A Menina Que Guardava Monstros
2 Capítulo I - Júlia
Notas iniciais
Capítulo I — Júlia
Cheguei um pouco mais cedo naquela manhã. Acho que tinha dormido mais na noite passada. Uma chegada que antecedesse o primeiro sinal não era bem do meu feitio. Isso talvez porque eu ainda estivesse de castigo, ou só porque estava me sentindo culpada. A Clara estava muito brava comigo. Eu tinha faltado à aula de inglês, e por isso a gente não pôde conversar como fazíamos todas as semanas, sem parar, durante cinquenta minutos. Mas eu sabia que ela ia entender o motivo. Não tinha sido por falta de vontade de falar.
Tinha chorado no dia anterior. E mais ainda no dia que antecedeu aquele. Todos os meus colegas já sabiam. Eles me lançaram aquele olhar de pena, que a gente recebe quando faz alguma burrada bem grande, ou quando nossa burrada nem chega a ser tão grande assim, entrando em contraste com a punição que recebemos (o que eu, sinceramente, acredito que era o meu caso). Eu mesma já tinha olhado assim para vários deles em incontáveis ocasiões, e por mais que me incomodassem seus olhares, eu já não tinha o direito de me importar com eles.
O sinal não demorou a tocar, porque por mais que naquela quarta-feira em especial eu não tivesse me atrasado, os pensamentos que me engoliam faziam o tempo passar ligeiramente mais rápido. Entrei na sala e sentei no fundo, porque era lá que eu sempre sentava. Joguei a mochila no chão, nos ouvidos meti dois fones no volume quase máximo e esperei que não me fizessem nenhuma pergunta. Mas eles fizeram.
Não foram muitas e nem me incomodaram muito. Foi melhor do que imaginei que seria a volta ao nosso meio diário. Até sorri algumas vezes, contando a história num tom de brincadeira que até ali eu ainda não tinha aprendido a usar. Agora eles não podiam mais ficar me chamando de careta, e eu até que tinha uma desventura interessante pra narrar. Não que eles me chamassem de careta. Pelo menos, não na minha frente. Mas era assim que eles pensavam, eu tinha certeza.
E aí, enquanto eu estava absorta nos meus pensamentos e na minha música, ela entrou na sala. Era uma das poucas pessoas que tinha o hábito –que era quase que um dom- de chegar ainda mais tarde que eu. Não era coisa lá muito fácil de fazer. Ela olhou para mim e, com o olhar, me pediu desculpas mais uma vez. Virei a cara. Não por raiva, mas por pensar que já bastava de saltar de olhar em olhar. Precisava, como sempre precisei e como ainda hoje preciso, de palavras. Eu até teria ido conversar com ela, mas o professor entrou na sala. Já faz um tempo, então não posso dizer que me lembro de quem era, e já não consigo dizer com precisão o porquê de eu ter desistido da conversa que nos era necessária, mas acredito que o professor era severo demais para que eu me permitisse aquela tremenda cara de pau.
E os minutos se passaram. O professor falava e falava e tentava ensinar, mas eu não ligava. Depois do primeiro veio mais um ou dois, já nem sei, e nenhum deles comentou nada daquilo comigo. Era bom, na verdade, que não comentassem. Eles tinham uma visão tão dura e estúpida daquilo tudo que se não era deturpada, era no mínimo incômoda. Não eram como os meus colegas, que mal, mal pensavam o suficiente sobre qualquer outra pessoa que não eles mesmos para ter visão qualquer sobre o que acontecera. E se eu tivesse que ouvir aquelas mesmas críticas –que embora estivessem, em parte, corretas e fossem até justas em certa medida, eram extremamente dispensáveis para o andamento da minha existência- mais uma vez, ou eu vomitaria ou cairia no choro novamente.
Vieram mais aulas, e o recreio também. E o tempo foi se arrastando. Eu e ela não tínhamos ainda trocado uma palavra que fosse, e eu não tinha certeza se aquilo me incomodava ou não.
Alguns horários depois, talvez até mesmo na última das aulas daquela quarta-feira lenta, fomos levados ao laboratório. Eu me sentei ao lado dela, numa das bancadas do fundo. Ao contrário do meu lugar na sala, meu lugar naquele recinto era muito mais para frente. Mas eu não fazia questão de ficar perto da professora –daquela professora em especial- naquele dia. Evitei olhar para ela e me limitei a simplesmente ouvir aquilo que dizia. Já tinha pedido desculpas antes, e, por mais que na se satisfizesse somente com isso, eu tinha certeza de que me esnobaria se fosse fazê-lo de novo. Ela tinha essa mania meio insuportável de querer-nos atrás dela o tempo todo, e eu preferia não contribuir com seu doentio complexo de Dorian Gray.
E então, pela primeira vez naquele dia, talvez por acreditar que fosse o maior dos motivos –ou mesmo o único- da minha estadia naquela bancada, Júlia olhou a fundo nos meus olhos. Ela não parecia tão abalada quanto eu. Acho que para ela, esse tipo de coisa já tinha se tornado banal. Ela mais me parecia culpada por mim do que chateada por ela própria. E eu sabia que, por mais que ela tivesse se ferrado junto, ela não acreditava que aquilo lhe desse o direito de, ainda que por descuido, me ferrar.
–Eu escrevi uma música para você. –Não me lembro de ela ter dito nada diferente. Fez-se alguma pergunta ou se sequer tentou introduzir alguma conversa. Não importa. Importa-me o fato de que ela cantou pra mim. Cantou um pedaço da própria música, que acredito que usara o tempo à toa em casa que, como eu, teve para escrevê-la. Júlia tinha uma voz bonita e uma mania, que na época todos nós tínhamos, de músicas em inglês.
Tinha aquela mania de menina cantora e sonhava em fazer sucesso pelo mundo a fora e, é claro, nos Estados Unidos. Ela sempre cantava e tocava pra mim, gostava de tentar impressionar. E eu me impressionava fácil. Acho que o nome da música que compusera daquela vez era “Skinny Girl”. Ela me via naquelas palavras que cantava, e provavelmente me via também nos acordes que deveriam acompanhar a canção que me era apresentada a cappella. Na visão dela eu era uma pessoa frágil. Uma menina frágil, na realidade. Eu sequer chegava a ser mulher. E talvez eu realmente fosse. Talvez ainda hoje eu seja.
E eu esqueci tudo o que tinha acontecido. Esqueci-me da suspensão que nós duas tínhamos tomado por causa de um dos tropeços dela e do castigo que eu tinha recebido por isso. Esqueci-me das minhas preocupações idiotas e das mágoas também. Eu deixei que sua voz me guiasse, preenchendo o laboratório, que não devia estar silencioso naquela hora. Ninguém mais parecia poder ouvir o que eu ouvia. Perdi-me nas suas notas, e no timbre da sua voz. Perdi-me na melodia e na letra que ela tinha escrito. E eu me senti frágil. Mas eu sabia que ela estava me protegendo.
Ela me pediu para que eu sorrisse para ela. E então eu sorri.
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