A Menina da Lua
10 ➷ Melhores Amigas ➷
Notas iniciais
Levanto-me completamente sonolenta e encaro o relógio ao lado da cama, já são três da manhã e eu não consegui dormir nada. E agora as crianças estão chorando, todas elas eu acho. Arrasto-me para fora do quarto e entro na porta ao lado vendo todos os quatro chorando.
Celi está em pé no berço, segurando as grades enquanto chora alto. Lilly, Nick e Alex estão na cama sentados e chorando muito, é quase como um coro de chorões.
Respiro fundo e vou primeiro até Celi tirando-a do berço, depois que ela se acalma um pouco eu encaro os outros três que seguram o choro para não receberem uma bronca, mesmo que eu não vá brigar.
— Está tudo bem. — Murmuro. — Chega de chorar, vamos fazer mamá.
Saio do quarto e quando chego a cozinha vejo que eles estão me seguindo.
Lilly está trazendo as mamadeiras, mas ainda não parou de chorar. Tento ficar calma, muito calma, mas é quase impossível. Minha noite está sendo uma grande merda. Meus últimos dias têm sido uma grande merda e se todos os outros dias forem como esses, eu realmente vou surtar.
Eu não sei como Maggie conseguia, mas é quase impossível fazer algo com Celi nos braços. É muito difícil preparar a mamadeira com ela chorando e todos os outros. Eu não sei se vou aguentar isso. É tão mais difícil do que eu pensava.
Desisto de fazer Celi parar de chorar e a coloco no chão ignorando seus gritos de protesto, se eu tentar conciliar qualquer coisa com o choro dessa criança, eu vou começar a chorar junto. Então eu prefiro deixá-la chorando com toda a sua manha enquanto faço as mamadeiras. A mamadeira pronta é a certeza de que ela vai se acalmar.
Continuo preparando as mamadeiras e tentando não enlouquecer. Alguns minutos depois, finalmente consigo terminar e entrego para os quatro chorões. Eles se sentam no chão da cozinha e eu me sento também, mas encostada ao balcão, encarando-os enquanto eles começam a se acalmar.
Ok, acho que posso lidar com isso.
A luz da sala se acende e eu levanto a cabeça, logo vejo Christian entrar na cozinha, ele para na porta e nos encara confuso, então sorri e joga a cabeça para o lado olhando para as crianças, elas estão com os rostos molhados por lágrimas enquanto tomam o mamá.
— O que está havendo?
— Você não é um bom marido. — Murmuro e ele gargalha fazendo Celi rir.
— Eu sou um marido agora?
— Se você fosse, você teria acordado também.
— Lorax. — Nick murmura soltando a mamadeira e estende os braços para Christian.
— Ah, campeão, de novo?
— Sim, Lorax! — Alex também pede.
Christian sorri meio abobalhado e abaixa em frente a eles pegando os dois no colo.
É uma bonita cena, se eu esquecesse que esses monstrinhos estavam chorando sem parar há alguns minutos a ponto de me enlouquecer, eu até poderia sorrir com isso. Mas como Maggie dizia ‘quando você for mãe, talvez entenda’. Se eu um dia eu chegar a ser mãe, posso tentar sorrir com isso.
Encaro Christian se levantar com os dois e ficar conversando com eles, Lilly me olha envergonhada e começa a se aproximar parando ao meu lado. Ela encosta a cabeça em meu braço e encara Celi. Celi sorri e começa a bater palmas rindo sozinha, esquecendo por completo que estava chorando.
— Você também vai me trair assim? — Pergunto olhando para os gêmeos, então viro para Lilly.
Ela tira o bico da mamadeira da boca e me encara balançando a cabeça com um olhar super sério, mas não acho que ela esteja com medo, na verdade, acho que ela está sendo sincera dessa vez. Com um pouco de receio me curvo contra ela tocando minha testa na sua.
