A Melodia dos astros

1 Os Representantes.


Nome: Bianca Yana Signo: Virgem
Idade: 14 Nascimento: 30 de Agosto
Lua: Aquário Mercúrio: Virgem
Vênus: Leão Marte: Sagitário
Júpiter: Câncer Saturno: Gêmeos
Urano: Aquário Netuno: Aquário
Plutão: Sagitário Nodo V.: Câncer
Ascendência: Câncer
Descendência: Capricórnio

Esta sou eu. Como podem perceber, sou uma garota extremamente organizada, que adora elogios e amo minha família, meu horoscopo não podia estar mais correto sobre minha personalidade.

Hoje é o meu primeiro dia no colegial, preparei meu discurso como representativa dos calouros ontem porque com certeza ninguém fez um teste melhor do que o meu, então com a cabeça erguida e após tomar um bom café da manhã, arrumar minha cama, escovar os dentes, verificar se eu não esqueci de nada, e arrumar minha mochila, eu me despedi de minha mãe que estava se aprontando para ir trabalhar e sai de casa, com o sol me saudando com seu calor e o vento fresco fazendo meus cabelos esvoaçarem, era um lindo dia.

No caminho é claro eu atraia os olhares tanto dos garotos que com certeza me desejavam devido a minha beleza sem igual e as garotas que ou estavam admirando ou ficavam com inveja, mas eu também atrai a má sorte de bater com a cabeça em um poste depois de tropeçar no meio fio da calçada quando fui atravessar o sinal.

A "Colégio Preparatório Drasil" era de longe o melhor colégio para quem quer entrar em uma universidade, é a mais prestigiada no mundo e fica praticamente impossível de não conseguir o emprego que quiser depois de sair daqui, ou é assim que minha mãe fez a propaganda. E realmente todos ali pareciam muito ricos, eu mesmo sendo uma garota de família, digamos, bem avantajada, apesar de que... havia um garoto, de cabelo liso e que batiam até o ombro, mesmo de costas, dava para ver que a roupa estava vestida de qualquer forma, com partes da camisa para dentro e outra para fora da calça que estava um pouco abaixo do que a etiqueta nos sugere.

- Hum... então há delinquentes até aqui...

Apesar de ter resmungado para mim mesmo, notei que a garota que andava um pouco a minha frente, se virou e olhou para mim.
Ah meu deus! Será que ela me ouviu? Ela vai achar que eu sou preconceituosa, e se ela espalhar para as pessoas e todos acharem que eu sou assim e acabar sozinha?

- Não, eu não sou preconceituosa não. Eu só achei estranho, talvez ele nem seja delinquente.

Na minha pressa de me explicar para a garota, ela apenas acenou e esperou que eu chegasse até ela. Pude ver que assim como eu, estava bem arrumada, com o uniforme bem passado e com a saia ajustada. Havia no entanto um gritante lenço vermelho que prendia seu cabelo em um rabo de cavalo que sendo bem mais alto que ela fiquei encarando, quando notei um movimento abaixei a cabeça e a olhei.

- Meu nome é Laure e o seu?
Disse a garota com um sorriso, e olhando nos meus olhos. Ela tinha lindos olhos verdes água.

- Ah, oi. Meu nome é Bianca, tudo bem?
Estava meio nervosa, esperava conversar com as pessoas, mas depois da introdução, aquilo era inesperado, mas a garota não pareceu notar.

- Então de quem é o delinquente?

De reflexo olhei novamente para as costas do garoto, e pude perceber que a garota acompanhou meu olhar, e ambas pudemos ver o garoto bocejar e coçar as costas, depois se encurvar e colocar as mãos nos bolsos.

- Ahhhh... Ele...
Sem muito o que fazer e com vergonha de parecer ainda mais preconceituosa, depois de fazer uma cara de repulsa, apenas concordei com a cabeça.

Continuamos a conversar um pouco mais, enquanto andávamos em direção ao colégio que era enorme com formato em "U", tinha cinco andares com, com mais de vinte salas cada andar, e provavelmente tinha mais coisas atrás, dali, ainda dava para ver parte do que imagino ser uma pista de corrida. Mas, continuamos caminhando para a ala leste, onde uma outra construção abria as portas, dando a visão de um grande ginásio poli-esportivo com umas dez quadras, uma grande capacidade de cadeiras para plateia e ao fundo um auditório onde mais cadeiras estavam postas enfileiradas.

- Sentem-se por favor.

