A Marota
49 Capítulo 48
Dor.. Era só o que eu sentia nas últimas semanas. Eu só saia daquele quarto uma vez por dia para que me lavasse. Bellatrix me trazia algumas roupas que ela dizia terem sobrado de Andrômeda.. Aparentemente a irmã não havia levado tudo e sua mãe não havia jogado fora. Aquele lugar era frio e eu passava a maior parte do tempo encolhida na cama, olhando para o nada e pensando em como a saudade apertava cada dia mais... Eu queria ver meus pais, James, Sirius.. Minhas amigas, saber se Brendan estava realmente bem.
Na última semana, nenhum comensal ou colega de escola veio me visitar além de Régulo... Eu me sentia sozinha e abandonada pra morrer de hipotermia naquele lugar. Régulo vinha trazer minhas refeições que estragavam e mofavam ali pois eu não sentia fome. Bellatrix apenas aparecia para me dar roupas, me levar para banhar e me torturar. Eu ainda não sabia o que queriam de mim.. Eu parecia inútil pra eles.
— Vamos, Potter, coma alguma coisa. — o Black mais velho continuou a insistir e eu virei meu rosto para a parede. — Vai acabar morrendo.
— Não seria melhor? — eu perguntei, puxando as mangas dos casacos para taparem minhas mãos. — Aqui é tão frio...
— Talvez seja porque estamos muito perto da água... Por isso as paredes tem mofo e o ar está sempre úmido. — ele disse, deixando a bandeja com frutas ao lado da cama.
Eu olhei para ele e o mesmo me observava, os olhos tinham pena. Eu devia estar deplorável... Qual seria a piada que James e Sirius fariam se me vissem agora? Eu nunca saberia. Um leve sorriso me escapou e o garoto a minha frente me olhou confuso.
— Você tem me ajudado.. Por que? — questionei, fazendo ele sorrir enquanto cobria minhas pernas corretamente.
— Eu pensei e... Acho que, pelo menos uma vez na vida, eu preciso fazer algo pelo meu irmão. — ele disse e eu franzi o cenho.
— Por Sirius? Como assim?
Régulo suspirou.
— Sirius não é quem ele se mostra ser.. Em casa, solitário, por incrível que pareça, ele até lê. — o sonserino contou e eu ri. — É um garoto inteligente, mesmo que tente esconder isso ao paquerar uma garota no corredor. Ele gosta de se divertir mas isso não o torna imude a sentimentos... Ele vive feliz, mas eu sei que em alguma parte daquele coração ele sente tristeza. Por causa da nossa família, por nunca ter sido amado como deveria e.. Por não saber amar corretamente.
Eu olhei atenta para Régulo, me surpreendendo cada vez mais com suas palavras. Ele estava falando mesmo de Sirius? Ele era o Régulo que eu conhecia? Aquele Régulo que me atacou em Hogwarts pouco depois que eu cheguei? Vê-lo falar assim era estranho e... Legal ao mesmo tempo. Ele também tinha sentimentos. Ele, Sirius, o meu irmão... Eles só escondiam bem.
— Eu gosto do seu irmão, Régulo... Muito. Mas é difícil compreende-lo! Em certo momento ele diz que gosta de mim, no outro ele está aos beijos com uma corvina. Logo em seguida ele diz que me ama pra logo depois estar beijando uma lufana. — eu disse tudo de uma vez, respirando fundo ao terminar.
— Espera... Ele disse que te ama..? — Régulo parecia surpreso e eu assenti.
— Quer dizer, ele disse.. Mas eu não sei.. — eu passei as mãos sobre o rosto e ele segurou meus pulsos, me assustando um pouco.
— Jane, se Sirius disse isso... É porque ele sente. — ele me disse, seus olhos fixos nos meus.
Eu fiquei calada por um momento, deixando seus olhos queimarem os meus enquanto ele ainda me segurava, como se quisesse que eu entendesse o que ele queria dizer.
— Eu não sei... Ele não age como se fosse verdade. Ele... Parece não ligar. — dei de ombros e ele soltou meus pulsos.
Nós ficamos em silêncio e o ar tinha um toque que denunciava que nós dois estávamos pensando demais. Na minha cabeça, um plano mirabolante se formava. Eu fugiria dali... Eu precisava arriscar. Não podia continuar aqui, mofando como essas paredes e morrendo cada vez mais. Eu me sentia fraca demais, cada vez mais com as torturas de Bellatrix. Eu acabaria enlouquecendo... Como ela.
— Régulo, me ajuda a fugir. — eu pedi de repente e o Black me olhou meio surpreso.
