A desafiadora casa de César era, ou é, pois não sei o que aconteceu com o sujeito após a Crise das Dimensões, incrivelmente interessante, por exemplo, por algum motivo, ela era, ou é bem maior por dentro do que aparentava por fora. Por dentro era, ou é possível ver diversos livros jogados no chão, três sofás chesterfield vermelho em perfeito estado, uma lareira acesa e a escada que levava para os outros andares. Era, ou é um lugar muito agradável de se viver, mas, é claro, deixando de lado a parte da eterna escuridão e também da existência de um pequeno cachorro com orelhas pontudas e olhos vermelhos e esbugalhados que habitava a casa, é claro, é claro. Só de pensar nessa fera eu já me lembro da vez em que fui parar no Cemitério dos Mortos. E antes que venha apontar um possível pleonasmo. Sim, existe Cemitério dos Vivos... Porém, ele será abordado em outra história. Enfim...

–Então, o que você quer comigo, garoto? –César estava sentado numa poltrona marrom com seu demon... Cachorro no colo.

–Essa fantasmagórica fumaça roxa apareceu há alguns dias ao meu redor, ela me acompanha aonde quer que eu vá. Já tentei conversar com alguns cientistas, mas eles não sabem o que é isso. –Olhava para baixo, em direção à emanação que, em movimentos leves e irregulares, voava ao seu redor.

–Hm... –Disse César, acariciando a longa barba.

–Acho que possuo alguns livros sobre esse tipo de coisa. Me de um segundo que eu vou ali busca-los. –O homem saiu da sala, foi em direção ao segundo andar. Após alguns minutos, César voltou cambaleando com dois grossos livros em suas mãos e um abafado barulho se ouvia na sala de onde ele acabara de sair. Algo bem pesado provavelmente caiu com muita força ao chão.

–Isso... –Sentou-se e abriu um dos livros.

–”A Emanação de Ideias é manifestada através da vontade de um grupo de pessoas com um mesmo objetivo, ela pode aparecer de diversas maneiras, como uma FANTASMAGÓRICA FUMAÇA ROXA, ou até mesmo como um intenso desconforto nas costas. O indivíduo atingido pela Emanação de Ideias pode ser lesionado de diversas maneiras, dependerá apenas do objetivo do grupo que lhe amaldiçoou”.

–Diz aqui também que a maldição irá, gradativamente, te destruindo conforme o grupo deseja. –César terminou de ler o livro que, em sua capa, havia escrito “NÃO ABRA”. O que deixou Cecil com um grande receio.

–Porque um grupo quer me machucar? O que eu fiz para as pessoas? Sou sempre tão isolado e quieto... –O rapaz abaixou a cabeça, aparentando tristeza e autopiedade.

–Como faço para tirar essa maldição?

–Segundo o livro, independente do que seja, existem duas opções. Se render ao objetivo da maldição, ou seja, parar de se comportar da maneira que a sociedade rejeita, ou...

–Ou...

–Ou... Ou ir atrás das Demianças. –César se levantou, como que num surto de surpresa e receio.

–Apenas as Demianças irão poder retirar à fantasmagórica fumaça roxa...

–O que são as “Demianças”? –Cecil disse como se estivesse ainda se acostumando com a entonação da nova palavra.

–São as entidades que mantém o mundo equilibrado. Eu as estudo diariamente, mas até hoje não consegui encontrar uma ou até mesmo chegar a saber seus nomes. Até hoje apenas sei que são responsáveis por manter a balança do universo em perfeito equilíbrio.

–Então elas são boas, não?

–Não...

–Todo equilíbrio possui dois lados opostos. O Bom e o Mal, a Luz e a Escuridão, o Eterno e o Instante, o Destino e o Caos... Mas garoto, tema ambos os lados.