Notas iniciais


Pois bem, o menino possuía uma fantasmagórica fumaça que pairava ao seu redor e que lhe acompanhava diariamente. E curiosamente, nenhum cientista local, que tinha meio cérebro, possuía resposta para aquilo. Talvez o garoto houvesse morrido e nem havia percebido. Mas pensando melhor, não, não era o caso.

-Passe no apartamento daquele velho Filósofo que mora na colina da nOite. Talvez ele possa lhe dar alguma resposta. –Lice, seu amigo, pairava ao lado do garoto.

Sim, caro leitor. Se escreve nOite mesmo. Segundo o cartório da pequena cidade, o termo “Noite” já estava sendo usado, o que levou a chata e rigorosa burocracia mudar a posição do maiúsculo. E caso venha me mandar alguma carta para perguntar o que faríamos se supostamente essa palavra vier no início de um parágrafo, é simples, o universo explodiria... É serio, não estou sendo dramático ou coisa do gênero. Diversos universos já explodiram por muito menos. Porém, é historia para outra história. Enfim, continuando a cena...

-Mas eu nunca fui a essa colina, como posso chegar lá? –Disse cabisbaixo.

-Simples, seu imbecil. É só irmos para o portal dimensional treze. Ele nos levará exatamente onde precisamos ir.

-Ah. Sim...

Cecil, como de costume, levantou seu braço esquerdo para olhar que horas eram. Porém, como você e até mesmo ele sabia, seu relógio permanecia estático por algum motivo qualquer, era a única coisa pelo qual ele não demonstrava interesse. Parecia aceitar o fato do aparelho não funcionar. O que aguça muito a minha curiosidade, como aquele garoto que faz perguntas sobre tudo e até algumas vezes sobre o nada, não manifestaria reação alguma diante de tal atrocidade? Mas enfim, é melhor eu parar de ficar fazendo perguntas e continuar a minha história.

Era de dia, os dois meninos permaneciam parados em frente à Casa do Infinito, loja responsável em abrir os portais multidimensionais para a viagem nem um pouco segura dos interessados em morr... Quero dizer, viajar.

-Casa do Infinito... Que nome interessante. –O garoto ergueu sua cabeça para a placa da loja com os escritos em letras amigáveis e garrafais “As dimensões são paralelas, mas sua existência não. Venha conhecer a Casa do Infinito”.

-Não começa.

-O que foi?

-Você sabe muito bem do que estou falando.

-Ah... O nome da loja, certo? Mas qual é o problema de se questionar? É um nome bem sugestivo, até me vem à mente se o infinito pode existir. –Cecil colocou a mão no queixo e deu mais uma olhadela no nome do lugar.

-Tenho que explicar novamente né? Quem se questiona acerca das coisas fica depressivo. Todos conhecem a história daquele maluco da rua três que, de tanto se questionar sobre o formato das caixas, ficou preso dentro de uma, e, de tanta tristeza, morreu lá mesmo.

-Eu não sou triste! –O menino, por alguns segundos, observou o infinito, levando seus pensamentos a avaliarem a veracidade de tal afirmação.

- Ah... Que se dane. Mas voltando ao assunto. Se o infinito existe, quer dizer que ele nunca vai acabar, ou seja, ele nunca começou. Mas todas as coisas tem que começar. Esse nome aí é só publicidade... -Com toda sua incrível felicidade e orgulho que pode ser facilmente interpretada como arrogância, Lice levantou seu braço direito e observou as horas em seu relógio, que, por sinal, funcionava perfeitamente.

-... Entendo. Mas não necessariamente algo tem de começar. Seria como um paradoxo, não tem início nem fim, ou seja, ele é um infinito ciclo de acontecimentos. – Deu uma pausa e olhou nos olhos de seu amigo... -Paradoxos existem.

-Vamos entrar logo na loja, precisamos encontrar o Filósofo. –Pareceu ignorar a resposta dada por seu amigo. Talvez por não ter um argumento melhor ou talvez pelo fato de não gostar de ficar gastando seu tempo questionando o garoto.

Entrando na loja, era possível ver diversas peças estranhas que fugiam do conhecimento dos dois garotos, e algumas, fugiam até mesmo do MEU conhecimento. Esferas negras com pequenos universos flutuando dentro, animais grotescos empalados nas paredes. No balcão, havia dispostos diversos livros, ou canetas, não sei ao certo... Os objetos no balcão fazem parte das coisas que fogem completamente da minha compreensão. Os dois notaram a presença de um velho homem de terno que arrumava alguns estranhos artigos quadrangulares no canto da loja.

-Senhor, por favor, pode me ajudar? -A lentos passos, caminhava em direção ao atendente.

-Bom dia Cecil. O que deseja? –O homem possuía um estranho bigode que, corria paralelamente aos lábios e, nas pontas, fazia uma volta.

-Eu preciso pegar um portal para a casa do Filósofo. –O garoto não fazia a mínima ideia o porquê daquele homem que ele NUNCA havia visto na vida saber seu nome. E novamente, quebrando as leis de seu universo particular, não questionou em voz alta aquele estranho fato.

-Se não me engano, é o Portal Treze. –Estava em frente ao galpão enquanto Lice percorria toda extensão da pequena, porém, infinita loja.

-Ah sim... Vai ver o Filósofo né... Entendo. –O ar do homem se transformou num misto de curiosidade e seriedade.

-Serão quarenta Latrins. –Disse o velho. (Como curiosidade, Latrin é a moeda oficial da pequena cidade onde Cecil morava. Havia as notas que eram dividias em 100, 50, 20, 10, 5 e 2 Latrins e as moedas que se segmentavam em 1 Latrin, 50, 25 e 10 castus, a fração da moeda).

