A Metade Que Nunca Irei Conhecer
17 Final: Can You Meet Me Halfaway?
Notas iniciais
Roy I
Eu sou um ser humano muito desprezível. Eu não mereço a amizade do Kayo. Não mereço a benevolência da Annie. Não mereço a compaixão da minha mãe e nem de ninguém. Eu me odeio. Eu me odeio completamente. Eu menti para mim mesmo dizendo que havia me apaixonado pela Karine, mas eu estava somente me enganando. Ela se foi e eu me sinto mal. Me sinto mal, pois não fui enganado. Eu me deixei enganar por mim mesmo. Ela surgiu do nada e eu fui me deixando levar e agora eu estou aqui. Eu só quero morrer. É tudo que tem passado em minha mente agora. Eu quero morrer. Eu tenho que morrer. Eu preciso acabar com isso agora mesmo. Não há sentido em viver para mim. Eu já sofri demais. O Kayo vai entender se eu fizer isso. Eu apenas não sou mais capaz de encarar os outros depois de tudo. Eu sou fraco, desprezível e um inútil. Eu cansei de mim mesmo. Eu cansei de ser eu. Eu só quero que tudo isso acabe. E por isso eu estou em frente a essa ponte agora. Meus olhos estão submersos por uma sombra densa que me enforca pouco a pouco. Eu só preciso pular e tudo terá um fim. Isso mesmo. Eu só preciso de um impulso de coragem. Eu sempre tive impulsos de raiva, mas isso não tem nada haver com coragem. Eu só tenho que pular. Mas eu não consigo...
Eu escolhi este lugar, pois ninguém costuma passar por aqui. É totalmente isolado. Não tem como um conhecido vir e me impedir. Eu quero que seja rápido. Apenas isso. Quando eu impulsiono o meu corpo para pular, sinto os meus nervos arrepiarem, como se uma sombra tocasse meus poros. Eu estava suando e tremendo. Eu não consigo. Eu não consigo.
— Ei.
Eu não consigo. Eu não tenho forças para isso. Eu...
— Ei! Estou falando com você!
Se o Kayo me visse agora ele me espancaria com certeza. O que eu estou pensando em fazer é ridículo. Eu não sou tão diferente da Karine pelo visto. O que aconteceu para eu desenhar a minha morte assim? Eu só não quero ter que carregar um fardo como esse. Eu não posso. Eu disse pro Kayo que eu ia conseguir, mas não tem como!
— Vai continuar me ignorado?
Eu não consigo.
— Isso doeu! – Eu não percebi ela se aproximando até receber um soco na costela que estalou tudo.
— Eu estou te chamando e você não me responde. Queria o que? Uma massagem nas costas?
— Espera! Você é a garota da foto!
— Peraí! Você é o menino daquele dia! De que foto você está falando?
A tensão que pairava meu corpo foi embora tão rapidamente que eu acabei desmaiando. Eu apenas ouvia a garota me chamando, no meio de uma visão turva. Quando recobro minha consciência, percebo que estamos dentro de um armazém abandonado com um forte som de chuva. Minha cabeça estava recostada em uma mochila lilás e estava coberto por uma manta. A garota estava me observando irritada.
— Ainda bem que acordou. Você desmaiou do nada depois de ter sido muito grosso comigo. Ai começou a chover e eu te trouxe pra cá.
— Eu fui grosso com você?
— Perdeu a memória foi? Eu vi você com um olhar tão mórbido em uma ponte abandonada como aquela e fui conversar com você e só recebi patada!
— Eu juro que eu não lembro, de verdade mesmo. Me desculpa, eu...
— Tudo bem, relaxa. Eu acho que sei o que estava em sua mente olhando tanto para o rio debaixo da ponte. Você queria pular não é? Deve estar sendo difícil para você... Já pensei muito nessas coisas também.
Naquele momento eu comecei a chorar incessantemente enquanto a chuva lá fora engrossava ainda mais. Meus pensamentos e minha culpa caíram por terra. Aquela garota bem a minha frente era uma desconhecida, mas eu senti que eu podia falar tudo que estava passando em minha mente.
— Eu quero morrer. Eu quero morrer.
— Eu sei. É tudo doloroso, não é?
— Muito. Eu não suporto
— Me conte tudo. Eu vou te ouvir e tentar te compreender.
Eu estava me perguntando porque eu não escolhi a Annie. Não era porque ela já namorava o Sawyer, pois claramente aquela relação nunca existiu. Eu vi ela se cuidando da sua doença e eu senti que não era forte pra amar alguém tão frágil. Karine sempre se demonstrou tão decidida e independente e foi isso que me fez entrar de cabeça por ela. Eu também vi nela uma chance de me abrir com alguém finalmente. Mesmo já tendo o Kayo comigo, eu fui muito ambicioso. Eu queria mais alguém. E uma garota tão bela como ela dizendo que gostava de mim me cegou. Eu fui idiota. Eu percebi que eu nunca gostei dela de verdade. Eu só estava me enganando todo esse tempo. Eu que matei a Karine. Se eu tivesse escolhido a Annie... Eu só teria que surrar o Sawyer até a morte. Eu me forcei amar a Karine para escapar da melancolia dos meus dias e eu sei o quanto isso foi errado. Eu enganei a mim mesmo este tempo todo. Não quero carregar a morte dela nas minhas costas, assim como não quis carregar a saúde frágil da Annie. Eu quero alguém que não seja minimamente problemático para que eu possa interagir e isso é estúpido. O Kayo entrou em minha vida, pois ele desde o começo mostrou seu pior lado para mim e foi ali que eu senti que tinha um pouco de mim dentro dele. Eu não via isso na Karine. Eu só via uma imagem que eu estava criando dentro de mim.
— Então você é o garoto que o Kayo tanto fala. O mundo é uma azeitona mesmo. A gente se encontrou naquele dia do restaurante e eu nem me dei conta que era ele atrás de você.
— Então você é mesmo a garota da foto. É você a menina que ele gosta e deu um soco na cara dele.
— Bem, sobre isso... Acho que já foi resolvido não é mesmo? – responde com a mão no rosto, disfarçado o olhar.
— E você disse que era uma adulta, mas está no mesmo turno que o dele. Além de tudo é mentirosa.
— Quer minha ajuda ou não?
Ela respira fundo e coça a cabeça. Depois de um longo tempo em silêncio, ela me encara e começa a comentar sobre o meu desabafo.
— Eu acho que você está criando um monstro dentro de você que não existe. Todo mundo tem seus próprios problemas e você dizendo repetidas vezes que foi o causador do sofrimento de pessoas que lhe causaram mal e apenas te machucaram, só demonstra que você não se enxerga como um indivíduo que mereça ser amado de verdade. Você só faz se questionar dos sentimentos dos outros e quando alguém veio e se abriu com você, sua defesa foi quebrada e ficou cego. Não há como te culpar por isso, pois ninguém antes veio ate você dizer que te amava, ainda que fosse uma mentira. Alguém que não ama a si mesmo não acreditaria nisso, mas quando conheceu o seu amigo isso mudou. Você começou a ver um verdadeiro potencial em você. Devia se orgulhar disso.
