A Merry Little Christmas
3 Quinta, véspera de natal
Notas iniciais
24 de dezembro de 2020
A festa de natal aquele ano seria na casa de Nana e Mário. Primeiro porque a ideia de comemorar a data sem Alberto ainda não era muito agradável a todos e segundo porque seria muito mais confortável para o casal pais do bebê de cinco meses ficar em casa, onde poderiam colocá-la para dormir, e o que mais precisassem, com mais tranquilidade.
Enquanto Nana estava tomando banho, Mário “terminou” a decoração da casa. Espalhou viscos por todas as passagens que podia e faria questão de passar a noite ao lado da mulher.
Quando Nana ficou pronta, usando um vestido branco longo com uma fenda na perna, ela encontrou Sofia no topo da escada segurando uma Cecília de vestidinho vermelho com um delicado laço dourado nas costas. Ela tinha achado um exagero, mas Mário insistiu em dizer que ela ficaria parecendo o presente que realmente era na vida deles e Sofia logo se animou com a história, concordando. Mariana não teve nem chance de negar, com os dois fazendo aqueles olhos de cachorrinho pidão, mas precisava admitir que sua filha mais nova estava realmente uma graça com a roupa.
― Quer ajuda pra descer com ela, filha? ― Perguntou, recebendo uma negativa de Sofia, que segurava a irmã com muito cuidado, descendo um degrau por vez.
Embora soubesse do senso de responsabilidade que sua filha mais velha possuía mesmo sendo ainda tão criança, não podia deixar de ter cautela e acompanhou as duas de perto, prestando atenção em cada passo, até o último degrau. Sorriu, vendo Sofia continuar a andar com a irmã nos braços, se dirigindo até a sala, e abriu ainda mais o sorriso ao ver o seu poeta se aproximar. Mário pegou-a pela cintura e, puxando-a para perto, depositou um beijo em sua boca. Ao se afastarem, Nana perguntou:
― Oi, meu amor. Por que isso agora?
Mário simplesmente apontou para cima e quando ela inclinou a cabeça para olhar, riu do que viu. Um visco. Mais um. Ah, Mário. Quando olhou para ele, que sorria e estava prestes a falar, a campainha tocou e ele saiu em direção à porta para receber os primeiros convidados.
A noite passou alegre. Todos que compareceram à ceia natalina da família haviam comentado sobre o visco e aproveitado o enfeite, os que não sabiam do que se tratava, descobrindo aquela noite. Antes da ceia, porém, a pequena Cecília havia dormido no colo do pai e já se encontrava no berço. Em um determinado momento, ao saírem da sala de jantar e quase serem atropelados por Peter e Sofia, que passaram quase voando por eles com uma pequena câmera na mão, o casal fez seu caminho até a sala de estar da casa de braços entrelaçados, onde sentaram no sofá e conversaram com os convidados e entre si por um bom tempo, aproveitando o clima especial da data.
Eles haviam trocado seus presentes mais cedo, mas Mário tinha mais uma surpresa especial para Mariana. Levantou e puxou-a pela mão até o cômodo onde ficava a TV. Chegando lá, foi até a estante e pegou um pacote retangular bem embrulhado.
― O que é isso, Mário? ― Nana perguntou, não entendendo de onde ele havia tirado de dar a ela outro presente.
― É só uma coisinha especial que eu queria que você tivesse. Eu mesmo editei. ― Ele estava claramente nervoso e ansioso pela reação dela.
Sem perder tempo, ela desmanchou o embrulho com delicadeza e lançou um sorriso curioso e um pouco ansioso na direção dele antes de olhar o que era. Percebeu que abriu de cabeça para baixo e riu, virando o livro de capa dura nas mãos.
Na capa, o título estava escrito Uma História de Amor e mais embaixo Versão Ilustrada. Ainda sem entender do que se tratava, Mariana abriu o livro e o que leu fez seu coração perder o compasso por um segundo. Poemas de Mário Viana e ilustrações de Mariana Prado Monteiro.
