A Minha Melhor Amiga
1 Capítulo 1 - A Nova Vizinha
Notas iniciais
Eu lembro perfeitamente do dia em que eu a conheci. Parece que foi ontem. Não, melhor ainda. Parece que foi há alguns segundos atrás. Isso porque foi o melhor dia da minha via. Foi o dia mais importante da minha vida. Eu apenas não sabia disso naquela época. Pela primeira vez na vida, gostei de sentar no gramado da minha casa.
Meu nome é Graham. Graham Adams. Meu pai é inglês. Veio para o Brasil há alguns anos pensando em apenas conhecer o lugar. Comer algumas comidas típicas. Tirar fotos. Comprar aquelas camisas onde tem escrito “Alguém que me ama muito trouxe está camisa pra mim de tal lugar”. Eu sempre achei essas camisas patéticas. Meu pai é cheio delas. Talvez tenha a ver com o fato de que mamãe vendia essas mesmas camisas. Benditas camisas que expressam um falso sentimento. Um saco.
Camisas que juntaram meus pais. Então eu agradeço por elas, já que é por causa dessas que eu estava sentado naquele dia. Na grama. Obedecendo a regra do meu pai que dizia que pelo menos uma vez por dia eu tinha que passar duas horas sentado na grama. E foi no primeiro dia em que essa regra se tornou séria que eu a vi pela primeira vez.
Bem. Lá estava eu. Sentado. Entediado. Bufando. Eu tinha apenas quatro anos de idade. Bem de longe, na entrada do condomínio, eu vi um Jeep. Um Jeep preto. Um Jeep preto que era igual ao do meu pai. Ou seja, em um raio de um quilometro de diâmetro o único Jeep preto que existia ali era o do meu pai. E meu pai estava em casa naquele exato momento. O que significava que seu Jeep preto também estava. Naquele momento eu perguntei a mim mesmo: De quem seria esse carro?
Atrás dele vinha um enorme caminhão de mudança. Eu ficava imaginando quem eram aquelas pessoas. De onde elas haviam vindo. Quem elas haviam deixado para trás. Eu fiquei olhando para aquele Jeep e torcia para que ele viesse direto para que eu pudesse dar uma pequena espiada e olhar os meus novos vizinhos. Ver novas pessoas era uma coisa que me alegrava muito. Alegrava até demais.
Preciso dizer que aquele Jeep superou minhas expectativas em um nível extremamente alto. Ele estacionou na casa bem em frente a minha. Meu pai saiu de casa e veio em minha direção. Eu não havia percebido até ele sentar do meu lado. De repente olhou para mim e passou os braços pelo meu ombro.
— Olha só Grammy. Temos novos vizinhos!
Mas eu não estava prestando atenção. Uma garota estava saindo do Jeep.
Um leve vento bateu em nossos rostos, balançando roupas, cabelo e tudo o que ele poderia balançar. Extremamente alegre. Uma alegria que geralmente não era emanada por mim, o que deixava meus pais um pouco desapontados. Mas eu não ligava.
Porém, naquele momento, eu queria era colocar toda a minha atenção àqueles novos vizinhos. Além da garota, saíram dois homens do carro. Cabelos negros, curtos, mas bem arrumados em suas cabeças. Bem vestidos, como todos no condomínio, e tão alegres quanto à garota que agora estava no colo do homem que parecia mais novo.
Ambos ficamos olhando a alegria dos três novos vizinhos. Moravam agora bem na nossa frente. Talvez a alegria deles tente me incomodar um pouco, mas com total certeza será em vão. Toma essa vida. Naquele momento achei que seria legal fazer novos amigos. Até...
— Oi! – Meu pai havia gritado para os vizinhos.
— Olá! – O mais velho respondeu.
— Você ficou louco? – Repreendi meu pai por tal feito.
— Grammy!
— Nada de me chamar de um troféu na frente deles. – Papai cerrou os dentes e soltou algo como ‘esse moleque’ antes de levantarmos. Os três agora estavam em nosso gramado.
Papai apertava a mão dos dois homens.