Uma voz grossa ecoou pelo auditório. Um senhor velho, com uma bela barba branca e cabelos grisalhos cuidadosamente penteados falou, esperando pacientemente todos os calouros se sentarem nas cadeiras. Quando todos estavam sentados ele se dirigiu novamente ao público.

- Quero dar as boas vindas a todos vocês ao Drasil.

Ele parou um pouco, para olhar todos os rostos ali presentes que pareciam ansiosos para que o diretor continuasse a falar. E o que se seguiu foi bastante inesperado.

- Gostaria de perguntar a vocês o que o tomate foi fazer no banco?

Acho que a minha cara de incredulidade foi copiada por todos ali presentes. Assim como eu ninguém havia entendido a pergunta, então um momento se passou com todos olhando para o diretor que abriu um sorriso juvenil e disse:

- Ele foi tirar o extrato.

Espera... aquilo foi uma piada? O diretor acabou de nos contar uma piada? Apesar de eu não ter rido, algumas risadas abafadas puderam ser ouvidas pelo auditório, alguns eu pude perceber que riram apenas porque era o diretor contando, outros pareciam realmente achar graça da situação e outros como eu não sabiam o que fazer e continuavam com a cara de incredulidade.

- Bem, agora que a tensão foi removida, vamos cair com força nos estudos esse ano, de forma que vocês possam completar seus objetivos e subir de ano sem nenhuma gravidade.

Dessa vez um número maior de calouros riram, e até mesmo eu tive que abafar uma risada. Alguns não entenderam o motivo das risadas, inclusive Laure que ficou me olhou, sibilando " Do que você tá rindo?"

- Ele fez uma piada relacionada a física.
Eu sussurrei para a garota, enquanto olhava para o rosto claramente satisfeito do diretor que parecia ter corado um pouco. Daí em diante ele fez o seu discurso sem nenhuma piada com todos relaxados, porém prestando atenção. E então...

- Eu gostaria de chamar a frente os dois alunos que obtiveram a maior nota na prova de adesão a academia, eles serão os representantes dos calouros esse ano, um salva de palmas para:

BIANCA YANA KAILLOU!

E

TALES HODD!

Laure, olhou incrédula para mim, que apesar de saber que era a representante estava com uma cara de surpresa, havia outro além de mim? Que absurdo! Ao me levantar, várias cabeças se viraram para mim, porém, apesar de sorrindo procurei quem era esse garoto que conseguiu a mesma pontuação que eu.

Quase cai para frente quando o garoto atrás de mim se levantou e empurrou a cadeira que bateu em minhas pernas, quando me virei, foi outro susto, era o mesmo garoto "delinquente" que eu havia visto antes, mas agora o vendo de frente a imagem parecia ainda mais forte.

Com o cabelo bagunçado, ele possuía uma franja de lado, além de duas tranças cada um de um lado da cabeça que descia até o ombro, tinha olheiras profundas nos olhos e uma barba muito mal-feita e grossa, a gravata desajeitada, e a jaqueta que estava por cima da camisa branca de uniforme desabotoada. Com uma mão no pescoço e outra tampando a boca do bocejo ele começou a andar em direção ao diretor, com as mãos no bolso, encurvado e sonolento.

- M-mas o que?

Parada por um tempo, estupefata com aquele acontecimento sem precedentes, eu o fiquei olhando se distanciar, até que Laure me empurrou para frente e eu tomei o mesmo caminho que ele, observando os cadarços desamarrados do garoto. Como alguém podia ser tão... desleixado?

Como o garoto chegou primeiro, ele deu o microfone pro garoto após o cumprimentar e se posicionou ao seu lado esquerdo, ficando no meio entre mim e ele. E então ele deu um grande bocejo que ecoou por todo auditório antes de começar a falar.

- Bem... É... um grande prazer... *outro bocejo* fazer parte desse colégio. E ahm... gostaria de desejar um bom ano para todos. E... acho que é isso...

A voz era enrolada, e depois que passou o microfone para o diretor, ele se apoiou no palanque de discurso e deitou a cabeça. Agora os olhares incrédulos dos calouros pairavam nele que parecia nem se importar, agora com os olhos fechados.

- Como caloura do colégio Drasil, eu tenho o orgulho de defender as honras, a moral e o prestigio que ele possuí, que não sejamos ingratos e para que não se envergonhe dos nossos feitos, precisamos agir com disciplina, etiqueta e responsabilidade, para mostrarmos que o simbolo que carregamos em nosso peito seja motivo de orgulho para a instituição que nos deu a confiança e a capacidade de vestirmos. Iremos aprender e seguir as regras, iremos obedecer e respeitar nossos professores pois eles são os nossos guias para o sucesso, gostaria de agradecer todos vocês que puderam me dar essa oportunidade de ser uma das representantes dos calouros esse ano e espero contar com vocês para nosso crescimento mútuo nessa academia espetacular.