— Eu não sou capaz de me orgulhar. Eu vim até a mesma ponte que a Karine morreu para fazer o mesmo que ela fez. Eu não pude ouvir seu coração. Eu não pude compreender que ela estava sendo manipulada. Eu não pude compreender que eu estava me manipulando a não dar tudo de mim genuinamente. Como eu poderia me orgulhar?
— Eu ainda não entendi pelo que você esta sofrendo de verdade, garoto.
— Meu nome é Roy.
— Então, Roy. Ela se foi. Você está apenas numa confusão em saber se ela fez aquilo tudo por fazer ou se amava você de verdade. Entenda que não há mais nada a fazer. Enxergue quem está vivo a sua frente. Você acredita mesmo que possa ter sido suicídio?
— Eu não pensei em outra possibilidade. Foi o que todos disseram.
— Mas quem foi que disse isso primeiro? Você sabe?
Um estrondo na porta do armazém ecoa todo o lugar. Escuto dezenas de vozes lá fora.
— Ele está aqui dentro.
A porta é arrombada e pelo menos uns quinze garotos com o mesmo uniforme do colégio do Kayo aparecem.
— Finalmente te encontrei. Eu vou vingar o capitão agora mesmo por tudo que você fez.
— Hiro! – exclama Misa.
— O que você está fazendo aqui com ele, Misa? Então era por isso que não me respondia mais. Agora faz sentido. Está de caso com esse pedaço de merda. Não me atrapalhe.
— Estavam me seguindo?
— Graças a festa, descobrimos que nosso alvo estava mais perto do que parecia. O Kayo seria a nossa ponte.
— O que fizeram com ele?
— Nada, ainda.
— Vocês querem me matar? Podem fazer o que quiserem comigo. Eu não mereço viver. Eu não mereço nada.
Naquele momento, pulando entre os caixotes, estava Kayo com um bastão de ferro que acerta o crânio de Hiro.
— Kayo!
— Roy, você tem que dar uma mãozinha aqui. E sai de perto da minha Misa.
— Onde que eu sou sua, seu merda? – responde ela
O tal do Hiro se levanta cambaleando e junto com seus amigos avançam até nós três. Kayo acerta uma sequência de golpes no joelho e no pescoço de dois deles, enquanto eu espanco Hiro com as mãos nuas. Depois que sobra apenas ele ainda em pé, Kayo se aproxima.
— Pode me matar se quiser. Assim como seu amigo, minha vida não vale muito.
— Eu fui atrás da verdadeira história, Hiro. Roy, chega de fugir. Conte tudo que aconteceu para esse cara.
— Eu não consigo...
— Conte logo ou eu vou te arrebentar até os ossos.
Roy II
Eu sempre fui um grande prodígio no basquete. Desde pequeno eu sempre adorava jogar na quadra abandonada. Quando entrei no ensino médio, eu decidi entrar para o clube e em pouco tempo já era titular absoluto, mesmo sendo um calouro. Isso criou um desconforto enorme com os alunos mais antigos da classe, pois pensavam que eu apenas estava passando na frente deles. No começo, eram apenas agressões verbais. Depois, começaram a roubar minhas coisas da mochila, rasgar minhas roupas, me trancar dentro do banheiro... Após isso, começaram as agressões físicas disfarçadas de disputa de bola durante os treinos. Até o dia que eu revidei, e fui espancado. Eu apanhei tanto a ponto de desmaiar. Quando acordei, já era noite. Fui pra casa cambaleando e enquanto limpava o sangue, ouvia minha mãe chorando e dizendo que iria me tirar daquele colégio. Eu odiava ver minha mãe chorar por minha culpa. Eu prometi que isso não iria acontecer de novo. Fui ate a diretoria e fui ignorado. Era minha palavra contra as dos caras que tinham amizade com todos os funcionários do colégio.
E então viria o campeonato de basquete entre as escolas. O treinador implorou para que eu continuasse no time e fosse titular. Eu acabei aceitando de certa forma. Foi quando as coisas aconteceram. Tenruo era o nome do garoto. A Karine namorava um dos jogadores do terceiro ano do nosso clube, pelo que eu ouvia dizer. Ela me via machucado e fingia que não era nada. Meu ódio foi se acumulando dia após dia. Eles não me bateram novamente, até o dia do torneio. Foi quando eu vi o Tenruo.
Kayo me interrompe, pondo a mão no meu ombro.
— Eu continuo daqui, Roy. Descansa.
Eu não parava de tremer. Este assunto me traz lembranças horríveis. Misa se aproxima de mim e me abraça bem forte.
— Estou muito orgulhosa, guri. – diz ela com um sorriso doce no rosto, enquanto faz carinho na minha cabeça.
Kayo solta o bastão e se aproxima do Hiro.
— Tenruo Saigetsu. Acusado por três vítimas de abuso sexual, foi comprado pelo veterano do Roy para que o incapacitasse no meio da partida. Para isso, a moeda de troca foi a Karine. Ela se relacionou com o Tenruo para que ele fizesse isso, a mando dos capitães. Acontece que Roy viu o Tenruo tocando Karine, enquanto ela fazia cara de nojo. Aquilo entrou na sua mente. Quando ele o viu em campo, tudo explodiu. Ele sabia quem era o Tenruo e o que ele fez. Por ser filho de um influente, nada aconteceria com ele. Roy destroçou o desgraçado na porrada e os seus veteranos juntos. Karine se aproximou do Roy um ano depois para agradecer, se redimir e por realmente sentir algo por Roy, mesmo sabendo que sua vida poderia contamina-lo. Sawyer é irmão do Tenruo e queria se vingar. E ele é seu amigo também, não é?
— Como soube de tudo isso?
— Simples. Eu fui atrás de cada um deles tirar toda a verdade. Inclusive sobre a morte da Karine.
— Eu não conheci a Karine, sendo sincero.
— Eu sei disso também. E eu também sei que ela não se matou. Alguém estava com a Karine nessa ponte. Veio junto com ela. Para o azar de todos vocês, ninguém sabe quem foi. Não há muito o que fazer sobre isso agora. Só peço para que você e seus amigos saiam daqui.
— Espera, Kayo. Eu preciso de um tempo para pensar – Hiro apoia as mãos no chão.
Ele me encara e abaixa a cabeça com os olhos lacrimejando. A chuva parecia ter diminuído lá fora e eu continuava imóvel nos braços da Misa.
— Eu entendi tudo errado, Roy. Por favor, me perdoe. O seu sofrimento é muito maior do que eu possa entender um dia. Eu julguei do meu jeito cego e fiz algo horrível. Eu fui usado pelo Tenruo. Ele prometeu que nunca fez nada dessas coisas com ninguém. Eu não imaginava que ele seria capaz de algo assim. Me desculpe, de verdade.
Misa me encosta em um caixote e caminha lentamente até o Hiro.
— Seres humanos são escravos dos seus instintos. Confiamos cegamente em alguém e é isso que acontece. Ficamos deprimidos, entristecidos, somos enganados... Acho que todos aqui fomos enganados em algum momento nessa história. Eu fui por você, Hiro? Quem é você de verdade? Eu pensava que você fosse mais inteligente, mas eu me enganei. Eu fiz bem em não dar corda para você, mas me sinto péssima em ter sido imatura com os sentimentos da Hina também. Eu falhei como ser humana. Eu quero muito me retratar com todos que eu feri. Me desculpe por te enganar também, Hiro. Eu nunca conseguiria ter nada por você. Eu sinto muito.
