A Marca do Dragão
8 Game Over. Parte II – Magoada.
Notas iniciais
Natsu
A Lisanna não se desgrudou de mim o trajeto inteiro, e pela forma como andava agarrada a meu braço, gerou uma concepção errônea ao nosso respeito nas pessoas que passavam pela rua. A principio tentei afastá-la me utilizando de desculpas e até na base da força física, chegando ao limite da tolerância. Porém, a situação somente piorou com seus supostos ataques dramáticos, chamando a atenção de quem estivesse por perto. Onde ela aprendeu a atuar dessa forma?
Que rapaz grosseiro! Deveria ter vergonha do que faz! Um completo ignorante, isso sim. Pobre menina! Eram as frases mais usadas por aqueles que paravam para assistir o choramingo de Lisanna. No momento, poderia ter gritado a todos que não estávamos namorando, muito menos que entendia os motivos para ela agir daquela maneira. Eu poderia... Mas no fundo sabia que não iria adiantar de coisa alguma para a plateia de estranhos.
O único que pude extrair de bom, ou levemente ruim, foi o fato do meu companheiro Happy ter nos poupado de seus comentários maliciosos, se limitando a zombarias contidas. O que não deixou de causar irritação.
... ... ...
Finalmente chegamos a Fairy Tail, meu segundo lar, se já não considerasse o primeiro devido a maior parte do tempo que passava aqui. O que seria um calmante para meu inicio de manhã estar com meus amigos e gente conhecida o bastante para apaziguar o estranho fogo da Lisanna, se tornou algo ainda pior, com os olhares duvidosos e surpresos em nossa direção.
Meu sorriso saiu desprovido de humor por continuar sendo a atração principal, durando um curto período de tempo, o suficiente para me encontrar e, simultaneamente, me perder nos familiares orbes castanhos. Engoli em seco, quando os mesmos raivosos me fuzilaram. A dona com cara de poucos amigos.
Hora da explicação, Natsu.
Puxei o braço, tirando-o do contato com os seios da Lisanna. Desde quando ela o havia colocado ali? Não pude evitar a vermelhidão no rosto. Toda aquela ousadia estava me deixando confuso.
Ignorei os protestos e segui rumo à loira sentada no balcão defronte. Não cheguei avançar mais que dois passos, Luce ergueu-se do assento, quebrando nosso contato visual com o empinar do queixo, virando e entortando a boca. Tsc! Isso não era um bom sinal. E como esperava, ela se precipitou pegando a sua esquerda, corredor adentro.
Parti atrás dela, constatando pela perseguição que não se tratava de mero hesito, na verdade, ela estava fugindo de mim (de novo).
Vejo-a se lançando em um dos cômodos a frente, batendo a porta em seguida. Feminino estava escrito na placa junto à silhueta desenhada de uma boneca. Se pensa que um banheiro feminino vai me impedir, está redondamente enganada. Balbuciei, pondo a mão na maçaneta, ouvindo o barulho do fecho antes de girá-la. Merda! Ela trancou! Tomei distância, estralando as juntas dos dedos. Gosto quando faço do meu jeito. Dei um sorriso divertido pronto para quebrar o obstáculo, quando, com o punho a centímetro da porta, fui impedido pelo choro desesperado e inconsolado, vindo do seu interior. Aquilo de sobremodo me quebrantou. Sentir como se minhas forças fossem sugadas por completo, não restando ao menos a que me mantinha de pé, de maneira que tive que me apoiar na porta.
Serrei os olhos, encostando a testa na madeira fria. Me perdoe, Luce. Busquei falar, mas as palavras traidoras não saíram, travaram na garganta, passando apenas de um puro pensamento.
... ... ...
— Natsu, onde está a Luxii? – O rosado foi abordado pelo exceed azul, assim que retornou ao salão.
Através da expressão na face do Salamander quando o encarou, Happy deduziu o fracasso que foi a conversa. Se é que houve conversa. Conhecendo bem aqueles dois, provavelmente discutiram todo o tempo sem chegar a nenhuma conclusão. Só era de se estranhar ele não ter ouvido as vozes alteradas como da ultima vez.
— Ela se trancou no banheiro. – Resumiu.
Aterrissando, Happy franziu o cenho, desconhecendo o amigo. Natsu não pensaria duas vezes em por a baixo qualquer obstáculo que o interferisse no caminho, mesmo que depois fosse castigado pelo mestre por ter aprontado mais uma das suas na guilda. Com certeza, o motivo não foi à porta de madeira que quis poupar a compra, algo a mais deve ter acontecido.
