A Marca do Dragão
13 O matador de dragões da terra.
Notas iniciais
Lucy
Acordei com uma incomoda ardência na região desnuda das coxas e notei com grande pavor que se devia ao contato brusco com o chão áspero de terra arenosa e pequenas rochas. Eu estava sendo arrastada!
Tentei reagir me debatendo com forças que ainda me restavam, porém de nada adiantou, pelo contrário, a ponta afiada de uma pedra rasgou minha pele em um corte profundo e grunhi de dor quando o suor tocou a ferida aberta.
Os instantes seguintes sucederam tão rápido que mal consegui processa-los: os dois homens pararam frente a uma das várias selas que seguiam apenas do lado esquerdo corredor adentro, abriram-na e me lançaram contra a parede oposta a grade de ferro emparelhado. O impacto me jogou para frente e sem o auxílio das mãos cai com a face na terra.
Aguardei em uma posição envergada até recuperar o folego. Minutos depois, com cuidado, encostei-me na parede cuspindo o restante de areia da boca. A princípio cogitei ser algum problema de embaçamento na vista, mas observando melhor o ambiente era mesmo escurecido e a iluminação amarelada das tochas suspensas clareava o suficiente do caminho, mas não dentro das selas. E temi no que poderiam conter as demais, pois estranhos sons eliminavam o silêncio do lugar.
Tentei ignorar a poça de sangue ocasionada pelo ferimento latente desviando os olhos para um ponto qualquer. Pus-me a recordar dos fatos que me conduziram aquela situação. Lisanna! Foi ela quem me surpreendeu ao aparecer na janela do meu quarto com um semblante frio, que nunca a vi adotar, e boca comprimida em desgosto. Suspeitei que houvesse sido plateia do que nos aconteceu a pouco e estava nitidamente insatisfeita..., mas sua reação me pegou desprevenida.
... ... ...
— Do que está falando? Jogo? – Comecei o diálogo, buscando banir a sensação desconfortável de pânico. – Se fez de surda todo esse tempo quando neguei participar dessa disputa sem sentido...
Devo ter escolhido as palavras erradas ou usado afrontas em momento inoportuno, pois a reação de minha literal adversaria foi o ataque frontal. Tão rápido quanto um piscar de olhos, uma de suas mãos se transformou em grandes garras afiadas, que seguiram rumo ao meu pescoço. Colidi contra a parede ao recuar por puro instinto, derrubando quadros que a enfeitavam, quando um vulto se pôs entre nós impedindo-a de chegar a mim.
— Loke! – Disse ainda aterrorizada. Tateei minha cintura na busca pelas demais chaves em seu lugar de costume, mas lembrei dos trajes de dormir que usava e do lugar onde naturalmente repousava minha pequena bolsa: escrivaninha do lado oposto. Merda!
— Procurando por isso? – Perguntou Lisanna mostrando está com a posse das chaves.
O ar esvaiu dos meus pulmões.
— Saindo com a própria magia! Tsc! Por que sempre tentam dificultar as coisas. – Forçou um lamento, meneando a cabeça.
Todo o restante do corpo humano da albina começou a brilhar, e o brilho acompanhou as mudanças em sua estrutura. Após a transformação, estávamos perante uma mulher harpia da qual tanto relatava os livros de mitologia. Seu tamanho aumentou quase chegando ao teto devido a elevação das garras nos pés semelhante aos de uma águia. O Take Over dela estava completo igual ao de Mira!!
A calcinha negra que lhe restara das roupas a impedia da completa nudez, tornando a situação incomoda para meu companheiro de luta, que apesar da presença ameaçadora não podia negar a beleza nas curvas e traços acentuados adiante. Loke engoliu seco, mas não abandonou a postura ofensiva.
— Na primeira oportunidade, fuja. – Ordenou num sussurro. Ele não se descuidou da atenção para com o adversário, tampouco a mim, mas a velocidade do oponente foi tamanha que somente senti o vento soprado pelo transpassar do vulto no espirito celestial a minha frente.
Loke foi arremessado na direção lateral do cômodo sentido cozinha, por cima de alguns moveis que amorteceu o impacto. Mal houve recuperação e tão logo estava a se defender da sucessão de golpes. Um após o outro e o chão recuava em conformidade.
— Lucy!! – Gritou, despertando-me do horror da cena para a porta metros ao lado. Corri, e o 'não' desesperado dele apertou meu coração para o que estava me seguindo. Segurei a maçaneta com lágrimas meando os olhos, turvando a imagem da marca do dragão brilhando como um alerta no dorso direito da mão. Natsu! Clamei. De soslaio vejo a Lisanna atravessando o quarto e quebrando minha cama com o choque do corpo.
— Continue Hime! – Disse Virgo as minhas costas. Outra que conseguiu usar sua própria magia.
— Obrigada. Tome cuidado! – Murmurei num fio de voz enquanto atravessava a porta.
Pulei os degraus com pressa incomum, a mente na guilda para onde ele poderia ter ido, e sai do apartamento, mas para minha infelicidade alguém que reconheci da minha passada em Hargeon me esperava do lado de fora.
... ... ...
Joguei a cabeça para traz piscando vezes seguidas no intuito de evitar as lágrimas novamente, pois em nada adiantaria chorar naquelas condições. Precisava formular um meio de sair e recuperar minhas roupas, afinal, estava completamente nua. Não encontrei motivos cabíveis para tirarem tudo, tudo mesmo. E cogitando melhor... Encolhi as pernas encobrido com elas o que podia ao subir uma repugnância do individuo que tivesse feito isso.