Misa I
O garoto daquele dia esta bem na minha frente. O que eu vi coberto de sangue perto de um depósito e tremendo. O mesmo garoto daquele dia do encontro com o Hiro. E hoje ele está me dizendo que estava desistindo da própria vida. Ele deve ter passado por tanta coisa e não sei porque surgiu essa vontade súbita de compreende-lo. O Hiro odeia esse menino pelo que ele fez ao capitão do seu time se basquete. Eu não sinto nada pelo Hiro agora. Eu gosto do Kayo como um grande amigo. Na verdade, o meu único amigo. E esse menino... Eu sinto algo especial quando estou perto dele que eu não consigo explicar. Sinto que temos uma conexão estranha...
O Hiro e seus amigos foram embora e só ficou apenas nós três no armazém.
— Kayo e Roy. Eu preciso falar para vocês como eu me sinto também. Sei que não é o melhor momento, mas...
— Meu amor, para você qualquer momento é o melhor – responde Kayo, fazendo uma pose vitoriosa.
— Credo, Kayo. Você é nojento – meu nojo é claro.
Mesmo com tudo isso acontecendo, nós começamos a gargalhar feito idiotas de circo. Decidimos sair logo dali já que estava anoitecendo e fomos para uma lanchonete.
— Acabou que nos conhecemos de um jeito bem inusitado – reflito
— Nossas vidas são bem mal estruturadas, então não esperava coisa diferente – responde Roy.
— Isso você tem toda razão – conclui Kayo.
Eu consegui me acertar com o Hiro e o Kayo, mas ainda faltava uma pessoa. Eu tenho a obrigação de ir atrás da Hina e falar com ela. Eu cansei de fugir dos meus próprios sentimentos. Para conseguir seguir em frente e criar um novo capítulo preciso me reencontrar.
— Pessoal. Eu tenho que fazer uma coisa antes.
— Nós sabemos. Quer que a gente vá junto contigo? Já está de noite.
— Poxa, não quero ser vista com dois homens fora da lei por ai. Minha reputação vai para o espaço.
— A gente mal se conheceu e já estou sendo julgado assim...
— Ah, me desculpa Roy. Você é um fofo. O Kayo que está te corrompendo.
— Sempre sou eu, não é? Chega de conversa e vamos andando logo.
Eu peço para eles fazerem silêncio e ligo para a Hina.
— Alô?
— Hina? Sou eu. Está ocupada agora?
— Não... Porquê?
— Quero conversar com você. Eu posso?
— Sim. A gente se encontra no parque, ok?
Chegando no parque, encontramos a Hina com um suéter rosa e um cachecol branco, com botas cor de bege e aquecedores de ouvido brancos, com uma calça jeans rosa claro. Suas luvas de couro vermelho ciano se esfregavam entre sim para mantê-la aquecida. Quando percebe a nossa presença, ela sorri e acena.
— Me perdoe pela demora, Hina. Te fiz esperar muito?
— Não muito dessa vez. O que quer comigo? – seu jeitinho tímido e fofo não mudava nunca.
— Preciso esclarecer tudo com você.
Hina I
Desde quando eu era criança, tive muita responsabilidade dentro de casa. Não lembro do rosto do meu pai, pois logo quando a July nasceu, ele saiu de casa e nunca mais retornou. Minha mãe sempre foi uma mulher muito forte, mas até pra ela foi bem difícil. A situação financeira não era das melhores e para piorar tudo, o filho do meu pai com uma amante surgiu repentinamente para que morasse conosco também. Minha mãe decidiu se dedicar integralmente ao emprego para que pudesse nos sustentar ao máximo, mesmo que isso significasse distanciar da gente. Eu que me tornei a verdadeira mãe da casa. Cuidei da July e do Itany como eu pude. Mesmo com toda sua rebeldia, ele deu toda a sua mesada para que a gente pudesse sobreviver por um tempo, quando a mãe estava desempregada. Ele era um bom menino.
Eu nunca havia sentido afeto de alguém por mim, e graças a criação da minha mãe, criei uma redoma intransponível que evitava qualquer pessoa se contatar sentimentalmente comigo. Nunca me relacionei com ninguém, ou tive amigos. O meu jeito na escola era onde eu podia aliviar toda a minha tensão e ansiedade. Eu agia de uma forma extrovertida e desencanada, pois não havia os olhos da minha mãe me julgando. “Seja exemplo para seus irmãos, se torne séria e independente. Não precise de ninguém em hipótese alguma.” Ela sempre jogou suas frustações com a vida em cima de mim e por isso, eu evitava tudo e todos, ao mesmo tempo que criava uma atmosfera em que qualquer um pudesse falar comigo. Foi aí onde surgiu o Kayo. Como uma explosão, um meteoro. Ele destruía todas as minhas barreiras com uma facilidade inexplicável. Eu fazia outras o evitando, mas ele nunca desistia. Mesmo sabendo da sua fama de mulherengo, o que me fazia odiá-lo e lembrar do meu pai, eu me sentia realizada em alguém falar nos olhos comigo de uma forma tão doce. Minha mãe tinha um olhar frio e metódico. Minha irmã tinha um olhar triste e carente. Meu irmão tinha um olhar vazio. Ver olhos como aquele me encarando era novo pra mim. Tempos depois, surgiu a Hina. E foi tudo muito rápido. Eu pensava que ia ter finalmente aquela amiga que eu tanto invejava das outras. Alguém que dormisse sempre em minha casa e que falássemos sobre tudo da nossa vida pessoal. Mas quando ela me beijou naquele dia e contou que gostava de mim, aquela fantasia desabou. Eu me acuei. Fiz uma barreira muito mais densa que a do Kayo e fugi. Eu não queria encara-la dessa forma. Não tinha coragem de rejeita-la, pois uma ponta de orgulho dentro de mim, se sentia bem em ser desejada por alguém. Eu sabia que era errado ter algo com alguém que você não sente o mesmo. Eu sou muito travada para relações. Sou lenta. Não consigo ver as coisas amorosamente. Seja o Kayo, a Hina ou o Hiro. É muito difícil para mim sentir essa paixão. Eu sinto que quando eu encontrasse a pessoa certa, eu sentiria. Acho que ainda não aconteceu.
— Me desculpe por tudo que eu te fiz, Hina. Fiz uma grande amiga como você sofrer por minha inexperiência e imaturidade sobre os sentimentos de alguém. Eu te amo, mas não dessa forma. Eu não quero perder você. Preciso da sua amizade. Nunca alguém foi tão adorável e doce comigo antes e eu quero ser a mulher mais egoísta do mundo neste momento. Fique comigo, por favor. Mesmo que seja doloroso e difícil para você. Eu quero alguém para fazer compras. Para falar besteiras. Para dormir em casa. Uma amizade que eu nunca tive e sempre invejei todas aquelas garotas. Eu não quero mais ser sozinha.