Um sorriso gigante se forma nos lábios de Lilly e isso aquece meu coração de forma inexplicável.
Ela solta sua mamadeira rapidamente e envolve seus braços em meu pescoço. As sensações me invadem, várias ao mesmo tempo, isso me assusta, mas não quero assustá-la, então apenas a envolvo tentando tomar cuidado. Ela é apenas uma garotinha... como eu era.
Afasto Lilly e encaro seu rosto, seu nariz tão pequeno e arrebitado, seus olhos azuis.
Ela é tão linda...
Toco a ponta do seu nariz e ela sorri se virando para encarar Celi. Lilly se arrasta até Celi e toma a mamadeira dela que já está vazia, ela puxa a menor para seus braços e começa a beijar a cabeça dela.
Lilly parece feliz, pela primeira vez em três dias ela parece realmente feliz.
— Ei, Lilly, o que você acha do Lorax? — Christian pergunta e Lilly lhe encara, ela morde o lábio nervosamente e abaixa a cabeça.
Droga!
Eu não quero que ela se sinta assim, não quero que ela fique abaixando a cabeça para todo mundo, envergonhada ou com medo. Eu quero que ela tenha coragem para dizer o que sente ou coragem para dizer que não gosta de alguém ou algo.
Eu sou a pessoa que vai cuidar dela agora, eu devo fazer isso. Devo ensiná-la a ter coragem, e é isso que eu vou fazer.
— Você não precisa ficar em silêncio, Lilly. — Digo e ela me encara preocupada. — Você não precisa gostar de Lorax para agradar ninguém, muito menos gostar dele.
— Eu não gosto de Lorax. — Lilly sussurra num tom baixíssimo.
— Fale mais alto.
— Lorax é chato. — Ela diz firme e encara Christian com timidez. — Eu também não gosto de você. Você não é o papai, essa não é a nossa casa. Você é assustador.
Mordo o lábio para segurar o riso e encaro Christian que agora tem um olhar escuro sobre mim, levanto-me rapidamente e pego Celi do chão e estendo minha mão para Lilly. Ela segura minha mão levantando-se em seguida, passamos por Christian rapidamente indo para a sala.
Sento-me no sofá e coloco Celi deitada contra meu peito para que ela possa dormir, Lilly fica ao meu lado percorrendo os pequenos dedos por toda extensão do meu ombro.
Christian passa com os gêmeos em direção ao quarto e não diz nada. Eu sei que Lilly pode ter chateado ele, mas eu não quero que ela se sinta ameaçada ou com medo de dizer algo. Se ela não se sente confortável com ele, eu quero que ela diga, nós podemos resolver isso e ela pode aprender a gostar de Christian ou ao menos não o temer mais.
Christian só tem um tamanho assustador, olhando-a agora, eu sinto que ele é na verdade, uma manteiga derretida.
— Você acha que eu o chateie? — Lilly pergunta agora acariciando o rosto de Celi.
— Eu acho que o Sr. Grey é grande, grande como um urso, mas ele também é fofo como um urso. — Sussurro e Lilly ri confusa. — Ele é bonzinho, você não acha? Ele pulou do lago para me salvar, ele tirou vocês do carro... e ele trouxe a gente para cá, para que não nos separassem. Você não precisa ter medo dele.
— Eu não sei... eu só queria que a mamãe estivesse aqui, o papai também. Eu sinto fala dele.
— Eu sei, eu também queria que eles estivessem aqui, mas vai ficar tudo bem, ok? Você confia em mim, não é?
— Sim, Ana.
Colo minha testa na sua e ela sorri deixando algumas lágrimas escaparem, mas eu sinto que estamos chegando em algum lugar, isso é o suficiente para me deixar feliz.
Lilly fica mexendo em meus cabelos de forma tímida enquanto eu faço Celi dormir, pela primeira vez em tanto tempo nós estamos próximas e, por mais que ela esteja com medo, eu quero que ela fique aqui, que ela veja que eu não vou machucá-la ou fazê-la chorar como antes. Tudo o que quero é que Lilly seja feliz, como eu nunca fui, ela merece o mundo, e eu quero dar isso a ela.
