A Menina Morte
5 Um pouco de cereal
Notas iniciais
Aceno com a cabeça e vejo o Percy e a Annabeth indo de encontro com Quíron. Foi engraçado ver o Percy levar um tapa, mas não posso me esquecer das pessoas que não conseguimos salvar, as que foram consumidas pelo fogo. A culpa era totalmente minha, com essa maldição deveria ir, mas algo me prende a este lugar. É a primeira vez que sinto-me em casa, não posso deixar isto para trás e encarar o mundo que sempre fugi. Não posso mais passar meus medos do lado de fora. Aqui no Acampamento tudo esta sossegado, não há de quem fugir, não há de quem se esconder. Aqui tenho uma família, pessoas que me acolheram independente de como sou. Mas se ficar, esses que passei a respeitar irão morrer um de cada vez, até que sobre somente eu. Essa maldição me persegue, gostaria de ficar, mas não posso. Se for, será um ato de suicídio, irei para a morte. Lá não terá ninguém com quem compartilhar minhas aflições, meus medos, minhas vitórias e sonhos. Lá serei uma presa, um animal indefeso fugindo de seu caçador, aquele que decidirá seu futuro.
Olho para dentro do salão e vejo o corpo da menina esticado no chão, ela está toda queimada, seu corpo não se mexe. Ela me lembra um pouco de Harlow, por ser menor e indefesa. Não aguento olhar para aquela cena, já vi pessoas queimadas antes, mas esta garota também me lembrava minha irmã que morreu.
Penso em todos os lugares no Acampamento em que poderia ficar só, os que não eram muitos. Vou andando em direção ao pier no lago, o lugar onde fui com Nico na noite em que cheguei. O lago me traz uma lembrança de quando criança e minha mãe me lavava para uma cabana em um lago. Os lagos sempre me acalmam, me fazem lembrar de quão estranho é esse mundo e o quanto eu não pertenço a ele.
Eles também me lembram do porque de minha mãe ter morrido, ela morreu para me proteger. Mas pelo que parece não adiantou muito, ele me persegue até hoje. Essas lembranças fazem lágrimas aparecerem em meus olhos e escorrerem em minha face.
Sento-me no pier e olho para a imensidão azul a minha frente. Penso nas pessoas que conheci hoje, naqueles que já viraram meus amigos. Penso se devo abandoná-los, se devo fugir e não falar para ninguém. Essa seria a melhor ideia.
Sindo algo enroscando em minha perna direita e me puxando para dentro do lago com muita força e rapidez. Não dá tempo nem de gritar, já estou dentro da aguá e cada vez mais fundo no lago. Tento me debater, mas é inútil. É como se a própria água estivesse me puxando para o fundo. Continuo a me debater, mas não tenho mais forças suficientes e nem oxigênio suficiente para voltar a superfície.
Então é assim que irei morrer. Sem saber como e quem está me levando para o fundo. Morrerei no fundo de um lago, um local ótimo quando não se quer que o corpo seja achado. Tento me acalmar e aceitar a morte que terei, mas não consigo, os pensamentos se esvaem de minha cabeça e o desespero doma meus pensamentos. Me debato durante alguns segundos até que me sinto fraca de mais e sinto minha vida já deixando meu corpo. Eu desmaio.
POV Nico
Passei a pior noite de minha vida com minha querida madrasta e sua mãe, não sei o que elas tem, mas com certeza são as piores deusas que existem. Meu pai me chamou no final da tarde para ir para o Mundo Inferior e é claro que eu aceitei, só não esperava achar elas lá.
Cheguei no Mundo Inferior e fui diretamente encontrar meu pai, fazia já algumas semanas que não nos víamos, o que se é raro, já que passei quase morar com meu pai. O salão estava como sempre, cheio de decorações ridículas de Perséfone de um lado e muito quente.
Meu pai parecia estar entediado com a briga que estava acontecendo entre Perséfone e Deméter. Quando ele me viu respirou findo como um alívio e me deu um singelo sorriso. As duas mulheres pareceram não gostar muito da minha visita e pararam com a briga entre ela e vieram para cima de mim.
Como sempre fui obrigado a comer umas três tigelas de cereal no jantar, mas estava tão mal e odiava tanto cereal que gostaria de ter tacado tudo na cabeça de Deméter, o que seria divertido até o ponto de ela me transformar em um cereal e depois come-lo.
Durante a noite não dormi nada, os cães de Perséfone não ficavam quietos e não me deixavam em paz, simplesmente acham que sou algum tipo de Bacon especial que eles não podem comer, ainda.
De manhã fui para o Acampamento na esperança de encontrar Akira e ficar um tempo com ela, descobrir um pouco mais sobre ela e sobre quem ela fala, aquele que a persegue. Mas em vez de encontrar Akira e os campistas, acho o refeitório todo queimado, pessoas mortas e o desespero por todos os lados.
Os campistas mortos eram alguns dos iniciado, e Akira é uma iniciada. Será que ela morreu também? Não! Isso definitivamente não aconteceu com ela. Ela deve ter ficado dormindo, não deve ter entrado no refeitório. Mas e se ela entrou?
Decido perguntar para as pessoas se a viram e todas dizem que não, que ninguém a viu. Isso me tranquiliza um pouco, se ninguém a viu, ela não está entre os mortos.
Passo um tempo procurando ela pelo Acampamento, vou nos chalés, nos campos de morango, na arena de batalha, nos campos de arco e flecha, no lago, na casa Grande, mas nada, em lugar nenhum ela está. Esbarro com Leo, ele provavelmente saberá onde ela está.
– Você sabe onde Akira está?
– Eu achei que ela estava com você. Também estou procurando por ela.
– Parece que ela sumiu do Acampamento e ninguém a viu. Será que ela decidiu ir? Nos abandonou?
– Isso não é cara dela, ela teria avisado. Não é culpa dela ter uma maldição, faz parte da vida de cada um, e, bem, você sabe, se ela foi é porque tinha seus motivos para ir.
– Você tem razão, pena que não pude me despedir dela.
– É uma pena mesmo, eu também não dei meu super abraço nela, nem fiz ela mudar de ideia com esse meu charme todo.
– Pensando bem, acho que ela se foi poque ficou enjoada e com medo de você.
– De mim? Olha quem fala, o menino que tem medo de virar um cereal.
– Como se você fosse melhor.
– Não vou discutir com alguém que joga mitomagia, simplesmente tenho mais o que fazer. Vejo você depois, até !
Não consigo acreditar no que Leo acabou de me falar, simplesmente o cara se acha o rei do mundo e não passa de um simples garoto pirado.
Começo a andar pelas margens do rio e pensar em como Akira poderia ter ido sem dizer adeus, sem que conseguisse falar para ela o que sinto. Sem poder tentar. Mais uma vez aqueles que amo se foram.
Vejo um ponto pequeno no horizonte ele parece se locomover rapidamente mas sua forma é estranha. Com sua aproximação consigo ver o que é o ser.
É um garoto de olhos azuis cor do céu, pele branca e bem alto. Em seus braços está Akira desacordada e toda molhada, o que indica que possivelmente ela se afogou no lago, não consigo pensar no que fazer, fico ali parado sem reação.
– Ela precisa de um médico, agora! — Diz o garoto.
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