Hina chora de soluçar, enquanto sorri e começa a vir correndo em minha direção. Ambas ficamos abraçadas e chorando por uma meia hora, fazendo carinho no cabelo da outra e sorrindo, em meio a nariz escorrendo e tudo. Kayo e Roy observam ao fundo sorrindo um para o outro. Hina afasta meu rosto do seu ombro por um tempo e encosta seu nariz geladinho no meu.
— Veterana, meu amor por você é maior do que um simples amor adolescente. Eu posso ser o que você precisar que eu seja. Desde que eu esteja com você, nada mais importa. Eu percebi isso estes dias distante de você. Então, obrigada por ter sido babaca comigo e ter fugido – diz sorrindo e beijando minha testa, depois me puxa abraçando bem forte.
— Vamos continuar juntas para sempre? – pergunto com a voz embargada
— Com certeza! Eu nunca vou te abandonar.
Ela se levanta e estende a mão para mim. Depois de limpar o rosto com um pano, ela suspira e segura minhas mãos.
— Eu sempre tive muito medo das pessoas. Sempre fui um rato assustado que não conseguia conversar com ninguém direito, sem começar a tremer e gaguejar. Eu me sentia muito sem graça e frágil e por isso pensei que eu não passaria de um fardo para alguém neste mundo. Minha personalidade é pobre e forçada e causa irritação aos outros a minha volta. Mas esse é o meu jeito! O jeito que faz com que as pessoas dizem “Que garota fofa" e nada além disso. Não me elogiam em mais nada além dessa aparência. Mas quando você veio até mim, perguntando se eu precisava de ajuda. Foi como tivesse falando com o meu coração diretamente. Eu sempre precisei dessa ajuda. De um empurrãozinho. Meus pais sempre tentaram, mas nunca foi o bastante. Mas você, Misa. Você conseguiu de uma forma tão fácil que eu acabei me confundindo nos sentimento. esmo eu já sabendo que tinha atração por garotas desde nova, eu não sabia o que era isso aqui dentro de mim quando pensava em você. Mas agora eu entendi. Eu te amo, veterana. Não é um amor platônico nem romântico. É um amor intransponível. Algo que não se mede em palavras. Eu te amo, porque você me salvou.
Ela pega minhas mãos e pede para que eu levante as mangas do seu casaco. Seus pulsos estavam repletos de cicatrizes.
— Isso era tudo que eu sentia antes de te conhecer. Era a única forma que eu conseguia me conectar com meus sentimentos. Eu sofri demais nessa época, mas você me ajudou a enxergar. Eu passei a gostar mais de mim graças a ti. Passei a me valorizar como pessoa. Passei a me pôr como alguém relevante no mundo. Eu sei que devo ir com calma, mas não quero ninguém além de você do meu lado para acompanhar meu crescimento pessoal. Eu que estou fazendo um pedido egoísta agora, né?
Eu aliso seus dois pulsos e encosto sua cabeça em meu peito. Abraçando- a bem forte.
— Somos duas egoístas, não é mesmo? A gente merece a outra mais do que tudo nessa vida. Além disso, eu fico muito feliz em ter feito tão bem a alguém assim. De verdade, eu não tenho palavras. E você não é nada forçada, as pessoas apenas não conseguem acreditar que existem gente como nós na vida. Eu vou estar sempre com você, Hina. Juntas!
— Juntas! Eu e você.
Terminamos nossa conversa e fomos em direção aos meninos. Roy e Hina fazem uma cara surpresa para o outro.
— Veterana! Esse é o garoto que falou comigo naquele dia.
— O que perguntou sobre gostar de viver ou algo assim? É bem a cara dele mesmo – Roy e Kayo sorriem
— O mundo é pequeno demais! Eu me chamo Roy Tsukimu.
— Prazer em te conhecer. Eu sou Hina Vangarden. Eu fiquei preocupada com você naquele dia. Pensei que fosse fazer alguma coisa...
— Felizmente eu não fiz. Graças a esses dois aqui e a você também. Muito obrigado.
— Ah, m-mas eu não fiz...
— Sem essa, Hina. Todos foram muito importantes para o outro em seus respectivos aprendizados – Ela acena com a cabeça concordando, enquanto segura no meu braço.
— Então no final todo mundo aqui meio que já se conhecia. Que conveniente não é mesmo? – questiona Kayo.
— É tudo obra do destino, meus caros. Isso não se discute. Agora vamos para casa – respondo com ar superior e triunfante.
— Já está bem tarde mesmo. Conversamos melhor pelo caminho – concluiu Roy, enquanto ajeitava a jaqueta.
Kayo I
Nós quatro conversamos bastante no caminho até a estação de trem. Hina passaria a noite na casa da Misa, enquanto Kayo voltaria comigo para casa. Ambos iriamos pela mesma direção, mas as meninas soltariam antes. Ao chegar na estação delas, nos despedimos.
— Foi muito bom te conhecer, Misa. De verdade. Obrigado por ter me escutado mais cedo.
— Não há de que, Roy. Você me ajudou muito também. Me deu forças para encarar a Hina de frente.
Kayo e Hina sorriem, enquanto o primeiro abraça Misa e eu.
— Vocês formam um belo casal, não acha Hina?
— Eu tenho certeza! – responde Hina com um sorriso tímido e fofo.
— Vocês viajam demais, sabia?
Elas descem do vagão, enquanto nós seguimos viagem. Depois de enfim chegarmos no terminal, vamos a pé até minha casa. Eu tomo um banho, enquanto Kayo prepara a comida. Eu vou até o quarto e encontro um envelope lacrado no chão. A porta se abre e era Kayo com um olhar melancólico.
— Até hoje eu nunca abri essa carta. Nunca tive coragem. Qualquer palavra que ela pudesse me dizer, poderia me machucar e muito. É loucura, mas eu acho que amei de verdade essa pessoa. Eu tinha medo das consequências que ela poderia passar. Eu só pensei nela. Achava que não encontraria uma pessoa tão doce assim.
— Não é nenhuma loucura. A única é você estar fugindo da reposta direta dela por todo esse tempo. Abre logo essa carta. Agora só falta você seguir em frente, Kayo.
Ele olha relutante para o envelope na minha mão e me encara com um sorriso no rosto, pegando a carta.
— Você tem toda razão. Eu só estive fugindo dela esse tempo todo. Eu encontrei na Misa uma fuga também. Eu fiquei com todas aquelas garotas para mostrar para mim mesmo que eu havia superado, mas era mentira. Eu só estive me enganando este tempo todo. Meus pais já me rejeitavam por qualquer coisa, imagine se soubessem que eu estava apaixonado pela professora do meu cursinho. Eu fui deserdado e sinto que não tenho mais nada a perder. Tenho que parar de fugir do meu passado e encara isso de frente uma vez por todas, antes que eu enlouqueça.
Eu me aproximo e ponho meu braço em seu ombro.
— Sabe, Kayo. Você é o melhor amigo do universo. Eu sou muito grato de ter te conhecido. De verdade mesmo. Antes só haviam sombras dentro de mim, mas você me deu uma luz. Me deu algo que eu jamais tive. Você é como um irmão mais velho pra mim.
— Diferente daquele otário inútil que nunca aparece aqui?
