A Melodia final
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Aquele tumulto súbito tomou toda a cidade em menos de 15 minutos. Eu nunca tinha visto nada igual. Eu estava na Angeles Coffe House quando meu celular toca:
– Você, bar, agora! – Era Dylan, meu amigo desde a infância, aparentemente eu estava sendo convocado para alguma conferência ou aquelas conversas de bêbado. Mas após as notícias daquele dia, eu podia compreender seu anseio.
– Para qual bar? – Perguntei.
– La fiesta está bem! – ele respondeu. Saí da cafeteria, montei em minha moto e fui em direção ao bar. Pela cidade se via uma movimentação extraordinária. Pessoas andando para todos os lados com seus celulares nas mãos ligando para, provavelmente, seus parentes, e amigos mais próximos. Esse foi o dia em que o fim do mundo fora anunciado.
Chegando ao bar, pude ver Dylan já com uma garrafa de cerveja na mão, sentado no balcão com outra garrafa ao lado que já havia pedido para mim.
– Você consegue acreditar nisso Dunn? Vamos morrer em breve! Mas que bosta! E eu nem consegui riscar toda a minha lista de desejos. Um buraco negro? Cara, isso é insano! Não consigo acreditar em nada que esses jornalistas de merda anunciaram, apesar de que eu ajudei a atualizar os feeds com essa notícia. – Ele não me deu nem uma pausa sequer para falar. Sempre foi assim desde pequeno. Este é Dylan Bennet. É meu melhor amigo desde sempre. Nos conhecemos no ensino elementar. E em uma reunião da escola, nossas mães estavam conversando e decidiram nos levar ao parque juntas. E então desde esse dia, nos tornamos muito amigos. Ele tem uma irmã um ano e meio mais velha. Essa é a Rachel. Sempre tentávamos armar contra ela, como se ela fosse a inimiga. Mas ela sempre acabava descobrindo e nos dávamos mal. Dylan sempre foi hiperativo, possuía idéias geniais, mas nunca acabava bem. E geralmente ou eu me dava mal, ou nós dois nos dávamos mal. Estudamos a vida toda juntos, exceto na faculdade. Ele cursou Jornalismo e atualmente trabalha na estrutura de redes da CNN.
– Olá Dylan! Estou feliz em vê-lo também! E estou bem. Obrigado por perguntar. Como você está? – Cumprimentei ele ironicamente. Peguei a garrafa de cerveja extra e dei um gole.
– Ah Dunn! Você sabe que eu não sou assim. É muita informação ao mesmo tempo! De uma vez! Eu queria saber o que fazer. Todos parecem estar perdidos. Não percebeu o caos que está la fora? – Ele já tinha terminado a primeira garrafa e já estava pedindo a segunda rodada.
– Vamos brindar Dunn! Por esse planeta de bosta que não consegue ficar fora de confusão! Quando não são guerras mundiais, são guerras políticas, e agora isso! Um buraco negro. – Ele parecia bem aborrecido. Não é para pouco. Hoje, quinta-feira, exatamente às 16:47, no horário padrão do pacífico, em Los Angeles, enquanto eu estava no Angeles Coffee House foi anunciado mundialmente que a estrela Sirius A, tinha se tornado instável e estava prestes a implodir. O que significa – obviamente que o sistema solar inteiro está em perigo – que em breve, ela se tornaria um buraco negro e com uma certa certeza, destruiria tudo ao seu redor. Inclusive o planeta Terra. Até hoje, buracos negros pra mim eram ficções, lendas, mitos, a palavra que você quiser usar para definir “história de dormir”. Mas o que eu descobri foi que, essa história será minha passagem de primeira classe para a morte. Explicando rapidamente o que seria um buraco negro: Uma estrela é como um reator nuclear. Os átomos de Hidrogênio se fundem liberando energia, e em seu centro, uma gravidade mantém continuamente todos esses átomos juntos. Quando o combustível não é o suficiente para manter as irradiações a gravidade começa a ganhar e comprimir o centro da estrela. E, em um segundo, o núcleo fica tão denso que se torna um buraco negro, e então a estrela libera duas rajadas de energia. E então o buraco negro consome toda a matéria da estrela. E esse é o começo do fim.
