A Melodia final

5 Capítulo 5


Notas iniciais
Boa tarde galera! Como estão? Mais um capítulo da minha história pra vocês! Espero que estejam gostado. Se tiverem algo a dizer, por favor, nao hesite. :D Boa leitura. E tem surpresa na nota do final do capítulo.

Conhece aquele sentimento de quando te fazem uma pergunta sobre um assunto que você não gosta de falar? Aquele acontecimento na sua vida que você faz questão de esconder bem fundo, e torcer para que ninguém descubra? Aquela história vergonhosa que uma tia chata conta de você na mesa com a família inteira. E que após ela contar, todos começam a discutir sobre e esquecem que você está ali. Era exatamente o que eu sentia quando trazia o assunto “Rachel” à tona.

Meus amigos já sabiam que era um assunto delicado, e que por mais que eu parecesse não ligar, eu realmente não gostava de falar sobre aquilo. Como sempre fiz, desde a infância, costumava mascarar meus verdadeiros desejos, afogar meus pensamentos, para que não “atrapalhasse” a vida dos meus amigos e famílias. E sendo assim, cresci como uma pessoa cheia de sonhos, mas cheia de pensamentos oprimidos. Mas de certa forma, desta vez, não era possível eu simplesmente deixar de lado o assunto.

– Essa é a Rachel. – Eu disse após me sentar no sofá que a poucos minutos eu estava deitado.

– Ela é sua namorada? – Perguntou, com um tom de desconfiança.

– Não. Muito longe disso. – Afirmei. – Ela é irmã do Dylan. Lembra dele? Conheceu ele ontem a noite.

– Eu sei quem é o Dylan. – Ela disse. – Por que você tem uma foto da irmã do seu melhor amigo em sua casa? Não uma foto dos 3. Só uma foto dela. Por que? – Ela me perguntou impaciente.

– Acontece que ela foi a garota pela qual me apaixonei quando era criança. E esse sentimento perdurou até agora. Nos vimos a ultima vez, quando ela se formou e foi para a universidade, a 6 anos atrás. – Percebi que enquanto falava, ela me olhava atentamente, e estava profundamente concentrada em meu discurso.

– Então você ama ela? – Ela perguntou enquanto assentava-se no puffy.

– Como eu posso amar uma pessoa se nem ao menos tive um relacionamento com ela? – Racionalizei.

– Bom, ninguém faz uma música para uma pessoa sem estar amando. E definitivamente a música era pra ela. – Para uma garota que na noite anterior estava chorando por causa dos pais, hoje ela estava realmente fria e racional.

– Muitos artistas criam músicas por inspirações momentâneas. Não é algo que necessariamente precisa durar. – Argumentei.

– Mas no seu caso... É o que acontece não? Você ainda gosta dela. – Descobri naquele dia que quando a Hayley quer alguma coisa, ela enche o saco até conseguir.

– Hayley... Ela faz parte do meu passado. Ela é irmã do meu amigo, e minha amiga. Nós nunca tivemos uma chance. Isso tudo, a música, foram coisas da minha cabeça. Coisas que eu inventei para sustentar minhas emoções. Coisas que eu não consigo deixar pra trás. – Levantei-me e fui em direção à ela. – Até agora, foram esses sentimentos que me fizeram chegar aonde eu cheguei. Sem eles, eu quebrarei.

Percebi que quando me aproximei dela, ela deu um passo pra trás. Isso era um mau sinal. Parece que, a única garota por quem eu estava mesmo interessado após todos aqueles anos, ia escapar da minha mão. O olhar dela, já não era mais aquele olhar sereno, com um meio sorriso que ela estampara no rosto no dia anterior.

– Dunn, eu te entendo. Todos temos os nossos fantasmas. Mas no seu caso, você vive com o seu fantasma. Enquanto você não se libertar dele, não será capaz de seguir em frente com a sua vida. – Ela me olhava nos olhos. Um olhar sério, como de alguém preocupada, alguém que demonstrava compaixão por mim, mesmo sabendo que o culpado era eu mesmo.