— Bem diferente. Agora abre logo essa carta que eu estou curioso.
Meio trêmulo e nervoso, ele abre o envelope.
“ Olá, Fubuki. Pelo que eu conheço você, não sei quanto tempo vai levar para abrir essa carta, mas eu deixarei meu endereço aqui embaixo para que venha até mim, quando sentir que for a hora exata. Estarei esperando por você. Eu quero muito saber pelo que você passou e vai passar. Não sinto que eu seja a melhor pessoa para corresponder os seus sentimentos, mas eu quero apenas poder ouvi-los. Quero cuidar de você, se possível. Venha me encontrar.
Maria"
— Roy. Ela esta esperando por mim até hoje.
— Isso faz dois anos, Kayo. Será que ela ainda está?
— Eu preciso descobrir agora. Eu vou até lá agora mesmo.
— Está muito tarde, Kayo. Não é uma boa ideia. O dia hoje foi cheio demais. Descanse e vá até ela amanhã.
— Acho que você esta certo... Amanhã eu irei lá sem falta. E você vem comigo.
Amanhece o dia e Kayo já estava arrumado. Eu ponho uma roupa básica e partimos ate o endereço no papel com a sua bicicleta. Era um apartamento enorme. Tocamos o interfone, e uma bela mulher nos recepciona. Cabelo escuro e longo e olhos castanhos.
— Finalmente teve coragem de abrir a carta, Fubuki.
— Você esperou este tempo todo?
— Sim. Eu queria que você tivesse certeza sobre o que sentia sobre mim. Não poderia aceitar nada que não fosse determinado o suficiente para nós dois. Como seríamos fortes o bastante para enfrentarmos tudo juntos?
— Eu compreendi suas intenções e concordo com elas. O Kayo do passado jamais teria a mesma mente do eu de agora. Eu passei por muita coisa e conhecia muita gente que me fez perceber que eu estava apenas fugindo do meu passado. Eu pensava que fumar, beber, matar aula, pegar várias mulheres... Isso me faria um homem de verdade. Foi uma atitude estúpida e machista que me fez afastar ainda mais do que eu sentia por você, Maria. Eu no fundo sentia raiva de você também. Eu te culpava por estar agindo feito um idiota, tentando impressionar e chamar atenção de alguém que não podia me ver. Eu fui me perdendo no meu próprio personagem até me afogar nas sombras que minha mente criou. Já não sabia mais quem era eu. Nem o que eu queria. Vivia apenas pro viver. Nada tinha mais um sentido para mim. Estava isolado em meu próprio mundo, buscando apenas fortalecer uma imagem que eu detestava de mim mesmo. Foi a única maneira que eu vi de não ser excluído de tudo. Eu via a Misa sofrendo com piadas idiotas e eu não queria bancar um herói na frente de ninguém. Eu apenas rejeitava aquelas garotas da pior forma possível, mas por elas não possuírem orgulho próprio, voltavam a tentar ficar comigo. Isso fazia minha cabeça definhar ainda mais. A Misa era a única que tinha um caráter naquele meu mundo e isso me tocou. Foi como você. Eu senti uma admiração enorme pelas duas. Eu não chegaria aos pés do que ambas eram capazes. Enfrentando seus problemas de frente e nunca pensando no passado. A Misa sempre foi uma garota tão intensa e tão vívida que o seu brilho me cegava. Eu queria ter toda essa atitude, mas eu não fui capaz nem de abrir a sua carta, imagine dar um soco na cara de um garoto dito como violento por todos da escola? Sua coragem me amedrontava as vezes. Eu caí em uma frustação e me perdi nos meus próprios sentimentos. E agora eu estou aqui, Maria. Finalmente te encarando de frente. Não para mostrar a você que eu cresci, mas para dar um primeiro passo para um novo capítulo.
Ela sorri meio envergonhada pondo a mão no rosto e acaricia as bochechas do Kayo com a parte externa das mãos.
— Eu estou tão orgulhosa de você que estou quase chorando de felicidade... Me diga, Fubuki. Quero dizer, Kayo; você ainda quer algo comigo?
— Eu quero e muito, Maria. Não temos mais qualquer relação de professor e aluno e eu já sou maior de idade e tenho um emprego. Moro com meu melhor amigo e estou começando uma nova fase em minha vida. Eu sinto que sou capaz de construir um futuro com você. Se assim for da sua vontade.
— Tudo bem. Vamos um passo de cada vez, ok? E apresente seu amigo para mim. Tenho certeza que ele foi muito importante para o seu amadurecimento – diz ela apontando para mim.
— Com certeza ele foi! – responde Kayo com um sorriso gigante no rosto.
Ela nos convida para entrar e passamos o dia conversando. Eu fiquei feliz que o Kayo pôde finalmente encarar seu passado de frente e ter resolvido seus problemas internos, ainda que um pouco. Ele me disse que não queria se retratar com os pais ainda. Eu o entendo. Uma coisa de cada vez e por enquanto, esta tudo fluindo muito bem. Ao menos para mim, ainda faltava algo a ser resolvido. E depois de ter sido inspirado tanto pela Misa quanto pelo Kayo, eu sabia que a hora tinha que ser agora.
Annie I
Mais uma vez nessa ponte abandonada. A ponte em que supostamente Karine se jogou. Era um por do sol relativamente bonito em meio a um clima ameno. Escuto o som de um carro se aproximando e quando me viro, estava Annie vindo em minha direção. Ela usava um casaco de camurça e uma calça legging preta. Estava de óculos escuro e havia pintado o cabelo de loiro. Ela estava muito linda. Muito mesmo. Apesar de parecer quem ela não era.
— Porque me chamou aqui, Roy?
— A gente não se falou mais desde aquele dia, Annie. Estava preocupado com você.
— Eu já tinha te dito que estava tudo bem comigo.
— Mesmo sabendo sobre o que houve com a Karine?
— Eu não tenho nada haver com ela. Foi lamentável o que aconteceu.
— Mas era a Karine que fazia bullying com você não e mesmo? E foi ela a amante do Sawyer também.
Ela abaixa a cabeça e apenas sorri.
— Eu sei que você tinha razões de sobra para matar a Karine. Você a odiava de todas as formas possíveis. Ela era desejada, sabia se comunicar, era inteligente e muito bonita. Já você, não chamava tanta atenção assim.
— Até você caiu nos truques baratos dela, Roy. Eu pensava que você era diferente dos outros. Quando descobri que estava namorando a Karine meu ódio subiu e muito, mas não foi pior do que a dor de imaginar que você sofreria muito quando soubesse de tudo. Por isso eu não te contei sobre ela. Não tive coragem, mas eu também queria que você sofresse um pouquinho também. Você merecia isso.
— Você fez isso por ciúmes de mim?
— Não seja tão presunçoso. A Karine gostava mesmo de você. Eu fiz isso por ela também. Ela também sofreria e muito. Pela sua impotência de ver você sendo ferido pelos namorados dela e não poder fazer nada. Eu queria isso, mas eu não a matei. Eu estava com ela nessa ponte naquele dia, mas a deixei antes de qualquer coisa. Eu tenho um álibi sobre isso.
— E sobre o que conversaram?