— Bem vindos ao condomínio. – Papai disse.
— Você está parecido com uma chamada. – resmunguei.
Papai deu um leve soco na minha cabeça. E continuou sorrindo, esse homem...
— Sou Harry Adams. Esse e meu filho Graham.
— Estrangeiros? – Soltou o homem mais velho. – Sou Jonathan Sidney. Meu sobrinho Michael e minha filha Jesse.
Depois das devidas apresentações, papai falou:
— Uma bela garota. Quantos anos ela tem?
— Quatro. – A própria Jesse falou. Uma foz fina. Mas decidida para uma garota de quatro anos.
Todos começaram a rir. O que tinha de engraçado em ver uma menina de quatro anos falar sua idade? Exatamente. Nada! Não tem nada engraçado em ver uma coisa dessas! É apenas alguém de quatro anos dizendo que tem quatro anos! É revoltante...
— Grammy também tem quatro anos.
— Que ultraje, papai.
Virei-me e fui em direção à porta da frente, pensando em Harry Potter porque aquilo sim era interessante.
Até que alguém havia pulado na minha costa. E ambos caímos no chão. De repente, senti uma vontade louca de sorrir, estava muito querendo sorrir até que eu realmente não aguentei. Jesse Sidney estava fazendo cócegas em mim. Eu até tentei, tipo, gritar um “Para!”. Simplesmente não quis sair. Estava gostando das cócegas que Jesse estava fazendo em mim.
E foi bem assim que viramos amigos.
Jesse vivia na minha casa correndo atrás de mim. Era um grude enorme. Como um chiclete. Tentava me fazer assistir a filmes, comer doces e brincar com ela. Mas uma coisa que ela nunca desistia era de tentar me fazer jogar a bola para ela de volta. Acontece que eu nunca gostei de fazer isso. Brincar era uma coisa que eu não fazia. Eu tinha quatro anos e era tipo, superdotado ou algo do tipo. Gostava de ler e Harry Potter. Gostava de música clássica. Eu tinha até um toca discos em casa. Mais precisamente no meu quarto.
Naqueles primeiros dias de completa perseguição da parte dela eu não era capaz de fazer quase nada que eu geralmente fazia. Eu queria que ela parasse com tudo aquilo já que estava me sufocando. Ela estava sugando todo o tempo do mundo que eu tinha para mim. Que tipo de garota fica perseguindo um garoto quinze horas por dia? Então, uma semana depois de ela ter chegado aqui o dia havia amanhecido com chuva. Uma chuva bem forte. Aquelas com trovões. Trovões malignos. Por uma estranha razão Jesse havia entrado na minha mente naquele momento. Lembrei-me de uma breve conversa que tivemos três dias antes, no gramado de casa.
Por alguma razão eu estava deitado na grama olhando as nuvens com ela, coisa que nunca havia feito com ninguém. O céu estava sem nuvens, azul, como deve ser. Jesse de repente disse pra mim:
— Eu tenho medo de trovões.
Eu olhei pra ela.
— É claro que tem. Você sempre me pareceu ter.
Ela me bateu na cabeça.
— Seu garoto louro narcisista. – Ela começou a implicar.
— Você nem sabe o que é narcisista. – Bem, eu adorava implicar ainda mais.
— Do que você tem medo?
E foi bem nesse momento que eu parei para pensar. Pensar em algo que me fazia sentir medo. Eu devo ter passado longos minutos pensando e quando eu finalmente havia encontrado uma resposta decente o céu já estava cheio de nuvens.
— Grammy?
— Não existe algo em que eu realmente sinta medo. E pare de me chamar de um troféu.
Estava na janela olhando em direção à janela da casa de Jesse. Eu só conseguia ver água para todos os lados. E os trovões. Os malditos trovões que assustavam Jesse. Aqueles malditos trovões que deixavam a minha perseguidora com medo.
Eu abaixei a cabeça, surpreso comigo mesmo.
