A Marca do Dragão
9 Game Over. Parte III – Vulnerável.
Notas iniciais
O som constante de vozes na parte externa do quarto, porém bem próximo ao pequeno cômodo onde Natsu repousava, o incomodou, forçando levantar, mesmo que para sentar na beirada da cama. Sua cabeça latejava e todo o ambiente movia ante aos olhos. Segurou a ânsia de vomito com o tapar da boca, e por pouco não voltou a deitar, não fosse o reconhecimento das duas pessoas que conversavam ou, no caso, discutiam do lado de fora.
Sentiu de imediato a contração dos músculos em reação a dor aguda quando se ergueu, que iniciou no local atingido pelo golpe do Dragon Slayer do trovão e espalhou-se rapidamente pelo corpo. Era de se esperar, afinal, só havia descansado cerca de trinta minutos após os cuidados da Wendy e da velha Polyushka.
Merda! Grunhiu. Sempre que o Laxus o golpeava com sua magia, acabava daquela maneira: Dormente, fraco e nauseado. A corrente elétrica ainda permanecia no corpo, mesmo depois de horas, sendo o efeito retardatário. Tsc! Tive tempo suficiente, já deveria ter trabalhado numa maneira de evitar essa sensação. Resmungou inconformado.
A cena vergonhosa de sua derrota voltava à mente como uma espécie de Flashback. Havia perdido a rara oportunidade de vencer o Laxus e assumir o posto de mais forte da Fairy Tail, por mera distração. Algo em seu interior despertou, quando avistou os movimentos da Lisanna indo de encontro a loira. Teve imensa vontade, um instinto feroz, de se por entre elas e ameaçar a albina para que ficasse longe.
Balançou a cabeça.
Mas aquele não era ele, e o ato completamente insano. Apesar da recente e estranha atitude da amiga — se é que fosse a verdadeira Lisanna -, em hipótese alguma a faria mal, muito menos afastá-la da Lucy. Não tinha esse direito! Somente a própria Lucy que tinha...
Em consequência do descuido, recebeu o golpe com a guarda baixa. Foi lançado ao chão, abrindo o bloco de concreto em dois com a força do impacto. A dor o apagou na hora, e ao acordar estava na enfermaria na companhia da Wendy, Charles e Happy e aos cuidados da velha.
"Já chega!" Tem o devaneio interrompido pela alteração de uma das vozes anteriores. Caminhou doloroso até a entrada do cômodo, e como suspeitava, estavam bem a porta, defronte uma para a outra. Não entendeu exatamente do que se tratava a discussão, pois o tempo lhe foi curto para organizar o emaranhado de palavras que chegou a ouvir: Cansada disso... Faça o que quiser... Você e Natsu se ferrem... A última frase o fez franzi o cenho, numa semicareta.
Logo seus olhos se cruzaram com os da loira adiante, no instante em que levantava a cabeça após o desabafo incoerente. O semblante automaticamente mudando de um furioso para um desapontado, ou qualquer outro sentimento intermediário entre esses. Lágrimas lhe escorreram pelo rosto avermelhado, embora se percebia pelos lábios trêmulos e pressionados, que a mesma se esforçava para conter o choro.
— Natsu... – Se prolongou no nome, recebendo toda a atenção do dono. – Eu te odeio! – Concluiu. Dando meia volta, partindo para fora do recinto.
Uma ação tão ligeira, que o receptor mal teve tempo de formular a pergunta ‘O quê?’ direito, agora observando o vão que ficou o corredor no lugar onde a garota se encontrava. Baixou pouco mais a vista, capitando a terceira pessoa no corredor. Uma espectadora perceptivelmente satisfeita com a cena presenciada, e a suposta culpada pelo estranho ocorrido, segundos atrás.
— Porque tenho a impressão de que tem um dedo seu nisso, Lisanna?
— Do que esta falando, Natsu? – Se fez de desentendida, encolhendo os ombros.
O rosado bufou impaciente, desvencilhando dos toques da albina. Até quando insistirá na mentira? Pensou. Aquela situação tinha passado dos limites. Ele precisava tomar uma providencia antes que fugisse de seu controle — mais do que já estava.
— Aonde vai...?
— Resolver essa questão! – Retrucou cortando-a, seguindo o igual caminho da loira. Cerca de dois metros de distâncias da jovem, deteve os passos. – Também quero falar com você. – Disse com frieza incomum para os que conheciam o Salamader.
Imóvel, Lisanna se ateve a sorrir, contudo, um sorriso amargo e inseguro, carregado de suspeitas.
... ... ...
Lucy
Como eu consegui sair da guilda sem atrair olhares curiosos para meu estado péssimo, afim de algo novo para preencher a chata rotina de conversa de muitos, é algo que nunca vou entender. Corri de lá como se estivesse pegando fogo, e de certo modo estava, mas vermelha de raiva.
