Notas iniciais
Boa leitura (e bom final de quinta~)

O moreno olhava para os lados, em desespero. Ao seu redor, chamas negras consumiam tudo e todos, sem dó, em um alto ruído e extrema violência. Não sabia por que, mas corria. Corria como se tudo dependesse disso. Corria a ponto de sentir ânsias de cuspir seu pulmão e seus músculos doerem.

As chamas não o consumiam, nem ao menos lhe tocavam, então não entendia porque tanta angústia, necessidade, de chegar a algum lugar. As imagens eram disformes e o calor insuportável. Podia até mesmo sentir seu suor escorrendo por suas costas. Quando parou para respirar, apoiando as mãos nos joelhos e puxando a maior quantidade de ar que conseguia por entre os lábios entreabertos, ouviu uma risada. Uma risada grave e repleta de sarcasmo.

-Fraco. – A voz murmurou, mas nos ouvidos dele pareceram gritos infindáveis. – Você precisa do meu poder. Necessita da força que posso proporcionar. – Ela parou, por instantes. – Por que fugir, então?

Cerrou os olhos e trincou os dentes com força. – Não estou fugindo! – Bradou, sua voz mais rouca do que esperava.

Outra pequena risada. – Parece que está com problemas. O que te incomoda, Sieghart? – O moreno virou-se, esticando a coluna para enfrentar a voz. Seus olhos fixos cravados na própria silhueta.

O imortal se estendia contra ele mesmo. Um mantendo-se ofegante e o outro com um sorriso macabro brindando seu rosto, os cabelos negros refletindo a luz arroxeada que aquele poder criava, estreitou os olhos.

-Você é fraco. Você é a parte fraca de mim. – O sorriso, se possível, alastrou-se mais. – Eu não preciso de você. – Aquelas palavras o feriram como milhares de adagas. – Você é só minha parte humana inútil.

Inútil.

Era precisamente o que se sentia no momento. Sieghart cedeu, ajoelhando-se na terra batida repleta de cinzas e brasas. O calor fazendo-o suar e ofegar, tentando manter-se em sua sã consciência naquele ambiente.

Seu outro eu já havia sido consumido pelas chamas, agora se exibia apenas com seu olhar maníaco e sorriso distorcido. – Admita, você é um fraco. Grite, clame pelo meu poder e o que ele pode proporcionar!

Ele quis gritar. Quis deixar toda a angústia extravasar garganta a fora. Quis ceder àquele poder. Mas apenas armou-se de seu melhor sorriso. – Eu não preciso disso. – Gemeu e, por mais que estivesse ajoelhado, encarou a figura feita de chamas com sua altivez normal. – Eu não quero me tornar você.

-Chame por mim! Clame por mim! – Ela continuava gritando, o fogo se expandindo conforme seu tom ficava mais e mais alto. O calor começou a se tornar insuportável, criando várias bolhas por toda a extensão de sua pele.

-Sieg. – Dessa vez foi outra voz que o chamou e, antes que pudesse se virar para tentar reconhecer a outra forma por entre todo aquele fogareiro desumano, foi envolvido em um abraço carinhoso. – Sieghart, acorde.

-

Sentou-se na cama, puxando o ar para os pulmões de uma só vez. Tinha os olhos arregalados e a pele suada, na cama ao lado a ruiva o fitava com olhos preocupados, ela ainda tinha os braços estendidos, mas rapidamente os recuou, envergonhada. Quando conseguiu normalizar a respiração descansou a cabeça contra as mãos. O que tinha sido aquilo? Já tivera esse pesadelo diversas vezes, um alter ego mandando-o clamar por um poder que conhecia. Que sabia qual era. Que sabia que não conseguiria controlar, mas nunca tão vívido.

Podia sentir o calor ainda consumir seu corpo, bem como a adrenalina e a angústia martelarem seu peito. Sentia vontade de chorar, por algum motivo. Respirou fundo. – O que há com essa cara de preocupada ruivinha? – Resmungou, engolindo em seco. Parecia que tinha tomado baldes de areia e sua garganta arranhava. Ainda assim forçou um sorriso.

