A Melodia das Profundezas
12 Epílogo
E um raio cortou o ar, criando um enorme círculo de chamas fortes ao redor da Serpente e de Tobias, o qual ainda estava em transe com as palavras da criatura corroendo seu cérebro, ecoando em sua mente, controlando suas atitudes. Ambos parados, apenas permitindo que o eco dominasse as entranhas do garoto.
—Achou mesmo que teria alguma chance comigo? Achou mesmo que essa faca poderia me dominar? — A voz grave era como agulhas, ele estava em choque, estagnado sem emoção, apenas o forte gosto da vingança escorrendo seco pela garganta. — Você sabe que não é tão simples destruir o mal primordial? Você sabe que uma maldição que caiu sobre uma terra simplesmente não some? Ela deve ser transferida, deve ser imposta para novo corpo e nova alma. Caso me destrua, você sabe o que acontecerá?
Aquilo deixou o corpo de Tobias ainda mais rígido. Foi o que ocorreu com Emanuele, a maldição do pai caiu para ela, o manto do Lobisomem Patriarca foi para ela, o único primogênito vivo.
—Então... Todo o mal que habita em você... Seria meu? — E a Serpente sorriu. Seria um risco, é verdade. Tobias encarou ainda mais fundo, sabia que isso o destruiria, ou pior, destruiria sua família, sua madrinha, e todos a quem amava, destruiria principalmente César. — Todo o mal pode ser encerrado, como tesouro que se perde, tudo pode ser selado e enterrado.
Tobias lembrou de Matheus, o corte na mão "Por um bem maior", será que isso era o que ele falava? "Toda amizade sempre estará conosco, por mais que não saibamos". Estava no Cemitérios dos Inférteis, será que eu conseguiria ajuda de algumas pessoas? Com o facão, ele fez um corte de fora a fora em sua palma, pingando no chão.
—Por favor, eu preciso de ajuda! — "Enfinque a lâmina com sangue no chão", um sussurro ao fundo de sua mente, e assim ele fez, abrindo uma leve fenda no chão, que permitiu uma forte ventania como fumaça branca explodindo pelos ares, ele sentiu um sopro de vida.
Assim que reparou, encarou a Serpente, a qual estava imóvel pela fumaça, conseguia ver o semblante de Olga, de Salazar, até mesmo de Sebastião, pai de Emanuele. Ele, com raiva, perfurou o corpo da Serpente, abrindo o corpo todo dela, sentindo o sangue jorrando em sua face. Quando ela caiu, sem mais vida e o couro aberto, somente teve ideia de perfurar o crânio, esperando o pior.
"Agora, meu jovem, você carrega os pesos que Pagliazi carregava" — Era a voz de Olga, que o acolheu em um abraço, ele sentiu a força que a mulher transmitia. — "Sabe muito bem que você nos terá como amigos, isso é um dom que poucos conseguem de ver os mortos e pedir ajuda a eles, saiba que agora com o que estará assombrando seus pensamentos, saiba que qualquer resquício de trevas pode ser o indício do início da luz".
*
Era noite de lua nova, a escuridão era um enorme breu acima da floresta. César terminava de dar os acabamentos finais na porta, não demoraram mais que duas semanas para construir um casebre bem básico para eles viverem com um pouco mais de calmaria e teto acima de suas cabeças. Tobias foi aquele que mais ajudava, não tinha descanso algum, apenas no momento de dormir.
Apesar de pequeno, Tobias tinha ideia para já expandir um pouco o casebre, havia feito pesquisas pela região, o lago tinha forte presença de argila, excelente para modelar algumas partes da casa. Mas tudo seria feito com calma. O melhor de tudo foi terem feito um quarto mais reforçado para eles, terem um pouco de privacidade sem que Dona Ana os ouvisse.
—O jantar já está quase pronto. — Anunciou a idosa. Ela havia envelhecido muito nas últimas duas semanas, parece que o susto em perder o sobrinho tinha colapsado um pouco, mas Tobias imagina que a distância de Gisele e das missas era algo que corroía a tia por dentro. — Cadê o Tobias?
—Certeza que ele foi em algum canto perdido da floresta e está analisando árvores e animais.
—Mas é noite de lua nova, não tem uma luz viva lá fora.
—Bom, a senhora sabe que não sabemos como o corpo dele tem reagido desde que ele matou a Serpente, nem sabemos o que ele pode fazer de novo. — Um uivo percorreu pelas frestas das madeiras, assustando a velha e o homem. Os dois foram lá para fora, em que repararam um vulto preto com olhos vermelhos como sangue se abrindo na escuridão. — Manu?
—Preciso que vocês venham comigo, acho que entendi o que Tobias está passando. — Os dois montaram em cima dela, percorrendo o mais rápido que conseguiram. César não conseguia identificar muito bem para onde iam. No entanto, o cheiro de musgo mostrava que eles avançavam para o lado mais ao norte, em que as árvores eram mais densas, pouca luminosidade solar entrava e lá era esconderijo da matilha de Emanuele.
