A Menina Das Bonecas

1 Capítulo 1 - No beco


São seis e meia da manhã , o despertador acaba de tocar aquela música irritante. Eu, como sempre, acordo com um salto, meu estômago embrulhado, o coração quase saindo pela boca depois dos pesadelos de hoje. É aquela voz, sempre a mesma voz rouca e baixinha fazendo meu tímpano vibrar. A voz que me faz suar frio todas as noites. O jeito é esquecer e ir para a escola, como eu faço todos os dias desde aquela tarde de inverno — o dia em que enlouqueci, talvez? Ou já era louco desde pequeno? Disso eu não sei, só posso afirmar que curiosidade mata. E da morte eu escapei por um triz. Como isso aconteceu? Espere, e verá.

A tarde estava fria, nuvens escuras cobriam o céu, como se tivesse anoitecido mais cedo. Naquela época, para mim, dormir não era um problema, e sim, um alívio. Mas as coisas mudam. Eu estava saindo da escola depois da aula, indo pegar minha bicicleta, estacionada na calçada em frente ao colégio. Mas algo fez eu mudar meu destino. Eu vi, em um pequeno beco da rua, uma garota acocada, com a cabeça entre os joelhos. Ela era... Assustadora? Acho que a palavra certa para descrevê-la é "estranha". Ela parecia estar sofrendo, talvez chorando, naquele cantinho escondido.

Aproximei-me do beco. Fiquei em dúvida se perguntava ou não perguntava o que havia acontecido com a menina, encolhida e fungando o nariz, choramingando.

- Ãhn... menina? P-por que você está chorando?

- Você quer mesmo saber? — ela respondeu, com uma voz fria, mas sofrida.

- Hmm, só se você quiser me contar. Eu posso te ajudar, se quiser... — falei, gaguejando.

- Eu perdi minha boneca.

Todo esse escândalo por uma boneca? Que ridículo, eu nunca que iria me importar em procurar uma boneca perdida, ainda mais porque a irresponsabilidade foi dela de ter perdido. Eu estava atrasado para o almoço, o problema é dela se ela perdeu uma coisa que tanto gostava.

- Desculpe, não posso ajudá-la.

- Me ajuda, por favor! — choramingou a menina, de cabeça baixa.

- Não posso, estou atrasado. Boa sorte. — falei firmemente, e fui saindo de perto dela devagarzinho.

- Sim, você pode.

Pela primeira vez a garotinha levantou a cabeça, e eu pude ver sua face. O cabelo preto repartido no meio escorria acima de suas orelhas, deixando aparecer seu rosto pálido, expressando uma mistura de tristeza e raiva. Mas o que mais me incomodou foram seus olhos, escuros e penetrantes, que pareciam ler minha mente e entrar em meus pesadelos mais obscuros.

- Então me obrigue. — eu sei, desafiar uma criança com uns nove anos mais nova que eu é besteira, mas ela estava me assustando mesmo. Minha vontade era correr, mas minhas pernas pareciam não me obedecer, e fiquei ali parado, com uma cara de bobo.

- Amigo, por que você simplesmente não me ajuda a procurar minha boneca? Assim eu não preciso complicar as coisas.

- Haha, você? Complicar? Uma pirralha de oito anos não manda em mim. — eu respondi, e apesar da ironia, eu estava nervoso mesmo. A cada segundo, seus olhos ficavam mais escuros e sombrios.

- Ajude-me agora a procurar a boneca. Senão, você já sabe o que vai acontecer.

E, de algum jeito, eu sabia realmente o que iria acontecer. Sei lá, algo me dizia que as consequências de contrariar aquela garota iam ser muitas. Mas eu não ia deixar as coisas tão fáceis para ela.

- Por que uma simples boneca? Por que eu? Por que você está sozinha na rua?

- Por que você é tão questionador? Vá buscar a minha boneca.

E foi nessa hora que eu senti uma dor horrível. Minha cabeça quase explodindo de tanta dor, e escutei algo agudo em meu ouvido que me fez se contorcer no chão. Eu não sentia minhas pernas, e minhas mãos apertavam forte a minha cabeça doída. E em um segundo, tudo acabou.

- Sua... sua maluca! Eu sei que foi você que fez isso, eu sei! Você, sei lá, é possuída, ou alguma coisa assim! Sai de perto de mim, criança problemática! — eu começei a gritar, e percebi que, apesar de meus berros, todos que passavam não percebiam nada. Como se nós fossemos invisíveis.

- Eu disse que haveria sérias consequências. Enfim, vai ou não vai buscar a minha boneca? — a menina perguntou, com sua voz fina, rouca e fria.

- Buscar? Epa, epa... você disse procurar!

- Não importa. Você vai fazer o que eu mandar. Agora você é meu.

Foi quando eu senti o chão se abrir, e caí em uma escuridão tão profunda quanto os olhos da menina da boneca.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.