A Marca do Dragão
14 Ele não é o Natsu!
Notas iniciais
— Algo de errado? – Questionou-os Kinana após servir as bebidas e notar que o Dragneel não tirava a vista do mesmo ponto da mesa desde que chegou. Olhar esse um tanto desfocado, pôde reparar.
Happy encolheu os ombros numa resposta incerta, complementando com o balançar negativo da cabeça.
Kinana suspirou seguido por um meio sorriso condescendente, afinal, não seria o primeiro caso de frustração que encontrava nos membros da guilda desde que foi trabalhar na cantina e aprendeu a não somente lidar com isso, como sabia da frequente instabilidade emocional dessa família e que logo logo ele estaria quebrando tudo, divertindo-se como antes.
O silêncio aos poucos foi se instaurando no ambiente a medida em que as atenções se voltavam para uma mesma direção. Loki adentrou a guilda cambaleante e visivelmente ferido, em uma de suas mãos estava a pequena bolsa de couro onde Lucy carregava as chaves.
— Fomos surpreendidos... – Se antecipou ao perceber a movimentação ao seu encontro. – Lisanna invadiu o quarto, dominada por uma raiva inconsciente.
Houve um estouro de copo no chão. Mira escondia os lábios com mãos tremulas e pálidas, seus olhos azuis arregalados refletiam preocupação e medo por se tratar de sua amada irmã mais nova. O que poderia ter acontecido? Sua mente pulsava o questionamento.
— Mana! – Elfman correu para ampará-la.
— Ela não estava só. – Continuou com a voz entrecortada, apoiando o peso do corpo no joelho jaz no piso em concreto. Fez pressão na lateral esquerda do tórax na tentativa de conter a ferida, enquanto todo seu corpo dissipava um brilho ao vento. – Seguiram na direção oeste da cidade...
— Mas por que a Lucy? – Erza inquiriu estática, a princípio sem saber como ajudá-lo.
O espírito apenas olhou para as costas do até então imóvel Natsu (sabia que o tinha instigado) e finalizou as palavras com um pedido de desculpas, pois necessitava urgentemente de recuperação no mundo espiritual. – Não poderei ajudá-los agora. – Sussurrou antes de desaparecer.
— Loki-san? – Wendy afligiu-se com o desaparecimento, mas a imperação da ruiva em seguida à abafou.
— Não podemos perder tempo. – Disse Erza para o coletivo no recinto, pegando a pequena bolsa e a firmado em sua mão.
Devido a sucessão de vozes que eclodiu no local arquitetando planos, sugerindo meios e deduzindo o que supostamente poderia ter acontecido, tanto a amiga raptada, quanto as estranhas atitudes da outra amiga, negligenciaram a súbita formação de um poder ameaçador entre eles. Contudo, Makarov, que ouvia com atenção da área superior todo o ocorrido, caminhava, no momento, por entre os agitadores com um semblante sério, mas de cenho franzido que trazia a leveza de uma mente ciente da chegada desse dia.
Natsuuu~ O gato alado chamava já mantendo uma distância segura do companheiro, percebendo tarde demais a aproximação de Cana para poder alertá-la.
— Natsu, precisamos pensar em um plan... Ai! – Cana se afastou com a mão queimada. – O que deu em você? – Inquiriu, aturdida.
O braço do mestre se alongou, gigantesco como de fato era sua magia, rumo ao garoto, errando o alvo e acertando no lugar as portas de entrada da guilda, que se romperam ao soco. O Dragneel desviou com maestria atípico dele.
— Mestre! – Se espantaram os demais.
— O que está fazendo velho? – Questionou trincando os dentes, revelando caninos afiados. Seus orbes ganhando gradativamente a cor verde.
— Ele não é o Natsu! – Revelou sem desviar a vista do jovem. – Vão! Vou tentar detê-lo, pois se ele encontrar a Lisanna não irá querer saber dos motivos que a levaram fazer isso, mas sim irá matá-la.
— Wendy, Charles, Gray... – Erza gritou sem perca de tempo para sua equipe, ouvindo solicitações de Mira, Elfman e Juvia para os acompanharem.