Passos se aproximando fizeram com que os estranhos zunidos ao redor diminuíssem mais de cinquenta por cento mandando-me um alerta e, imóvel, ocultei-me nas sombras. Detendo-se frente a sela onde me localizava, debatiam algo que pela distância não pude assimilar o conteúdo. Graças ao clarear das tochas conseguia ver os dois seres aparentemente humanos focados na conversa, mas torcia para que a escuridão me escondesse e livrasse de uma suposta atenção.
O homem de expressão jovem junto as barras de ferro tinha um tom moreno claro e braços fortes que denotavam seu porte físico, mesmo que por baixo das roupas. Era alto se comparado ao velho a sua direita. Um símbolo tatuado que rodeava seu bíceps me deixou curiosa ao ponto de forçar a vista para os detalhes. Inclinei-me para frente. As formas eram de alguma tribo indígena do ocidente e reparando bem, a fisionomia dele se assemelhava a de um índio.
Perdi o equilíbrio e com as mãos atadas nas costas não pude evitar mais uma vez de ter o rosto no chão. Itaaai! A conversa encerrou depois do meu pequeno movimento e ambos miraram para dentro da prisão, para mim.
— Não acredito! – Proferiu, estreitando a vista. Meu estomago comprimiu ao tamanho de uma cereja com a tensão que se instalou no ambiente.
Hesitou no início, analisando vagamente, como se não fosse a mim que avistasse, mas uma outra pessoa em um tempo remoto. Com cautela, ele se aproximou — até demais pro meu gosto — e pude ver com exatidão a cor âmbar de seus olhos apertados.
— Ela é marcada! – Afirmou com seriedade, e um pingo de incredulidade pôde ser reparado em sua voz. Seu interesse ao observar me causou constrangimento. – Como conseguiu capturá-la?
— Tenho os meus meios. – Justificou-se o velho ainda a porta da sela. Suspeitei que pudesse ser o articulador e mandante, pois a sua presença exalava coisas ruins.
— Isso quer dizer que o seu dragão está furioso a sua procura. – Presumiu.
— Ele não é meu dragão! – Elevei a voz sem pensar por causa da enorme vergonha.
Seus lábios esboçaram um sorriso malicioso. – Então como posso chama-lo?... Amante! Porque é isso que vocês dois são.
Arfei com a insinuação, como se não somente fosse verdade, mas que me afetava até o ultimo fio loiro de cabelo.
Tive os pensamentos interrompidos com o deslizar de seus dedos ousados pela minha pele. Entrei em desespero: O que ele iria fazer?
— Bom, onde possa estar? – Indagou num murmúrio, mais para si mesmo, pouco preocupado com minha agitação em relação ao atrevimento. – Achei. – Segurou meu braço e virou-me indelicado.
— Ora, ora, ora... matador de dragão do fogo...
— Sim! – O interrompi. – E o Natsu vai acabar com vocês.
Ouvi risos debochados. – Pois diga ao Natsu que também sou um dragon slayer.
Aquela altura nada me surpreenderia tanto, contudo a hipótese de que não seria simplesmente um dragon slayer me fez enrijecer a cada alusão.
— E como você parece inteligente sabe que no conceito da neutralização dos elementos a terra apaga o fogo.
Dragon Slayer da terra!!
— Mas ele tem o poder da marca a seu favor. – Os desafiei.
Quem se manifestou dessa vez foi o companheiro até então ouvinte. Eu o conhecia de algum lugar.— Saiba de uma coisa mocinha, o Kim também foi um doador.
Minha desconfiança tinha fundamento, mas nem por isso fiquei menos abalada.
— E... E onde está sua marcada? – Temi a resposta.
— Morta. – Retrucou frio.
— Você a matou! – Acusei precipitadamente. Ele levantou e me deu as costas. Seu semblante antes de escondê-lo não indicava o de um assassino e sim de vítima, pois carregava dor e solidão...
— Não... – Abri a boca para retificar e meu subconsciente quis cometer suicídio. – Não foi você! — Iniciei. — Como falou, somos amantes e é necessário que ambos queiram para que a magia se concretize.
Kim voltou-se surpreso por eu não ter caído na colocação da ideia.
Mas, afinal, o que teria acontecido? Lembrei-me de ter lido algo sobre sermos a força na hora da batalha, assim como também um ponto fraco por mexer com seus sentimentos. Eles se deixariam torturar ou na pior das escolhas morrer em troca da segurança de sua protegida.
A imagem do Natsu me chegou nítida a cabeça.
— Ela salvou você, não foi? Ela se sacrificou para que você não morresse...
— Calada! – Apertou minhas bochechas, franzindo meus lábios num bico. – Muito inteligente de sua parte loirinha. Sabe de uma coisa... Terei um enorme prazer em matar o tal Natsu. O poder da terra lhe cairia bem. – Aquilo nem de longe seria uma sugestão.
Impossibilitada de falar, fiz barulho negando com a cabeça. Era só o que me faltava.
O corredor se tumultuou com grupos de homens berrantes percorrendo-o em ambas as direções. O primeiro tremor foi sentido e partes do teto se desprenderam. Um dos agitados deteve-se ante ao velho anunciando o invasor. Kim me soltou ao ouvi-lo e juntou-se a eles. Outro tremor e mais outro, a sequência aumentava em curtos períodos, porém estes vieram acompanhados de um urro bestial. Outrora entraria em pânico, no entanto aquele som não mais parecia anormal pra mim, identifiquei de quem seria, ou melhor, o que seria. Ele estava lá e me chamava. Meu peito ardeu de maneira indescritível e lágrimas desceram através dos meus olhos.
— Natsu!
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