— Sobre você. Ela me disse que se sentia culpada por tudo aquilo. Por mim e por você. Ela nunca quis machucar ninguém. Também estava sendo usada. Mas eu não pude perdoar ela por isso. Não consegui. Mesmo ela estando morta agora, eu sinto dentro de mim que foi merecido.
— Foi extremo demais. Não tinha que ter chegado a tal ponto.
— Eu discordo. Tudo foi extremo demais. Ela não era relevante. O Sawyer nesse momento foi dado como o assassino da Karine por terem encontrado digitais no seu pescoço. Ela morreu afixada antes da queda.
— Isso é serio? Mas porque ele faria isso?
— Quem sabe... Bem, eu tenho que ir agora. Irei me mudar para o Canadá com a minha família. Recomeçar e esquecer de tudo isso. Este lugar não me fará mais bem algum.
— Annie... Espera!
— Adeus, Roy. Seja feliz enquanto eu estiver longe. Eu sentirei sua falta – sua voz embarga.
— Espera. Não vá ainda. Eu preciso falar para você o que eu sento sobre tudo.
— Não é preciso, Roy...
— É sim, Annie. Apenas me escuta.
Ela respira fundo e acena com a cabeça concordando em me ouvir.
— Eu me aproximei de você por pena naquele dia, mas ao mesmo tempo eu queria muito te proteger. Eu sabia que poderia ser mais do que o Sawyer foi. Mais do que qualquer outro. Eu quero você perto de mim. Não vá embora. Você foi a única que foi verdadeira comigo. Eu me arrependo muito de ter escolhido a Karine. Eu nunca gostei dela de verdade. Eu nem sei dizer o que sinto sobre você. Sou uma pessoa confusa sobre meus desejos e se ninguém vir ate minha me mostrar o que fazer, eu não sou capaz. Eu te chamei aqui porque eu não achei justo tudo o que aconteceu. Você sofreu tanto quanto eu, quem sabe até mais. Apenas me desculpe por tudo. Eu me ajoelho em sua frente agora e peço perdão.
— Roy, se levante. Não precisa disso tudo. Eu fui muito mimada também. Você nunca foi meu. Eu não tinha direito de permitir que isso acontecesse a você de forma proposital. Ambos falhamos um com o outro e sendo sincera, eu não quero falar com você e nem te ver por um bom tempo. Eu preciso de um tempo para mim mesma agora.
Eu suspiro aliviado e estendo minha mão
— Então é um adeus?
Ela puxa o meu corpo até o seu, toca o meu rosto e me beija suavemente. Eu retribuo, deslizando meus dedos em seu cabelo. Ela afasta o seu rosto e põe as mãos em meus ombros e com os olhos brilhando de choro, morde meu nariz.
— É um até logo. Podemos ser amigos?
— Nós já somos amigos. Faça uma boa viagem, Annie.
— Até mais, Roy. Se cuida, por favor.
Ela solta minhas mãos e acena sorrindo, caminhando até o carro e desaparece em meio ao horizonte.
Before
— Alô?
— Oi, Roy. Sou eu, Misa. O Kayo me passou seu número.
— Misa! Que bom que ligou. Eu queria muito conversar com você
— Sério?
— Sim, me conta
Um silêncio se pairou por longos minutos pelos dois lados da linha. Ambos não sabiam o que dizer um ao outro naquele momento. Depois que toda adrenalina se passou, restou um pouco de vergonha sobre os acontecimentos recentes.
— Bem... Eu queria te agradecer de novo por ter cuidado de mim e me ouvido. Você foi tão atenciosa...
— Ah, Roy! Deixa disso, garoto. Já está tudo resolvido. Você é sempre tão inseguro assim?
— Quase sempre...
Novamente o silêncio surge...
— E como está o Kayo?
— Parece que ele e a Maria estão mais amigos. Não sei dizer se vai sair além disso, mas ele pretende fazer um intercâmbio na Europa quando se formar. Mas acho até que ele deve correr atrás do sonho de virar um jogador profissional de basquete.
— Ah, que legal! Eu ouvi da Hina que ele também está pensando no mesmo sobre o intercâmbio. Bem que os dois podiam ir juntos, não acha?
— Seria bem legal mesmo. Ela ainda está dormindo ai?
— Quase sempre. Minha irmã mais nova adorou ela. Já adotou com irmã dela e tudo.
— Que bom! Fico feliz em ver que vocês estão bem resolvidas entre vocês duas.
— Eu mais ainda. Ela é muito importante pra mim. Assim como o Kayo é para você, não é?
— Acho que temos sorte de encontrar amigos tão incríveis.
— Não só amigos...
Depois de mais um breve silêncio, Roy finalmente toma um impulso de coragem.
— Ei, Misa.
— Sim?
— Está livre agora?
— Porque? Quer me encontrar? – diz ironicamente
— Quero... Pode ser agora? – sua voz treme no telefone.
— Claro... Só vou me arrumar rapidinho – responde Misa timidamente
Roy desliga o telefone e vai ate a direção do seu amigo Kayo contar a grande novidade.
— Kayo, estou indo encontrar a Misa. Algo contra?
— Não, mas não toque nela.
— Sério?
— Não também, mas se for beija-la, tem que me beijar antes.
— O quê?
Os dois se beijam apaixonadamente, causando suspiros para essa narradora.
— Kayo...
— Diga.
— Qual o seu problema???????
Misa II
Onde está meu headphone? Com que roupa eu deveria ir? Eu sei que ele só me chamou pra gente conversar melhor, mas eu me sinto meio nervosa. Não estou sabendo reagir, argh! Ele parece estar tão nervoso quanto eu, então vou tentar me acalmar e não deixar o clima mais tenso. Pego uma jaqueta vermelha e uma blusa regata branca e as separo na cama, enquanto procuro uma calça.
— Vai pra onde, Mi?
— Vou encontrar uns amigos, Jô. Acho que vou demorar. Cuide de tudo aqui em casa, está bem?
— Tá certo, Mi! Bom passeio. Me traz comida? – responde fazendo um biquinho muito fofo.
— Assim eu não consigo dizer não! Vou trazer pra você, tá?
Ela acena com a cabeça e sai do quarto. Depois de encontrar uma calça descente, eu vou para o banho. Aproveito para lavar o cabelo e fazer um penteado diferente. Deixei ele um pouco mais ondulado, com duas tranças saindo por de trás das orelhas. Decidi fazer uma franjinha também. Sempre quis usar uma. Pego uns brincos e ponho um pouco de perfume. Encarei o blush e ele me encarou, mas morri de vergonha de usar, então só escondi ele na minha bolsinha.
— Pronto! Hora de ir
— Nossa... Você está linda – me viro para trás e vejo meu irmão Itany recostado na porta.
— Acha mesmo? Se bem que para você me elogiar assim devo estar mesmo, hein?
— Eu posso voltar atrás ainda e retirar o elogio.
— Não é necessário! Obrigado, Itany. Você é um fofo – faço cafuné no seu cabelo sujo e quebrado.
— Cuide da sua irmã, tá?
— Pode deixar. Divirta-se.