Em meio a espiral de confusão na cabeça, não cogitei outro lugar para ir, senão o aconchego de minha casa, apesar desta parecer distante naquele momento, que precisei recobrar o fôlego ao parar em frente.
— Como sou ridícula! – Sussurrei amargamente, apertando os olhos na tentativa frustrada de varrer a confissão de Lisanna, que por incontáveis vezes repetia-se bloqueando qualquer outro som.
Subi alguns preguiçosos lances de escada até a porta, estendendo a mão em direção à maçaneta, mas a tenho envolvida por outra maior e mais robusta, bem antes de girá-la. Tomaria um susto em uma ocasião normal e xingaria a pessoa até seus ouvidos caírem. No entanto, o ar exauriu dos meus pulmões, como se tivesse sido aspirado todo para fora. Uma onda de calor me fez submergir em um mar de sensações adversas e meu corpo clamou com urgência por mais toques, numa linguagem que eu própria desconhecia possuir.
Recolhi a mão, gritando abafado. O que foi aquilo? Minha mente sobressaltou. Mirei, atônita, o individuo. Ele espelhava minha surpresa, deixando claro que também sentiu as sensações tanto quanto meu pedido corporal.
Comecei a ficar furiosa, num patamar ainda mais elevado do que a raiva de outrora, se é que fosse possível. Detestava me expor daquele jeito, e esse selo de dragão me desdobrava totalmente para ele manusear a sua maneira. Era humilhante.
— Luce...
— Cale-se! – Esbravejei, cobrindo os ouvidos. – Não quero ouvir desculpas.
Natsu se impulsionou para frente certo de que não desistiria. Em reação contrária, me lançava para trás, batendo as costas na madeira.
— Não se aproxime! – Rosnei, o fuzilando para manter o contato visual, enquanto tateava em busca da maçaneta.
— Luce, entenda... – Tentou novamente. Nessa hora encontrei o objeto de metal, e aliviada por poder acabar logo com a enrolação que seria submetida a escutar, interrompo-o, abrindo a porta.
— Já disse que n...
— Ao menos me deixe falar. Droga! – Sua voz entoou pelo ambiente fechado, causando-me vibrações na superfície da pele. Inerte, pisquei algumas vezes, absorta.
O som de garganta sendo ruidosamente limpa chamou nossa atenção para o pé da escada. – Poderiam discutir a relação de forma menos barulhenta para não incomodar os outros inquilinos. – A sindica apontou como exemplo o quarto ao lado, que com a porta já aberta mostrava um senhor com a maior cara rabugenta. – E de preferência no aposento.
A contragosto — e encabulada pela citação nada conveniente -, entrei pisando firme, quase esburacando o assoalho de madeira. Se não estivesse tão puta com esse complô contra mim, relevaria me sentar. Ao invés disso, me mantive de pé no centro do quarto.
Natsu ficou me encarando, e tive uma vasta impressão de que ele não desgrudou a vista em nenhum instante. Porém, não estava nem um pouco com vontade de brincar aquele joguinho e prontifiquei de virar o rosto para um ponto qualquer.
— Isso não é só difícil pra você, Luce. – Iniciou singelo. – Estou confuso demais com essa história, afinal, quem diria que ela fosse... – Vacilou, inseguro na afirmação. Os metros que nos separavam antes, não passavam de centímetros agora. – você. – Finalizou. Ele já não conseguia se manter mais que dois palmos de distancia de mim, e confirmo, pelo fato de não me afastar, que eu também não.
— É tudo tão... engraçado. – Abri a boca, incrédula. Ele não quis dizer isso. Se corrigiu: – Quero dizer, passei minha vida toda lhe procurando, mesmo que fisicamente fraco, e sempre esteve do meu lado. Ainda não vejo graça nisso.
Havia lido uma vez sobre a fraqueza dos Dragons Slayers que ativavam esse vínculo. Estando separados, seu corpo perde parcialmente as habilidades em geral, dependendo do tempo, chegando até 70%. Fiquei preocupada que por ele ser, naquela época, uma criança andarilha, a situação pudesse agravar. Um sentimento convertido em alegria com a oposição dos relatos no nosso reencontro na festa de meus quinze anos...
— Seu pai demostrou conhecimento no assunto ao ordenar minha prisão em outra cidade. Fiquei sem referência. Não sabia seu nome, nem lembrava de sua casa. E seu cheiro... – Farejou o ar e enrubesci por saber exatamente o que pretendia com o ato – era uma vaga recordação.
Quando não fiz menção em falar, digerindo as informações, continuou. Um sorriso relaxado e travesso iluminando sua face. De repente sabia o que vinha a seguir: A Fairy Tail.
Descreveu, em resumo, sua trajetória desde os treinamentos para se fortalecer a brigas “amigáveis” com o Gray e os outros. Não contive o bico nas vezes em que citou a Lisanna e desabei a gargalhar com seu fracasso em ganhar da Erza pequena. Compreendi as razões por ter ocultado sua procura por mim.
