A Meio Caminho
3 Capítulo 1
Masonville.
Fazia 5 anos que eu não via a placa do estado de Maryland. E a desculpa era sempre a mesma: meus estudos não o permitem.
Talvez fosse a vontade de nunca mais voltar. Ou a ilusão de que nada me prendia aquela cidade. Eu pensei que seria fácil. Se acreditasse muito, talvez seria verdade.
Acontece que a vida tem várias maneiras de mostrar que você está errado.
— Se anime um pouco Sara. Você vai ver todos os seus amigos novamente. — fala mamãe com otimismo.
— Meus amigos estão em Nova Iorque, mãe. — falo colocando meus fones. Minha vontade de conversar desaparecendo.
— Sabe quem andou perguntando por você? — pergunta com um olhar sugestivo. Reviro meus olhos com a primeira imagem que vem na minha cabeça. Sério, Sara? Ainda? — Nick, perguntou! Falei com sua mãe no outro dia que ela foi lá na pastelaria e ela me contou que ele perguntou de você, casualmente.
— Bem, pouco importa, não é verdade? — questiono sem querer seguir com o assunto.
— Você bem que poderia dar um oi pra ele. — insistiu, desviando brevemente o olhar da estrada para mim. — Sabia que ele trabalha na antiga oficina do Marcos? — agora ela tentava outra abordagem. — O velho precisava de uma ajuda já que o último que lá esteve foi preso por venda e posse de drogas. — arregalei os olhos para ela. — Ah, sim! Foi um escândalo! Falado em toda a cidade. Marcos passou um mau bocado à conta disso. Nick se prontificou a ajudar e os dois ergueram o negócio. Você sabe que Nick sempre teve o bichinho para rodas.
— É, eu sei. — concordei. Algumas lembranças voltando.
Não, Sara. Não vá por esse caminho novamente.
— É bom ter você em casa. — confessa com um sorriso. — Você sabe disso, certo?
— Mãe, não começa. — lamuriei. — Já é mau o suficiente ser uma falhada na minha vida profissional. Não preciso dessa culpa de não visitar Masonville durante cinco anos.
Sou impulsionada para a frente e agradeci mentalmente pelo cinto de segurança. Arregalo os olhos para a minha mãe, sentada no banco do motorista, pronta para perguntar o que diabos lhe deu para travar a picape daquela maneira.
— Não se atreva a fazer isso. — falou me olhando duro. Voltei a ter cinco anos? Era como me sentia de qualquer forma. — Não, você não ganhou o cargo para esse jornal importante lá em Nova Iorque. Isso não faz de você menos inteligente ou incapacitada. Não faz de você uma falhada.
— Era a oportunidade da minha vida! — argumentei, agora elevando meu tom de voz. Como ela não entendia o quão mau era voltar para esta cidade onde ninguém vai a lado nenhum?
— Novidade Sara, a vida é feita de oportunidades! Umas você perde, outras você ganha. — respondeu de volta. Fico olhando para ela, procurando um pouco de sensibilidade. Então ela suspira e agarra minha mão. — Você é a pessoa mais importante da minha vida e tudo o que eu tenho. Não vou pedir desculpas por ter minha filha comigo novamente. — diz mais calma. — Eu amo você e não quero que pense que não te consigo compreender. Acredite em mim, eu já tive vinte e três anos e cheia de sonhos.
— E o que aconteceu com esses sonhos? — perguntei irónica.
— Você nasceu. — reviro meus olhos, pronta para abrir a porta e ir caminhando para casa. Mamãe dá risada e eu olho para ela novamente. — Verdade! Você nasceu! E não digo isso de uma forma ruim ou sarcástica. Eu não era tão ambiciosa como você é hoje. — explica. — Nada de errado com isso. — acrescenta.
— Sério? — perguntei sem acreditar que aquele era o seu discurso motivacional.
— Completamente! — afirma, dando marcha novamente. — Tente não pensar em todas as coisas más que estão acontecendo na sua vida neste momento e tente pensar no que pode trazer de bom. Conselho de mãe.
— Bem, esse conselho não me parece viável quando tudo em que consigo pensar é na velha Márcia da lanchonete querendo saber o que estou fazendo de volta à cidade. Ou em todos os professores que escreveram cartas de recomendação para a minha aplicação à faculdade. Ou no esforço que você teve que fazer financeiramente para que eu pudesse continuar estudando por mais cinco anos. — desabafei. — Eu não tenho nem ideia do que fazer com minha vida agora.
