A Marca do Dragão
1 O dragão que renasce.
Notas iniciais
Passos apressados ecoavam pelo corredor principal da residência dos Heartfilia. A pequena Lucy seguia para fora da mansão pela porta dos fundos, rumo às árvores que circundavam o quintal. Em seus braços carregava algumas frutas que sorrateiramente pegou da fruteira na mesa da cozinha em meio à fuga.
— Senhorita Lucy para onde vai com tanta pressa? – Perguntou a empregada após o susto de algo minúsculo passando rapidamente próximo de suas saias.
È bem provável que tenha se deparado com o mau humor do pai e suas palavras duras novamente. Pobre menina! Pensou a mulher temerosa em olhar para aquele rostinho pálido, avermelhando-se aos poucos do nariz as extremidades das bochechas, enquanto lagrimas brotavam de seus olhos tristes e escorriam pela face.
— Alimentar um... coelho que encontrei. – Respondeu alegre, esboçando um sorriso dócil.
Surpresa, a única reação da empregada fora soltar a vassoura, levando as mãos aos lábios entreabertos, observando-a se distanciar.
Próximo a uma cerejeira, a maior dentre as demais árvores de onde se limitava o quintal, depositou as frutas que trouxera consigo e andou até beirada do lago. Um garotinho de cabelos rosados e pele levemente morena estava imóvel, agachado, olhava fixamente através de seu reflexo para dentro das profundezas do lago. Imitando-o, Lucy abaixou-se, curiosa, ficando ao lado da misteriosa criança que conheceu no dia anterior. (O suposto coelho que se referiu).
— Nossa! Há peixes enormes aqui. – Disse com a boca salivando.
A fascinação e o desejo com o qual observava os peixes arrancaram sorrisos da loirinha. – E-Eu trouxe frutas. — Titubeou.
A voz branda feminina lhe tirou a concentração. Fitou-a por alguns instantes, depois se voltou para trás, para onde as frutas estavam.
— É-verdade-que-mora-com-seu-pai-nessa-casa-enorme? – Indagou com a boca cheia. Mal conseguia se distinguir as palavras uma das outras.
Lucy ficou calada.
Sentado sob a sombra da grande cerejeira, suspirou estufado, dando tapas na barriga completamente farta. Antes havia comido sozinho, além das frutas, um peixe que capturou sem maiores dificuldades e fritou com o fogo de suas próprias mãos. Cena que deixou a menina impressionada.
— Como você consegue? – Ignorou a pergunta anterior feita para si. O que tinha acabado de ver era bem mais interessante que comentar sobre a vida solitária de uma recém-órfã de mãe.
— Sou filho do dragão do fogo Igneel. É normal que use esse tipo de magia. – Explicou naturalmente, desconsiderando o espanto nos olhos escancarados da pequena.
Dragão?!
— Por falar nisso, você o viu passando por aqui? – Levantou-se na expectativa.
Lucy balançou a cabeça negativamente, um pouco amedrontada com a informação. Um dragão por aqui?! O brilho esperançoso nos olhos do garotinho ofuscou. Emburrado, jogou-se no chão, cruzando os braços e resmungando palavras incompreensíveis para uma Lucy distante.
Sempre escutava histórias sobre esse ser mitológico, e muitas delas tão assustadoras, que a noite mal conseguia dormir com as lembranças. Contudo, nenhuma relatou o fato deles terem filhos assim como os humanos.
— O que aconteceu com seu pai? – Se atreveu a perguntar.
Ele se demorou, mirando-a em silêncio. Lucy sentiu o corpo estremecer com a atenção que recebeu daqueles olhos ônix. – Há uma semana ele desapareceu. Até então venho o procurando.
A menina sentiu-se mal por levantar um assunto tão delicado e que igualmente a afetava. Desviou os olhos para o chão e suas mãos apertaram o vestido com força. Também tinha perdido a sua mãe nesse curto tempo, precisamente no dia sete do mês sete, data que certamente jamais sairia de sua cabeça.
— E-Ei... Aconteceu alguma coisa? Tá doendo? – Questionou, preocupado ao notar as lagrimas se formando, juntamente com lábios apertados e trêmulos da loirinha.
— Minha mãe também se foi. – Revelou, começando a chorar.
— Não fique assim. Se você quiser posso procura-la. – Tentou acalma-la. Quando a viu se limitar em soluços e tirar vagarosamente as mãos dos olhos, soltou o ar, aliviado. Funcionou.