Embalada pelo momento descontraído, avancei, ignorando o alerta de ‘Pare! Limite perigoso’ do meu cérebro que soava constantemente. Acariciei sua face, me preenchendo de um calor inigualável que partia dos dedos, mão, descendo por cada membro do meu corpo. Fechamos os olhos, partilhando em silêncio absoluto dessa igual magia por um longo tempo.
Imaginando que tinha provado o suficiente de toda a sensação que deveria, seus lábios espertos em contato com os meus me surpreenderam, acrescentando o sabor. Perfeito! Retribuiria a ação, se essa não fosse tão grosseira e dominadora. O beijo roubado veio selvagem junto com uma mão curiosa nas áreas baixas traseiras.
— Me... solta... Natsu. – Pedir com a boca ainda pressionada na dele, o empurrando e socando seu peito.
Depois de minutos de tentativa consegui sair do abraço mal intencionado, trôpega e lutando para manter as pernas bambas eretas.
Me arrepiei até o ultimo fio de cabelo ao contemplar sua língua passeando vagarosa pelos lábios. Kyaaaaa...!! O que esse idiota esta tentando? Achando graça do meu desespero, eis que surgira de seu meio sorriso dentes brancos e caninos pontudos. Notei o perigo bater a porta, no segundo em que os olhos verdes maliciosos fazem uma triagem completa no produto a ser consumido, no caso eu. Engoli em seco, não precisando me beliscar para saber o quão real a cena era. Cautelosa, recuei semelhante a uma presa encurralada, no mínimo conseguindo essa façanha.
— Assustada, Luce?
Arfei em resposta.
De esguelha, verifiquei as alternativas de escapatória. Entre me jogar da janela ou contornar a cama, no intuito de por um obstáculo entre nós, preferir a segunda opção, pois sairia menos dolorosa no final das contas.
— Não faça isso. – Ele percebeu. – Amo brincar de dragão e caça.
No cômodo diminuto, não demorou muito para ser agarrada pelo pulso e jogada na cama sem delicadeza. Me debati, porém, imobilizou rapidamente meus movimentos, pondo-se em cima de mim. Observei apavorada o único negro de seus olhos, em uma linha vertical, se dilatar, enquanto me fitava.
— Não. – O protesto saiu num fio de voz. Ele desconsiderou. O hálito quente se antecipou em lufadas pelo pescoço, seguido por uma a sequência de beijos suaves até busto.
Escancarei os orbes assim que um longo dedo deslizou por baixo do tecido de minha saia. Soltei um suspiro entrecortado, me sentindo como se estivesse derretendo por dentro. Um desejo angustiado estava se concentrando entre minhas pernas. Natsu alcançou o topo de minha calcinha e escorregou o dedo pelo interior, acariciando a pele até localizar a entrada.
— Hum... – Gemeu por encontra-la molhada.
— Natsuuuu! – Happy chamou, entrando pela janela. – O pessoal avisou que estaria... – O exceed estagnava durante a frase pela ameaça estampada no olhar do parceiro.
Ao reconhecê-lo, seu semblante suavizou e Natsu piscou vezes fora do comum. Os ônix retomando seu lugar, preenchendo e tornando uma só, pupila e íris. Minha deixa. Consegui empurrá-lo para fora da cama, me enrolado com as cobertas.
— Happy leve-o daqui... Por favor. – Supliquei com a voz ondulada. Encarando o felino, indiquei a janela, trêmula. Estava com os nervos a mil, numa mistura de constrangimento, exasperação e frustração (por incrível que o ultimo venha parecer), pouco me importando se a janela havia se transformado em porta dos fundos.
Natsu não tentou argumentar sobre o ocorrido, o sinal de sua ereção dizia por si. Era perceptível a desordem em sua mente e a incredulidade em seus atos de outrora predominava. Guiado pelo amigo, hesitou por um momento no parapeito, mas vendo que não lhe cederia o rosto, se lançou para fora.
... ... ...
Sai do banho enrolada na toalha, troquei de roupa com a cabeça em outro lugar.
Que maravilha! Meu subconsciente se manisfestou, explodindo em sarcasmo. Fui marcada por um Dragon Slayer com dupla personalidade.
Um barulho conhecido me devolveu ao presente. Suspirei, esgotada.
— Pedi, por favor, para que se retirasse. – Disse de forma branda na escuridão do quarto, sem olhar para trás, para a direção da janela onde a silhueta de uma pessoa se materializava no chão. – Por que voltou...
A frase morreu e parei com a boca entreaberta. Havia alguém no parapeito, mas esse não era o Natsu. Os cabelos alvos brilhavam num tom prateado ao toque da luz da lua. Os traços delicados revelavam o sexo feminino do intruso. Apesar da pessoa ser uma conhecida minha, meu coração disparou e todos os pelos do meu corpo eriçaram em pânico.
— Muito bem Lucy! Provou ter o coração do Natsu, ganhando o desafio. Mas infelizmente o jogo acabou pra você.
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