A Menina da Lua
29 ➷ Dona do Que Há em Mim ➷
Notas iniciais
Algumas Semanas Mais Tarde...
Atravesso as portas duplas e suspiro ao encontrar apenas uma casa escura e silenciosa. Coloco minha bolsa sobre o criado-mudo e tiro meus saltos olhando em volta soltando outro longo suspiro.
Vitória e Mia estão... deprimidas demais para ficar aqui e eu entendo, não há motivos para ficar numa casa vazia de espirito, toda a alegria da casa se foi com as crianças.
Eu comecei a trabalhar há algum tempo e também terminei há escola há um mês... trabalho na parte da manhã e tarde e depois fico o resto do tempo com Christian.
Ele está mais compreensivo agora, talvez por não temos um estresse tão grande com quatro crianças... ou porque ele sabe que não estou tão bem, mas eu estou feliz, de qualquer forma eu estou. A partida deles me fez lembrar de quem eu realmente sou e quem eu quero ser.
— Você chegou.
Sorrio e me viro vendo Christian descendo as escadas, ele se aproxima e eu fico na ponta dos pés envolvendo meus braços em seu pescoço. Encaro seus olhos cinza por alguns segundos e desço meu olhar para seus lábios que se contornam com um sorriso.
Ataco-o antes que ele possa pensar e ele dá um passo para trás surpreso, suas mãos ficam firmes na minha cintura e ele retribui o beijo de forma calorosa.
— Feliz em me ver? — Pergunta quando se afasta e eu sorrio.
— Muito. — Avanço novamente e minhas mãos alcançam o cos da sua calça.
— Ana...
— O que foi, Sr. Grey? Perdeu o jeito?
— Pare com isso, nós temos que conversar.
— Eu não quero conversar.
Avanço outra vez, mas ele recua e eu bufo frustrada.
— Ok, se você não quer me dar o que eu quero, eu encontro outra pessoa.
Sua mão está agarrada ao meu braço antes mesmo que eu me vire, encaro-o com raiva, mas ele não está com raiva dessa vez e isso me decepcionada. Eu adoro Christian com raiva, adoro o que ele pode fazer com a sua raiva no quarto de jogos, mas ele está estranho hoje.
— Eu quero que você converse com o Dr. Flynn hoje.
— O que? — Deixo um riso escapar, mas ele está me olhando de forma séria. — Não mesmo, eu não tenho nada para falar com ele!
— Você tem sim.
— Não, quem decidi isso sou eu e não, eu não vou falar com ele. Quem precisa de consulta é você, você que está ficando problemático.
— Por favor, eu estou preocupado com você.
— Comigo? Por quê? Porque meus irmãos se foram? Porque eu não estou chorando por isso?
— Ana...
— Eu não vou falar com Flynn, eu não vou sentar e chorar também, eles se foram e eu não posso fazer nada, essa é a verdade e conversar com o psicólogo idiota não os trará de volta, então, por favor, vamos manter as coisas como estão.
— Está bem, está bem... você está certa, mas eu me preocupo com você. Você mudou tanto, eu sinto falta da Anastásia...
— A Anastásia bobinha? Que ficou chorando em um hospital ao lado da irmã? Essa mesma Anastásia que abriu mão de tudo para depois quebrar a cara? Eu sinto muito em lhe dizer, mas eu nunca voltarei a ser ela. Eu estou cansada agora e quero me deitar, por favor, me deixe sozinha.
Passo por Christian e sigo para as escadas, tudo o que eu menos quero é ir para o seu quarto agora. Subo as escadas correndo e entro no primeiro quarto, tranco a porta e vou para a cama me deitar. Eu não vou chorar. Isso é ridículo, eu não tenho motivos para isso, eu estou bem e quero continuar assim.
Ouço uma leve batida na porta e suspiro, Christian entra no quarto, mas eu não lhe encaro. Ele se aproxima e deita atrás de mim colocando o braço sobre a minha cintura.
— Eu quero ver você feliz. — Sussurra dando um beijo no meu ombro. — Se você não quer falar com Flynn, tudo bem, mas não finja que não sente falta deles.
Viro-me e encaro-lhe, nesse momento meus olhos já estão cheios de lágrimas não derramadas.
— Eu... queria que eles não tivessem ido. — Confesso. — A cena da Lilly implorando para ficar... aquilo não sai da minha cabeça um dia se quer.
— Eu sinto muito, amor.
