — sussurrou.

Topázio saiu de queixo erguido, os fios de ouro e a capa marrom bailaram com os ventos cortantes que corriam por todo Nemesis. No corredor, Akai e Aoi saltitavam, brincavam de alguns de seus joguinhos bobos que somente as duas entendiam até avistarem seu adorado mestre. Quando ele chegava, não importava o que estivessem a fazer, paravam tudo e corriam para os braços fortes e áureos, derretiam-se naqueles olhos preciosos, orgulhosos, um par de topázios reluzentes. Distantes, Saphiro e Onyx estavam no grande laboratório do palácio. Os materiais do gênio estavam todos arrumados lá, por todas as paredes havia medusas em incubadoras, prontas para o uso de suas forças. Saphiro as analisava intrigado, andava calmamente, observando cada uma daquelas criaturas, até que parou diante de uma e pousou a mão sobre o vidro, sentiu a vibração que indicava a vida.

— Elas são feitas de cristal negro líquido. — Onyx, sentado a frente de um painel, disse. — Você deve ter percebido, afinal, é um alquimista.

— Como você consegue deixar o cristal negro nessa forma? — soou curioso.

— Desde que meu pai descobriu como recriar o cristal negro, torná-lo de sólido para líquido foi fácil. — nas mãos, Onyx segurava duas ampolas com o líquido escuro. — Dar vida é o passo final. — Levantou-se e caminhou até o centro do cômodo, onde havia um círculo de vidro, dentro dele raios esverdeados se formavam e encontravam-se no centro — Vê essa máquina? — Despejou o líquido das ampolas lá dentro, viu-o escorrer até onde os raios se encontravam e ali desaparecer. Satisfeito com o resultado,puxou da manga do jaleco um controle redondo e compacto, apertou o único botão que havia nele e no ponto onde os raios se cruzavam e o líquido tomou sumiço uma pedra negra se materializou.

— Impossível... — os olhos de Saphiro arregalaram-se perplexos. — Você mesmo o fez? — quase perdeu o equilíbrio ao notar o quão grave aquilo era — Se você pode recriá-lo... — cobriu a boca com uma mão.

— Estou mostrando-o porque, de qualquer forma, você descobriria. — riu despreocupado — Não se assuste, o poder dos meus cristais negros não se comparam ao poder do cristal original, mas causam algum estrago, são úteis à minha maneira!

— Você, exposto a toda essa energia maligna o tempo todo pode acabar tendo um colapso, sabia? — alertou-o.

— Toma-me por idiota? É claro que sei! — gargalhou — Todo esse poder já me envolveu há muito tempo, principezinho! Ora, não conhece meu apelido carinhoso? Onyx, o gênio insano! Acha que é à toa?

Um nó se formou na garganta do irmão de Diamante, ele teve de respirar fundo e engolir uma boa dose de saliva para tentar amenizar a angústia. Quieto, pregou os olhos em todos os traços do outro alquimista: irônico, ácido e... sádico! O brilho alaranjado por trás das lentes dos óculos o entregava. A sensação de Saphiro em relação a Onyx não se diferenciava tanto da que tivera sobre oGrande Sábio no passado. Os passos do cientista o alarmaram, estava próximo, ao seu lado, notou-o pela sombra do piso.

Argh! — cerrou os olhos e trincou os dentes de dor. A mão adornada por uma luva branca lhe apertou o ombro, era pesada e rígida como metal.

— Oh, está ferido? — Onyx simulou surpresa — Ah, é mesmo... eu o coloquei em maus lençóis da outra vez, não foi? Pff! — conteve o riso — Quartzy pode cuidar disso, procure-a. — recolheu a mão, guardou-a no bolso do jaleco cinza.