– Seguir em frente? Então tudo que eu fiz até agora não foi seguir em frente? Se não é seguir em frente, é o que? – Desequilibrei no tom, desacreditando no que acabara de ouvir.

– Tudo que você fez, foi viver em função de um sonho e adiar uma decisão. Dunn, não é assim que as coisas funcionam. – Ela me repreendeu.

– Ah! Olha quem está falando. A garota que não voltou pra casa por causa de uma briga entre os pais, que não quis conversar sobre isso, e que foi para a Filadélfia justamente pra escapar de conflitos em casa. Você não está adiando também? – Elevei o tom da minha voz, como se estivéssemos em um debate, e eu quisesse desesperadamente ganhar.

– Eu... eu não acredito no que estou ouvindo. – Ela pareceu chocada com o que tinha acabado de escutar sair da minha boca. Eu percebi que tinha falado demais. Afinal de contas, além de ter tratado assuntos familiares como lixo, eu a conhecia a apenas um dia.

– Dunn... Abre a porta pra mim. Por favor. Eu vou embora. – Ela me disse, passando por mim, e agarrando de forma descuidada a sua bolsa e indo em direção à porta.

– Hayley... Me desculpe, eu não quis dizer isso... É que pra mim...

– Eu entendo. Você está certo. Quem sou eu pra te dizer que deve seguir em frente se eu tenho sido afastada dos meus próprios problemas? Eu sou uma idiota.

– Não é. Espera um pouco, vamos conversar... – Tentei segurá-la mas ela empurrou minha mão para longe e se afastou de mim.

– Abre essa porta. Eu vou embora. – Ela elevou o tom de sua voz.

– Então espera que eu te levo... – Fui pegando a minha jaqueta e a chave.

– Não quero. Eu vou de ônibus. – Ela me cortou. Abri a porta e ela saiu rapidamente.

– Hayley, me desculpe, de verdade.

Ela olhou para mim como se eu fosse nada. Não foi como no dia anterior em que seus olhos transmitiam felicidade, e até mesmo a tristeza. O olhar era vazio, nada conseguia se tirar dele. Ela parecia estar olhando para uma pessoa morta. E então, entrou no elevador, e as portas se fecharam.

Posso dizer que a frustração que senti foi grande. Muito maior do que eu imaginava. Ela era uma garota sensacional. E eu estraguei tudo. Eu me senti um bosta. A única pessoa pela qual me interessei nos últimos anos veio até mim e eu afugentei em um dia. Um único dia.

Bati a porta com força, e gritei vários palavrões. Mas por mais que eu gritasse, xingasse, parecia que nenhuma palavra era o suficiente para expressar a minha raiva. Joguei minha chave e jaqueta no chão, e fui me despindo em direção ao banheiro.

Entrei embaixo do chuveiro com a água gelada, e fiquei parado deixando a água escorrer pelo meu corpo. Na minha mente, eu pensava: “Você foi burro pra caralho. Puta merda rapaz! O mundo está prestes a acabar e você vai morrer sozinho. Espero que esteja feliz com a cagada de hoje seu escroto!” Claro, era óbvio que algo do gênero ia acontecer, como sempre na minha vida, o sortudo era sempre o Dylan, dessa vez, não era diferente. Tenho certeza que aquele filho da puta levou a garota do trabalho pra cama.

Após alguns minutos, eu tomei o meu banho de fato, e então me troquei para ir para a produtora. O caminho foi realmente inexistente naquele dia. Me lembro ter saído de casa, mas como estava com a cabeça uma bagunça, não sei qual trajeto fiz. Só sei que me lembro estar chegando no estúdio quando ouvi a voz da Melissa:

– Senhor Duncan. A sua banda e Jim estão te aguardando para a gravação.

Puts! Eu havia me esquecido que hoje Jim havia cancelado todos os seus compromissos para gravarmos. O que não me animou. Após aquela briga, eu não estava muito afim de tocar, muito menos de conversar. Eu queria ficar sozinho, no silêncio.

Subi para as salas de gravação no quarto andar e me deparei com todos me esperando.

– Até que enfim apareceu! – Disse Ed com um tom de alívio, quase suspirando.