— Eu não posso mudar isso, Christian. Meus irmãos não estavam seguros ao meu lado e... agora eu temo que você não esteja seguro.
— Eu estou seguro, e você também. Tudo vai ficar bem.
— Promete? Promete para mim que nada vai acontecer com você? Você precisa ficar bem, porque eu preciso de você.
— Anastásia, amor... eu estou bem aqui, por inteiro, nada vai acontecer comigo ou você.
Christian me puxa para seus braços e eu me aconchego sentindo seu cheiro suave.
— Fique tranquila, eu vou cuidar de você.
Balanço a cabeça e inalo seu cheiro com cuidado, estar aqui em seus braços, sentindo seu cheiro, é tudo o que me traz paz e eu não quero mais nada... eu só preciso de Christian.
➷
Sento-me em frente ao balcão e agradeço Gail com um pequeno sorriso, ela some antes que eu possa perceber deixando-me sozinha com Christian enquanto jantamos.
— Como vai o trabalho? — Ele pergunta e eu paro o garfo no ar. — Ana?
— Bem. — Sussurro. — O Sr. Lincoln é um bom chefe, ele me trata bem.
— Bem?
— Sim, bem.
— Entendo...
Ele suspira e continua comendo em silêncio, mas seu mau humor já me faz perder a fome. Afasto o prato e ele me encara arqueando a sobrancelha. Christian não me engana mais, eu simplesmente passei a conhecê-lo e sei que eu trabalhar ainda deixa ele chateado.
— O que?
— Por que você sempre tem que ficar mal-humorado em relação ao trabalho? Poxa, Christian!
— Eu não disse nada.
— Claro, e você acha que eu não te conheço? Você não pode estar bravo por eu estar trabalhando.
— Ah, me desculpe se seu chefe é um grande filho da puta!
— Meu Deus! Você andou investigando ele?
— É claro que sim! Ou você acha que eu ia deixar você perto de qualquer um.
— Você, é completamente maluco e quer saber? Eu não vou mais discutir sobre isso.
— Você sempre foge de tudo, Anastásia!
— Porque você me sufoca, Christian! — Grito explodindo em lágrimas. — Você quer que eu fique presa aqui como uma boa garota, mas eu não vou.
— Eu não quero te prender aqui, apenas não concordo com o seu trabalho com esse homem.
— Você nunca vai concordar com nenhum trabalho que eu tenha, porque você me quer só para você.
— Sim, eu quero, há algum problema nisso?
— Certo, e enquanto você estiver fora? Quando você for viajar? Eu sento aqui e fico esperando você voltar como uma boa garota faz? Ou melhor, eu tiro a minha roupa e fico te esperando de joelhos no quarto de jogos para ganhar um carinho na cabeça?
— Anastásia, por favor! Não é nada disso.
— Não?
Levanto-me e jogo o guardanapo sobre o balcão afastando-me, Christian vem atrás e ficamos nos encarando no centro da sala.
— Eu não vou parar de trabalhar por você.
— Eu sei disso... — Ele diz suspirando. — Eu não quero te prender aqui como você pensa é só que...
— Você não pode me proteger da minha mãe.
— Esse é o meu medo, eu não sei o que está atrás de você.
— Eu não gosto de falar sobre ela, assim como você não fala sobre aquele maldito quarto de bebê que você ainda mantém.
— O que? O quarto não tem nada a ver!
— E mesmo? Você sempre quer saber sobre o meu passado, mas eu não posso saber sobre o seu.
— Anastásia, o quarto faz parte do meu passado, ele não pode nos prejudicar.
— Mas você ainda o mantém aqui!
— Por Deus! Eu tiro ele, se é isso que você quer.
— Não! — Grito. — Eu não quero isso, eu quero que você entenda que eu não posso te contar tudo, você tem que confiar em mim.
— Eu confio em você...
— Não parece...
Christian suspira e sai da sala deixando-me sozinha, ela volta minutos depois carregando um retrato em suas mãos, então me entrega. Meu coração se enche ao ver uma pequena garotinha na foto, ela tem grandes olhos cinzas e está usando alguns tubos.
Volto a encarar Christian e ele suspira.
— Eu tive uma namorada, Leila... — Christian diz rindo. — Ela engravidou, mas era uma maldita, bebeu e usou drogas. Eu tive que deixar muitas coisas de lado para ficar de olho nela, eu não sabia se iria ser um bom pai, mas aquela menina era uma pequena parte de mim.
— Christian...