— Meu pai me disse que ela não voltará. Minha mãe morreu e juntou-se as estrelas, pois ela era uma maga celestial. – Orgulhosa, as últimas palavras varreram o desapontamento da pequena com relação ao pai rigoroso.
— Uou... Então você também é uma maga celestial! – Afirmou, apesar da frase mais parecer uma pergunta. Os orbes negros se esquentaram em duas pequenas chamas excitadas. – É a primeira vez que encontro uma.
Lucy sorriu, mas negou com a cabeça o fazendo murchar com o gesto. – Ainda não sou forte o suficiente como ela para usar as chaves. Se ao menos... – Hesitou continuar por instantes, recordando da advertência em relação ao uso da magia. Seu futuro estava todo arquitetado, com base num casamento planejado e proliferação dos negócios da família. – Se ao menos tivesse magia, a teria ajudado antes.
O clima entre as duas crianças ficou incomodo. Calados, o rosado coçou a cabeça impaciente, procurando palavras que pudessem amenizar a situação, ou ela voltaria a chorar. E o que mais odiava era ver alguém chorando. No entanto, nunca foi muito bom nesse negócio de pensar e logo estava com a cabeça esfumaçando. O que poderia fazer? O que poderia fazer? O QUE PODERIA FAZER?
— Já sei! – Exclamou tão repentinamente que a assustou. – Posso ajudar.
— P-Pode? C-Como?
... ... ...
Lucy
Senti uma pontada no coração com aquele repentino flash de memória, e não foi de saudades, disso pude ter certeza. Coisas piores viriam a seguir, naquele mesmo dia em que recebi a ajuda.
Admirei a marca da guilda na mão direita em minha cor favorita. Sei que está ai! Pensei franzindo o cenho. Era assombroso ver o quanto se ocultava na pele à medida que fosse quebrado o contato íntimo ou qualquer utilização do poder dele. Poderia até me enganar pensando que nada houvera acontecido, mas somente estaria me arriscando.
— Algo errado Luce? – Acordei do meu devaneio com a preocupação do Natsu.
— Não foi nada. – Respondi com um sorriso relaxado. Era inacreditável o fato dele não se lembrar de absolutamente nada do que nos aconteceu na infância. Confesso que não o reconheci de imediato assim que nos reencontramos em Hargeon, mas no final relacionei o titulo de Salamander a aparência e cheguei à conclusão.
— Acalme-se! A próxima luta será sua! – Erza tocou meu ombro. – Não pude facilitar, mesmo que sejamos amigas ou do mesmo time.
— Obrigada por polpa minha vida. – Brinquei, apesar daquelas palavras terem um pouco de veracidade.
Estamos em meio a um torneio local, isto é, da própria Fairy Tail. O mestre Makarov propôs que competíssemos contra nós mesmos para saber qual seria o melhor. Claro, como forma de treinamento conjunto, e não como fez seu neto da ultima vez.
Foi montada uma arena numa vasta área plana próximo da guilda. Em torno, uma barreia no formato oval impedia que qualquer magia atingisse quem estivesse assistindo, já que o torneio era aberto ao público. Fiquei aliviada com a divisão dos grupos em femininos e masculinos. Só assim não teria a má sorte de enfrentar um Elfman, Gray, Gajeel, Natsu ou Laxus.
Os músculos do meu corpo doeram com a hipótese.
Entretanto, ainda tínhamos Erza e Mira. Infelizmente na minha primeira luta de três cai com a titânia. Dei o máximo de mim, mas o placar já estava definido assim que colocamos os pés na arena. Me restaram duas lutas, e com elas alguma chance de vencer e ser classificada para segunda etapa. Eu precisava disso, por mim, para o meu ego. Consigo contar em uma única mão as quantidades de batalhas que venci, mas ao inverter o sentido, nem imagino em que unidade decimal esteja.
— Preciso vencer! – Murmurei, mordendo o lábio inferior.
— Lucy Heartfilia. – O mestre chamou, me pegando de surpresa. Meu coração acelerou. Minha segunda luta!
Avancei com passos firmes, tanto quanto me sentia. Meus amigos gritavam palavras de apoio pra mim, e gesticulei com a boca um Obrigada sincero. Alguns metros depois entrei na barreia e subi na arena: Um extenso bloco quadrangular de concreto. Com sorte não cairia em uma luta contra Mira. Se bem que a sorte não estava do meu lado hoje.
