A Menina Mais Linda do Mundo!
1 Capítulo Único
A MENINA MAIS LINDA DO MUNDO – CAPÍTULO ÚNICO
“MOONLIGHT”.
— Você está muito linda, Unnie! Com certeza, você é a menina mais linda do mundo!
A cada dois minutos, essa frase era repetida pela pequena Park Aya, uma menina de apenas oito anos de idade. Estava deitada de barriga para baixo sobre a cama no centro do quarto, parte da sua coluna estava ereta, e ela mantinha duas mãos sobre suas bochechas, com os braços apoiados pelo cotovelo. Aya observava atentamente a sua irmã mais velha que admirava-se ao espelho — ou melhor, despresava-se.
— Você é louca, saeng? — bufou Killian, a mais velha, cruzando os braços. Estudava cada detalhe de seu corpo, lançando ao próprio reflexo um olhar de desaprovação. — Olhe esse corpo, eu sou uma tábua! E minha pele é muito escura, sem falar nesse cabelo... Meu cabelo é igual a bandido, ou tá preso, ou tá armado.
Aya revirou os olhos, mas já estava acostumada com comentários como este vindo de sua irmã. A verdade era que Killian fora a menina mais bonita que Aya já havia visto — de acordo com a mesma, é claro. Olhos grandes e cinzentos, pele bronzeada e cabelos ruivos escuros. Corpo elegante, de formas esguias, cheios de graciosidade, porém, elegância. Sim, Killian era a menina mais linda do mundo!
— Você é a menina mais linda do mundo! — Aya insistia.
— Por favor, hoje não...
— Onde está seu otimismo, unnie? Sabe que em dois dias, é seu aniversário, certo?
— Como eu poderia esquecer...? O Facebook já me deu os parabéns antecipadamente.
— Exatamente! O que significa que temos que fazer a nossa tradição.
Ah, claro, impossível não se lembrar da velha tradição criada por Aya, infantilmente nomeada por: “Moonlight”. Dois dias antes do aniversário de Killian, as duas deitam no gramado do jardim da casa e observam as estrelas, inventando nomes para as constelações que encontram, e às vezes, conversando sobre assuntos aleatórios. Por que surgiu isso? Bem, tudo por que ambas haviam nascido em noites de lua cheia — elas não são criaturas sobrenaturais, o.k? Obrigada, de nada —, e às vezes, no aniversário delas, ou antes, aparece uma lua cheia. Na verdade, ninguém sabe ao certo porque Aya inventou isso, ela simplesmente inventou, oras.
— Não consigo decidir com que roupa ir! — exclamou a mais velha.
Era sempre assim. Ela não se importava muito com vestimenta, vestia sempre a primeira peça que encontrava pela frente, mas em ocasiões que tinha que sair de casa, Killian sempre se perguntava o que as outras pessoas achariam dela, ficando totalmente insegura.
— Por que simplesmente não vai com o UNIFORME DA ESCOLA?
— Porque o uniforme é horrível... Você acha que ele me deixa gorda?
— Mas você não é gorda!
— E meu cabelo? O que eu faço, Saeng?
— Seu cabelo é lindo, unnie, tão brilhante que até cega!
— Isso foi ironia?
Passou vinte minutos, apenas penteando o cabelo, indecisa sobre qual penteado usar. De começou pensou em um coque, saiu tão frouxo como clichês de fanfics de romances adolescentes, então ela desmanchou e fez um rabo de cavalo. Saiu torto, deu voltas demais no elástico. Fez uma trança, saiu malfeita.
— Ah, quer saber?! Vou deixar essa porcaria solta! — olhou-se mais uma vez no espelho — Como eu estou, saeng? — arqueou a sobrancelha.
— Você está linda, unnie! Você é linda.
— Ah, não sou não... Olha como ele está bagunçado atrás! Está bagunçado atrás, não está?
— Sinceramente, se isso é ser adolescente... Não quero deixar de ser criança tão cedo.
Ao chegar no inferno, quer dizer... Na escola, Killian abriu um sorriso ao avistar uma cabeleira loira ajeitando o cabelo na janela de um carro. Era a sua amiga, Kim ChoHee, ou melhor... Melhor amiga, nascida na Inglaterra, filha de um inglês com uma sul-coreana, mudou-se com seus pais para a Coreia quando tinha exatamente doze anos de idade. Killian e ela se conheceram no banheiro da escola, quando tiveram que fugir do fedor, porque uma menina havia comido sushi estragado.
— Você pode parar, tá? — Killian disse, tocando os ombros da amiga. — Seu cabelo está perfeito!
