A Melodia final
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Existe um antigo ditado sobre a morte. “A única certeza na vida é a morte.” Não sei se isso foi escrito por alguém que queria consolar um amigo, ou um parente. Mas o fato é que usamos até os dias de hoje para amenizar a dor de pessoas próximas a nós. Mas a verdade é que quando esse ditado é direcionado para você, ele perde seu sentido. Quando a morte se aproxima, a verdade é que essa é a ultima frase que queremos ouvir. E nos sentimos injustiçados. Exatamente assim, é como o mundo inteiro está sentindo.
Passando pela sala, liguei a TV para escutar as notícias, e os repórteres ainda falavam da estrela. Até onde nos informaram, ainda não se sabe quanto tempo temos. Os astrônomos estão tentando calcular o tempo de vida dessa estrela. “Um serviço relativamente fácil!” Pensei. Mas quando se tem a responsabilidade sobre 6,8 bilhões de pessoas, eu acho que as coisas complicam um pouco. Como eu disse, quando o mensageiro da morte bate a sua porta, a verdade é que a ultima coisa que você gostaria de ouvir são palavras de consolo. Porém nesse caso, não existem palavras de consolo. Pois o último dia da minha vida. Será o ultimo dia da vida de toda a Terra. Com esses pensamentos confortantes, entrei embaixo do chuveiro e deixei a água cair sobre a cabeça. Muitas coisas se passavam pela minha mente. É incrível quando somos submetidos a certas situações e nosso cérebro começa a criar um filme da nossa vida até aquele exato momento. E nos faz pensar: “Meu Deus! O que estou fazendo aqui? “. Em meus pensamentos, vinham memórias de minha mãe, das minhas escolas, colégios, professoras, colegas de classe, Dylan, e da Rachel. E junto com essas perguntas, algumas são adicionadas como por exemplo: Como teria sido minha vida se eu tivesse tomado esse rumo em vez desse outro? Todas essas perguntas começam a bombardear a sua cabeça. É perturbadora essa sensação. E seus pensamentos começam a se jogar contra você, principalmente quando o assunto é o coração. Você começa questionar suas escolhas com um olhar muito mais crítico que o de costume. “Por que você não chamou a Rachel pra sair? Por que não se declarou pra ela?”. Perguntas as quais eu não tinha a resposta e provavelmente nunca encontraria uma resposta para cada uma delas.
Ao me deitar, os pensamentos continuaram a correr minha cabeça. Não conseguia dormir. Apesar de parecer não estar abalado, e não ter demonstrado isso para a minha mãe, nem para o Dylan, eu estava apavorado, quando me dei conta de que minha vida poderia acabar em breve, um desespero me tomou e eu não conseguia respirar. Senti o mesmo aperto de quando entrei em meu apartamento. Era como se todas as escolhas que eu deixei de fazer estivessem me enforcando naquele momento. É impossível descrever o que estava sentindo. Toda a minha vida não parecia nada perto do que estava para acontecer. Adormeci após algumas horas.
Quando acordei, os barulhos da cidade que podia ouvir, soavam como qualquer outro dia normal. Eu me levantei, fui até o banheiro, tomei um banho e me arrumei para ir trabalhar. Estava confuso, porque aparentemente eu tinha tido um sonho muito estranho. Terminei de me aprontar, e desci meu prédio para tomar meu café na cafeteria que ficava embaixo dos apartamentos. O Café da senhora Boneli era delicioso! Me lembrava muito o café que minha mãe fazia para mim quando era pequeno. E então para acompanhar o café, ela servia uma fatia de pão frito na manteiga, com queijo em cima, um ovo frito, e algumas fatias de bacon. Eu como todo bom americano, sou fascinado por esse café da manhã.
– Bom dia Senhora Boneli! O seu café está delicioso como de costume? A senhora caprichou pra mim hoje de novo? Hahahaha! – Cumprimentei-a.
– Bom dia Dunn! Hoje o café estará um pouco mais amargo que de costume. Fica difícil digerir o café com a situação em que estamos não? — Realmente, aquele café desceu mais amargo que nunca. Eu não tinha sonhado. A estrela iria implodir, e iria destruir o planeta Terra. Olhei para os lados, todo mundo no mesmo desanimo que a senhora Boneli. Naquele momento eu percebi a seriedade da situação de fato. Terminei o meu desjejum e fui em direção à produtora.