— A Luxii ainda está brava pelo que disse ontem? – Procurou saber.
— Deixa que essa eu respondo. – A albina interferiu, deslocando-se ante a dupla. – Sim! Ou deve ter ficado chateada porque o Natsu e eu dormimos juntos. – Respondeu alto de propósito, a fim de tornar verídico a suspeita dos demais.
O gato petrificou boquiaberto e a pata erguida num gesto que indicava um “É mesmo!”.
— O que pensa que esta fazendo, Lisanna? – Reclamou, puxando-a pelo braço para um ambiente distante dos outros. – Não aconteceu nada entre a gente.
— Tem certeza... – Dedilhou o peito do rosado por sobre a roupa.
— Tenho! – A cortou, segurando sua mão e interrompendo os movimentos insinuosos, que seguiam para baixo. Natsu fez uma observação minuciosa nos traços da albina, e a mesma, irresoluta, só não recuou o tanto que gostaria por estar firmemente segura pelo rosado. – Não vejo nada de diferente na sua aparência, mas o cheiro...
Lisanna escancarou os olhos, amedrontada, de tal modo que o próprio Natsu se viu refletido neles. Na mosca! Meu nariz nunca falhou. Ai deve ter...
— Te achei! – Exclamou Gray de repente, colocando o braço em volta do pescoço do Salamander. Os dois, incluindo o felino, se assustaram. Atitude que não passou despercebida pelo moreno. – O assunto estava, de fato... – Seu olhar alternou entre o casal. – muito interessante. Estou atrapalhando?
— Mas é claro que está!! – Rosnaram em uníssono Evergreen, Kanna e Juvia, surgindo na parte externa da janela próxima de onde conversavam.
Porque justo o meu Gray-sama? Juvia lamentava com um rio de lágrimas escorrendo de seus olhos. – Juvia promete não se repetir. Manterá o Gray-sama ocupado para não interferir em outros relacionamentos. – Inclinou sobre o peito nu do mago, assustadoramente já posicionada ao lado do rapaz.
— E-Espere! – Segurou os ombros da azulada apaixonada. – Relacionamento? Mas o Natsu não estava com a Lucy, quero dizer, marcou a Lucy, sei lá...
— Isso não atrapalha o apetite sexual do Natsu. – Lisanna chocava o pequeno grupo com as palavras audaciosas. O vislumbre de um sorriso no canto da boca mostrando a satisfação com a cena.
O Salamander, com os punhos fechados, se conteve. Não tinha a exata confirmação do seu palpite referente a falsa amiga. Seria precipitado e até perigoso revelar dessa forma.
— Por falar na Lucy, ouvimos o que seria o choro dela. – Kanna relembrou, deixando o Natsu numa verdadeira saia justa.
— Ehh... Nós... – Demorou procurando uma justificativa plausível, pois conhecendo-os bem, não engoliriam uma mentira leviana. A delonga aumentando a expectativa alheia, tornando o clima tenso entre eles.
— Não tem vergonha de ficarem espionando. – Gray perdia a noção do perigo, quando, furiosas, as garotas se voltavam assassinas na direção dele. – Tsc! Vim chamar o foguinho aqui, pois o torneio já vai começar.
— Vocês estão ai! – Foi a vez da Erza estragar a alegria do trio feminino. – Vamos Natsu, o mestre esta chamando. – A Scarlet agarrou o rosado pelo cachecol, quase o estrangulando, arrastando para fora.
— Passando o dinheiro para cá! – A maga das cartas estendeu a mão.
— Esta surda! – Gesticulou, indicando o ouvido. – Onde estava quando Natsu falou que NADA aconteceu? Sendo assim, ambas perdemos, já que apostei no beijo e você... algo mais pervertido. – Evergreen abriu o leque, seguindo os demais.
Droga! Minha real intenção era descobrir o significado da carta sombra que puxei, quando fiquei curiosa no relacionamento do Natsu e da Lisanna. Kanna fez um bico, decepcionada com o resultado.
... ... ...
Lucy
— Idiota! – Sussurrei, admirando o rosado repousando em um dos leitos da enfermaria. Recostei na parede, mantendo distância da cama.
O placar decisivo não poderia ter sido mais óbvio quanto à vitória do Laxus sobre o Natsu. Se bem que a partida começou equilibrada. As magias liberadas tinham poder equivalentes e as centelhas explosivas quando se chocavam no ar eram tão impressionantes de assistir, que alterava a concepção de assustadoras ou perigosas.