-Você parecia encurralado. – Ela murmurou, coçando os olhos sonolentos enquanto ainda observava o rosto suado do mais velho. – Contrariado, para falar a verdade. – Ela pausou e ficou ainda mais um tempo somente o observando. Ele passou a mão pela testa, retirando os fios negros que ficaram grudados na pele. – O que sonhou?

Sieghart sentiu ímpetos de mentir. Como nunca antes. Então apenas se ergueu. – Volte a dormir, vou tomar um banho. – E se direcionou ao banheiro do quarto do estaleiro. Ele pôde ouvir o suspiro que a garota soltou.

-Idiota. – Murmurou quando se viu sozinho no banheiro. Ouviu risadas dentro de sua mente. – Você tinha mesmo que falhar justo em uma coisa importante como aquela. – E soltou um murmúrio enfadado e se desnudou para o banho.

Você sempre falha nas coisas mais importantes. Você sabe que nunca vai conseguir me controlar.

-

O dia seguinte começou junto com o raiar do sol. O imortal, que não conseguira dormir durante toda à noite, já tinha as bolsas arrumadas e sua estadia paga, esperava só a ruiva acordar para partirem. Talvez andar um pouco e gastar energia o suficiente lhe fizesse conseguir dormir pesado na próxima noite, evitando sonhos desagradáveis.

Quando eu me tornei desagradável? Costumávamos a rir juntos. Ele se mandou calar a boca. Não queria admitir que estivesse gerando outra personalidade. Talvez pela vivência, mas não queria acreditar que fosse pela loucura. Suspirou.

-Nee, Sieghart. – A voz fina fez todos os músculos de suas costas se tencionarem. Estava de costas para a ruiva e isso o obrigou a olhar por cima do ombro para vê-la ajeitando o blusão que usara para dormir enquanto se erguia. – O que há com você?

Ele engoliu seco e forçou um sorriso. – Sobre o que está falando? – Antes que ele pudesse continuar, a ruiva o interrompeu.

-Estou falando a respeito da maneira que você acordou noite passada. De você não ter pregado o olho depois daquilo, mesmo sendo um preguiçoso incurável. Do jeito que seu silêncio, nesse momento, parece tenso. De como essa ruga vai ficar marcada no meio da sua testa se continuar com essa feição preocupada. – Ela suspirou. – Eu entendo que não queira falar sobre seu passado, eu já pude reparar que você não tem a mínima intenção de me contar nada ao seu respeito, por isso desisti de perguntar, assim como tantas outras cosias que eu sei que você não quer falar, mas eu estou presenciando isso. E por presenciar isso acho que me diz respeito, vendo que não só é meu companheiro de viagem como é meu tutor, não é mesmo?

Sieghart deixou o sorriso morrer. – É, é mesmo. – Concordou, mas se manteve em silêncio. Ela suspirou outra vez.

-Tudo bem, você também não quer falar sobre isso. – Deu de ombros e passou por ele, dirigindo-se ao banheiro com uma muda de roupas. O moreno não pode conter um olhar para as coxas nuas dela. – Quando estiver preparado, estarei aqui para ouvir.

E se fechou no banheiro. O moreno colocou as mãos nos bolsos e estalou a língua, meio bravo. – Não me trate como uma criança, pirralha. – Murmurou, mas conteve um suspiro. Juntou ambas as bolsas de viagem e a highlander, que pareceu reclamar seu toque, mas ignorou. Deixou a arma da ruiva para trás. – Estou lá embaixo procurando uma refeição para depois partirmos. Não demore.

-Certo! – Respondeu de dentro do banheiro, abrindo uma fresta para jogar o camisão no moreno e voltar para se trocar. Sieghart girou os olhos, mas não pode deixar de sorrir enquanto pegava o tecido branco do chão e colocando de qualquer maneira dentro da bolsa dela, saindo do quarto e batendo a porta na saída.

Quando a ruiva ouviu o baque da porta girou os olhos, irritada, e fungou, vestindo a blusa vermelha de algodão por cima da saia azul, que atingia quase seus joelhos, de fibras resistentes. Sieghart não conseguiria escapar sem informações por muito mais tempo. Tinha alguma coisa que ele está escondendo que parecia ser sério e se era tão sério quando supunha e envolvia o moreno misterioso, certamente interessava a ela. Enquanto pensava, ergueu o cabelo trançado em um círculo e amarrou a ponta no início da trança. – Ele não me escapa! – Murmurou, batendo o punho fechado na palma da outra mão, depois saindo do banheiro e juntando os poucos pedaços de sua armadura, ajustando-a no corpo.