-Senhor, por favor, você não pode aliviar essa viagem? Prometo fazer algum serviço quando voltar. –O garoto estava nervoso, não gostava de deixar dívidas para trás.

-Hm... Hm... Tudo bem, mas quando voltar irá cumprir sua promessa. –O velho foi em direção a um enorme baú que estava no fundo da loja e retirou um objeto lá de dentro.

-Tome, coloque essa pulseira.

-Pra que serve?

-Quando colocá-la em seu pulso, gradativamente ela ficará menor até o momento onde decepará sua mão.

-Hm... –Por fora, o garoto aparentava austeridade, porém, por dentro, gritava histericamente.

-Em alguns dias ela ficará apertada. Só vindo aqui na loja e pagando sua promessa irei retirá-la.

-Entendi. –Pegou a pulseira e a colocou. Enquanto isso, sua mente criava diversas possibilidades de futuros paralelos onde não possuía a mão. Era aterrorizante demais.

-Vamos garoto, me acompanhe. –O dono da loja retirou um molho de chaves de seu bolso e foi em direção a uma porta negra com um desenho de um olho roxo bem no meio.

Os dois seguiram o velho. Após abrir a porta, o grupo passou por diversos corredores estranhos, ao fundo, barulhos de máquinas de escrever eram ouvidos, o som das teclas sendo digitadas trazia um sinistro ar para o escuro lugar. Por algum tempo, nada além daqueles mecanismos era ouvido, até o momento onde o homem abriu uma porta e se deparou com uma infinidade de portais dispostos na vertical. O rosto do velho parecia o de uma criança ao observar o novo e, consequentemente, abriu imediatamente um sorriso.

Cecil esticou a cabeça para dentro do lugar e pode observar que a sala era feita em um formato hexagonal. E, direcionando seu olhar para baixo e para cima, o garoto pensou que havia milhões, talvez bilhões de portais que levavam a diversas partes de diversos universos de diversos paradoxos.

-Uau... Quantos portais existem aqui? –Disse o garoto, ainda estonteado.

-Quantos portais você quer que existam? –Respondeu enigmaticamente o velho.

-Frases de efeito que transmitem pseudo inteligência, bacana! Eu já disse, o infinito só existe na sua mente! –Lice não aparentava surpresa, pelo contrário, parecia conhecer muito bem a sala.

Num instante, um portal apareceu, tapando a visão dos outros portais da sala. Em seu topo estava escrito “Portal 13”. Um misto de luzes brancas e azuis dançava na frente dos olhos de Cecil que, admirado, decidiu naquele momento fazer muitas outras viagens como aquela.

-Está pronto?

-Sim.

-É só ir em direção ao portal, como se fosse uma porta normal. E pronto!

Cecil, receoso, andou a passos lentos em direção ao Portal que, emanava aquela linda e penetrante mistura de luzes. Quando seu nariz chegou o mais próximo possível do portal, o garoto correu como se estivesse arriscando em algo. O mundo que jazia atrás de si desapareceu, a única coisa que podia ser ouvida era um longo ruído estridente que ele ouvia desde criança. Em poucos instantes, pode sentir grama em seu rosto, água em suas mãos e, deitado num extenso campo gramado, viu ao fundo um casebre todo torto e, como de costume, foi apresentado a mais um elemento desafiava as leis da física.

-Será que chegamos? – Ele se levantava e limpava suas mãos sujas de terra em sua calça.

-Essa não é a pergunta correta... Primeiramente olhe se não perdeu nenhum membro, seu estúpido. –Lice estava ao lado do garoto.

-Se eu tivesse perdido, teria notado. Agora chega de papo e vamos para a casa do Filósofo.

-Como sabe que essa é a casa dele?

-Ué... É a única casa que pode ser vista. –Notou que estava numa ilha a beira da escuridão, apenas um pedaço de terra com uma casa jazia no local. Sabe-se lá o que era tudo aquilo.

-O que será que acontece se cairmos nessa escuridão? –Perguntou o garoto.

-Você se torna parte do limbo... –Uma bruta voz foi ouvida atrás dos dois.

- Que fazes em minha casa? O que queres comigo? –O homem tinha aproximadamente dois metros de altura, barbas e cabelos longos e segurava um grosso livro em uma das mãos.

-Então quer dizer que você é o Filosofo? –Perguntou Cecil, um pouco assustado.

-Estudar filosofia não me faz de mim um filósofo. Portanto, não se direcione a mim como tal. Meu nome é César.

- Me desculpe, não tive a intenção de lhe ofender.

O lugar onde estava era iluminado sabe se lá com o que. Apesar da densa escuridão que pairava ao redor da ilha, as coisas daquela área eram perfeitamente vistas. Enfim, são coisas que fogem do MEU conhecimento e também do seu. Porém, algo que posso perfeitamente explicar era o fato de um estudante de filosofia morar num lugar tão singular como aquele. O que está nos escrito diversos livros de história da pequena cidade de Cecil era de que certos estudos filosóficos necessitavam da noção de dualidade seja ela qual for. Bem e mal, luz e escuridão etc. Portanto, para entender a plenamente as coisas do universo, César viu a necessidade de se isolar naquela pequena ilha, onde a luz do lugar faz contraste com a escuridão que a sua volta pairava. E caso note que estou me referindo a escuridão como algo palpável, como matéria, saiba que estudos quânticos e filosóficos da Universidade de Lugar Nenhum apontam que ela realmente existe, e deve ser temida...