A Milady de Sueseen

3 Que o inverno cauterize todas as dores


Elisabeth permaneceu ali pelo o que lhe pareceu uma eternidade, até que decidiu voltar ao quarto e preparar seu baú. O dia amanheceu quando ela terminou de trançar os cabelos e ao descer as escadas viu Sir Edgar entrando no grande salão ainda com a mesma roupa que havia usado no jantar.

Ele sorriu e se curvou mas Elisabeth passou reto por ele.

Ao chegar nos estábulos, ordenou que preparassem seu cavalo e uma carroça para carregar seus pertences.

Sir Edgar subiu as escadas procurando Sir Thomas para saber o que havia acontecido, olhou quarto por quarto até ver a cena, então soube o por que de Elisabeth estar moldada em dor.

Ele entrou no quarto, puxou as cortinas deixando a luz entrar e observou seu amigo acordar assustado

Sir Thomas o encarou:

— O que esta fazendo em meu quarto homem?

Sir Edgar olhou para a jovem deitada e depois para o amigo.

— Como pode Thomas?

Sir Thomas seguiu seu olhar e se desesperou ao ver Fiory acordando.

— Fiory? Como...onde está Elisabeth? – Ele se levantou e cambaleou pelo quarto – Onde esta minha esposa?!?

O relinchar de cavalos no pátio o fez vestir a calça e correr pelo castelo aos gritos.

— Elisabeth! Elisabeth! Onde você esta?

Ele correu paro o pátio e caiu de joelhos ao chão em prantos.

A neve fina começava a cair anunciando o começo do inverno e deixando marcado o caminho que os cavalos fizeram. Os empregados o levaram para dentro e assim que ele passou pela porta, viu Edgar segurando Fiory pelo braço. Ela estava em prantos e descabelada. Sir Thomas avançou em direção a jovem e a esbofeteou fazendo-a cair no chão.

— O que aconteceu? Como fui parar na cama com você ?

— Thomas...

— Responda!

Ela recomeçou a chorar e antes que Sir Thomas a agarrasse, Edgar e outros criados o levaram para o escritório.

— Edgar...eu não me lembro...eu jamais faria isso com Elisabeth! Eu a amo...

— Eu sei. Mas o que esta feito, esta feito. Agora temos que saber para onde Elisabeth foi.

Sir Thomas passou a mão pelos cabelos e olhou pela janela, absorto em pensamentos. Após alguns minutos, olhou para o amigo e engoliu em seco:

—Não posso viver sem Elisabeth.

Sir Edgar suspirou e disse:

— Deveria ter pensado nisso antes de se deitar com a criada.

O dia se passou e a noticia chegou ao começo da noite com o empregado que acompanhara Elisabeth. Ele entrou no escritório e viu Sir Thomas sentado atrás de uma mesa de carvalho com os olhos avermelhados e o rosto inchado de tanto chorar. Sir Edgar olhava pela janela distraído e Sir Juan aquecia as mãos na lareira. O criado pigarreou e a atenção foi direcionada a ele:

— Sir Thomas, Milady Elisabeth está no castelo da família Van Detry. A prima dela a abrigou.

Sir Thomas concordou com a cabeça e dispensou o serviçal.

Após alguns minutos Sir Edgar o encarou.

— Primeiro, ouça-a Depois vá atrás de Elisabeth. Precisamos saber tudo o que aconteceu aqui.

Sir Thomas concordou e Edgar saiu da sala para buscar Fiory. Neste meio tempo, Thomas encarou Juan:

— Como chegamos em casa ontem?

— Viemos de cavalo. Só Deus sabe como acertamos o caminho. Quando chegamos, você disse que iria dormir e eu fui para o estábulo deixar os cavalos. Quando voltei, não o vi no salão e acabei concluindo que já havia ido para o quarto, então fiz o mesmo. Apaguei antes mesmo de deitar na cama. Qual é a ultima coisa de que se lembra?

— De estar na taberna rindo enquanto Edgar cortejava uma das prostitutas.

A porta se abriu e Edgar entrou primeiro

— Se você a bater novamente, serei obrigado a revidar.

— Não tocarei nela.

Fiory entrou e a marca da mão de Thomas em seu rosto ainda estava vermelha e tão inchada como seus olhos.

