A Mata

4 Capítulo 4


Antônio vira e vê o pai atrás dele com o semblante sério e observando ele carregado de coisas para acampar.

— Ei, pai, – diz Antônio sem graça — Estou indo acampar, só dois dias, não demorarei.

— Uhum – João diz — Antônio, não vou te impedir de sair e nem dar um sermão, mas, vou dizer uma coisa e quero que você preste muita atenção.

Antônio ficou meio ressabiado pelo tom sério que o pai estava usando.

— Pode falar, pai – ele diz e senta para ouvir.

João também senta e olha nos olhos do filho.

— A mata é traiçoeira, linda, mas traiçoeira. Ela engana, ela seduz, ela tem um olho feroz e quando ela vê algo que ela quer, ela tenta agarrar. Por isso, se em algum momento, você se sentir só, sentir um sentimento inexplicável começar a tomar conta de seu corpo, lembre de nós, do nosso amor, da nossa família.

Antônio achou estranho o pai usar praticamente as mesmas palavras de sua mãe e sentiu um pouco de medo se infiltrar na sua mente.

— A mãe disse quase isso, – Antônio diz — Eu realmente não estou entendendo o que deu nos dois, é só um fim de semana de acampamento, não vou ficar lá anos.

João balança a cabeça e sorri triste.

— Destino é destino. – ele diz quase pra si mesmo — Não importa o quanto a gente corra dele, ele vem e nos pega.

— Do que está falando, pai? – Antônio pergunta sério e confuso.

— Você vai descobrir, e espero que tudo corra de maneira perfeita e você entenda e quando voltar, poderemos discutir isso com mais clareza.

Antônio balançou a cabeça e achou que os pais estavam exagerando, isso sim.

— Bom, já vou então. – ele levanta e diz — Estou com o celular, e com um rádio, qualquer coisa que acontecer, eu me comunico, tá bom?

Ele abraça a mãe de novo e ao abraçar o pai, ele sentiu uma força diferente passar entre os dois. Uma eletricidade que nunca sentiu ao abraçar o pai.

Ele olha nos olhos do pai e vê uma tempestade, ele pisca confuso e ao olhar de novo, a tempestade se foi.

— Vá filho, vá e não esqueça. Pense no amor.

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Quando Antônio chega no lugar que sempre montava sua barraca no começo de suas andanças pela mata, a noite começava a chegar.

O ar naquele inicio de noite, carregava uma eletricidade estranha, diferente de tudo que Antônio já sentirá antes naquele lugar tão familiar para ele.

Ele sentia como se olhos o observassem. Como se não estivesse só por ali.

Ele respira fundo e ri de si mesmo.

— Aquele papo profundo todo dos meus pais está me deixando impressionado. Não tem nada de diferente, Antônio. É a mesma árvore de sempre que está ao lado da barraca, a mesma cachoeira a direita, o mesmo céu cheio de estrelas, o mesmo chão duro que vai incomodar suas costas, mas como sempre, valerá a pena.

— E agora estou falando sozinho... – ele ri alto — Valeu pai e mãe!

O rapaz termina de arrumar suas coisas, pega uma garrafa d`água e um sanduiche e relaxa recostado na árvore.

Ele não sabia explicar, mas tudo ao seu redor parecia mais vivo. As cores, o brilho da cachoeira, a luz da lua que começava a se infiltrar pelas frestas das árvores, os sons dos pequenos animais e o canto das corujas era intenso.

Ele mal podia esperar que amanhecesse para poder explorar e descobrir mais recantos pela sua amada mata. E quem sabe, achar o lugar que seu pai tanto mencionava: O olho da mata.

Ele entra em sua barraca, pega seu fone e escuta uma música e espera o sono chegar, quando ele estava caindo no sono, ele podia jurar, que ouvia ao redor da barraca passos e risos suaves e uma voz dizendo: — Chegou o momento, meu rapaz. Chegou o momento.