Discretamente, eles se alojaram atrás de uma moita, sem fazer qualquer resquício de barulho. No meio de uma clareira, eles só conseguiam ver um traço, a visão deles se acostumou aos poucos, mas nada que vissem, era apenas o semblante de um jovem adulto.
—Coloquem as mãos em mim, tentarei passar a vocês a minha visão. — Sussurrou Emanuele. Assim que colocaram a mão no dorso da fera, era como se uma forte luz despencasse do céu escuro de lua nova e clareasse tudo, possibilitando que vissem tudo, sem qualquer empecilho.
Então, conseguiram encarar Tobias na frente deles, contorcendo-se de dor, gritando um som audível de dor e crueldade, César e Dona Ana estavam arrepiados de medo. Repentinamente, uma explosão fez com o que o corpo de Tobias desaparecesse, eles segurando o grito e as lágrimas nos olhos. No lugar onde estava as vestes do jovem, surgiu uma serpente, toda esverdeada, com olhar brilhante em amarelo vivo, e algumas manchas vermelhas pelo seu corpo.
Sem olhar ao redor, a Serpente avançou para dentro de uma caverna, permanecendo ali por um longo tempo.
*
O amanhecer fez com que todos despertassem de onde estavam, o coração de todos estava muito apertado, pensando em Tobias e no que ele passou na noite anterior. O lobisomem com um símbolo da lua na fronte estava ao lado deles, esperando Tobias sair da caverna, para adentrar e averiguar tudo o que ele havia feito, como se refizesse todos os passos da Serpente.
—Tobias! — César correu até o garoto, que vinha sem roupa, ele apresentava alguns ferimentos, mas nada grave. O garoto desmaiou em seu colo. Dona Ana veio e jogou as roupas em cima dele. — Ele precisa dormir e de um banho.
—Mas o que aconteceu? — O lobisomem adentrou e em poucos instantes estava de volta.
—Ele assumiu a sina de Pagliazi, ele agora carrega a maldição do mal primordial, que é ser a Serpente que fez a Eva comer do fruto proibido.
—Isso vai afetar em algum aspecto da vida dele? — A tia estava preocupada.
—Preciso analisar ainda mais o garoto, mas se for o que estou pensando, toda noite de lua nova ele passará pelo processo, enfrentará alguma espécie de desafio na caverna e sairá ileso. Mas preciso estar com ele, saber tudo o que ele fez, assim saberemos como cuidar disso.
—E evitar que ele se torne um Pagliazi da vida.
—Sim, Matriarca, é necessário cautela.
—Bom, minha filha, se você conseguiu controlar a sina de seu pai, provável que ele também controle, agora descanso.
Eles seguiram floresta a fora, em direção ao casebre deles, César deu um banho rápido em Tobias e o colocou na cama, provavelmente dormiria por um dia ou dois, primeira transformação deve ser complicada. Quando saiu, Manu estava em sua forma humana e comendo a sopa que Dona Ana fez na noite anterior.
—Mas ainda estava boa?
—Um dos lobos veio e tomou conta do fogo para não queimar, colocou um pouco mais de sal para manter boa, e depois uma batata para sugar o excesso de sal. Receita de avó, segundo ele. — César via Tobias dormindo profundamente da sala, mas um assobio chamou sua atenção, era o Lobisomem de antes. Ao sair, apenas ele estava lá fora.
—Algum problema?
—Infelizmente, sim. — Ele olhou para dentro. — Não sou de guardar segredo da Matriarca, mas ela tem muita amizade com a velha e isso pode ser prejudicial, então somente você pode saber. — Ele respirou fundo. — Uma hora o garoto irá sucumbir ao mal que há dentro dele, e vocês precisam estar preparados, pois isso será doloroso para todo mundo que conviver com ele.
—Acredita que não há meio algum de controlar isso?
—É como se tentássemos cuidar e manter controlado todos os pecados do mundo. Nas provas que ele realizou na noite passada, ele foi muito atacado por antecessores dessa maldição, então estão fazendo uma hipnose nele. Você deve ficar de olho.
César encarou Ana e Emanuele rindo muito, Tobias dormia profundamente no quarto, agora tinha mais um peso para carregar.
—Mas não se culpe, nem fique com isso em mente, vocês podem se preparar de diversas formas, e quem sabe serem os primeiros a domarem esse Primordial, vocês se provaram excepcionais, Emanuele é a melhor Matriarca que as nossas memórias podem alcançar, vocês darão conta de domar esse problema.
—Assim espero, assim esperemos. — Repentinamente, Tobias apareceu e se sentou ao lado de César. — Mas já acordou?
—Nada que uns minutos para me recompor. — E deu um forte beijo longo e apertado em César. — Eu posso ouvir de longe as conversas, eu sei que estão com medo, mas como nosso amigo peludo disse, daremos um jeito.
—Peludo... Ah esses humanos não lobos... — E eles encararam a imensidão em frente deles.
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