Sir Edgar conduziu a conversa.

— Fiory como foi parar na cama com Thomas?

A jovem soluçou e se encolheu.

— Eu estava em meu quarto quando ouvi vozes. Levantei e vim para o salão. Desde que Milady Elisabeth perdeu o bebê, todos ficamos alertas para qualquer imprevisto noturno.

— E o que viu no salão?

— Sir Thomas estava cambaleando tentando chegar até as escadas então eu o ajudei. Mas quando chegamos no corredor ele me mandou abrir a porta do quarto de hospedes e quando abri ele começou a me beijar. Eu...eu devia ter me recusado, ter gritado mas tive medo...

— Esta dizendo que Sir Thomas a forçou?

Fiory caiu em prantos novamente :

— Não...mas eu sempre o amei e meu coração cegou minha razão.

Sir Thomas se levantou e Juan o segurou:

— Raciocine homem! Pense em Elisabeth!

Edgar tirou Fiory da sala e quando voltou suspirou.

— Lembra-se do que ela disse?

— Não...eu não lembro de nada. Mas eu sei que não faria isso!

— Esperaremos até de manhã para irmos atrás de Elisabeth. Ao menos sabemos que ela esta em segurança.

Elisabeth estava na frente da lareira do quarto simples que havia sido preparado para ela de ultima hora. O vento frio gritava lá fora e a neve já cobria tudo ao redor. A cena de Thomas deitado com Fiory aparecia em sua mente cada vez que ela fechava os olhos. Sua prima entrou no quarto com duas canecas de chá e se sentou ao lado dela.

Vanessa era dois anos mais velha que Elisabeth. Elas haviam sido criadas juntas até que Vanessa se casou com apenas doze anos. O marido era muito mais velho que ela, mas podia oferecer riqueza e conforto, e seu tio aceitou. Três anos após o casamento, o marido dela morreu devido ao um infarto na cama de uma prostituta. Vanessa herdou toda a herança e guiou com pulso firme sua vida e a de sua filha, Camile de apenas seis anos.

— Camile dormiu então agora somos apenas eu e você. – Ela bebeu um gole do liquido quente e suspirou – Você é bem vinda em minha casa pelo tempo que desejar. Sabe disso não é?

Elisabeth olhava fixamente para as chamas :

— Estou grávida.

— Sir Thomas sabe?

— Não.

— Vai contar?

Elisabeh encarou os grandes olhos verdes da prima:

— Eu o amo mas não sei se posso perdoa-lo.

Quando o dia amanheceu, o serviçal entrou correndo no estábulo.

— Senhora, estão aqui. Sir Thomas Van Sueseen e outros dois homens.

Vanessa retirou o avental e entregou para o serviçal.

Ao chegar no salão viu o marido da prima bufando como um búfalo para sua criada.

— Basta.

Os três homens a olharam e a criada saiu correndo. Vanessa se encaminhou para frente de Sir Thomas e o encarou de queixo erguido

Ela tinha os mesmos olhos de Elisabeth, a mesma pele e os mesmos cachos, porem, os dela eram negros como a noite. E claro, a empáfia.

— Você deve ser Thomas.

— Onde esta minha esposa? Eu exijo...

Ele se calou com o tapa que Vanessa lhe dera. Sir Juan e Sir Edgar ficaram tão desnorteados quanto Sir Thomas e não sabiam se avançavam na mulher ou caiam na risada.

— Em minha casa, você não exige absolutamente nada.

Sir Thomas ficou ereto e procurou controle para não matar aquela mulher.

— Sinto muito Milady. Apenas desejo ver minha esposa.

— Se ela quiser vê-lo. – Ela se encaminhou para dentro do salão, mas parou ao ver que eles a seguiam. – Não convidei os senhores para entrarem.

Sir Edgar foi quem respondeu:

— Estamos congelando!

— Isso não é problema meu.

Ela se foi antes que qualquer coisa pudesse ser dita.

Vanessa entrou no quarto e Elisabeth suspirou.

— Ele esta aqui, não é?

— Sim Você quer vê-lo?

— Eu...pensei muito durante a noite.

— E?

— Não consegui chegar a nenhuma conclusão Meu coração me diz para perdoa-lo pois sei que ele nunca faria nada para me ferir. Mas minha razão abraça meu orgulho e me diz para arranca-lo de minha vida.