Eu trabalho na P.M. Records, uma produtora musical de L.A. Trabalho como auxiliar de estúdio. Bom, como eu vim parar aqui? Foi mais ou menos assim. Quando eu estava no ultimo ano do fundamental, eu comecei a aprender a tocar violão, porque as meninas morrem por caras que tocam algum instrumento. E como o violão era barato, optei por ele. A verdade é que comecei a aprender para impressionar a Rachel. Então eu treinava todos os dias o máximo que podia para poder tocar uma música para a Rachel quando eu me declarasse. Bom, é óbvio que isso não aconteceu. Eu acabei namorando com uma outra garota que, o Dylan disse que se matou para arrumar pra mim e então nosso ensino médio se foi. Mas acabei pegando gosto pela música. Após me formar, fui para a universidade e cursei engenharia acústica com especialização em produção musical, e então já fui empregado pela P.M.Records.
Quando cheguei à produtora, Melissa, a recepcionista que de vez em quando nos ajudava no estúdio, veio ao meu encontro:
– Senhor Duncan. O Jim está te esperando. Ele quer conversar com o senhor. — Jim era o dono da produtora, diretor de som, e qualquer outro cargo que se pode imaginar ali. Ele cresceu ajudando seu pai em uma estação de rádio. Então ele sabia operar equipamentos, equalizar, mixar muito melhor que qualquer um de nós. E olha que eu me formei em engenharia acústica com especialização em produção musical. Ele não gostava que chamássemos ele pelo seu primeiro nome seguido de senhor. Então pedia, assim que alguém era empregado, para chamá-lo somente de Jim. Dizia que era para manter o anonimato. Nunca entendi isso. Fui em direção a sua sala que ficava no quarto andar da produtora. Bati em sua porta e quando entrei, ele estava com um violão que de longe eu conhecia. Era o violão que ele ganhou de seu pai quando estava na adolescência. Estava dedilhando Stairway to heaven no violão com perfeição sentado em sua mesa. Quando me viu entrar, parou de tocar, se virou pra mim e iniciou a conversa:
– Sabe Dunn, eu escutei a sua banda outro dia no Pub aqui perto. Vocês tocam muito bem. Seus arranjos na guitarra são bem estruturados e eu gostei do estilo. Acho que vocês seriam capazes de fazer sucesso. Se o mundo não acabasse! Hahahahahaha – Achei um tanto inconveniente aquele comentário, como não sabia se era uma piada ou um elogio, eu agradeci do mesmo jeito.
– Obrigado Jim, é ótimo saber que você gostou das nossas músicas. Levamos algum tempo para compor mas achei também que o resultado final foi bem satisfatório. – Jim olhou pra mim como se estivesse maquinando algo em sua mente. Sabe aquele olhar de maníaco gênio? Ele possuía algo parecido. Após um intervalo, ele comentou:
– Então, os clientes de hoje o todos que iriam gravar algo, desmarcaram por causa da notícia. Eu acho uma perca de tempo parar de trabalhar por causa de uma besteira dessa. Por que afinal de contas, we’re on the highway to hell ! Hahahaha… – O humor dele me constrangiu um pouco, mas eu continuei escutando o que ele estava dizendo.
– Então Dunn, se o pessoal da sua banda não estiver ocupado hoje, o que vocês acham de uma seção do estúdio? – Meu queixo caiu. Eu não sabia o que responder. A única frase que saiu da minha boca foi: — Vou ligar para eles!