— Olha só quem fala... A menina que leva cerca de uma hora para escolher um penteado, nem que seja básico!
— Hoje eu só demorei meia horinha. Mesmo com a franja caída em minha testa, eu não consigo me agradar facilmente com qualquer penteado.
— Pessoas com franjas caídas tendem a ser simpáticas.
— Eu sou muito simpática, as pessoas que me irritam.
“Para tudo!”, disse Killian mentalmente, pois a atenção dela fora desviada para a figura deslumbrante que passara pelas duas amigas. Tão bonito, que os cabelos voavam com a brisa refrescante que pairava os ares da porta do colégio. Mas não era aquela imagem linda e nítida de propagandas americanas, não! O vento bagunçou o cabelo do garoto todo, que ele mal podia enxergar nada, e por isso se bateu com alguma pessoas.
— Ele é lindo até sendo retardado!
— Não, não é.
— Tem razão, é ridículo. Pelo menos, ele é bonito.
Ah, os romances clichês colegiais... E Killian, como toda adolescente com os hormônios à flor da pele, possuíra uma paixão momentânea, uma que tornou-se um moda social chamar de “Crush”. Sinônimo de vírus, perigo, caos, “sofrência”, a linguagem do dicionário Trouxa. Young DaeHo, 17 anos, garoto normal que gosta de animais e batata frita, mas é aluno estudioso e ótimo filho — e um belo pegador também, como sempre, afinal, “mocinho” não-pegador, não é mocinho.
— Por que você é tão obcecada por ele? — ChoHee revirou os olhos.
— Ele tem uma ÓTIMA aparência, digo... Coração! Um coração enorme! ChoCho, acha que ele iria na minha festa de aniversário?
— Quem não iria? O sequilho de queijo que a sua mãe faz é ótimo! E o bolo samba na cara de muita padaria por aí...
— Então é por isso que você diz que aconteça o que acontecer, nunca faltará nos meus aniversários, não é, sua safada?
— Que isso, Kill, sabe que nossa amizade acima de tudo, né?
— Até mais que a sua barriga?
— Não, amiga, tudo tem seu limite!
Killian não sabia ao certo, mas sempre que tentava falar com DaeHo, ela travava, engolia a seco, e sentia que sua pressão arterial estava subindo além do limite. Falara poucas vezes com o garoto, mas nada que fosse considerado uma conversa entre amigos ou colegas. “Bom dia”, “Que data é hoje?”, “Minha borracha caiu no chão, pega pra mim, por favor?”, “Me empresta um lápis?”, “Me dá um pedaço?”, fora o máximo que eles chegaram de uma “conversa”. É, a vida não é fácil, principalmente para Killian, que era a Menina mais Linda do Mundo!
— Ele deve estar indo para a quadra de esportes agora! — disse ChoHee, enquanto caminhava pelos corretores lotados por adolescentes fardados e fofoqueiros, ao lado de Killian.
— Não quero atrapalhá-lo, ChoCho, eu... E se eu o irritar por interrompê-lo, quando eu poderia falar a qualquer outra hora?
E, como ChoHee não podia bater em Killian, simplesmente cessou os passos e pousou ambas as mãos em cada bochecha da menina, apertando, de modo que sua boca virasse um bico, de tão amassado que ficou seu rosto.
— Amiga, pare! Assim não dá pra te defender! — exclamou a loira de olhos magníficos, só não tanto quanto os de Killian, que fique bem claro — QUALQUER UM iria ficar feliz, afinal, nenhuma outra festa tem os sequilhos maravilhosos feitos à mão pela Sra. Park.
— Vou me lembrar de nunca mais convidar você pros meus aniversários, valeu? Falou! Você só pensa pelo estômago e nunca engorda, é isso que não entendo!
— Prepare-se, nada pode estragar seu dia! Seu aniversário é em dois dias!
Mas seria aquele REALMENTE um dia de sorte para Killian? Bom, todo mundo sabe que a frase “nada pode estragar meu dia”, ou algo parecido, resulta num azar insignificante no mundo dos clichês. E põe clichê nisso! Pois, assim que chegaram à quadra de esportes, distraídas, admirando ABS’s alheios dos garotos que jogavam basquete, ouve-se um: “ABAIXA, RAPARIGA!”, dito por ChoHee, que rapidamente se abaixou, como alguém avisando sobre uma explosão. Acontece que DaeHo jogou a bola tão alto, que acabou acertando o rosto de Killian, bem no seu nariz. E, como um saco de batatas, ela caiu de bunda no chão, com as mãos sobre o nariz.
Os olhos da garota lacrimejaram, e ChoHee logo foi confortá-la, abraçando-a e dizendo:
— Você vai ficar bem, Killian, vou te levar pra enfermaria.