Vanessa abraçou a prima.

— Converse com ele. Escute-o E depois se quiser voltar com ele, eu irei junto. Quero conhecer essa tal de Fiory.

— A marca da mão dela ainda esta no seu rosto. – Sir Juan sorriu – Que tipo de mulher é essa?

Sir Thomas suspirou:

— Ela tem o sangue de Elisabeth.

A porta do salão se abriu e Vanessa surgiu com Elisabeth logo atrás. Ela estava com os olhos avermelhados mas nem toda a dor havia conseguido apagar a beleza angelical. Sir Thomas sentiu vontade de agarra-la e beija-la até que seu sangue congelasse, mas se deteve.

— Estarei nos estábulos, vocês dois podem vir comigo.

Edgar e Juan seguiram Vanessa deixando os dois para trás.

— Elisabeth...eu...eu sinto muito pelo o que viu.

— E o que eu vi?

A frieza em sua voz poderia cortar a carne de cem homens.

— Eu não me lembro de chegar em casa, eu não me lembro de ter ido para cama com Fiory. Mas eu sei que jamais faria isso.

— Mas fez. Pode até não se lembrar, mas fez.

As lagrimas escorreram pelos olhos de Sir Thomas e o coração de Elisabeth apertou.

— Elisabeth...

— Sabe, ouvi historias suas. – Ela começou a andar calmamente até a janela e por um minuto, Sir Thomas não reconheceu a mulher que estava a sua frente, era linda como a esposa mas tão fria quanto o inverno – Durante os bailes ou piqueniques que participei. As moças diziam que se casariam com qualquer homem. Novo, velho, aleijado...qualquer um, menos com você. Elas diziam que sua beleza e seu charme encantava os corações das jovens mas que você preferia mil vezes uma prostituta do que uma esposa. Elas temiam o sofrimento que você poderia trazer para elas. Algumas diziam que você adorava bater em mulheres. Outras que você as tratava com lixo.

— Elisabeth, eu jamais a machucaria.

Ela continuou fitando a neve que caia lentamente.

— Não fisicamente.

Aquelas palavras destruíram a alma de Sir Thomas

Ele a agarrou pelos braços e a obrigou a olha-lo:

— Escute bem. Eu a amo! Eu a amo mais do que amo minha própria vida. Eu me apaixonei por você no momento em que a beijei. Meu passado é nojento mas foi apagado no momento em que a tive em meus braços. Eu não sei o que aconteceu, mas eu vou descobrir Eu vou te provar. Só me de uma chance. Volte para nossa casa, volte para mim!

Ela o encarou por alguns minutos e depois se desvencilhou dele. Começou a se encaminhar para dentro do salão, mas parou e disse por cima do ombro:

— Vanessa vira junto.

O caminho para o castelo Van Sueseen foi silencioso e permaneceu assim até a chegada no salão.

Clarke estava esperando com o jantar e um sorriso amável.

Durante o jantar, Elisabeth comeu pouco e Camile brigou com a mãe por não poder ter trazido as bonecas.

— Mas mamãe, elas vão ficar com frio.

— Camile, eu dei ordem aos criados para que eles deixassem sua lareira acessa.

— Mas e se eles não obedecerem?

A voz de Sir Edgar chamou a atenção da menina:

— Creio que nenhum homem ou mulher em sã consciência desobedeceria uma ordem da sua mãe.

A menina sorriu para Edgar e ele sentiu seu coração disparar. Camile parecia um anjo. Longos caracóis loiros e olhos verdes como o da mãe. Ele encarou Vanessa esperando por algum tipo de aprovação para algo que nem ele ainda sabia ao certo, mas ela apenas bebeu mais um pouco de vinho e se levantou.

— Esta na hora de dormir Camile.

Assim que Camile levantou, Elisabeth seguiu com elas e após a criança dormir, os cinco se reuniram no escritório.

— Esta me dizendo de que não se lembra de nada? – A voz de Vanessa era fria mas controlada. Com o ódio direcionado inteiramente a Sir Thomas.- A moça então o carregou pela escada, o deitou na cama e tirou suas roupas?

Um silencio permaneceu e depois de um tempo, Elisabeth se levantou.