– Sabe Dylan, eu não vejo motivo para nos desesperarmos. Fazendo bagunça ou vivendo normalmente o mundo irá acabar da mesma forma. Não acha? Então por que não aproveitar os últimos tempos de forma tranquila? — Perguntei, balançando a garrafa de cerveja.
– Bem, você pensa assim Dunn. Mas e a maioria das pessoas la fora? Como você espera que elas mantenham a calma se nem ao menos calaram a boca para ouvir a notícia na íntegra e já saíram correndo desesperadas. Nem escutaram a parte que os repórteres disseram: “Não sabemos ao certo quando irá acontecer!” – Ele tinha um bom argumento. Mesmo assim eu tentei expor meu ponto de vista para ele:
– Isso foi só momentâneo. Hoje a noite, em casa as pessoas irão entender tudo e se acalmarão. – E então seguimos conversando e tomando cerveja como costumávamos fazer.
– E a Rachel como está? – perguntei a ele.
– Como sempre, entupida de trabalho. Aquela importadora de óleo não dá descanso para ela. – Disse Dylan como se estivesse desabafando para mim. Ele não via a sua irmã faziam quase 2 anos. E eu não a via desde que ela se formou no ensino médio. Como já havia dito, ela é um ano e meio mais velha que nós dois. Mas no colégio ela cursava uma série a nossa frente. Desde pequeno eu sempre tive uma queda por ela, que se tornou uma paixão no ensino fundamental. Eu não podia falar para o meu melhor amigo que gostava da sua irmã mais velha. Isso é contra a lei dos melhores amigos. Então, mantive para mim por todo aquele tempo. Ele sempre me perguntava por que eu não namorava como ele fazia. Minha resposta era sempre a timidez. Mas havia aquele segundo motivo.
– Entenda Dylan, ela precisa se sustentar assim como você. Garanto que ela só aguentou até agora porque realmente gosta do trabalho. – Usei o argumento mais batido de todos para tentar consolá-lo.
– Eu sei Dunn. Eu sei... Só que ela poderia visitar pelo menos a mãe às vezes não é? – No fundo eu gostaria que ela me visitasse também. Mas achei melhor não expor isso para ele.
– Eu te entendo completamente. Mas não posso fazer nada em relação a isso. – E a conversa se estendeu por toda a tarde e o começo da noite. Até sermos interrompidos pelo meu celular. Era a minha mãe me ligando:
– Oi filho... As notícias... Terríveis não? – Percebi que o tom de sua voz era baixo e desanimado, mas que ela mantinha a calma assim como eu.
– Oi Mãe. Eu não vejo motivo para desespero. Mais cedo ou mais tarde todos morreríamos mesmo. – Disse eu tentando ironizar a situação. Minha mãe claramente não gostou do meu comentário. Então ficou em silêncio. Nesse momento eu soube que se eu não falasse nada ela não ia continuar a conversa. Então eu completei:
– Mãe, fique tranquila, vamos continuar com as nossas vidas normais, provavelmente essa estrela viva ainda mais uns anos então temos tempo o suficiente para fazermos tudo que precisamos nessa Terra. Não adianta se desesperar por uma situação fora do nosso controle certo? — Essa era uma frase que minha Mãe adorava usar quando eu era pequeno. “Não adianta chorar pelo que não se pode controlar” ou “Não adianta se desesperar se não cabe a você controlar a situação”. No fim ela concordou comigo.
– Bem filho, me ligue se precisar conversar. No final da semana te ligarei se tiver alguma novidade. Ah, e se encontrar com o Dylan diga que mandei lembranças! – Disse ela. Eu transmiti o recado para o Dylan e ele gritou no meu celular:
– Olá senhora Avery! Minhas lembranças também! – Além de gritar no celular, ele gritou no meu ouvido. Quase dei um soco nele por isso.
– E-ele mandou lembranças também mãe. Caso a senhora não tenha escutado. Tudo bem, estarei aguardando a sua ligação. Até. Depois da ligação da minha mãe, decidimos fechar a conta e irmos embora. Nos despedimos e montei em minha moto e fui para casa. Ao subir as escadas do prédio, eu me senti um pouco estranho, como se estivesse sem um rumo claro. E ao entrar em meu apartamento e fechar a porta, senti um forte aperto em meu peito.
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