A Menina-Borboleta, A Mulher Justa & A Onda Branca
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Sinceramente, ela não sabia para qual casa seria escolhida. De fato, suas características poderiam a encaixar em todas as descrições das quatro Casas e, intimamente não temia ser escolhida para uma indesejada pelas pessoas que lhe eram queridas. Não que ela fosse muito segura de sua vida. Certamente que não. Porém seus ideais eram por demais justos. E ela apenas saboreava a justiça quando esta era aplicada a todos.
A aparência deste espécime peculiar de pessoa não importa, mas vou dizer apenas algumas coisas. Seus olhos eram observadores. Suas orelhas aguçadas gravavam detalhes e importâncias. Seu nariz pequeno e arrebitado analisava os cheiros; interpretando e tirando as próprias conclusões. E quanto a sua boca, é verdade que de lá não saiam muitas palavras, e consequentemente todos estranhavam e a incentivavam a se expressar. Reclamavam e reclamavam. Mas, apenas alguns, a mulher da loja de poções, o homem que tinha conhecido quando se perdera no Beco Diagonal compreendiam uma verdade. A menina falava com os olhos. Interpretava, analisava e dava o seu veredicto por final.
Não pensem que a família não a amava. Era a caçulinha, a última, talvez não menos importante, mas seus olhos inteligentes e perspicazes sempre a condenaram, ou melhor, condenavam os outros. Tolos demais, ela falava para o pai, que apenas balançava a cabeça e dava-lhe um discreto sorriso. Ele a entendia. E a menininha foi crescendo e a carta chegou e, depois o primeiro de setembro. Na estação, ela ouviu um homem ameaçar de brincadeira o filho. Se não caísse na casa dos leões o deserdaria. Oh, pobre menino. Ela abaixou a cabeça e uma lágrima escorreu pela sua pele. A irmã mais velha a olhou com descaso. Menina boba e ignorante pensou. Chorando a toa. E seguiu o seu caminho.
Entretanto a menina tinha um motivo para chorar em suas grandes concepções. Coitado do menino, agora no seu intimo, no fundo de seu amago, estará mais inseguro ainda de sua casa, pensou. E ela encarou o pai do garotinho com uma tristeza evidente nos olhos, quase palpável. Na verdade, o homem até parou no meio daquele olhar, preso pela intensidade na qual os olhos da pequena garota se expressavam e a encarou de volta. Porém ele deu de ombros, afinal crianças fraquinhas choram ao ir estudar fora. E a menina seguiu em frente, triste pelos pequenos atos que poderiam alterar o curso de uma vida. Mas quem era ela para julgar? Oh não, ela não seria mais um dos hipócritas, afinal tinha orgulho de não o ser e ela sempre honrava o que lhe agradava. E chegou a frente do trem, a mala com o mapa do mundo desenhado pesando em sua mão.
O pai que acompanhava a filha mais nova no percurso, a olhou atentamente e retirou uma pequena tesoura de prata do seu bolso. Cortou uma mecha de seu cabelo e entregou para a menina. Após levemente arregalar os olhos, ela sorriu alegre, e enfiou a mão no bolso de sua capa de veludo de onde tirou um vidrinho onde colocou a mecha, rapidamente guardando-o novamente. Então pediu com os olhos atentos a tesoura que delicadamente segurou e cortou uma mecha de seu cabelo. O pai deu um raro sorriso, uma boa surpresa para a criança que quase nunca o via curvar os lábios, e realizou o mesmo ritual da filha. Deu-lhe uma piscadinha e murmurou — Até o Natal, Genevieve — ela o olhou repreendendo-o e sussurrou com os lábios juntos — Não me chame assim, Morcant — ele a olhou sério — Não seja um estorvo. Não se sobressaia. Não chame atenção. — ela o olhou ferozmente e o belo momento que havia se passado pareceu se dissipar. Sem respondê-lo ela apenas deu um impulso e subiu no trem e sem olhar para trás caminhou por entre vagões procurando um vazio. No final dos corredores, oculto pela sobra de uma placa ela ficou feliz em encontrar um lugar em que pudesse refletir. Analisar. Concluir.