Era, somente, o peitoral, ombreiras e proteção para os braços – porque havia discutido horas com Sieghart dizendo que não queria, nem fazia questão, de uma armadura completa. Ele mesmo não usava! – feitos de cobre. Era leve, apesar de maleável, e não muito resistente, mas aguentaria um ou dois golpes. Pegou sua espada e a prendeu ao redor da cintura, pegando a chave do quarto e se retirando logo depois, trancando o local.

-Ah, bom dia. – A voz masculina cumprimentou, a ruiva procurou a fonte com o olhar, encontrando o rapaz de cabelos, presos caprichosamente em um rabo de cavalo, azuis. Ele, aparentemente, também trancava a porta do quarto, carregando sua armadura branca azulada completa, um gládio e duas mochilas aparentemente pesadas. – Posso acompanha-la até o salão de refeições? – Ofereceu-se, cavalheiro.

Ela riu e girou a chave no dedo, apoiando uma das mãos na cintura. – Se isso é algum tipo de cantada, pode tirar seu cavalo da chuva.

O rapaz riu. – Desculpe, são normas da guarda real sempre oferecer companhia para uma dama. Mesmo que seja uma dama guerreira.

-Guarda real? – Ela aproximou-se e ofereceu-se para ajuda-lo com as bolsas. Aparentemente ele não conseguia girar a chave e equilibrá-las nos ombros. Puxou a alça de uma delas e colocou sobre seu ombro direito. – De onde?

Ele sorriu. – Me ofereço para ajuda-la e acabo sendo ajudado. – Ele girou os olhos diante da própria incompetência, porém divertindo-se, e trancou a porta, ajeitando a alça sobre a armadura e iniciando uma caminhada ao lado da garota. – Sou Ronan Erudon, da guarda real de Canaban.

Elesis assobiou, impressionada. – Você parece novo para esse cargo. Se não me engano os Erudon eram uma família nobre de Canaban, não é?

-Sou o último integrante dos Erudon. Mas você conhece Canaban? – Ele ergueu uma sobrancelha, a ruiva começou a descer os degraus enquanto o azulado mantinha-se atrás dela. – É bem longe de Ellia e você parece nativa daqui.

-Nativa daqui?

-O sotaque. – Ele explicou, erguendo os ombros encabulado. Elesis riu.

-Ah. Já faz muitos anos que vivo por aqui. Sou Elesis, nasci e morei em Canaban até meus oito anos, ou coisa assim. – Parou os passos, virando-se e estendendo a mão para um cumprimento.

Ronan sorriu. – Só Elesis? – Murmurou, apertando a mão estendida e ela retribuiu o sorriso.

-Só Elesis. – Deu de ombros e soltou-se do aperto, continuando a descer as escadas. Ronan a acompanhou, ambos compartilhando um silencio agradável até a ruiva voltar a se pronunciar. – Desculpa a intromissão, mas... O que um guarda real de Canaban faz em Ellia? Sozinho, quero dizer.

-Ah. Não estou sozinho. – Ele deu de ombros. – Sou um dos membros da Grand Chase. – Ela manteve-se em silencio por mais um tempo, pensativa. Ele sorriu. – O que? Esse título é tão impressionante que te deixa sem palavras?

Ela riu. Uma gargalhada gostosa. – Estava pensando. A proposta da criação da Grand Chase é a morte de Cazeaje, não é?

Ele inclinou a cabeça, pensativo. A ruiva não pode deixar de notar a cabeleira azul que repetiu o movimento. – É e não é. Na verdade a proposta da Grand Chase é a paz mundial. Mas começamos por baixo que é, justamente, impedir Cazeaje. Por que o interesse? Pensa em se juntar a nós?