Dou um abraço bem forte nele e beijo sua testa. Desço as escadas correndo e saio de casa. Mando uma mensagem pro Roy, avisando que já estava a caminho do nosso encontro. Entro no ônibus e ponho meu headphone. Apesar de ser adepta a músicas clássicas, hoje eu estava ouvindo Meet Me Halfway. Meu celular toca e era o Roy.
— Estou passando pela esquina agora mesmo. Está no ônibus ainda?
— Você está a dois pontos de eu descer? A gente se encontra no meio do caminho, espera.
Eu desço do ônibus e vou até ele. Estava usando um casaco azul com capuz e uma calça preta. Seus cachos estavam brilhando naquela noite. Era tão fácil para mim dizer o que se passava na minha cabeça naquele momento, mas eu simplesmente não estava conseguindo. Ele se aproxima de mim e começa a coçar a nuca. Estava claramente nervoso.
— Você é linda – meu rosto fica pequenininho de vergonha
— Você quis dizer que eu estou, não é?
— Ah, é... isso, mas também... Você sempre foi linda. Mas hoje é diferente.
— Como?
— Eu não sei explicar. Eu sinto como que no meio de todo este universo que eu cruzei, eu finalmente encontrei alguém que pudesse me compreender e me ouvir.
— Está falando mesmo de mim?
— Não acredita?
— Eu não me sinto como alguém tão especial e relevante assim, sabe? E você não se demonstra muito confiável psicologicamente, visto suas ultimas relações.
— Isso é verdade – responde sorrindo. Eu seguro a sua mão e o puxo até a vista na montanha.
— Vamos logo. Antes que fique muito tarde.
Subimos uma pequena trilha de uns quinze minutos até chegar em um horizonte com um daqueles binóculos, um porta-livros usado e um banco de madeira. Também tinha uma maquina de refrigerante. A gente se apoia na barra de proteção e ficamos encarando a lua cheia em silêncio por um longo tempo. Exausta desse marasmo, eu puxo assunto.
— Então... Porque me chamou aqui? Sei que queria me ver, mas...
— Eu estava conversando com o Kayo em casa antes da ligação e eu percebi uma coisa.
— O que foi?
— Todos nós fomos infantis desde o início. Criamos um escapismo neste lugar, pensando que nossos problemas fossem desaparecer em um piscar de olhos. Escolhemos ignorar nossos próprios defeitos ao invés de nos aperfeiçoar como pessoas. O Kayo foi até sua professora e enfrentou seu passado, mas ele se deu conta que só estava sendo um adolescente mimado todo este tempo. Eu agi feito um idiota por não ter percebido o que a Annie sentia por mim e ter escolhido a Karine. Eu nunca disse pro Kayo como ele é importante pra mim.
— E porque não diz logo? Você me chamou aqui para o que então?
— Eu quero entender você antes.
— Me entender?
— Sim. Porque ficou na minha cabeça no dia do cinema, quando eu vi a sua foto e no dia do restaurante?
— Você deve estar apaixonado por mim. Eu sei, sou irresistível mesmo. Acho que é o.... quarto que morre de amores por mim nessa história – ele cai na gargalhada. Fofo.
— Eu queria ser assim como você. Tão única e divertida. Bem humorada e carinhosa. São tantas qualidades que eu entendo o porque de tanta gente se apaixonar. Mas no meu caso, não acho que seja isso.
— Puxa, obrigada pelos elogios, Roy. Se não é paixão, o que é?
Ele se afasta das barras e olha para o céu.
— Eu costumava encarar as estrelas por muito tempo em busca de algum sinal que me pudesse dizer...
— Dizer o que?
— Se era capaz de existir alguém que me adicionasse algo de verdade. Que não fosse algo raso e sem sentido. Alguém que me compreendesse e me respeitasse, mas não como obrigação, mas pela sua índole. Eu achava isso impossível, mas eu conheci você. O Kayo também é assim. Vocês dois são as pessoas que eu mais amo neste mundo. Eu percebi isso estes dias pensando em tudo. Porque eu não te conheci antes? Parece que tudo foi preparado para este momento. Agora estamos aqui frente a frente. Não é incrível? – Eu já tinha ouvido essas palavras em algum lugar. Não me eram nada estranhas...
— Roy... essas frases... Você lê uma fanfic chamada AngelPain?
Ele sorri e esconde o rosto. Meu senhor, como um ser consegue ser tão fofo?
— Então você é minha grande fã?
— Ai que vergonha! Você sabe meu lado mais obscuro, que nem minha irmãzinha conhece. Terei que te jogar dessa colina agora mesmo. Adeus – brinco
— Você salvou a minha vida e agora quer tirar ela de mim?
Eu me aproximo dele e aperto sua orelha.
— Sua vida não é mais sua. É minha e do Kayo também. Agora estamos aqui com você. Para sempre que precisar e quando não precisar também. Não precisa mais ter medo. Não precisa mais chorar sozinho. Não tenha mais nada a temer. Estamos aqui do seu lado. Eu vou cuidar de você agora, meu anjo caído.
— Cuidaremos um do outro. E usar uma frase da minha história contra mim é golpe sujo.
— Você que começou, bocó.
Tocamos nossas mãos e aproximamos nossos rostos. Meu nariz recosta no dele e fechamos os olhos em sincronia. Eu ponho meus braços entrelaçados em seu pescoço, os apoiando em seus ombros pequenos. Sorrimos um para o outro.
— Quando minha família não tinha nada, sua história foi meu grande escape. Eu a lia e relia a todo momento. Um anjo expulso do seu lar e tendo que cuidar de sua irmã mais nova após perder seus poderes. Ela era muito forte e determinada. Matou humanos para dar de comer a sua irmã, que apenas se alimentava do mesmo. Era a sua maldição. Eu me dei conta que ao mesmo tempo que eu passava por um momento difícil, existia pessoas que estavam em situação muito pior. Aquilo me ajudou muito a crescer e ser mais forte. Foi graças a você também. Eu sempre pensava em como eu gostaria de agradecer a essa pessoa maravilhosa que respondia meus comentários de uma forma tão atenciosa. Eu escondia esse sentimento dentro de mim, por parecer muito bobo. Tinha uma barreira entre nós, que finalmente foi quebrada. E eu me apaixonei por você mais uma vez. Não pelo Tenshi22, mas pelo Roy Tsukimu. O Roy que deu um melhor amigo para o Kayo. O mesmo que deu conforto e atenção para a Annie. O que deu uma segunda chance para a Karine, mesmo ela não tendo aproveitado devidamente. Aquele que pensa sempre nos outros acima de si, mas em excesso isso pode fazer muito mal. Este Roy que eu vi tão pouco, me fez desejar ver mais e mais dele.
O jeito que ele tocava o meu rosto, me faz querer me perder ainda mais nesses sentimentos tão distintos que se passavam em minha cabeça. Eu quero beija-lo, mas eu nunca fiz isso com um garoto antes. Eu estou muito nervosa. Enquanto ele me encara de uma maneira tão doce, sem dizer uma palavra sequer, fazia tudo parecer tão simples...
— Misa, eu acho que estou gostando de você. Parece muito repentino, mas sinto que é de verdade. Não quero que nada seja às pressas. Somos jovens ainda e passamos por muitas coisas.