Algumas risadas e flashes eram presentes ali, mas a maioria estava horrorizada. ChoHee lançou um olhar mortífero de: “Sua alma não será perdoada”, para os que riram e/ou fotografaram. O jogo de basquete foi parado, e uma multidão estava ao redor de Killian, que ainda estava caída, sem conseguir prestar atenção em outra coisa, a não ser a dor que sentira. Seu nariz sangrava.
— AFASTEM-SE, SEUS MISERÁVEIS! MINHA AMIGA PRECISA DE AR!
— Noona... Com meu nariz assim, nem consigo mais respirar.
Foi quando ChoHee agarrou os braços de Killian e a ajudou a se levantar. Esta abraçava sua amiga, que estava com muita vergonha por ter mil olhos prestando atenção em si. DaeHo não era uma exceção, certo?
— Você está bem? — e foi só falar nele, que o próprio apareceu, tocando os ombros de Killian, com um ar de preocupação.
— Olha bem pra cara dela e diz pra mim se ela tá bem, seu retardado!
— Amiga, pare... Seja menos. — Killian sussurrou no ouvido de ChoHee.
— Quer que eu te leve pra enfermaria? — DaeHo perguntou, coçando a nuca.
— NÃO MESMO! — E, quando ChoHee disse essa frase, Killian pisou tão forte no pé da mesma, que ela gritou. — Digo, não é mais que sua obrigação!
Sinceramente, talvez não apenas Killian, mas qualquer garota de mentalidade normal gostaria que sua primeira aproximação com seu “crush” fosse algo mais romântico do que ele sentado em uma cadeira, observando a enfermeira da escola diagnosticando seu nariz recém-quebrado, certo? O rosto dela estava inchado e vermelho, e morria de vergonha, perguntando-se: “Meu Deus, como eu vou sair na rua agora? Nunca mais quero sair de casa!”.
— Pronto! — disse a enfermeira, antes de sair.
Killian desceu da maca, completamente tímida. Olhou-se no espelho mais próximo e balançou negativamente a cabeça, era desgosto. DaeHo suspirou.
— Eu sinto muito, muito mesmo.
Não, cara, você não sentiu nem um terço da dor dela, não sentiu absolutamente nada da dor dela, seu merdinha! Dizer que sente, embora todos sabemos que não sentiu, não vai concertar o nariz dela. Graças à DaeHo, Killian já não era a menina mais linda do mundo.
— Não foi culpa sua. — disse ela. Mas foi sim, poxa! — Foi um acidente, está tudo bem.
Não, definitivamente não estava. Por mais que Killian tentasse sorrir, mesmo que timidamente — afinal, educação em primeiro lugar —, ela não conseguia, porque no fundo, ela queria chorar até sua voz falhar. Por que justo na véspera do seu aniversário? E seu nariz não irá consertar da noite para o dia, até mesmo os milagres tem certo ponto de limite.
— Eu posso te pagar um lanche? Por favor, só me perdoa!
— Não é isso, é que estava pensando no meu aniversário. É em dois dias.
— É sério? Bom, parabéns! Eu... Realmente quero compensar você por isso. Que tal um cinema à tarde?
Como é que é, moço?
— Eu vou gostar bastante.
Pelo visto, não importa se o nariz esteja quebrado, o charme de Killian sempre teria poderes sobre os garotos! Que se danem os machucados, Killian era a Menina mais Linda do Mundo!
— Obrigada pela ótima noite. — disse Killian, de cabeça baixa e com as bochechas rubras.
DaeHo apenas sorriu, observando a menina que abria a porta de sua casa, com as mãos trêmula. Sim, eles ainda eram virgens — menos DaeHo, ele era Capricórnio —, mas naquela noite, com a pouca iluminação do cinema, eles deram seu primeiro “beijo”. Na verdade, foi mais um selinho, porque apertou sem querer o nariz dolorido de Killian e ela quase gritou de dor.
Ela movimentou as mãos, numa tentativa frustrada de dar tchau, mas saiu algo bobo e indescritível. Entrou em casa aos suspiros. Eram nove e cinquenta e sete, mas seus pais já foram dormir. Nessas horas, ela queria contar tudo para a única pessoa além de ChoHee que ouvia suas crises adolescentes a qualquer hora — quando está dormindo, é melhor ouvinte ainda! —, Aya. Bateu na porta do quarto da mais nova, mas só ouviu um choroso e rouco:
— Vá embora, Unnie!
— Aya, me explique, por que quero perguntar se você quer brincar na neve?