Ela queria repetir sua primeira pergunta, mas não conseguiu fazer com que as palavras saíssem. Mário logo se prontificou a explicar.
― É sobre nós. Desde o primeiro dia em que nos conhecemos. Tem todos os seus desenhos desde criança até os mais recentes que você fez das meninas e nossos. ― A cada palavra os olhos de Nana acumulavam mais lágrimas querendo cair. Ele passou as páginas e apontou, mostrando do que falava. ― Para cada um tem um poema meu. Antigos e novos. Sobre vocês, elas, nós. ― Ele também não conseguia mais controlar a emoção.
O rosto de Nana agora estava manchado de lágrimas e quando ela olhou para Mário, tirando os olhos do livro feito com tanto carinho, sua visão tornou a ficar embaçada por elas. A quantidade de amor que ela sentia por aquele poeta bobo, o seu poeta sem cabeça, era impossível de descrever e ela sabia que ele a amava da mesma maneira. Ele fazia questão de deixar aquilo claro todos os dias, sempre o fizera e algo lhe dizia que não iria parar agora.
― Meu Deus, Mário, você… ― Começou a dizer, mas se viu forçada a parar em meio a uma nova onda de emoção. ― Como? Quando? ― Foi tudo o que conseguiu perguntar, enquanto enxugava o rosto.
Dando de ombros no seu melhor estilo romântico incurável, Mário se explicou. ― Ah, eu sempre guardei os seus desenhos, você sabe, e eu também sempre escrevi poemas sobre nós. Eu encontrei uns mais antigos uns meses atrás e achei que seria uma boa ideia. Aí eu peguei os seus desenhos novos sem você ver e levei pra editora comigo. Ficou pronto essa semana, achei que nem ia dar tempo. ― Riu na última frase, ainda um pouco nervoso, e esperando ela dizer o que tinha achado, tomou coragem e perguntou. ― E aí, gostou?
Nana olhou incrédula para ele. Como poderia não ter gostado?
― Meu amor, ― colocou o livro em cima do braço do sofá e segurou o rosto dele com as duas mãos. ― É claro que eu gostei. Mais ainda, eu amei. ― Um sorriso bobo se formava no rosto do poeta, enquanto ela sorria largo. ― Mário, eu nunca recebi um presente que eu amasse tanto. De verdade.
― Que bom, eu fico muito feliz. ― Disse, contendo as lágrimas que queriam se formar mais uma vez. ― Sabe, eu espalhei esses viscos todos por aí porque eu tava pesquisando e parece que tem alguma coisa a ver com dar sorte, ― deu aquele sorriso que era separado só para ela e continuou. ― E eu sou o homem mais sortudo do mundo desde que eu era só um menino. Foi muita sorte eu ter tido aquela menina linda pra me consolar no primeiro dia de aula, e foi mais sorte ainda que ela ficou na minha vida todos os dias depois daquele. E eu não consigo nem dizer o quão sortudo eu sou de tê-la ao meu lado hoje. Minha parceira, meu amor.
O sorriso de Nana se misturou às lágrimas e ele sentiu o gosto salgado se misturar ao doce da sua boca quando ela o beijou, colocando todo amor que podia naquele gesto. Se separando, ambos tornaram a secar os rostos e Nana enlaçou o corpo de Mário com o seu, deitando a cabeça em seu peito. Ele, por sua vez, passou os braços pelos ombros da mulher e os dois se balançaram no ritmo da música que tocava.
De repente, Nana levou a boca até o ouvido do poeta e falou para apenas ele ouvir. ― Eu também fiz minha pesquisa, e os povos antigos achavam que o visco trazia fertilidade. Quem sabe, né? ― E sentiu o enorme sorriso que formou no rosto dele em seu ombro, enquanto continuavam dançando lentamente, presos em sua bolha.
Fale com o autor