–Ed! Você está muito ocupado? Preciso da banda agora aqui na P.M. Records! Você pode vir? – Perguntei ao Ed, o baterista da nossa banda
– O Jim quer uma sessão nossa aqui hoje! Por favor me dia que consegue vir. – Ed, suspirou e me respondeu:
– Cara, como é que você consegue pensar em algo assim depois de descobrir que vamos morrer? Eu acho que isso... Espera, o Jim quer uma sessão com a gente agora? Ele bateu a cabeça ou coisa assim? Eu não posso ir agora pela manhã, podemos a tarde? Eu já falarei com o Nate e com o Chad! – O raciocínio do Ed não é dos melhores como pode-se perceber, mas ele é o “cabeça” da banda. Nate, é o nosso guitarrista-base e vocalista. E o Chad, nosso baixista. Cada um trabalha em uma região diferente da cidade, então parando para pensar, seria mesmo impossível conseguir reunir todos aqui pela manhã.
Comuniquei ao Jim que poderíamos comparecer a sessão pela tarde. E então ele me veio com a idéia:
– Hey Dunn! Você já trabalha aqui a quase 2 anos certo?
– Certo! – respondi.
– Alguma vez você sentou-se no estúdio para gravar algo? – De certa forma eu nunca tinha parado para pensar nisso. Eu trabalhava a 2 anos em uma produtora musical que possuía mais de 6 estúdios, fiz uma faculdade relacionada com música por que eu gostaria de trabalhar com aquilo, tocava em uma banda por quase 5 anos, e nunca tinha relacionado que eu poderia ter tocado em um estúdio, com a banda, antes. Foi um daqueles pensamentos Yoda que acontecem uma vez na vida.
– Acredito que não. – respondi após toda essa epifania, em que conclui que era um idiota.
– Aqui está, pegue esse violão. Vamos até a sala 2 e você irá gravar uma música sua. Vocês tem alguma música que é tocada no violão certo? Toda banda tem uma. – Jim estava surpreendentemente empolgado em relação aquilo. Nós tínhamos várias músicas próprias, mas eu não me lembrava de nenhuma música que nós tínhamos composto e que eu poderia cantar. Afinal de contas nunca achei que tinha voz para cantar. Seguimos em direção a sala 2, entrei no estúdio, me assentei em um banco do lado de dentro. Como eu sempre estava trabalhando dentro dos estúdios, eu sabia como era uma sala, mas quando se entra para gravar, a sala parece diferente. Bem quieta, como se a única coisa que eu fosse capaz de ouvir la de dentro era meus pensamentos. Fechei os olhos, e comecei a calibrar minha respiração. Por um momento, eu esqueci de todo o contexto, tudo que se passava ao lado de fora daquelas paredes com isolamento acústico. E me concentrei em mim. Algo que raramente fazia. Nunca fui egoísta. Eu sempre tentei estabelecer uma atmosfera equilibrada em volta de mim. Minha vida inteira foi assim. Eu tentando amenizar atitudes alheias. Foi assim com meus pais, principalmente com a minha mãe, com Dylan, com Rachel.
Quando Rachel veio a minha cabeça, eu comecei a lembrar de todos os momentos que vivemos juntos que foram significantes para mim. Quando ela deu bronca no Dylan por sempre me meter em encrenca (foi quando eu tinha uns 7 anos, eu me apaixonei por ela nesse momento), quando íamos ao cinema e dividíamos a pipoca, quando ela sorria pra mim, até mesmo quando ficava brava comigo, a felicidade que ela mostrou quando eu disse que estava aprendendo a tocar violão, eu me lembro de seus olhos brilhando como se fossem duas safiras, ela estava tão empolgada que me deu uma coleção de CD’s de bandas de rock, reggae, punk e muitas outras porque estava feliz que eu iria virar um rockstar.
No ensino médio, eu toquei no show de talentos da escola. Toquei Wonderwall do Oasis. Era uma música que todos conheciam e todos iriam me ajudar a cantar. Eu não ganhei nenhum prêmio no show de talentos. Mas a Rachel me tratava como se eu tivesse ganhando. Fomos a uma lanchonete próxima do colégio após as apresentações, e ela dizia com o peito cheio:
– Pessoal! Meu amigo aqui chama Dunn! Hoje ele é apenas um músico do colegial, mas jajá vocês o verão na TV, e escutarão suas músicas nas rádios. Quem quiser autógrafos, já peguem agora porque em pouco tempo eles valerão uma fortuna!Hahaha
– Para com isso Rach! Que bosta! Eu odeio quando você faz esse tipo de coisa. – Eu ficava vermelho de raiva e vergonha ao mesmo tempo. Mas no fundo, eu gostava de vê-la me elogiando. Mas eu sabia que pra ela, eu era um irmão mais novo. Assim como o Dylan.
