A Mesma Sensação
6 Minha marca
Notas iniciais
Aproveitem, comentem bastante e me ajudem a voltar a me ligar à A mesma sensação como eu estava ligada no começo❤️
Amo vocês e toda a interação que sempre trazem nessa e em minhas outras histórias. Desfrutem.
***
O som dos firmes e seguros passos da estilista sobre aqueles saltos ecoavam pelos corredores da Casa Victoria como se ela nunca tivesse perdido seu poder ao ser destituída pelos executivos atendendo à uma exigência de sua própria filha enraivecida. Ela sentia toda a hesitação que havia passado três meses obedecendo, mas agora sua segurança e autoconfiança insistiam em finalmente explodir como um vulcão adormecido.
Ela havia se despedido de Antonieta pouco tempo antes naquele café ficado ali um pouco mais juntando confiança para, finalmente, enfrentar àqueles que, sem piedade, haviam lhe arrancado o que ela mais amava em sua vida: o controle da empresa que havia se esforçado tanto em construir. Parou diante da elegante sala de reunião e suspirou com a mão em seu ventre antes de entrar.
— Você vai me dar forças, bebê! — Sussurrou baixinho.
Quando abriu a porta e encarou aquela mesa, não podia se sentir mais decepcionada. Quase 90% das pessoas que ocupavam um lugar ali, eram homens, a empresa da qual ela tanto havia se orgulhado em dirigir com mão de ferro e muita competência havia perdido praticamente toda a identidade pautada na força feminina pela qual ela tanto lutava.
Apesar da impetuosa jovem Fernanda ocupar a cadeira da presidência que, por tanto tempo havia pertencido unicamente à ela era visível que o controle não a pertencia efetivamente, que sua juventude pesava muito na hora de se impor e não permitir que a manipulassem na tomada de decisões.
— Podemos começar! — Afirmou Victoria sentando-se na cadeira que ficava na outra ponta da mesa na frente de Fernanda. Ela encarou a filha com firmeza com a clara intenção de mostrar para ela que ela não estava derrotada, os dados ainda estavam rolando.
— Bom, como representante de todos os acionistas, em vista dos últimos acontecimentos, eu sugiro a manutenção do afastamento de Victoria Sandoval bem como a permanência de Fernanda Sandoval na cadeira da presidência da Casa de Modas Victoria. — Disse Honório Monteiro, pai de Bianca e o segundo maior acionista da casa de modas, atrás apenas de Victoria.
Todos os acionistas e diretores assentiram com a cabeça e Fernanda sorriu com um certo alívio. Victoria também sorriu com sarcasmo e não se deixou intimidar pela clara intenção de pressioná-la que agora ela podia facilmente identificar em seu sócio e em todos os diretores, alguns dos quais ela nem sequer havia nomeado, haviam ascendido graças à gestão de Fernanda.
— Primeiro vocês me afastaram por causa do processo policial que investiga a morte de Osvaldo. Logo porque eu precisava de calma para lidar com todos os acontecimentos em minha vida e, por fim, descaradamente, utilizaram a lesão em minha mão para não só manterem meu afastamento da presidência como me afastarem até mesmo do processo de criação dos modelos da próxima coleção. Da minha própria empresa! — Levantou a voz.
— Veja bem, Victoria, não é bom para a Casa de Modas ter seu nome associado a uma investigada por assassinato. — Honório insistiu na defesa de seu ponto de vista. Conhecia Victoria e sabia que aquilo ia se colocar duro, havia estranhado que até aquele momento ela ainda não havia reagido com sua força característica.
— Ah, não? Então porque ela permanece tendo meu nome? Porque esta empresa pode ter uma gama de acionistas, ainda que eu seja a sócia majoritária, mas a marca Victoria Sandoval tem uma única dona. E sou eu! — Afirmou ela sem se intimidar. — Meu nome já foi praticamente descartado como suspeita da morte de Osvaldo, não encontraram provas contra mim, esse laudo que vocês nem sequer se dignaram a olhar deixa claro que minha mão está em perfeitas condições para criar modelos para essa empresa.
— Por favor! — Fernanda se manifestou irracional. — O que estamos fazendo é salvar a Casa Victoria de você e da destruição que você provoca.
— Eu sinto muito se você acredita nas mentiras que esses acionistas dizem a você, minha filha, mas, sem meu nome, essa casa de modas vai deixar de dar lucro em questão de poucos meses. Eu estou falando muito sério. Ou vocês me devolvem o que me pertence ou eu vou desvincular meu nome dessa empresa e vocês vão ter que fazer um grande esforço para que ela permaneça sendo lucrativa sem nada que a ligue a mim, nem mesmo meu nome envolvido em uma investigação por assassinato!
O silêncio na mesa e a decepção nos rostos de todos aqueles homens era abissal. Fernanda se desesperou ao se dar conta de que a mãe não estava mais paralisada por suas acusações e chantagens e a estava enfrentando de frente. Como ela nunca esperou que ela fizesse.