Makarov vasculhou a urna fechada, apenas com o espaço necessário para entrada de seu braço, finalmente tirando mais uma esfera e dizendo o nome: – Juvia Lockser.
Sorri para ela.
— Juvia não perderá dessa vez! Não para sua rival no amor do Gray-sama! – Pronunciou apontando para mim.
Assim como eu, Juvia teve a má sorte de enfrentar logo na primeira luta alguém forte como Mirajane. Resumindo, ambas precisávamos vencer para continuar na disputa. Meu sorriso ficou desajeitado com a declaração. Nem se eu quisesse, Juvia. Pensei.
— Também estou disposta a ganhar! – Me recompus.
— Então você confirma seu amor pelo Gray-sama?! – Delirou novamente.
— N-Não é nada disso...
Um curto som anunciou o inicio da partida. Dou um salto para trás, assumindo a posição ofensiva, e abro o primeiro portão: – Portão do Touro de Ouro, eu te abro! Taurus!
De imediato Taurus difere um golpe sobre a oponente, mas como previsto o machado atravessa seu corpo composto d’água. Faz outra tentativa e mais outra, respigando o líquido pela arena. Dessa forma meus espíritos jamais conseguirão atingi-la, a não ser...
— Portão do escorpião, eu te abro! Escorpion!
— Lá vou eu! Explosão de areia!
— Isso, solidifique essa água! – Gritei. Ela entendeu meu plano, no entanto, a essa altura, não poderia mais evitar. Agora a força do Taurus a levará a nocaute.
Começo a ficar eufórica com a vitória se aproximando, que não percebo uma minúscula poça d’água e a piso. Segundos depois sou envolta por uma bolha. A falta de ar me tirou a concentração e evitou que continuasse coordenando meus espíritos. Eles, por sua vez, pararam e se voltaram para mim, espantados.
— Essa não, a Lucy estava tão perto. – Falou Wendy tristonha.
— A estratégia dela em tornar o corpo da adversária sólido o suficiente para que os golpes de Taurus surtissem efeito, foi boa, mas distraída acabou baixando a guarda. – Erza cruzou os braços, lamentando.
— Consequentemente a Juvia se aproveitou. – Concluiu Gray.
— Vamos Luce. – Natsu incitava, observando atentamente a luta.
Alguns minutos se passaram e ainda me encontrava naquela bolha. Meus pulmões estavam se comprimindo ao tamanho de uma laranja pela ausência de oxigênio. Estou à beira do inconsciente. Tentei manter os olhos abertos. Os espíritos pegos de surpresa jaziam no chão, e Juvia vinha de encontro a mim. Seria esse o desfecho da luta, uma Juvia vitoriosa, enquanto eu era carregada para fora da arena rumo à enfermaria?
— Não! – Exclamou meu subconsciente, forte o suficiente para me despertar. – Eu não podia desistir! Precisava vencer por mim mesma, ou viverei me escondendo nas sombras dos meus amigos por causa de minha fraqueza.
Concentrei-me e comecei a clamar por força. Rapidamente e atendendo ao meu pedido, um calor começou a me invadir, circulando por cada parte do meu corpo a partir do punho direito. Ignorei os comentários ao meu respeito, no que poderia está acontecendo comigo, e se não me engano, sobre a marca da guilda. Foco Lucy. Pedi quando toda a água da bolha se evaporou.
Parti na direção de uma Juvia atônita, aproveitando-me disso para golpeá-la, me declarando forte o bastante para isso. Com a distância exata, segurei o chicote, antes preso a cintura (e no instante tomado por chamas), e envolvi minha adversária, que gritou com o calor sem conseguir se soltar. Meu pulso fervia...
Pulso... Ferver...! Parei a ação com essas palavras rondando a mente, percebendo esta emanando um calor do corpo inteiro, quase que em chamas. Não pode está acontecendo. Não... Não depois do tanto que evitei. Por fim, analisei o local de mais ardor e lá estava à marca avermelhada, vivida, de um dragão de fogo predominante sobre a fada imperceptível de cor rosa.
Olhei ao meu redor, engolindo em seco a situação. O coração tomado pelo pânico, batia num ritmo tão acelerado, que cogitei um infarto se permanecesse daquela maneira. Como era esperado, todos estavam paralisados, principalmente ele... Natsu.
... ... ...
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