— Você sabe que a velha Márcia é a maior fofoqueira dessa cidade. É só não prestar muita atenção nela. — respondeu. — E seus professores sabem o que você está passando e tenho a certeza que alguns deles não queriam ser professores de qualquer maneira. Quer dizer, o seu professor de literatura é treinador dos Masons por três anos já. E ele parece bem apegado à ideia. Mais do que qualquer outro livro.
— Adam treina os Masons? — perguntei surpreendida. Sabia que ele torcia pela equipa, mas daí a se tornar seu treinador.
— Com certeza. E adora! — fala excitada. — Sua mulher, Clara, teve seu primeiro filho à três anos atrás, também. Acho que ter um menino impulsionou esse espírito nele, sabe?
Concordei com um aceno e me encostei no banco do passageiro, olhando a cidade enquanto dirigíamos a caminho de casa. Mamãe parou no posto de abastecimento e antes que saísse da picape, falou.
— Tem muita coisa que mudou nesta cidade. Outras nem tanto. Apenas dê uma chance. — ia argumentar quando ela agarra minha mão de novo. O que se passa com esses gestos de carinho? — E nunca se preocupe com qualquer divida para comigo por que isso não existe. Seu pai nos deixou com uma vida confortável e ele ia querer que você seguisse seus sonhos, mesmo que tenha uma ou duas curvas pelo caminho.
Senti meu peito apertar com a imagem de papai. Não era costume falarmos dele assim tão abertamente. Também não era meu plano voltar para Masonville.
— Como você está? — parei para perguntar. Dando conta que desde o aeroporto tudo o que tínhamos falado era sobre mim e não tinha parado um segundo ao olhar para ela e ver como ela estava. Arrependimento bateu ao lembrar como ela ficava sozinha aqui.
— Você sabe que eu estou bem. — falou rapidamente, querendo sumir com a pergunta. — Agora vou abastecer esta beleza para podermos chegar logo em casa.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, mamãe abriu a porta e saltou fora. Agarrei minha carteira, meu boné preto, coloquei meu capuz do casaco cinzento e segui até à loja de conveniência.
— Ei mocinha, quieta! — reclamou mamãe quando notou o que eu estava fazendo.
— Apenas quero uma água. — retruquei.
Entrei na loja sem que Fred prestasse muita atenção, ainda ouvindo as lamurias da minha mãe sobre como eu não tinha que pagar por nada e revirei os olhos. Eu podia estar na desgraça da minha vida profissional e não ter como bancar meu apartamento, mas poderia ajudar minha mãe de alguma forma. Nem que fosse pagando combustível. Pelo menos até o dinheiro acabar.
Estava escolhendo o que levar para beber quando uma voz familiar me chamou a atenção. Espreitei por cima do ombro e vi Nick Carson. O sonho de qualquer garota adolescente. Incluindo o meu. Em tempos.
Fazia cinco anos que eu não o via. Nem quando seu pai faleceu de acidente, quatro anos atrás. Eu não voltei nem para o funeral. Minha mãe ficou uma semana sem falar comigo devido à raiva que ela ficou de mim, mas arranjei a desculpa da faculdade e não apareci nem para isso. Eventualmente o remorso desapareceu.
Pouco mudou, na minha opinião. Ele ainda parecia aquele garoto jovial com um sorriso de covinhas que colocava todas as senhoras de pé. Cabelo castanho escuro, curto, corpo alto e esguio, mais encorpado do que nos seus dezassete anos. Suas calças de ganga sujas de óleo de motor e seus braços aparecendo por baixo da sua t-shirt preta. Uma ou duas tatuagens visíveis. Sim, é o Nick que eu me lembro de ver na garagem do meu pai quando os dois se juntavam para arrumar a velha picape do vovô.
Me escondi atrás da estante mais próxima e derrubei os dois pacotes de batata frita. Me abaixei e peguei os mesmos. Mais valia levá-los e afogar minhas mágoas nelas mais tarde, de qualquer forma.
— Tem a certeza que passa lá mais tarde, Fred? — ouvi-o perguntar. — Posso passar na sua casa e deixá-lo lá para você.
— Não se dê ao trabalho rapaz. Preciso sair mais cedo hoje. Além disso, você já fez muito conseguindo salvar aquela Diaba. Logo me acerto com o Marcos. — respondeu Fred. — Vejo você no jogo de amanhã.
Sábado em tempos de campeonato. Os dias mais importantes de Masonville. E as festas depois das vitórias.
— Certo. Vou andando então. — ouvi-o hesitar e sustive a respiração. Será que ele me viu? — Vejo você mais tarde Fred. — oiço passos e a porta abrir. Soltei a respiração, pensando que me tinha livrado de grandes explicações quando... — Você parece bem, Sara.
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