Recuperei-me do desabafo descontrolado no banheiro bem na hora da terceira luta, e por coincidência a do Natsu. Vê-lo centrado no adversário com toda aquela energia emanando de seu corpo, de certa forma me atingia, no entanto, segurei as pontas. Estava disposta a passar por cima. Ele lutava pelo titulo de mais forte da guilda, já eu batalhava contra o sentimento incondicional e indesejado que crescia como aquelas chamas ardentes, me consumindo por completo.
Não era justo comigo, mas garanto que o apaixonado casal primordial não pensou nisso quando criaram esse tipo de vinculo centenas de anos atrás.
Como esperado, Natsu iniciou com uma sequência de socos flamejantes, enquanto Laxus esquivava de todos sem esforço algum. Saltando para trás, a uma distância razoável, uniu os punhos, inflando as bochechas: Rugido do Dragão de Fogo! Lançou na direção do loiro. Laxus igualmente revidava com o Rugido do Dragão de Trovão. A explosão estremeceu a arena e seus arredores. Um espetáculo esperado pela multidão que gritava entusiasmada.
A fumaça dissipou, revelando os dois oponentes em posição ofensiva. Natsu sorriu, aparentando divertimento com a luta, e aquilo fez meu coração saltar dentro do peito. Droga! Coloquei a mão na região das batidas descompassadas. Ele pareceu ouvi-las, pois no exato momento se virou para mim. Mexeu vagaroso os lábios, proferindo a frase silenciosa: Quero falar com você, e voltou-se imediatamente para o loiro adiante. Deve ter suposto, que se continuasse me encarando receberia um foda-se, transmitindo toda minha irritação.
Notava-se sua determinação em ganhar, porque novamente seu corpo queimava e a intensidade da força desprendia pequenos pedregulhos do chão, agitando violentamente seus cabelos. Toda aquela energia concentrou-se no punho direito, dilatando as veias do braço. Uau! Mordisquei o lábio inferior numa ação involuntária. O que? Não seja ridícula, Lucy. Se esqueceu do que acabou de passar?
Suspirei, exaurindo dos pulmões o ar e da mente o desgosto. Em meio ao aglomerado de pessoas, Lisanna apareceu, encurtando nossa distância pouco a pouco. Nos minutos em que se aproximava, firmamos o olhar, sem que nenhuma de nós ousa-se desvia-los. Porém, não tivemos a oportunidade de trocar qualquer palavra, na arena um estrondo chamou a atenção.
— Tsc! Acho que exagerei. – Disse o loiro, seguido pelo soar curto do toque que encerrava a partida. Foi tão rápido que o público ainda processava o desfecho...
Pelo que soube depois, a distração do Natsu o levou a nocaute com um certeiro soco do Laxus. Meneio a cabeça, olhando-o agora todo enfaixado, dormindo como um garotinho.
— Na dúvida se o acorda ou não? – Questionou-me a albina. Mas que diabos ela quer afinal?
A ignorei, me retirando do quarto. Mas como o ser humano detesta ser ignorado, ela provocava: – Esta com raiva por perder o Natsu?
Cessei os passos no corredor. Sei que vou me arrepender por isso. – E quem lhe disse que aceitei essa aposta ridícula? – Devolvi com outra pergunta.
— Aceitar? – Gargalhava sem um pingo de humor. – Não sugerir. Eu a desafiei! Você é que decide se entra ou se desiste dele.
— O que aconteceu, Lisanna? Esta diferente. – Franzi o cenho, tentando de outra maneira. Poxa! Pertencemos a uma mesma família.— O que pensa em conseguir com isso? Além do mais, sou marcada por ele. – Enrubesci com o ultimo dizer.
Fazendo um ruído zombeteiro, esnobou. – Não foi empecilho algum quando estava em cima de mim ontem...
— Já chega! – Interrompi, alterando a voz. As lágrimas se formando. Achei que não choraria mais hoje, após o tanto que chorei no banheiro.— Estou cansada disso! Faça o que quiser! Eu quero mais é que você e o Natsu se ferrem. – Conclui com os olhos cerrados. Ao abri-los, deparando com um Natsu saído da enfermaria. As lágrimas contidas, transbordavam, molhando as bochechas e busto quando nos encaramos.
Com a boca trêmula, digo sem pensar: – Natsu... Eu te odeio!
E pela enésima vez corri dele.
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