Imediatamente ela negou. Não se juntaria a nada que o moreno não fosse com ela. E ele havia deixado bem claro sua repulsa pela ideia. – Não, só estava pensando que, provavelmente, ainda iremos nos cruzar pela frente. Afinal de contas, a proposta do S... – Pausou e soltou um sorriso sem graça, lembrando-se, também, da recomendação de não tocar no nome dele em momento algum. – Do meu companheiro de viagem, também é o extermínio daquela bruxa esquálida.

Ronan estranhou a falta do nome, mas acabou rindo do adjetivo. – Entendo. Bom, aqui estamos. – Sorriu, indicando com a cabeça para o salão. De longe a ruiva identificou os orbes prateados que fuzilavam a figura que lhe acompanhava. – Foi uma boa conversa.

-Uma ótima conversa. Agradeço pela companhia. – Sorriu e jogou a bolsa sobre o guerreiro, que a pegou pela alça, apoiando-a no outro ombro. Acenou e foi na direção do moreno, que parecia emburrado. Ronan ainda passou um tempo analisando ambos, cismado que talvez conhecesse aquela energia de algum lugar, mas deixou de lado e foi para a mesa onde estavam seus companheiros de viagem.

Riu de sua própria piada.

-

O moreno girou os olhos.

-Quem era o seu amiguinho? – Comentou jocoso. Elesis olhou-o de canto e deu de ombros. Depois se jogando de qualquer maneira sobre a cadeira do outro lado da mesa.

-Ronan Erudon. – O imortal gelou por alguns instantes. O que um Erudon fazia ali? Ela continuou a explicação. – Ele faz parte da Grand Chase.

-Ah. – Sibilou, somente, dando por encerrado o assunto. – Consegui pedir uma comida descente, vão trazer na mesa.

Ela ignorou-o. – Por que tanta precaução sobre a grande caçada? A mínima menção do grupo faz você mudar de assunto automaticamente.

-Não estou mudando de assunto. Estou voltando ao assunto que deixei inacabado quando deixei o quarto. – Seu tom era mal-humorado, enquanto mexia com uma bugiganga qualquer sobre a mesa.

-Na verdade o assunto inacabado de lá era justamente você não me contar nada.

O moreno mordeu sua própria língua. – Isso não vem ao caso.

-Não, claro que não. Só vem ao caso quando você quer falar sobre isso. – Ela elevou o tom de voz, irritada.

O moreno girou os olhos. – Pare de fazer escândalo criança, falarei quando puder falar. Eu prometi isso a você.

Elesis bateu o punho na mesa, chamando a atenção das pessoas ao redor. – E quando vai ser o seu quando?

-Quando eu puder, ruiva! – Respondeu, no mesmo tom, erguendo-se. – E se te incomoda tanto assim a falta de informações, vá embora!

-Talvez eu vá mesmo!

-Não tem nada te prendendo aqui!

-Não tem mesmo! – Ele acompanhou com o olhar a ruiva pegar sua bolsa e se erguer, saindo do salão. Sieghart voltou a se sentar enquanto a moça chegava com a comida. O silencio no lugar era sepulcral e ele se mantinha quieto, observando a paisagem pela janela.

O que é isso Sieghart, não consegue se garantir? Isso tudo é ciúmes de uma garotinha? A voz parecia jocosa, ele franziu o cenho, incomodado. – Parece que vai ser só uma refeição, então. – A moça tentou ser simpática. – Quer que eu embrulhe o pão e os queijos da outra?

-Faça o que quiser. – Resmungou com o olhar cortante. Ela retirou-se silenciosa.

O grande imortal com ciúmes de uma garotinha! Quem diria. Sieghart resmungou um cale a boca, ergueu-se e devolveu a chave, assim como pagou pela estadia e refeição não feita, retirando-se pisando duro. Você sabe que não vou me calar.

-Talvez seja melhor ela ter partido. Assim me livra de vários problemas. – Murmurou, tentando se convencer, enquanto ajeitava a bolsa de qualquer maneira e seguindo para a saída norte da cidade.

Eu concordo. Só eu e você de novo, não é mesmo?

O imortal grunhiu descontente.

Notas finais
Oh well, espero que tenham gostado do capítulo. Prometo que já estou escrevendo o próximo e se minha preguiça & inspiração ajudarem, até sexta - que vem - postarei o próximo, ok ok?
Esse capítulo não foi revisado, erros me avisem, certo?
Beijos beijos~