— Eu... — Disse Fernanda quase gaguejando. — Eu gostaria de pedir licença aos senhores para falar um minuto sozinha com... minha mãe. Podemos? — Ela dirigiu seu olhar ao rosto de Victoria que aceitou assentindo.
Se retiraram da sala de reuniões e se dirigiram à sala da presidência de onde Fernanda já tinha chegado até a mudar a decoração. Se encararam às voltas com dores, mágoas e intensos sentimentos represados de uma complexa relação de mãe e filha finalmente começando a ser postos em xeque.
— Agora você se digna a falar comigo? — Indagou Victoria magoada. — Porque desde o dia da morte de seu pai que você saiu da minha casa eu tenho tentado falar com você. E, nesses três meses, só tenho recebido recusas e até ameaças como você fez chegar até mim hoje de manhã por Antonieta.
— A polícia acredita que você... — Tentou se justificar, mas foi interrompida.
— A polícia me interrogou, questionou meu álibi, quis saber sobre a discussão que eu tive com seu pai poucos dias antes da morte dele naquele café, mas só isso. — Explicou Victoria com calma. No fundo se sentia satisfeita por, finalmente, estar conversando abertamente com sua filha. — Eu nunca fui presa, a polícia não ofereceu denúncia contra mim e, muito menos, me acusou explicitamente de matar Osvaldo. Eu não o matei, Fernanda. Você sabe que eu não o matei então por que está fazendo isso comigo?
— Você o destruiu! O levou para a morte com sua empáfia e a riqueza que adquiriu com esta maldita empresa que tanto quer de volta! — Gritou. — Você se separou dele, se envolveu com outro homem com quem ia se casar e o deixou na miséria! Você! Ele morreu por sua causa! — Acusou implacável.
— Ah, sim? E a pessoa que puxou o gatilho? — Indagou Victoria com lágrimas nos olhos. — Porque enquanto você gasta seu tempo defendendo a honra de seu pai que nunca soube administrar bem o próprio dinheiro por isso tentou conseguir o meu através de chantagem e de você, a pessoa que atirou em seu pai está solta por aí. Pode estar próxima de você e você nem mesmo estar se dando conta.
— Eu não acredito no seu álibi. — Ela disse também emocionada.
— A polícia acreditou. — Victoria se manteve firme. — Minha maior inimiga confirmou. Eu estava aqui, na Casa de Modas com Bernarda e Heriberto no horário em que seu pai foi morto do outro lado da cidade.
— Eu nunca vou te perdoar se você me tirar da presidência. — Voltou a ameaçá-la — Se você me tirar da presidência, você terá de volta sua empresa, mas perderá sua filha para sempre.
— Fique com a presidência. — Cedeu Victoria. — Mas me devolva o controle do processo de criação. Vocês afastaram até mesmo o Pipino e tiraram completamente a identidade dos modelos desenhados aqui. Eu não vou permitir que meu nome esteja em uma marca que coloque no mercado as porcarias que vocês estão produzindo nesses últimos meses. Se eu não voltar a ser diretora de criação da empresa você precisará encontrar outro nome para sua marca, Fernanda.
— Está bem. — Fernanda aceitou. — Você pode voltar a ser a diretora de produção, mas tenha claro que eu sou a presidente da empresa e responsável por todo o setor administrativo.
Victoria sorriu porque, ainda que houvesse tido que batalhar, aquela pequena vitória representava uma aproximação, ainda que tímida, de sua filha. Estaria por perto e, assim, poderia protegê-la e recuperar sua relação além de trabalhar de novo com o que tanto amava.
***
— Você não podia ter cedido! — Disse Pedro horas depois sozinho na sala da presidência com Fer.
— Ou era isso, ou era a falência da Casa Victoria e eu não quero isso. Minha mãe tem razão, sem a marca dela, nossas peças perdem completamente seu valor, Pedro. — Explicou Fernanda.
— Ainda assim. Victoria não podia voltar para a casa de modas, Fer. Ela não pode recuperar o controle da empresa, não pode! — Ele se alterou ao imaginar a decepção de Bernarda.
— Por quê? Por que te interessa tanto manter minha mãe longe do controle de sua própria empresa? — Indagou Fernanda desconfiada.
— Por... você! — Ele disse com um falso sorriso aproximando-se dela para beijá-la. — Essa empresa é a sua cara, não a dela. Você é muito melhor do que ela, meu amor.
— Isso não é verdade. — Reconheceu Fernanda. — Sou uma amadora e minha mãe domina com excelência esse ramo. Mas, se depender de mim, Victoria Sandoval jamais vai voltar à presidência da Casa Victoria. Ela é culpada pela morte do meu pai e, se a justiça não a castiga como se deve, eu vou fazê-lo onde eu sei que tanto lhe dói.
— Fer... — Pedro disse com os olhos brilhando depois de ter uma ideia. — E se você tirar a marca de sua mãe? E se você enganá-la para que ela passe para você a posse da patente do nome Victoria Sandoval? Se você fizer isso, sua mãe perde tudo, inclusive seu nome de estilista famosa que lhe é tão caro.
***
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