— Ela nasceu... ficou viva por algumas horas e se foi. Mesmo depois de eu ter aberto mão de tudo, ela se foi, nunca chegou a usar o quarto. O pior de tudo foi saber que ela não sobreviveria, eu me apeguei a ela mesmo assim.
Jogo o quadro no sofá e me aproximo dele abraçando-o, ele me envolve e ficamos assim por longos minutos. Eu odeio brigar com ele, e não quero isso, não quero nada disso. Eu gosto dos seus abraços, dos seus beijos, da forma doce que ele me trata quando não o deixo com muita raiva, mas também gosto quando ele está com raiva e me leva para o quarto de jogos.
Essas brigas não valem a pena, nada disso vale... eu apenas quero estar com ele, na nossa pequena e aconchegante bolha. Christian e eu, tudo será perfeito.
— Que tal nós não brigamos mais? — Sugiro segurando seu rosto e ele sorri. — Eu não posso te contar sobre meu passado, mas eu prometo ser mais aberta.
— Eu gosto dessa ideia.
— Você tem que ser menos mandão e confiar em mim.
— Certo, eu vou me esforçar para isso.
— Obrigada, isso é muito importante para mim.
— Eu sei, me desculpe por agir como um grande idiota.
— Tudo bem, eu gosto do meu grande idiota.
— Seu?
— Sim, Christian, você é meu, completamente meu, meu e de mais ninguém.
— Temos uma garota possessiva aqui.
— Sim, nós temos. E não se esqueça da diretora...
— Não me ameace, sua peste.
— Não estou ameaçando. — Sussurro fazendo beicinho. — Estou te lembrando do que sou capaz.
— Eu sei de algo que você é capaz, que me enlouquece. — Christian esfrega sua virilha na minha barriga e eu gargalho. — Então, se você puder vir comigo para a cama agora, eu vou ter mais certeza disso.
— Seu desejo é uma ordem... senhor.
Abaixo o olhar, mas ainda posso ver seu sorriso, o sorriso que aquece meu coração... Christian aquece meu coração e acho que ele já é dono de tudo o que há em mim.
➷
Estou sozinha hoje, Christian foi para Nove Iorque e agora que estamos tão bem, é estranho ficar sem ele. Vitória e Mia quase não vem aqui, é meio solitário e tão estranho. Eu queria ter ido com ele, mas não posso, preciso trabalhar e esvaziar a cabeças as vezes... por mais que sinta tanta falta dele, às vezes precisamos de um espaço.
Caminho até o sofá e me sento sorrindo ao receber uma mensagem de Christian.

Sorrio e afasto o celular, acho que realmente preciso dormir.
— Do que você está sorrindo?
Viro-me assustada, mas solto um gritinho ao ver Kate parada perto das portas duplas.
— Kate! — Grito e ela sorri.
Ela vem correndo e pula em cima de mim me jogando no sofá, gargalho e envolvo-a em meus braços. Ela se afasta rindo e me puxa para sentar e, pelo seu olhar brilhante, sei que ela tem algo a dizer.
— O que foi? Por que a visita tão tarde?
— Elliot me pediu em namoro... — Kate sussurra e seus olhos brilham.
— Ah, meu Deus!
— Sim, eu estou surtando... ele tem sido tão foto.
— Eu estou feliz, estava preocupada com ele ser tão babaca.
— Não, ele não é. Ele é a pessoa mais incrível do mundo e me faz tão feliz.
— Ah, Kate, eu fico feliz..., mas você poderia ter me dito por mensagem, ou amanhã...
— Não, eu não vim por isso.
— Pelo que então?
— Eu quero uma noite como antes.
— Noite como antes? — Pergunto mordendo o lábio. — Nós não temos mais quinze.
— Boba, não tanto. Eu só quero que você saia comigo, e nós vamos beber... beber muito. E agora não precisamos ficar com medo das identidades falsas, já temos 18. Uma boa idade para encher a cara.
— Kate... eu não posso.
— Claro que pode, é só uma noite de amigas.
— Isso é loucura, mas eu acho que pode ser divertido. — Mordo o lábio e a encaro. — Certo. Eu vou me arrumar.
— Ah, isso.
Solto Kate e nós corremos para o quarto. Coloco um jeans, regata de seda e saltos, prendo meus cabelos em um rabo de cavalo e pego apenas minha bolsa e, por pelo menos uma noite, eu quero esquecer tudo o que me aflige... só espero que Christian não descubra isso e surte.
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