— Porque você é retardada. Saia daqui, sua nojenta! Não quero ver você!
— Tomou vinho escondido de novo, menina? Eu disse para não exagerar! O que foi que eu fiz?
— Você mentiu pra mim, Unnie... E a nossa tradição, como fica?
Killian revirou os olhos, aos suspiros. Sabia que sempre que quebrava a “tradição”, Aya ficava brava, muito brava. Mas nada que uma boa barra de chocolate não resolva esse gelo da mais nova!
— Me poupe, se poupe, nos poupe! — Killian cruzou os braços.
— Me deixa em paz.
— Aya, como se já não bastasse a minha maré de azar, você não vai fazer isso comigo, certo?
— Unnie, vou usar meus tampões de ouvido.
— Eu só quero falar uma coisa, só uma coisinha... OU EU TE PERGUNTO ISSO, OU EU MORRO.
— Fale.
— Você quer brincar na neve?
Comida, Bebidas não alcoólicas, balões, adolescentes que agora sabem o nome de Killian, mas não pronunciam direito, luzes coloridas artificialmente, o som alto e ensurdecedor animado de Fantastic Baby do BigBang... Tudo estava perfeito, certo? ERRADO! Porque, atropelando e sendo esmagada pela multidão que dançava no salão de festas da casa de ChoHee, estava Killian.
— AYA! Onde está você?! AYA SAENG!
Sim, a festa de Killian estava acontecendo no salão de festas da enorme casa de ChoHee. Aya seria a única criança da festa, mas Killian nunca ficara com vergonha de sua irmã mais nova estar na festa, tampouco os convidados, afinal, por onde passava, Aya esbanjava sua graça, fazendo as pessoas rirem. Só que desta vez, Aya não estava lá. E então, a garota ruiva saiu à procura de sua irmã mais nova, parando a todos que transitavam ali, para perguntar:
“Você viu por aí, uma garotinha mais ou menos dessa altura aqui (insira uma mão para medir o tamanho da menina aqui), cabelos negros, Maria-chiquinha, franja, meio tagarela, bochechas fofinhas e que acha que é um pastel de frango chique, moço(a)?”.
Mas foram poucos os que viram, até que ChoHee aparece para salvar a pátria!
— Kill, Aya está no jardim dos fundos. Ela parece feliz, dei um balde de sequilhos à ela, mesmo eu dizendo que pode causar dor de barriga se ela comer tudo sozinha, mas ela ainda disse que não importa, ela nunca ia dividir comigo.
— Sim, é realmente a Aya!
— Aí está você, sua pestinha! — exclamou Killian ao encontrar sua irmã.
Aya estava deitada sobre a grama, com os dedos entrelaçados, sobre a própria barriga. A garota admirava as estrelas. O fundo da casa estava pouco iluminado, o que a facilitava de admirar aqueles astros celestes. Killian deitou-se ao lado da sua irmã e olhou para a mesma. Soltou um suspiro.
— Saeng, me desculpa?
— Você quebrou nossa tradição!
— Eu te compro um pudim!
— É claro que eu te perdoou, Unnie!
Os risos cessaram, e os minutos foram passando, porém, as duas irmãs não se cansavam de contar as estrelas e dar nomes que elas mesmas inventavam para as constelações, de acordo com as formas que as enxergavam. Até que:
— ChoHee me contou que agora você tem um novo namorado, “da bola de basquete”... — Aya riu.
— O quê? Aquela... Ele não é meu namorado, nós só fomos pro cinema uma vez...
— E você contou pra ele a origem do seu nome?
A mais velha bufou, pois odiava saber a origem do seu nome, mas Aya achava engraçado, e por isso a zoava sempre. Acontece que quando era pequena, a mãe de Killian e Aya era uma grande fã de Peter Pan, e como tinha um fetiche por vilões, O Capitão Gancho — também chamado de Killian Jones — era seu personagem favorito, daí surgiu o nome dela.
— Não fique chateada, Unnie, é uma história bem legal.
— Observe aquela estrela, Saeng... — Killian apontou — Está vendo? Já pensou se ela não fosse uma estrela, mas sim a Terra do Nunca?
— Ela é realmente brilhante, mas não brilha tanto quanto a lua, que só não brilha mais que você! A lua é linda, graciosa e espanta os medos, faz graça observá-la todas as noites. Como você. Unnie, você brilha como a lua.
— Aya, sabe quando se está perdido, mas de repente, você vê uma luz altamente brilhante no fim do túneu?
— Sim.
— Não se iluda, sou eu chegando!
— Eu sei, você é a Menina mais Linda do Mundo! Mesmo com esse nariz!
— Por favor, não enche.
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