Seus dentes mordiscaram seu lábio inferior enquanto ele me olhava, batendo os dedos impacientes em seu próprio braço.
— Qual o seu plano? — perguntou, respirando fundo como se não acreditasse no que estava fazendo.
Era sério..? Ele iria me ajudar a fugir?
— E-eu.. Não esperava que você concordasse. — arregalei os olhos e ele sorriu.
Antes que pudesse dizer algo em seguida, alguém bateu na porta e Régulo me olhou.
— Conversamos sobre isso depois.. Eu acho que tenho um plano. — ele sussurrou pra mim e eu assenti.
Seus passos foram lentos em direção a porta enquanto eu me encolhia na cama e olhava para o chão, fingindo estar observando algo invisível. Ouvi a porta se abrir e passos além dos de Régulo se fizeram presentes. Quem seria...?
— Ela não está totalmente bem.. Acho que a maldição cruciatos está acabando com sua sanidade. — a voz de Régulo alcançou meus ouvidos.
— Ela vai querer ouvir o que eu tenho pra dizer. — a outra pessoa disse e eu ouvi a porta se fechar.
Era a voz de Kieran... Ele, finalmente, veio ver o estrago que estavam fazendo?
Pelo canto do olho, eu observei ele se aproximar e senti ele se sentar ao meu lado. O quarto ficou silencioso e eu não senti nada de anormal, se não fosse a presença do Jordan ao meu lado, parado e mudo. Eu continuei a me concentrar no chão, em uma pequena mancha de algo que eu não sabia identificar.
— Eu... Vim apenas lhe dizer que seus pais já sabem que você foi pega pelo 'inimigo' deles. — sua voz saiu falhada e ele pigarreou. — Eu dei um jeito de dizer a Ephram sem que ele soubesse que fui eu e ele foi contar para o priminho traidor dele.. A essa altura, já devem estar procurando o esconderijo.
Eu tentei não reagir.. Eu queria muito me virar e lhe bater, lhe chutar, xinga-lo das piores ofensas possíveis.. Mas eu continuei impassível. Ele era um traidor... Seus pais sabiam que ele estava no caminho para se tornar um comensal da morte? Um ser que mata pessoas mesmo elas sendo inocentes?
— Sobre o meu irmão... Ele está se recuperando. Quando eu o vi pela última vez ainda estava desacordado, mas mamãe está cuidando dele. — ele disse e eu tentei segurar o sorriso que me quis escapar.
Ele estava bem... Isso era ótimo! Antes que eu pudesse me preparar, Kieran segurou meu rosto e me fez olhar pra ele. Seus olhos avaliaram os meus e o resto de meu rosto, como se procurasse algo que pudesse me incriminar.
— Espero que esteja me escutando bem, Potter.. Se você sair daqui, fique bem longe do meu irmão. Ou eu mesmo dou um jeito em você. — Kieran disse isso bem claro, o rosto bem próximo ao meu. — Ele se machucou por sua culpa! Mas não me surpreende que ele tenha se encantado por uma ninfeta como você..
Seus olhos me avaliaram novamente e eu vi a sombra de um sorriso em seu rosto. Sua mão alcançou meu joelho e ele a subiu pela minha perna. Meu coração bateu rápido e eu me desesperei quando a mão adentrou o vestido que eu usava. Eu precisava me manter neutra... Mas eu não deixaria ele me tocar daquele jeito. Rapidamente eu me levantei e me afastei dele, indo tão rápido que, quando vi, eu estava perto da parede do outro lado.
Minha respiração estava alterada e eu ajeitei o vestido, piscando várias vezes para não deixar meus olhos marejarem. Ephram precisava saber quem era o cara que ele gostava... Eu não podia deixar meu amigo ser enganado desse jeito.
— Ah.. Agora eu sei como deixar uma pessoa sã. — seu tom debochado me encheu de ódio.
Se eu tivesse minha varinha, eu não me importaria de lhe lançar uma maldição imperdoável.
— Ephram vai saber.. Ele vai saber quem você é de verdade. — eu lhe disse, me encolhendo na parede quando ele se levantou e veio até mim.
— E como vai contar? — seu sorrisinho aumentava a cada passo.
— Quando eu sair daqui.
— Se sair.
Eu tentei ir para longe mas ele agarrou meu braço. Suas mãos me jogaram contra a parede e eu senti a mesma arranhar meu rosto. Ele depositou seu corpo no meu e eu senti sua respiração bem próxima da minha orelha.
— Me solta! — eu mandei, tentando me esquivar dele mas eu não consegui.
Qual era o meu problema? Eu nunca conseguia me livrar de idiotas.