É isso que as irmãs fazem.
Quando Christian volta a sala as duas meninas já estão dormindo, Celi em meus braços e Lilly ao meu lado, com a cabeça apoiada a minha perna. Ele se aproxima e pega Celi com cuidado aconchegando-a contra seu peito. Celi respira baixinho e parece ficar mais tranquila por estar nos braços dele.
Ele encara Lilly e depois me encara.
— Ela é uma graça. — Christian diz e eu sorrio. — Mas eu acho que ela está com medo, e não é só de mim.
— Eu sei. — Suspiro perdendo meu sorriso. — Eu estou me esforçando, mas eu sempre fiz com que ela tivesse medo de mim... e agora...
— Você deveria tentar passa-la com o psicólogo, talvez ajudasse.
— Você acha?
— Sim. A mãe dela morreu, ela sabe disso. Ela vai ter que voltar para a escola, e se ela já está com tanto medo de ficar em casa, imagina como será na escola.
— Você tem razão..., mas primeiro, eu quero esperar o enterro de Maggie.
— Faça como achar melhor.
— Certo. Obrigada, Christian.
— Certo.
➷
Uma Semana Mais Tarde...
Amanhã eu voltarei a escola, e as crianças também. Está sendo difícil para elas se adaptarem a nova vida, elas gostam das visitas das minhas amigas, de brincar com ela, mas é quase sempre do mesmo jeito. Eles brincam por algum tempo, depois começam a se afastar, se isolar.
Na hora de dormir eu tenho que estar sempre ao lado deles, para eles terem certeza que está tudo bem. Agora nós ocupamos o quarto de cima, dormir com eles na mesma cama está virando um costume.
Alex e Nick perguntam bastante por Maggie, na verdade, eles passam o dia perguntando que horas ela vai chegar e eu tenho que desconversar ou inventar alguma história diferente. É o único jeito de fazê-los esquecer.
Celi tem se acostumado, eu acho. Ela está comendo bem, aceitando a mamadeira... meu único problema é Lilly.
Lilly está confusa ainda, com Christian, com a casa, comigo... ela anda tão calada, não é mais a menina que adorava falar e me desafiar. Ela não fala com ninguém mais, não quer brincar, não quer comer. Ela não quer voltar para a escola para ver os amigos.
Isso está me matando. Uma semana foi o suficiente para provar que eu não sou boa para ela. Eu queria tanto poder fazê-la feliz, mas acho que nunca vou conseguir.
Um psicólogo virá hoje, nós teremos uma sessão juntas... eu só espero que isso ajude mesmo. Eu não sei se consigo vê-la sofrer.
Termino de me vestir e vou para a sala. Nick, Alex e Celi já dormiram e Lilly ficou acordada para podermos conversar melhor com o psicólogo. Christian também vai ficar conosco, vai ser como uma sessão em família. Uma família bem esquisita, é isso que somos agora.
Caminho até o sofá e me sento ao lado de Lilly. Ela está quieta hoje, mas está bonita com seu vestido azul com flores, meias brancas e All Star. Seus cabelos estão presos em coques.

Ela se arrumou sozinha... e ela não se arruma desde que Maggie se foi.
Seguro uma mecha solta do seu cabelo e enrolo em seu dedo, ela sorri ganhando um pouco de rubor e afasta a minha mão.
Lilly se afasta rapidamente quando Christian entra na sala com um homem, que eu deduzo ser Flynn. Levanto-me e olho para a minha irmã, para que ela faça o mesmo. Ela se coloca em pé ao meu lado e esconde as mãos atrás das costas enquanto encara seus pés.
— Anastásia, esse é Dr. Flynn. Flynn, essas são Anastásia e Lilly Steele.