— E vamos passar juntos a partir de agora.
— Eu sei disso. Só quero que saiba que, assim como com a Hina e o Kayo, apenas estar perto de você, já é o suficiente.
— Mas você não quer um tratamento diferente deles? – ele franze o rosto confuso.
— Como assim? – Eu o puxo em direção aos meus lábios e enfim nos beijamos. Eu sentia sua pulsação em meio aos toques entre nossos rostos. Depois de longos minutos, nossos lábios se afastaram, ainda relutantes, pois queríamos continuar por horas assim. Entrelaçando nossas mãos e sorrindo envergonhados para o outro, eu sentia que tudo dali para frente seria algo novo e diferente. Eu pude encontrar a minha metade, no meio do meu caminho. Na fase mais perturbadora e problemática do ser humano. Em meio a tantas galáxias e em um universo tão vasto, eu estava bem em frente com a minha metade. Nos encontramos na ponte e iremos cruzar o outro lado, mas de forma segura.
— O Kayo vai me matar!
After: Can You Meet Me Halfway?
Ah. O clima das montanhas... Como eu adoro este tipo de lugar... Eu me sinto tão vivo! O contato com a natureza rejuvenesce o ser humano, não acha? Sinto que mesmo em um momento de reencontro e confraternização como este, eu não estou nada nervoso. Este ar puro e límpido acalenta os corações.
— Kayo, para de viajar e liga logo essa fogueira.
— Já vou, Annie. Que saco. Me deixa filosofar em paz.
— Não estou afim de ouvir suas maluquices. E cadê aqueles dois? Já deram notícia?
— Disseram que ficaram presos no trânsito, mas já estão chegando. – responde Maria.
— Deixe os dois pombinhos para depois. Eles devem estar se esgoelando pela mata agora – respondo com uma risada maligna.
— Pare de ser tão nojento e desnecessário, seu imbecil! – responde Meiko.
Aliás, Meiko é amiga da Annie que não sei porque apareceu aqui. Eu a odeio, mas ninguém sabe que temos um caso secreto por ai. Exceto a Maria. Minha situação amorosa se tornou muito complicada desde que fiquei famoso. Hina estava ao fundo brincando com os esquilos.
—Pode me ajudar aqui? – pergunto para ela, enquanto separo uns troncos.
— Ah, claro! Estou indo – diz Hina com seu sorriso fofo de sempre.
— Mas é impressionante: Depois de seis anos, estes dois ainda não assumiram o namoro?
— Está falando de quem, Meiko? – pergunto.
— Do Roy e da Misa, claro. De você que não seria, já que montou um verdadeiro harem entre nós quatro.
— Mas que absurdo! Isso é coisa que se diga com a Maria aqui entre nós?
— Eu quero que ela e você se...
— Chegamos! – exclamam meus melhores amigos.
— Finalmente! Saíram as pressas do motel? – pergunto para os dois pombinhos atrasados.
— Que motel?
— Esquece esse babaca, Roy. Estou tão feliz de ver vocês! Quanto tempo se passou? – Misa estava sempre um espetáculo.
— Estamos em 2020, né? Faz uns 5 ou 6 anos por ai. – responde Maria.
— Absurdo! Vocês mudaram tanto... Quase nada. Até o Kayo continua um safado galinha nojento!
— Eu também te amo, Misa.
— Espero que não tenha encostado um dedo sequer na minha Hina, ouviu? – diz Misa agarrando o chaveirinho Hina.
— Não, Misa! Eu não deixei ele fazer nada comigo, não até ele decidir com quem ele quer ficar.
— Kayo! Ainda está no seu pseudo-harem? Seu desprezível!
— Eu tenho minhas justificativas.
— Que são todas inválidas.
— Roy, me defende.
— Eu não. Se case com a Hina. Ai eu te defendo.
— Mas ela gosta mais de mulheres.
— Bem, estamos falando de você Kayo. O exemplo mais traumático de um homem para uma mulher bissexual.
— Vocês me odeiam. Tenho certeza disso.
Maria acena com o braço com um sorriso no rosto.
— Certo, gente. Já esta tudo pronto! Vamos tirar uma foto juntos e começar a comer!
— Ótima ideia! – respondo
— Vocês não mudaram nada...
— E isso não é bom? – indago o Roy.
— Pelo contrário . Eu me sinto em casa. E vocês são a minha família.
— Eu estava com saudades, cara! Agora que estou na NBA, o tempo é quase nulo pra mim.
— Eu também estou me esforçando como posso na faculdade. Tenho pena da Hina ter que te suportar.
— Ela é uma boa empresária. Muito dedicada e séria. Talvez por isso nunca tivemos nada. Não consigo misturar as coisas. Muito menos ela.
— Se você falhasse com ela a Misa te mataria.
— E eu não quero morrer tão jovem! Mas, falando na Misa, como estão os dois pombinhos?
— Estamos nos conhecendo ainda.
— Seis anos, Roy. Ninguém leva isso tudo pra conhecer o outro.
— Estamos juntos, mas não é nada rotulado. Decidimos agir livremente como nossos corações decidirem. Assim fica tudo mais leve para ambos.
— Parece fugir de uma responsabilidade de algo sério.
— Vai por mim, é melhor desse jeito. O importante é que a gente se ama.
— Falando em amor, vocês já...
— Ei, vocês dois! Vem logo! – exclama a Misa, interrompendo a revelação.
— Escapou na curva, hein?
— Do que está falando, Kayo? – desconversa o safado.
— Sonso.
Nos aproximamos da mesinha de madeira que eu trouxe no carro e o banquete já estava devidamente pronto. Sentamos, conversamos e comemos. Tudo estava em paz. Roy disse que visitou o túmulo da Karine antes de vir aqui e parecia que tudo havia se superado. Agora só nos resta continuar vivendo juntos. Ainda tem conflitos que não resolvemos ainda, mas tudo tem o seu tempo. Apenas estamos nos respeitando agora. Quando for o momento, vamos resolver tudo. Eu só quero me divertir com eles e aproveitar esse momento. Bem, é isso.
— Kayo, as vezes eu me pergunto: se a gente tivesse se beijado naquele armazém, acho que nada disso teria acontecido – comenta Misa com a mão apoiada no queixo. Tão linda.
— Efeito borboleta no final do capítulo? – comenta Annie.
— Mas a vida se resume a isso, certo? É divertido imaginar todas as possibilidades que se passaram – responde Misa.
— Pode soar ambíguo da minha parte, mas que bom que vocês não se beijaram. Eu não teria os conhecido – diz Roy.
— Todos os males tem um propósito. É o que aprendemos com o tempo – define Maria.
— E fui tudo isso que nos conectou – completo.
— Agora, chega de filosofia. Vai começar os fogos!
O céu estrelado salta em nossos olhos em meio as explosões dos fogos de artifício. Nos iluminando naquele brilho, contemplamos o valor da vida e da amizade de quem está sempre ao nosso lado. No fim de tudo, apenas o pouco que temos é o que realmente importa. Sendo feliz com isso, podemos conseguir tudo.
— Obrigado por tudo até aqui, amigos! Por hoje e sempre, para sempre.
Fim.
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