– Cara, você sabia que estamos te esperando a quase meia hora para começar a gravar? – Disse Nate, enquanto tocava uma guitarra imaginária com sua palheta.

– Bom, parece que alguém dormiu até tarde. – Disse Jim. – Agora para recuperar o tempo perdido, gravaremos sem intervalos.

– Passou a noite na gandaia né cuzão! – Brincou Chad. Eu simplesmente ignorei.

Então, Jim nos mandou para a sala de gravação. Pediu para que gravássemos uma demo de cada música, e então iriamos revisando as partes das músicas que poderiam ser melhoradas. Nos colocamos em formação dentro do estúdio, e começamos a tocar. Porém, enquanto tocávamos, minha cabeça estava em outro lugar. Todos perceberam que algo estava errado. Eu estava calado, tocava as músicas de forma automática. Já havia tocado elas tantas vezes que não precisava me esforçar para solar e fazer os arranjos e dedilhados. Quando terminávamos uma, imediatamente eu já emendava outra. Após tocarmos 5 músicas, Jim disse:

– Pessoal, faremos um intervalo de 5 minutos para refrescar a cabeça.

Todos foram saindo da sala de gravação, até que Ed chegou até mim e perguntou:

– Que porra é essa?

– O quê?

– Eu perguntei: Que porra é essa? – Disse ele franzindo as sobrancelhas e me olhando como se eu fosse uma aberração.

– Eu não sei do que você está falando. – Retruquei.

– Não sabe é? Deixa eu esclarecer para você: Você ta tocando que nem um macaco! Ah, não... Porque os macacos se esforçam para aprender e tocar. Você não faz nada. – Eu acho que foi um insulto.

– Eu não sei aonde você quer chegar. – Abaixei a guitarra e a coloquei no suporte.

– Aonde eu quero chegar? Se você não começar a tocar que nem gente, eu vou te espancar. Entendeu? Nada de putaria no dia da nossa gravação. Fui claro? – Ele realmente parecia irritado. Balancei a cabeça afirmando o que ele tinha acabado de dizer.

– E coloque um sorriso nessa cara. Se eu te ver com tocando com essa cara de cu de novo, eu vou enfiar as baquetas no seu...

– Opa opa! – Interrompeu Jim. – Ed, posso conversar com o seu amiguinho um pouco?

– Claro! A vontade. Espero que você coloque consciência nesse moleque de merda. – Disse Ed saindo da sala batendo os pés. Após ele encostar a porta, Jim se virou para mim e disse:

– Dunn. Eu te conheço a quase 2 anos, e nunca te vi assim. – Diferente dos outros, ele parecia calmo e disposto a conversar. Mas eu não podia contar para ele a história completa. Afinal, eu quase levei sua filha para a cama.

– Não é nada. Sério. – Insisti.

– Se não fosse nada, você estaria tocando com todo ânimo. Sabe Dunn, você é uma das pessoas mais esforçadas que eu conheço. Preguiçoso, mas se esforça para fazer o que gosta. E eu sei que você gosta de Rock’n Roll. Seus amigos sabem disso também, e é por isso que eles sempre esperam o melhor de você. Uma coisa que aprendi no ramo da música, é que assuntos pessoais precisam ser lidados em casa. E assuntos profissionais em estúdios, shows e etc. Se uma pessoa não quiser tocar toda vez que fica irritada ou chateada, você acha que os Guns’n Roses teriam feito o numero de turnês que fizeram? Hahahaha... Se anime, e se divirta com seus amigos. A música deve ser um canal para se libertar de problemas.

Tudo fazia sentido. As palavras calmas do Jim me fizeram acalmar um pouco. Eu ainda estava irritado. O problema é que era comigo mesmo. Em quem descontaria? Em mim? Isso era estupidez.

– Jim, como se liberta de uma briga com seu interior? – Pedi aconselhamento. – Eu não sei como.

– Dunn. Você não acha que a resposta está bem óbvia? Olhe ao seu redor. Vários instrumentos e Rock’n Roll. Acho que já está mais que respondida a sua pergunta.