— Ah, Potter... Vamos nos divertir. Ephram não é ciumento. — ele me disse e eu senti sua mão afastar meu cabelo de meu pescoço.
Eu apertei os olhos quando seus lábios roçaram a pele sensível e a mesma arrepiou, tentando me encolher para que ele parasse. Por que meu corpo reagia daquela forma? Ele não era Brendan, mesmo que se parecesse com ele.. Não era ele. Quando suas mãos me viraram para ele, eu tentei mais uma vez me soltar e escapar das garras daquele garoto maluco. Mas tudo o que eu consegui foi arranhar um dos seus braços antes de ele me prender novamente.
— Calma, gatinha.. Não seja assim. — Kieran riu e eu praticamente rosnei, a raiva cada vez mais me consumindo.
O limite foi quando ele colou seus lábios aos meus e forçou sua língua em minha boca. Meu corpo quis fraquejar e eu acabei correspondendo no inicio, antes de prender seu lábio inferior entre meus dentes e o morder com vontade. O garoto gemeu de dor e me afastou dele, limpando o sangue de sua boca com a mão.
— Vagabunda.. — ele disse e sua mão foi em direção a meu rosto, me dando um tapa que ecoou pelo quarto.
Eu não pude me recuperar já que ele segurou meu pescoço e me ergueu, logo assim fazendo que meu ar faltasse. Eu me sacudi e tentei chuta-lo para que ele me soltasse, mas aquilo não foi suficiente. Ele não podia me matar, podia? Seria bom se aquilo lhe rendesse um bom crucio de Bellatrix.. Ai ele saberia o que é dor de verdade.
— Kieran... — eu tentei dizer mas, graças a Merlin, fui interrompida pela porta se abrindo.
— Kieran! Ficou louco? Solta ela. — a voz de Bellatrix chegou baixa aos meus ouvidos.
— Kieran! — foi Régulo quem se aproximou e tentou fazer o garoto me soltar.
Minha visão embaçou e eu sabia que iria desmaiar. Mas, com certa brutalidade, Kieran me soltou e meu corpo cedeu, ficando sobre meus joelhos. Eu tossi compulsivamente, tentando puxar o máximo de ar que eu conseguia para meus pulmões. Minhas mãos foram em direção a meu pescoço e eu senti as lágrimas caírem. Eu não estava chorando mas meus olhos insistiam em lacrimejar.
— Se você mata ela, estaríamos ferrados! Acha que ele controlaria sua raiva? Mandaria aniquilar todos nós! — Bellatrix gritava com Kieran e eu me encolhi novamente sob o olhar frio do sonserino.
— Deixe de ser um idiota e saia daqui. — Régulo empurrou o garoto pra fora, fechando a porta e se virando pra mim. — O que você fez?
Eu tentei disfarçar o sorrisinho que brotou em meus lábios enquanto enxugava as lágrimas que molharam meu rosto.
— Ele tentou me agarrar e eu revidei.. Acho que ele não gostou. — minha voz saiu rouca e eu fiz um esforço pra me levantar.
Régulo e eu trocamos um olhar e Bellatrix viu. Eu tentei disfarçar apertando os olhos pela leve ardência nos joelhos.. Devem ter ralado com a queda. Eu voltei para a minha cama e me deitei ali, me cobrindo até o pescoço. Usava isso as vezes pra que Bellatrix desistisse de me torturar.. Sempre dava certo. A garota revirou os olhos e murmurou algo para Régulo, saindo do quarto em seguida.
— Eu não conhecia esse lado de Kieran. — comentei, me sentando na cama para ver o Black melhor.
— Ele não é assim geralmente.. Mas não gosta de ser desafiado. — me informou e eu sorri, dando de ombros.
— Sinto por ele.
Régulo riu e balançou a cabeça, indo em direção a porta.
— Descanse. — me disse e eu assenti, observando ele sair e fechar a porta atrás de si.
Eu neguei e me joguei na cama novamente, mantendo meus olhos no teto. Régulo não era aquela pessoa horrível que eu pensava que ele era.. Bem, eu não tinha culpa. Ele fazia todos pensarem que era uma das piores pessoas do mundo, sendo que não era. Ele me ajudaria a sair dali.. Eu seria eternamente grata a ele por isso. Esperava que desse tudo certo e que nós dois ficassemos bem. Que eu conseguisse encontrar meus pais e que ninguém desconfiasse que Régulo me ajudou..
Ele poderia ser morto por isso.
Com um leve sorriso, eu me virei para a parede e suspirei, fechando os olhos. Com a esperança batendo em meu peito, eu acabei pegando no sono.. Pensando que logo logo veria meus pais.
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