A Mente de Cecil
10 Capítulo 10
A partir de agora irei me referir às velhas madames da quarta convenção anual de costura como Bruxas. Sim, Leitor, pois é o que elas são. Malditas Bruxas... Mas não as julgue por tal, todo ser na face da terra possui máscaras nas quais trocam dependendo do contexto. Vai me dizer que nunca percebeu que você muda seu comportamento quando está perto daquela pessoa que pensa amar? Pare e pense nas diversas facetas que você esconde em seu ser antes de observar os rostos alheios... Apenas eu, seu narrador, posso julgar, pois, nessa história, sou Deus.
O ambiente dentro do Diumsta III parecia bastante com o Caos, mas como nós sabemos, apenas parecia. Diversas Bruxas duelavam com suas varinhas mágicas para provar que sua fofoca era a verdadeira. No alto do lugar, perto do teto de vidro, outras se digladiavam enquanto voavam em suas vassouras. Nem precisa dizer que está tudo se destruindo. O terror e o ódio pairavam no evento junto com as magias que, apesar de serem mortíferas, criavam um lindo ambiente misto de cores inomináveis que se refletiam nas paredes do estádio.
Cecil e Lice ficaram abaixados enquanto o alto som de guerra era ouvido. Algo que me chama a atenção é o fato de um dos garotos parecer aterrorizado. Não sou nenhum estudante de expressões faciais, mas é o que penso.
E qual dos garotos parecia entrar em parafuso? É claro que terá sua resposta... “Aquele que é estúpido...”
De repente, um grande estrondo dentro da sala que os garotos estavam escondidos. Pedaços de madeira e vidro voavam no lugar junto com um estático corpo de uma Bruxa. O mais interessante dessa cena é que tudo pairava acima do chão, alguma magia desferida por alguma das feras acertou em cheio a velha que entrou no lugar, provocando esse singular fenômeno.
O corpo imóvel que jazia dentro do esconderijo dos garotos era o de Yaga. Cecil pode notar que preso em seu pescoço tinha uma esfera presa por um cordão negro. Dentro dessa mesma esfera havia uma fumaça roxa, bem parecida com a que o garoto tinha ao seu redor, porém, muito menor.
–Lice, olha lá! É a Yaga...
–Pois é, notei.
Um estridente som foi ouvido. O lindo teto de vidro do estádio havia sido quebrado em pedaços, criando assim, uma chuva de vidro e cores que caía e fatiava Bruxas violentamente como uma faca que corta manteiga. Com a abertura, grande parte das velhas foi em direção ao lado de fora do lugar no objetivo de obterem um melhor espaço para se matarem em prol de sua verdade histórica.
Aproveitando a deixa, os garotos correram a Yaga e, no momento em que se levantaram tudo foi em direção ao chão, a magia que fazia as coisas voarem acabara.
–Eu deveria aprender essas coisas de magias. –Disse Cecil, virando o corpo da mulher para cima.
–Moça! Moça! Você está bem?
–Moça?
A Bruxa acordou gradativamente, seus braços lentamente foram em direção ao rosto no intuito de retirar os cacos de vidro e os pedaços de madeira que estavam fincados em sua pele.
–Quem é você? Já aviso que se for lacaio da desgraçada da Irullam eu faço ensopado de você da mesma maneira que a Arturiam fez daquele casal de irmãos! –Yaga buscava sua varinha dentro de seu casaco, porém, não foi necessário tanto esforço, pois percebeu que os pedaços de madeira que cortaram seu rosto vieram dela.
–Calma moça! Não conheço nenhuma Irullam. Meu nome é Cecil. Não quero lhe fazer mal. –Assustado, levou as mãos para cima, com medo de receber alguma magia obscura.
–Se estiver mentindo, juro que irás se arrepender!
–Não estou. Eu prometo. –E ele realmente não queria fazer mal para ela, afinal, provavelmente era a única pessoa capaz de dar respostas verdadeiras para o garoto.
Um sinistro rugido foi ouvido seguido de desesperados gritos. Os garotos puderam ver uma vassoura caindo do teto do estádio, porém, sem nenhuma velha montada nela. Não sei ao certo o que produziu o som, mas é bem provável que era mais algum monstro demoníaco invocado pelas Bruxas que lutavam vorazmente.
Elas são bem amedrontadoras, as Bruxas...
Enfim, voltando à cena que realmente importa de lhe ser contada. Cecil ajudou Yaga a se levantar, suas roupas estavam cobertas de cacos de vidros que caiam gradativamente conforme ficava de pé. Lice estirava sua cabeça na tentativa de observar o que provocara tal horrível som.
–A senhora está bem?
–... Penso que sim. –A velha direcionava seu olhar para as profundezas da alma do garoto que, é claramente vista através dos olhos. De repente, sua expressão mudou, aparentemente descobriu que o moleque não era ameaça alguma para ela.
–Obrigada por me ajudar.
–De nada.
–Agora fale. O que queres de mim? Ninguém ajuda outra pessoa sem querer algo em troca.
O garoto ficou sem jeito. Apesar de Yaga falar a verdade, essa realidade que envolve a vida de qualquer pessoa parece nos envergonhar quando submerge aos nossos olhos. É por essas e outras que verdades nos machucam, a gente esconde as intenções de nossas ações e quando elas descobrem o caminho de volta não há remédio que possa apaziguar a culpa em nossas consciências... Enfim, o fato é que apenas escolhemos quando sofrer.
–Aaahm...
–Diga logo garoto! Não tenho todo o tempo do mundo!
–É complicado. Essa fumaça roxa que paira a minha volta. Preciso descobrir como destruí-la.
Yaga deu uma risada em alto e bom som. Colocou sua mão no colar esférico e mostrou para o garoto.
–Você está vendo isso aqui, moleque?
–Sim.
–Eu convivo com essa fumaça há quatrocentos e dois anos. Ela me destrói a cada dia. E sabe por quê? Porque eu deixo. O motivo de sua existência é a Bruxaria, o estudo das artes negras. A cada dia que se passa ela me machuca fisicamente, minhas costas doem a cada movimento, meus olhos parecem rolar em vidro em pó quando os viro para algum lugar, tenho impressão que meu cérebro diminui a cada sinapse realizada. E sabe por que eu deixo isso acontecer?... Pois eu deveria parar de fazer Bruxaria. Só assim ela abandonaria meu corpo, mas eu nunca abandonaria algo que devo fazer por uma opinião de uma sociedade estúpida. Portanto, arrume uma maneira de lidar com isso por si só. Não há final feliz para os que foram cerne desse tipo de magia, apenas dor e vazio.
Cecil engoliu a mensagem com a garganta seca. Não sabia o que dizer perante o triste testemunho. Seu corpo começara a tremer o suficiente para deixar toda a sua mente atordoada. Seus pés pareciam não tocar o chão e, apesar de seu cérebro funcionar, sua razão fora completamente abalada.
–O que... Eu preci...
–Não venha chorar para cima de mim. Não tolero isso. –Yaga aparentava um misto de raiva e agonia.
–Tudo bem senhora, eu entendo. –Disse o menino, cabisbaixo.
–Meu deus, eu tenho que parar de fazer esse tipo de coisa...
–O quê?
–Nada, garoto!
–Apenas acompanhe-me, vamos para minha casa e verei o que posso fazer. Mas logo aviso, não há Esperança que vença o Tempo.
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