— Muito prazer, Anastásia. — Flynn diz estendendo sua mão e eu aperto, depois estende a mão para Lilly, mas ela sequer olha para ele. — Lilly?
— Olá. — Lilly sussurra levantando a cabeça para encarar Flynn, então aperta sua mão. — Muito prazer, Dr. Flynn.
— Você é uma garota educada, Lilly.
Ela não diz nada, apenas solta a mão dele e volta a se sentar no sofá, encolhendo-se. Sento-me ao lado dela e encaro Flynn ir sentar em outro sofá com Christian. Troco um olhar com Lilly e ela encolhe os ombros e encara Flynn, ele tira um Ipad da sua maleta e nos encara.
— Podemos começar?
— Claro. — Digo dando de ombros.
— Como vocês estão se sentindo? Com tudo o que está acontecendo?
Troco um olhar com Lilly e ela suspira deitando a cabeça no braço do sofá. Ela parece um filhote de cachorro, completamente encolhida ao lado do braço do sofá.
— Nós estamos tentando lidar. — Sussurro com pesar.
— Como as crianças reagiram?
— Os três mais novos ainda não sabem, eles acham que Maggie viajou. — Explico. — Eu não quero que eles entendam o que é isso ainda.
— Certo, você tem razão, eles são novos demais para entender a complexidade de morte, mas Lilly também é, você não acha?
— Eu não contei a ela.
— Não?
— Ela viu... a casa pegando fogo e sabia que a Maggie estava lá. — Encaro Lilly e vejo que ela está chorando. — Quando os bombeiros saírem sem Maggie, ela deduziu sozinha o que aconteceu.
— Lilly, você já teve outras perdas? — Flynn pergunta curioso.
Lilly me encara e depois encara Flynn balançando a cabeça.
— Quem você perdeu?
— Minha melhor amiga. — Ela diz prendendo um soluço e se cala.
— O que ela quis dizer? — Flynn pergunta me encarando e eu suspiro.
— Maggie teve duas bebês, gêmeas, Lilly e Mika. Mika nasceu com a imunidade tão baixa quanto a de Lilly... — As lágrimas tomam meus olhos. — Há quase três anos elas estavam brincando no quarto e... a Mika deitou no chão e olhou para a Lilly... ela não estava conseguindo respirar porque o pulmão dela parou de funcionar sem mais nem mesmo. Então ela... morreu encarando-a.
Flynn e Christian nos encaram pasmos... eu prefiro não lembrar dessa parte da minha vida. Foi esquisito perder Mika, nós não éramos próximas, mas eu era a babá naquele dia. Maggie tinha ido para o hospital porque Nick e Alex estavam nascendo.
Entrar no quarto e ver Mika caída, sem vida... foi a primeira vez que eu a abracei, eu pedi para ela voltar, mas ela não voltou. O meu problema é aprender a gostar das pessoas apenas quando elas são tiradas de mim. Foi assim com Mika... agora com Maggie.
— Lilly. — Flynn chama e Lilly lhe encara. — Você ainda sente a Mika?
Lilly balança a cabeça e aponta para a pequena mancha que ela tem no braço, ela e Mika nasceram com a mesma marquinha. Acho que ela ainda pode sentir, atrás disso, que Mika está com ela.
— Você queria que Anastásia fosse sua amiga, como Mika era?
Viro-me e encaro Lilly, ela deixa uma lágrima escapar e parece com medo de dizer.
— Não precisa ter medo. — Flynn diz. — Anastásia jamais te machucaria.
— Eu machucaria... — Sussurro pegando Flynn de surpresa. — Eu machuquei várias vezes... por isso ela tem medo de mim. Ela sabe do que eu sou capaz por isso ela me odeia.
— Você odeia a sua irmã, Lilly?
Lilly não desgruda seu olhar do meu, então lentamente ela balança a cabeça e meu coração se aquece.
— Eu amo a Anastásia.
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