Quando ela saiu do ensino médio, e foi para a faculdade, ela me disse algumas palavras que eu nunca esquecerei:
– Por favor, não se esqueça de mim quando for famoso ta? E escreva uma música pra mim. E diga nos shows que escreveu para a Rachel Elise Bennet! Hahahaha – eu fiquei tão feliz naquele momento, que mal conseguia falar. Problema agravado com a minha timidez.
– Ce-certo! – Respondi. E então ela entrou no carro e foi embora. Sabe, eu acho cruel a vida impor esse tipo de situação para uma pessoa tímida. Por mais oportunista que fosse, eu nunca conseguiria me expressar da forma desejada. Então após isso, eu nunca mais a vi. Eu tinha notícias dela pelo Dylan. Mas parece que ela não vinha muito para a região porque tinha muito trabalho. Me recordei que assim que ela se foi, fui para a minha casa, e fiquei bem depressivo. Ela trazia uma certa paz para mim. E agora tinha partido. Suas palavras ficavam ricocheteando em minha cabeça. E então, quando eu não aguentei mais, comecei a escrever músicas para ela. No começo, eram músicas de amor. Conforme foi passando o tempo, algumas foram de ódio por ela ter partido e me deixado pra trás, e algumas foram para expressar que eu tinha superado os meus sentimentos por ela. Essas letras começaram a retornar a minha mente e subitamente, eu poderia cantar várias delas. Decidi qual música iria gravar.
Bati no microfone para saber se estava ligado e perguntei para o Jim:
– Está tudo certo para gravar Jim? – Ele acenou com a mão, e depois fez um sinal de positivo.
– Bom, essa não é uma música da banda, eu escrevi ela a muito tempo atrás e acho que ficaria legal gravada.
–Tudo bem! — Jim falou no microfone do auxiliar.
– Quando a luz verde acender você pode começar a gravar! Vamos em 3, 2, 1 e... – A luz verde acendeu, então eu marquei o tempo e comecei a tocar:
What am I supposed to say,
(O que eu supostamente devo dizer)
When simple words just star to runaway,
(Quando palavras simples começam a fugir)
From my mind.
(Da minha mente)
When All I think is you,
(Quando tudo que penso é você)
I’m gonna live my life to make yours
(Eu viverei minha vida para fazer da sua)
Happier than you’ve ever tought.
(Mais feliz do que você tem imaginado)
I’m gonna build an air balloon,
(Eu vou construir um balão de ar)
To show you the best sunset you’ve ever seen.
(Pra te mostrar o melhor pôr-do-sol que você ja viu)
Look into your eyes,
(Olhar em seus olhos)
And tell you that you’re everything to me
(E te dizer que você é tudo para mim)
Cause you make me happier everyday of my life.
(Porque você me faz mais feliz cada dia da minha vida)
Your face, your eyes, your smile.
(Sua face, seus olhos, seu sorriso)
Sometimes, the words are incapable of explain,
(Às vezes, as palavras são incapazes de explicar)
That’s why I’m singing for you.
(É por isso que estou cantando para você)
E conforme a letra seguia, eu comecei a me entender melhor. Tudo que eu cantava nessa letra não tinha desaparecido ainda. Tanto que acho que foi por esse motivo que eu escolhi essa música. Cantei essa música de olhos fechados, e parecia que a Rachel estava do outro lado da janela, me vendo tocar ao lado de Jim, sorrindo como sempre. Eu esperava que isso fosse verdade, mas não era. Ao terminar, fiquei mais um tempo de olhos fechados para que pudesse manter aquela imagem em minha cabeça. Algo que foi interrompido por palmas.
–Cara! Que música é essa! Arrebentou! Você é ótimo para cantar e tocar! Tem uma banda? – Eu não conhecia aquela voz. Era a voz de uma mulher. Abri meus olhos bem devagar, um de cada vez, e me deparei com uma garota linda.
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