Afobado, Saphiro saiu dali. Embora o planeta possuísse clima frio e seco, o homem transpirava. Estava nauseado, e pior, tonto. Passou pelos corredores se esgueirando pelas pilastras, parou quando a vista escureceu. Questionava-se sobre a causa de seu mal estar: poderia ser psicológico, ou talvez ocorresse por seu corpo não estar mais acostumado com tamanho contato com o cristal negro. Não importava, precisava descansar e logo. Antes de tombar, um braço firme o conteve, um forte impulso o puxou para cima e o acomodou sobre uma ombreira lapidada em pedra preciosa esverdeada.

— Jade? — o príncipe se surpreendeu, reconheceu a joia no ato, coincidentemente era o nome de quem o carregava.

— Com o tempo você se acostuma. — a mulher-soldado disse com naturalidade — Ei, seu ombro está sangrando! — pigarreou — Quartzy! — o grito ecoou pelos cômodos do palácio e causou incômodo nos tímpanos de Saphiro.

"Essa voz estridente me lembra Esmeralda"... — riu-se nostálgico, Jade os teletransportou para o quarto de Ametista. Com cuidado, acomodou Saphiro em um sofá acolchoado nos fundos do dormitório.

— Quartzy, ele está ferido no ombro! — notificou. — E a princesa Ametista, como está?

— À espera... — respondeu rouca, ajeitando no braço da líder um tubo que ligava-a a um vidro de poção composta pela mais meiga dos nemesinanos. — Enquanto dormir, não sofrerá tanto. — aproveitou-se do sono pesado da estimada princesa para fazê-la tomar a poção de algum modo, no caso através de soro injetado diretamente na veia. Não se orgulhava do método adotado, consolava-se por saber que era melhor aquilo do que nada.

— Mas, dormindo ela pode ir a Elysium e perecer de vez! — a amazona protestou.

— Jade, a senhorita Ametista já não tem mais forças sequer para sonhar... Se é com isso que se preocupa, tranquilize-se. — ela se levantou, cabisbaixa, e suave como sempre, foi até Saphiro e ajoelhou-se diante dele, pousou os dedos esguios em seus joelhos. — Pode tirar a farda, príncipe, por favor? — soou suave e cansada, o inchaço ao redor das pálpebras eram prova de sua devoção.

— Sim. — estranhamente desconcertado, abriu-a devagar.

...

O grande relógio do palácio de cristal badalou oito vezes, era tempo de jantar. Durante as últimas horas, enquanto Mizumi e Olho de Peixe esperavam o momento certo para conversarem com o príncipe Diamante, Rini esperou Helios estar descansado para levá-lo até Crystal. Ficaram lá boa parte do anoitecer, o rei nada comentou sobre o estado da filha e nem precisava, seus olhos eram mais expressivos do que qualquer palavra. Os pais, apreensivos, tão absortos não ouviram o badalar do pêndulo, foi necessário que Sailor Wind batesse à porta e os avisasse de que a refeição seria servida. Desceram as enormes escadarias em silêncio, mal olhavam-se. A rainha sentia pontadas no peito cada vez que pisava em um degrau – era o misto de culpa, insegurança e sensação de impotência. Todavia, ao deparar-se com a enorme mesa repleta de aliados, das atuais guardiãs do reino, do príncipe que a lembrava de seu pai, e isolado, o possível salvador de sua filha – Diamante – um pequeno sorriso se abriu na face dela, havia esperança. O Trio Amazonas chegou, não tão depois vieram os Lunarianos, calados. Diana aproximou-se da cadeira de Rini e tocou-lhe os ombros:

— Majestade, sei que não se deve dar más notícias na hora do jantar, mas...

— Diana! — Luna chamou a atenção da filha — Depois, querida!

— Não, agora que começou, siga em frente. — a regente se levantou, impaciente.

— Pode vir comigo? — a amiga pediu, tentando ser discreta. Fracassou. Todos à mesa olhavam-nas atentos, e ainda assim elas partiram de braços dados.