A minha mão já estava na maçaneta da porta quando meu dei conta. Papai gritava por mim enquanto eu chegava à calçada. Eu apenas pensava em atravessar a rua e dar de cara com Jesse. Dizer que os trovões não iriam machucá-la. Dizer que iria ficar tudo bem.
Então e vi o pai dela. Ele estava indo em direção ao Jeep. Michael estava atrás dele dizendo algo do tipo “Isso é loucura! Não pode deixá-la desse jeito!”, mas eu não me importava com a discursão dele. Então e coloquei o pé descalço no asfalto. Era a primeira vez que atravessava a rua para ir ver algum vizinho.
Mas, naquele não se importar com nada acabou resultando em algo que eu não poderia imaginar. Um carro vinha em minha direção. Escutei meu pai gritar do outro lado, na chuva...
— Graham!
E então uma buzina. Luzes. E de repente, estava na cama.
No começo, achei que fosse um sonho. Achei que eu tivesse sonhado tudo aquilo. Desde a chuva, até as luzes. Inclusive a briga na chuva dos Sidney. Na verdade, eu havia esquecido completamente daquela briga que não me interessava nem um pouco.
Eu apenas levante, calcei meus chinelos e desci as escadas. Papai estava sentado, olhando atentamente as notícias na televisão, coisa que ele nunca fazia. Uma chuva bem fraca caia do lado de fora.
— Papai?
Assim que ele me olhou, soube que algo estava errado. Por cinco coisas.
Primeira: eram dez da manhã de quinta-feira e meu pai nunca me deixava dormir até tão tarde.
Segunda: eram dez da manhã e Jesse Sidney não estava correndo pela minha casa.
Terceira: papai estava vendo notícias quando geralmente ele coloca música e fica zanzando pela casa quando não está trabalhando.
Quatro: quando me viu, não saiu gritando ‘Grammy!’ como sempre faz, apenas fitou-me sério.
Cinco: pessoas estavam paradas na frente da casa de Jesse. Um carro da polícia estava saindo de lá.
Eu simplesmente comecei a correr. Assim que eu saí na porta, as pessoas começaram a me olhar senti que eu era assunto de muitas delas. Papai segurou-me e me disse algo no ouvido.
- Do que você tem medo?
Algo doeu em meio peito. Doeu. De verdade. Doeu tanto que eu tive que segurar meu pai por um momento.
- Do que você tem medo?
Eu olhei aquelas pessoas que ficavam apena falando.
- Do que você tem medo?
Jesse deve estar com medo. Pode não estar trovejando, mas ainda esta chovendo.
- Do que você tem medo?
Eu já sabia a resposta daquela pergunta.
Eu corri novamente, entrei dentro daquela multidão e finalmente entrei na casa dela. Diferente do lado de fora, estava tudo calmo. Não havia ninguém lá? Olhei em volta. Algumas fotografias. Jesse, o pai, o primo, alguma pessoas que eu não conhecia.
— Jesse está no quarto. – Michael estava descendo as escadas. Estava com os olhos um pouco inchados. – Tenho certeza de que você encontrará.
Eu subi as escadas. Degrau por degrau. Um deles fez um barulho realmente incomodo, até que eu finalmente cheguei ao segundo andar. Dois corredores. Algumas portas. Fui pelo corredor direito em direção à primeira porta do lado direito do corredor. Porta de madeira. Branca. A pergunta entrou em minha mente novamente.
- Do que você tem medo?
Eu nem bati.
Jesse estava sentada na cama, olhando para a porta.
— Eu já tenho a resposta. – Eu estava meio molhado por causa da chuva fraca que caía do lado de fora. – Para a sua pergunta.
— Que pergunta?
— Do que você tem medo? – Eu disse.
Ela me olhou, e mesmo naquele momento de total tristeza, ela sorriu pra mim.
— Do que você tem medo, Graham?
Eu respirei fundo. Fiz uma promessa pra mim mesmo. Uma promessa de sempre manter aquele sorriso no rosto dela. E de sempre, sempre jogar bola com ela.
— De não te ter perto de mim.
E eu tinha apenas quatro anos de idade.
Notas finais
Beijos!
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