— Estou cansada.

A madrugada findou tão fria quanto fora o dia e no escritório só restara Edgar, Thomas e Vanessa.

Ela já havia se convencido de que Sir Thomas amava sua prima, mas algo estava errado.

— Senhores, estou cansada. Tenho uma filha para aquecer na cama e ela tem o costume de acordar com o sol. Então se me derem licença, vou para meus aposentos.

Ela caminhou em direção as escadas, mas sabia que não conseguiria dormir, então se dirigiu para a porta do castelo e pegou sua capa. O sol começou a raiar no horizonte e Vanessa montou em seu cavalo. Sempre pensara melhor enquanto galopava com o vento, mas desta vez, nem isso a ajudou. Ela sabia que Camile logo acordaria e que se não visse a mãe ao seu lado, ensurdeceria o castelo com seu choro.

Resolveu voltar por outro caminho, para conhecer melhor o terreno e acabou por descobrir destroços de uma capela. A construção parecia ter sido destruída pela própria natureza e assim permanecido. Era longe da casa e poderia se dizer que ninguém ia ali a anos, mas isso não era verdade pois em um canto ajoelhada estava uma jovem colhendo algo do chão.

— Quem é você? — A jovem se sobressaltou e encarou a mulher que descia do cavalo como um homem. Vanessa soube assim que a viu de quem se tratava. Olhos azuis e cabelos loiros. – Ah, você deve ser Fiory. O que faz aqui? Ah...eu sabia que tinha dedo seu nisso. Conheço bem essa raiz.

Antes que a jovem pudesse correr, Vanessa a acertou com o cabo da adaga que carregava na cintura. Fiory desmaiou na neve e Vanessa sabia que se a matasse ali, a vida de Elisabeth estaria arruinada para sempre.

Ela então pegou a raiz que a jovem colhia, jogou seu corpo no lombo do cavalo e montou. Nunca havia atiçado tanto um cavalo para correr e sentiu seus lábios rachando com o vento.

Ao chegar no castelo, um serviçal a ajudou a desmontar e entrou em choque ao ver o corpo de Fiory.

— Ela esta viva. Acorde-a e traga-a para mim.

— S-sim senhora.

Vanessa observou o cavalariço ir e entrou no castelo contendo sua fúria.

Ouviu a voz da filha e se surpreendeu ao ver que ela comia de boa vontade ao lado de Sir Edgar.

— Mamãe!

— Clarke, leve Camile para comer na cozinha

— Claro senhora.

Assim que elas se foram, Vanessa jogou a raiz no prato de Sir Thomas que se levantou irritado.

— O que é isso?

— Não reconhece?

— Deveria?

— É uma raiz usada para dois fins. Se ralada deixara qualquer caldo com o gosto do néctar dos Deuses. Se cozida, coada e servida como chá será um abortivo poderoso. E se continuar a ser tomado, poderá fazer com que a mulher fique estéril.

Sir Edgar levantou e encarou a mulher.

— Onde achou isso?

— Nas ruínas da velha igreja. Fiory estava lá, cavando essa raiz.

Neste momento Elisabeth surgiu no salão e pegou a raiz na mão.

Sir Thomas a olhou desconcertado.

— O doutor não entendia o seu aborto.

— Algumas semanas após a gravidez, Fiory começou a me levar um caneca de chá de hortelã todas as noites.

— E é apenas por isso minha prima, que você não ficou estéril. O gosto do chá dessa raiz é muito amargo e por isso creio que ela misturava com hortelã. Isso fez com que o efeito da raiz fosse diminuído.

Elisabeth cambaleou e Sir Thomas a ajudou a se sentar.

— Elisabeth...eu nunca achei que ela seria capaz.

— Ela o ama. E o amor pode levar as pessoas a fazerem loucuras.

O serviçal entrou arrastando Fiory pelo braço enquanto ela se debatia e gritava.

Sir Edgar o ajudou e jogou Fiory aos pés de Elisabeth.

Sir Thomas tomou a frente da esposa e puxou a adaga que trazia com sigo colocando-a no pescoço da jovem.

O sangue começou a escorrer do pequeno core e Fiory engoliu em seco.

— Diga-me, Sir Thomas Van Sueseen, mataria a mulher que carrega seu filho no ventre?