Depois de muito pensar ela chegou a seu novo lar. Magnifico. Belo. Enigmático. Secreto. Diferente dos outros, não ficou com uma expressão patética ao vê-lo por dentro. Esperou um pouco e seu nome foi chamado. Todos fizeram silencio como de costume esperando o veredicto. E o chapéu-seletor murmurou palavras em línguas esquecidas e fez caras peculiares e os minutos se passaram. A menina se manteve ereta. As mãos pousadas delicadamente no colo e o olhar perdido em pensamentos correndo pelo céu encantado do Salão Principal. Sem se alterar. Igual. Até um momento. Os olhos pareceram perturbados e de longe se viu isso. O seletor resolveu se pronunciar, mas antes de abrir a boca uma vozinha firme e doce ecoou pelo espaço. — Explique-me — e o seletor fez uma careta, mas como se já esperasse voltou para o seu interior discutindo com as concepções da menina e com os pensamentos da mesma. Depois de muito vasculhar a livre mente ele encontrou a resposta que sempre lhe esteve tão clara e falou baixinho apenas para ela: Faça o que faz de melhor, pequena borboleta. Justiça — e a expressão da menina se iluminou e com um sorriso de canto concordou com um meneio da cabeça enquanto o seletor anunciava o seu destino: Sonserina. Aplausos educados e desconfiados. Mas, diferente da menina-borboleta, eles não estavam livres de correntes os prendendo a julgamentos. Pouquíssimos naquele castelo estavam. Eles não tinham a justiça que ela apreciava possuir
A menina não mais tão pequena não foi para casa no Natal. Explorar. Descobrir. Concluir. E não ser alvo de olhares desgostosos. Afinal, tinha de ser uma serpente? É claro que os primos que nunca foram adorados pela menina se encheram de satisfação ao poder falar-lhe mal. Cobra. Venenosa. Ruim. A menina era não apreciava injustiças consigo mesma assim como não as apreciava com outras pessoas. E mesmo sendo muito orgulhosa ela tinha sentimentos e olhar a cara decepcionada daqueles por quem nutria consideração não era algo que gostava. De qualquer modo, ela finalmente havia encontrado um lar. Não que agora tivesse uma "família feliz". Apenas havia entendido um dos porquês de estar naquela casa. Sendo um deles, é um irmão. Irmãos nem sempre se dão bem, mas ela entendia que lá por mais frios e às vezes impessoais todos encontravam pessoas com quem podiam contar. E os estereótipos cercavam a todas as Casas, e com ainda mais intensidade a dela. Pois lá todos deveriam ser maus. A marca mais preconceituosa de todas. Mas bem, aquilo poderia ser uma grande ironia, não? Os que sofriam mais preconceitos também eram aqueles que exerciam atitudes discriminatórias.
Tornando uma longa história uma curta os anos se passaram, e a menina não voltou para nenhum Natal e nas férias arranjou meios de escapulir. Fez justiça à vida injustiçada de outros e o seu curso se tornava cada vez mais esplendido, assim como a seu histórico acadêmico.
Não se sobressair foi o ultimo aviso do seu pai. Uma vez por ano ela olhava o vidrinho com o cabelo de quando ainda eram unidos. Envelhecendo e se tornando mais branco. Não sabia o que o pai havia feito como dela e embora no fundo, bem dentro de si mesma se perguntasse enlouquecidamente as resposta, contentava-se em não saber responde-las. Injustos. Manipuladores. Os anos passaram de um jeito ou de outro.
A menina agora uma jovem mulher, não tinha uma beleza grandiosa nem traços excepcionais, mas os anos em meio a uma casa injusta e injustiçada a fizeram aceitar as suas imperfeiçoes. Aperfeiçoe o que há de melhor e melhore o que há de pior. E se não agradar os outros? O problema nunca havia sido dela. O que importava era agradar a si mesma.
Inconscientemente ela seguiu um conselho do pai. Nunca se tornou um estorvo. Na realidade era adorada. Sua mente aguçada e língua afiada lhe renderam belos discursos em pé no meio do salão. Oh sim, ela falava o que pensava e era contra injustiças acometidas. Ela solucionava as brigas internas e apaziguava conflitos externos. Mesmo assim, mesmo com resultados incríveis e um senso geral, pois havia pessoas que a detestavam, ela não recebeu o cargo de monitora-chefe ou mesmo monitora. E naquele ano mesmo ela fez o seu primeiro discurso em frente a todos, em meio a um jantar.
Esta jovem era muito inteligente e sabia colocar mensagens por entre palavras e esse foi um dos motivos para alguns alunos passarem a observa-la mais atentamente. Ela era uma joia rara e contra eles seria um grande obstáculo em seus caminhos. Mas, a garota não era daquela casa a toa. Irmãos de casa? Alguns cerca de três tentaram persuadi-la, manipula-la. Ela cordialmente dizia que estava bem como estava e que o mérito sempre deveria provir do nosso próprio esforço e não de momentos alheios transpassados por alguém senão nós mesmos. Depois daquele dia, mais alguns passaram a olha-la feiamente. Ela mantinha a sua postura ereta e os olhos parados. Observando. Condenando. Arrumando. A seus desejos, a desejos de justiça. Não que ela sempre fosse impecável. Nunca. Ela era imperfeita.