Helios respirou fundo, mais do que nunca buscando manter-se equilibrado, sentia-se fraco pelo ataque que sofrera, ainda não possuía condições de desfrutar dos poderes do cristal dourado. Olho de Peixe, do outro lado, fitou-o e esboçou um sorriso tentando tranquilizá-lo, o soberano não compreendeu bem, entretanto, sentiu-se ligeiramente seguro. Enquanto isso, Diana levou Rini ao centro de computadores do palácio, a rainha de Tóquio, confusa, parou no meio do salão e esperou lá. A gatinha ligou um dos computadores, apertou nos coloridos e preciosos botões e imagens começaram a aparecer na grande tela, eram as mais atuais manchetes, notícias sobre o reino, todas elas descreviam os ataques recentes e elaboravam a mesma hipótese: o retorno da família Black Moon. Diana estendeu a mão, chamando por Rini:

— Veja majestade, o povo não fala sobre outra coisa... Temem sermos atacados como no passado, estão apavorados! Diga-me, eles sabem algo sobre príncipe Diamante e príncipe Saphiro?

— Não os notificamos de nada, queríamos evitar conflitos desde o início. — inspirou e expirou pausadamente, procurando resquícios de calma — Antes eu fosse a única que sofreu um trauma com o ataque à Tóquio de Cristal há tanto tempo atrás... Os habitantes do jamais superaram aquele pavoroso dia, e mesmo depois de tudo aparentemente resolvido, não aceitaram conviver com nemesianos...

— Lembro-me pouco dessa época, era filhote, e eu e você viajávamos muito ao passado, vivíamos mais lá com Sailor Moon e as amigas do que aqui.

— Sim Diana, tudo o que conheço sobre a guerra civil de Tóquio de Cristal é o que contam os livros, os arquivos de computador e hologramas... A rixa foi tamanha que, mesmo minha mãe tendo se oferecido a ajudá-los, enviar recursos e visitá-los, os governantes da época não aceitaram e cortaram de vez as relações, desde aí qualquer tipo de contato foi extinto, os reminiscentes do clã Black Moon desapareceram como poeira, não deixaram rastros ou meios para que nos aproximássemos deles novamente, até que...

— Príncipe Diamante e príncipe Saphiro retornaram. Certo? — atropelou-a.

— Isso, um seguido do outro.

— Majestade, o príncipe Diamante deve retornar a Nemesis o mais rápido o possível, e não aconselho que ele saia na rua! Do jeito como as pessoas estão arredias, temo pela saúde dele! — confessou.

— Diamante não está partindo permanentemente, Diana. Ele quer voltar, e não só isso, quer voltar e casar com Crystal! — após soltar o verbo, cobriu a boca com uma mão e fechou os olhos, estremecida.

— Rini, você permitirá isso? — a surpresa foi tamanha que a fez chamá-la pelo nome.

— A questão já não é mais a minha benção, pelo visto... — passou a mão pela tela do computador, seguiu com o indicador cada linha da manchete, analisando bem as palavras hostis descrevendo os ataques, o pavor e a aversão a todo e qualquer indivíduo que possuísse na testa a lua crescente negra e invertida. — Pobre Crystal...

À mesa, Diamante notou que Sailor Ocean não lhe tirava os olhos. No arquear de uma sobrancelha encarou-a.

— Depois, precisamos ter uma conversa. — os lábios mudos moveram-se no intento de informá-lo. O Black Moon assentiu discretamente, desconfiado. Recebeu um sorriso de agradecimento.

Rini e Diana retornaram silenciosas, sentaram-se com todos e prepararam-se para comer. Naquele jantar não houve conversa, ouvia-se sons sutis dos talheres e nada mais.

Continua...

Notas finais
Tenho que dizer que AMEI escrever o diálogo entre Diamante e Rini! Bem, por hoje chega de postagem. Ainda tenho que ver como farei no AnimeSpirit... Espero que tenham curtido, se eu receber alguns comentários posso até postar os dois que faltam nessa semana (olha a chantagem cara-de-pau)... Kissus!!!