Apesar de meu discurso impecável eu sabia que nenhuma vez a atenção viera para mim, todos os olhos, inclusive os meus focavam o garoto que parecia agora estar roncando com a cara enfunada nos braços. Quando passei o microfone para o diretor que também parecia ser o único a olhar o garoto com um sorriso e não confuso, este puxou a blusa do garoto que acordou meio surpreso olhando para os lados e esfregando os olhos.

- Excelentes discursos, mais uma vez parabéns aos dois representantes dos calouros, que por educação, podem voltar aos seus lugares.

Ambos voltamos para nossos lugares, o garoto cambaleava na minha frente, tomou seu lugar atrás de mim, apoiou os cotovelos nas pernas, abriu a mão e deitou seu rosto. Ele nem parecia ligar, ou melhor, acho que nem percebeu que eu estava o encarando tão fixamente que poderia até abrir um buraco na testa dele. Eu não sabia o que sentir ou o que pensar dele, era uma mistura de raiva por não ser a única representante, confusão, curiosidade, inveja.

Acho que minha ascendência em câncer, era o motivo de todos essas sensações que eu não conseguia compreender, mas a minha revolta era que eu, perfeita em tudo que posso ser, empatei com esse... esse... essa personificação do desleixo? Esse coisinha ai? Tem coisa errada, tem coisa muito errada.

Não consegui prestar atenção no que o diretor dizia, encarando-o febrilmente, Laure até me puxava, mas depois de um tempo desistiu. Quando fomos embora para a primeira aula do dia, eu acompanhei o garoto subir as escadas seguindo o grupo, e quando começaram a se separar, ele pegou um papelzinho do bolso, leu, e rumou para uma das salas no primeiro andar.

Laure e eu fizemos o mesmo, ela que parecia calada desde da abertura, acho que ela sentiu que eu estava focada demais, para dar atenção a ela, então junto comigo pegou o papel da sala onde iriamos estudar. Foi ai então que eu tive certeza que coincidências não existem, eu, Laure e esse tal de Tales estávamos na mesma sala, que por sinal quando entramos vimos todos de pé, esperando o professor chegar para demarcar os lugares, menos é claro Tales que havia se sentado na primeira cadeira e desabado na mesa.

Novamente todos os olhares iam até ele, até que depois de um tempo, alguns alunos também foram sentando nas cadeiras, seguindo a onda, eu e Laure sentamos uma do lado da outra.

- Que sorte né? A gente ficar na mesma sala.
Comecei o assunto com ela, tentando quebrar a tensão que eu mesmo havia criado.

- É... é... muita sorte...
A garota estava meio sem graça, e eu não podia culpa-la depois do que fiz.

- Aqui, me desculpa, é que eu fiquei realmente em choque de outra pessoa ter empatado comigo, e foi um choque ainda maior ser ele.

A garota sorriu para mim. Antes de falar.

- Você é incrível sabia? Aquele seu discurso foi perfeito, apesar de que...

O que eu realmente queria dizer era "Eu sei" porque obviamente o discurso era meu, e não tinha como não ser nada além de perfeito. Mas eu sabia muito bem que a pausa dela seguindo de um olhar ao garoto que estava novamente roncando queria dizer que meu brilho foi ofuscado pela estranheza do garoto.

- Obrigada.

Quando a porta rolante da sala abriu e uma professora com aparência jovem entrou na sala, os garotos a olharam impressionados, as garotas admiradas e os poucos que já se conheciam ali estavam murmurando. Tales continuou dormindo.

- Béeeeeeeeeeeem... Afufufu... *piscadela* eu sou a professora Faire, mas todo mundo me chamada Prof. Fairy. Bom dia turma!

A voz era fina. FINA. MUITO FINA. Aquele "bem" agudo dela pareceu ressoar profundamente em meus ouvidos e meu corpo deu uma estremecida e até mesmo Tales havia acordado e... fez uma cara feia para a professora que após escrever seu nome no quadro, reclamou com a turma que estava em silêncio.

- Eu disse bom dia. Sejam educados por favor e me respondam.

Apesar de querer parecer autoritária, a voz era tão estranha que parecia mais uma piada, mas mesmo assim todos responderam saudosos com um bom dia.

