Notas iniciais
Diana é uma jovem completamente igual as outras, vai à escola, faz os deveres de casa, tem uma amiga com quem pode compartilhar segredos etc. Mas essa não é uma história sobre uma garota normal. Num mundo onde as regras não mais importam tanto quanto antes, tudo é possível e pode levar aos lugares mais loucos.

Sob o céu cinzento de uma sexta-feira, depois da aula, desci a escadaria da escola e caminhei até a calçada. Pela calçada, virei a esquina, passei em frente à obra do novo supermercado, atravessei a rua para a outra calçada. O vento veio esfriar a tarde, passando pelas minhas pernas e nuca descobertas. Puxei a saia mais para baixo, como se isso fosse me aquecer. Passei a mão por minha nuca, lembrei-me de quando meus cabelos eram compridos, iam quase até a cintura, mas eu preferia eles assim, bem curtinhos.

Nesse dia, Eva, minha amiga mais próxima, não tinha ido para a escola. Acho que ela estava com problemas de novo. Por isso, voltava sozinha para casa, o que me causa sempre uma sensação terrível, porque eu fico sem ninguém ao meu lado, mas, ao mesmo tempo, rodeada de pessoas que eu não tenho a menor afinidade. As vezes chego a pensar que o problema está em mim, devo ser muito chata. Eu nunca fiz questão, mesmo, de puxar papo, e quando alguém tentava chamar a minha atenção, eu simplesmente não me interessava.

É, eu sou chata demais.

Finalmente virei outra esquina e passei a caminhar sozinha. Só eu e Eva morávamos na rua depois dessa esquina. Apressei-me assim que o vento ficou ainda mais gelado. Estava quase correndo, quando uma mão me puxou e eu tropecei sobre a grama do parquinho. A mesma mão me ajudou a levantar, e, mais uma vez me puxou, até a pista de skate. Por enquanto só havia visto a pessoa de costas, tinha cabelos lisos, marrons e compridos, até a cintura. Mas não a reconheci. Ela me empurrou contra a parede de trás da pista, segurou meus ombros, e foi quando vi Catarina. Por alguns segundos pensei que ela fosse me estapear, mas foi exatamente o contrário o que aconteceu. Catarina colocou uma das mãos no meu rosto, e se aproximou muito rápido até começar a me beijar.

Minha reação foi ficar completamente imóvel. Estava perplexa. Eu nunca, sequer, tinha trocado uma palavra com aquela menina– apesar de ela estar, há anos, na mesma sala que a minha–, e ela estava se jogando em cima de mim. Será que era alguma aposta?–cheguei a pensar. Mas, no final das contas, aquilo não estava ruim, porém, eu queria parar, para entender o que acontecia. Então empurrei-a.

“Catarina! O que foi isso?!”

“Você fica me olhando na escola, acha que não percebo?”

“O que?! Fico te olhando?”

“Você faz mais que isso, me seca, completamente!”

“Desculpa, mas acho que você está enganada.”

“Não tenta disfarçar, eu sei que você é lésbica.”

“Sim, eu sou lésbica. Não quer dizer que eu saio por ai beijando todas as meninas que vejo pela frente.

“Cala a boca! Eu já te dei o que você estava pedindo, agora para de me secar por ai!”

“Então você me beijou pra me fazer parar de te olhar (fazendo aspas com os dedos para as últimas palavras)?”

“A princípio, sim.”

“Como assim, a princípio?”

“Quer dizer que você tem que se decidir.”

“Decidir sobre o que?”

“Sobre o porquê de você estar me secando.”

“Eu não estava.”

“Você acha que sou louca?”

“Nunca disse isso.”

“Acabou de dizer, quando negou que fica me olhando.”

“Catarina, devo ter passado os olhos por você quando fui ler alguma coisa na lousa. Mas nunca te sequei.”

Então a expressão de Catarina virou uma grande interrogação, e ela, simplesmente, se virou e foi embora, passando para mim a grande interrogação.

Faltavam alguns metros até minha casa. Caminhei para lá enquanto a sensação daquele beijo passava pela minha cabeça. Caramba, foi bom! Mas eu nunca sequer parei para olhar Catarina, e, de repente, comecei a pensar em como ela, realmente, era bonita o bastante para ser observada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.