Deixando de prolongar muito os acontecimentos, ninguém pode impedir a escolha dela para oradora geral, de todas as casas. Quando lhe pediram que o fizesse ela tirou os olhos do papel que concentrada escrevia, balançou a cabeça positivamente e falou que seria uma honra. Levantou-se, alisou a saia e segurando um caderno com desenhos indecifráveis que só se via de relance ao longo dos anos se retirou da sala comunal. Entretanto parou de andar ao encontrar um fantasma. Uma injustiçada. Uma sábia. Uma lembrança do que era. Se martirizando. Triste. Se remoendo.
— Serei a oradora, Helena — a fantasma balançou levemente a cabeça e se apoiou na sacada, como se sentasse- Minhas congratulações, Justine — A jovem meneou a cabeça — Obrigada, mas isso não é necessário. A questão, é que já escrevi o discurso, mas não acho que ele seja exatamente adequado a formatura. Deveria fazer algo que emocionasse e tocasse a todos, bem coletivo, mas não é do meu feitio — A fantasma se aproximou e lhe dirigiu um triste sorriso — Eles se agradarão com as suas palavras quaisquer que sejam. — A jovem andou para a sacada e observou a arquitetura que nunca mais veria — Eu gostaria de pedir-lhe a permissão para mencionar-te no discurso — a outra pareceu confusa — Não entendo a razão para desejá-lo, mas se tem certeza que se o fizer não irá se prejudicar tem o meu consentimento. — A mulher mais nova a olhou com uma lágrima escorrendo pelo rosto que foi rapidamente limpa – Agradeço-lhe Helena. Ainda venho visita-la quando estiver com tudo pronto. Quem sabe depois de acabar o curso eu não dê um jeito e passe por aqui, talvez... — A fantasma lhe deu um sorriso cúmplice — Livrou-me do peso em minhas costas e me fez mais justa. Ver-nos-emos numa outra vida. Siga os seus passos como a borboleta que é. Faça as pazes com teu pai, criança, não digo que deva retornar as relações familiares, apenas o livre e se livre dessas perguntas que a atormentam. — a garota a olhou e suspirou — Espero que encontre a paz e a felicidade. Farei o possível para seguir os teus conselhos. Que você também seja uma borboleta, Helena Ravenclaw — e se virou não olhando para trás, afinal não era algo que faria. Caminhou e chegou à entrada principal e andou mais um pouco ainda até abaixo de um velho e vetusto sabugueiro, onde havia um pequeno rio onde enfiou os pés. Com o caderno na mão escreveu o que entendeu durante os anos e refez o seu discurso. O seu último naquela instituição.
No dia tão esperado, ela apareceu correndo atrasada, entrando no momento em que as grandes portas se abriram. Ela estava sem maquiagem ou sapatos altos. Usava um uniforme com as cores inversas e seus cabelos estavam completamente emaranhados e molhados como se ela tivesse vindo de um local onde chovia.
Após ser requisitada no palanque, apressou-se para cima do mesmo e com um Sonorus se pôs a falar. No seu discurso falou das folhas que caem por causa do vento e que mesmo assim suas quedas não são em vão e que outras nascem. Falou de borboletas e de liberdade. Falou de justiça, na sua humilde concepção. E terminou falando do futuro incerto que se apresentava diante de todos naquele mundo e que todos deviam se lembrar de que mesmo bruxos não compreendem o que realmente é a magia. Se livrar de preconceitos e aceitar as verdades. Serem livres.
Os aplausos vieram lentos e organizados. Alguns mais entusiasmados e emocionados do que outros. A mulher agradeceu e antes que pudesse se sentar encontrou olhos e o sorriso da última Ravenclaw que deixava as paredes daquele castelo. Ela não a mencionara. Ela havia escolhido.
Assim que recebeu o diploma saiu jardins afora e foi até o sabugueiro que fez sombra por tantos anos para ela escrever. O caderno estava completo. Um caderno sobre ela. Sem menciona-la. Desenhos, formas e concepções. O enterrou junto de seu diploma dentro da arvore e caminhou pela noite. Livre. Justa. Leve. Como uma onda branca...
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