- Ah! Bem melhor. Vamos começar com a lista de chamada, e olham vejam só.
Ela fez uma pausa dramática, e um beicinho.

- Afufufu, nós temos nessa sala, ambos os representantes dos calouros. Que sorte não acham?

Alguns dos alunos olharam para mim, mas como sempre a maioria havia se virado para Tales que ainda encarava a professora com uma careta, acho que assim como eu, o garoto achara a voz dela extremamente irritante, mas a professora ainda não parecia ter notado a encarada raivosa do garoto.

- Vamos ver... Bianca Yana?
No momento que ela disse meu nome, eu me levantei e fiz uma reverencia, prestando meu respeito a professora.

- Então essa é a garota que ficou em primeiro lugar nos exames, eim?

- Sim. Sou eu.
A professora havia chegado até a mim e parecia me avaliar com os olhos.

Pegou em meu cabelo, ficou olhando meu rosto por um bom tempo, depois ficou ainda um tempo maior olhando para os meus seios, depois cintura, coxas, e pernas. Depois fingiu um choro ressentido.

- Por que?! O mundo é tão injusto? Não basta ser bonita, ter peitões, ter olhos verdes e ser ruiva. Tem que ser inteligente também.
Meu ego deu um grito em alegria, apesar de meu rosto permanecer inalterado.

- Obrigada.

- Tá... tá... pode se sentar, senhorita perfeitinha. E o outro?
Ao me sentar, eu olhei o garoto que não mais fazia careta, olhava para ela agora com uma cara de cansaço, acredito eu que era cansativo demais para ele manter a careta.

- Tales Hodd?

O garoto apenas levantou a mão, para mostrar quem era, a professora foi até o garoto e olhou da mesma forma, mas não tão detalhadamente, porque ele não se levantou.

- Sério? Você?

Com o mesmo ar incrédulo que todos fizeram quando o viram levantar e ir em direção ao diretor, a pergunta que todos calaram e seguraram para si mesmos, agora havia sido dito pela professora.

- É. Que que tem?

A resposta veio, imediata, apesar de ser grosseiro, o tom era mais de desinteresse, do que desafiador.

- Não... nada... nada... Já te disseram que você é meio estranho?

Essa professora, tava com fogo, tudo o que eu queria dizer ao garoto estava sendo metralhado por ela e eu estava até feliz de vê-lo sendo posto contra a parede.

- Já... mas nunca me importei. E provavelmente nunca vou me importar.

Dessa vez o tom era desafiador, apesar de lento. A professora no entanto apenas sorriu para o garoto e depois continuou a chamada, e começou a primeira aula de matemática.

O resto desse primeiro dia, não teve mais nada de tão emocionante, lanchei com Laure no intervalo, e depois tivemos aula de História com um professor velho e careca que se chamava John, parecia ter muitos problemas na coluna e no joelho, do jeito que era encurvado e andava mancando.

Na última aula no entanto fomos alertados que durante a tarde há as atividades dos clubes cujo as salas são no quarto e quinto andares, ou nas intermediações do colégio, a qual um tour estava previsto na primeira aula do dia seguinte. E só quando fui embora eu pude notar como a sala de aula era, já que minha concentração nas aulas, ou as ações estranhas de Tales haviam pegado todo meu foco.

A sala era toda branca, com portas rolantes, três grandes janelas laterais, um grande quadro negro na frente, e cinco fileiras com dez carteiras cada, as posições dos alunos seriam também definidas no dia seguinte.

Ao descer as escadas com Laure, trocamos nossos números de celular e de whatsapp, e fomos para casa juntas, até cada uma ir para uma direção. Chegando em casa, eu relembrei meu horoscopo que dizia que hoje eu iria fazer uma nova amizade além de alguns eventos estranhos e é claro revendo tudo o que aconteceu hoje, ele não poderia estar mais correto.

Minha mãe ainda não havia chegado no trabalho, então eu preparei a janta para dois, deixando o prato dela na geladeira e levando o meu para o meu quarto, onde eu comi, fiz uma revisão do que aprendi hoje e para a minha grande alegria, li que amanhã o site iria disponibilizar para seus membros cadastrados o mapa astral da pessoa perfeita para se relacionar.

Naquele momento depois do banho e antes de dormir eu estava bem contente, se o primeiro dia no colégio tinha sido dessa forma, o segundo parecia ainda mais animador, eu mal podia segurar, mas pouco depois o sono me abateu quase que imediatamente e eu apenas dormi.