Esse foi um dos momentos Yoda que eu tinha de vez em quando. A resposta era mesmo óbvia. Peguei minha guitarra, sentei em cima da caixa de som, liguei, e comecei a tocar um Riff.

– Obrigado Jim. Era o que eu precisava ouvir. –Agradeci.

Enquanto eu tocava o Riff, palavras para completar aquela harmonia vieram a minha cabeça:

The more I think about it,
(Quanto mais eu penso sobre,)
I realized, how dumb I was.
(Eu percebi que fui idiota)
All the argument we’ve been through.
(Toda essa discussão que nós tivemos)
It hurts to have no solution at all
(Machuca não ter uma solução)

That nonsense yelling,
(Toda gritaria sem sentido,)
I wanna forget everything
(Eu quero esquecer tudo)
Because for the first time in a long time,
(Porque pela primeira vez em muito,)
I Found someone I could be with.
(Encontrei alguem que eu posso estar.)

Now I know what it feels like
(Agora eu sei como é)
To fall in love in one day time
(Se apaixonar no intervalo de um dia)
It’s all right
(está tudo bem)

Where are you,
(Aonde você está)
Right now,
(Nesse momento)
I have some things to apologize for
(Eu tenho agumas coisa que das quais preciso me desculpar)
I was wrong for judging you
(Eu estava errado em te julgar)
When I was the one wrong.
(Quando na verdade o errado era eu)

Now I know what it feels like
(Agora eu sei como é)
To fall in love in one day time
(Se apaixonar no intervalor de um dia)
It’s all right
(Está tudo bem)
I Promise I’ll keep you by my side.
(Prometo te manter ao meu lado)
All the time
(Todo o tempo)

I want you to know,
(Eu quero que você saiba)
That my past is gone,
(Que meu passado se foi)
A long time ago I would have left alone
(A muito tempo atrás eu teria deixado sozinho)
My deepest ghosts,
(Meus fantasmas mais profundos)
I’ll make go away
(Os Farei ir embora)
Only for you,
(Só por você)
I could change it all
(Eu poderia mudar tudo)
And make the present so great for us
(E fazer o presente tão bom para a gente)

Mesmo com minha voz meio desafinada, já que não sabia exatamente a melodia que iria cantar, simplesmente fui cantando da forma que vinha na cabeça. Quando terminei levantei a cabeça, todos estavam me olhando com cara de espanto. Eu não estava entendendo porque estavam de boca aberta olhando para mim.

– De... de onde você tirou essa música Dunn? – Ed me perguntou.

– Da minha cabeça. – Rebati.

– Agora?

– Sim. Por que?

– Deixa eu fazer uma pergunta. Você consegue tocar ela e cantar de novo?

– Consigo. – Após minha resposta, eles se entreolharam e então Jim foi para trás da mesa de som e gritou:

– Toque novamente! E dessa vez eu irei gravar. 3, 2, 1, já! – Após a luz acender, comecei a tocar. E como da primeira vez, eu coloquei todo o meu sentimento. Todo aquele turbilhão de sentimentos pra fora. Canalizei tudo para a música. Enquanto tocava, Ed, Nate e Chad foram preparando seus instrumentos, e no meio da música, começaram a me acompanhar. Percebi que o que Jim havia dito era mesmo verdade. Que a música liberta. Até então, eu só havia letras que me prendiam ao meu passado. Eu não fazia idéia de que elas me seguravam. Mas é fato. Elas me seguravam.

Após terminarmos a música, resolvi emendar nossas antigas. Uma a uma. O resto da gravação foi um sucesso. Porém, eu ainda tinha assuntos a serem resolvidos. Ajudamos Jim a organizar o estúdio, e então, deixamos o local ao anoitecer. Quando estávamos na porta do prédio, a mãe da Hayley veio de encontro com o grupo.

– Boa noite. Algum de vocês é o Duncan?

– Eu sou.

Notas finais
Pessoal! Aqui está! Para quem ficou curioso de saber qual música o Dunn tocou. Está aqui a primeira versão dela. https://soundcloud.com/leandro-diot-bertarelli/fall-in-love-in-one-day-time
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.