— Vai me impedir de salvar a vida de um dos seus? – Irônico e indiferente, ponderava entre o velho adversário a sua frente e os que saiam com pressa.
Os membros que ousaram permanecer no estabelecimento, rodeava-os com certa distância, curiosos sobre o que estava acontecendo com o dragon slayers, mas entendidos do perigo que aquela situação poderia lhes causar por continuarem assistindo.
— As vidas. – Corrigiu. – Sabendo que uma delas está ameaçada por você.
Natsu estreitou os olhos, impaciente, sentindo a raiva lhe consumir por completo assim como as chamas de sua magia. Semicerrou os punhos em posição ofensiva e ao seu entorno, refletindo no solo, formava um círculo flamejante com um dragão simbolizado no centro. Suprimiu um murmúrio com as palavras “vamos acabar logo com isso” num instante em que o loiro se posicionou a frente do mestre.
— Não vou permitir que você fira nenhum dos membros dessa guilda. – Laxus se desfez do casaco em seu lombo e afrouxou os botões da camisa. – Vou fazê-lo recobrar a consciência, nem que para isso precise perdê-la.
Com um dos punhos tomado pelo fogo, Natsu saltou em ataque, desviando da sequência de chicotes de raios lançados contra si e logo tendo o quente golpe bloqueado pelo rapaz parado adiante. Laxus observou o sorriso traiçoeiro no canto dos lábios do oponente um pouco tarde para evitar que o aumento absurdo das chamas, que achou tê-las imobilizado, queimasse seu antebraço.
— Droga! – Praguejou se distanciando.
— Não o subestime. – Orientou Makarov. – O que vê a sua frente, é possuidor de algo ainda desconhecido. E semelhante a um animal selvagem, tudo lhe é uma ameaça, um extinto primitivo desenvolvido para proteção de sua escolhida.
— Não pode ser... – Happy os assistia com os olhos marejados, lembrando-se da frase dita outrora pelo amigo que o fez afastar dos pensamentos qualquer possibilidade contrária.
“Até parece que vou deixar um selo me influenciar contra os meus amigos. Não é, Happy?!”
— Eu não acredito! – Ousou desafiar o que poderia estar dominando seu companheiro, colocando-se em meio a luta com um grito desesperado de alerta. ACORDE NATSU!!
Antes que pudesse chegar aos braços quentes e seguros, foi impedido por um soco do mesmo que o lançou desacordado contra um dos pilares da guilda.
— Essa não. Happy! – Exclamou Levy correndo ao seu socorro. O envolveu nos braços e seguiu com o felino para fora, para um lugar seguro. – Vai ficar tudo bem... – Falou vagamente, querendo dentro de seu ser também se convencer dessas palavras.
... ... ...
— O que você estava fazendo ainda lá?
Comprimiu um grito de susto com o questionamento repentino.
— Não me assuste assim Gajeel. – Respirou fundo, olhando por cima do ombro do moreno, medindo o caminho percorrido. – Vou avisar aos outros. Eles não o conterão por muito tempo.
— Resposta errada.
— Não posso ficar de braços cruzados e... me preocupo com a Lu e os outros. – A voz embargou no final. – Você não pode me impedir! – Afirmou raivosa, fixando-o com os olhos lacrimejados. O rosto de bochechas infladas ganhando um tom vermelho.
— Vou com você. – Se desfez da postura rígida.
... ... ...
Com a distração, o jovem de cabelos rosados foi pego por uma sequência de socos que sua única alternativa foi firmar os pés no chão buscando se defender, quando, na altura da nuca, um chute tomado de eletricidade o acertou fazendo voar por sobre mesas e cadeiras e cair a alguns metros além.
Relâmpagos emanavam pelo corpo do loiro e se propagavam cada vez mais distante, ocupando uma boa parte da área em volta de si. Juntando as mãos, ele concentrava a eletricidade e conforme elas se afastavam, aumentando o espaço entre ambas, a esfera elétrica se ampliava.
O dragon slayer do fogo levantou-se, cuspindo e limpando desgostoso o sangue do canto da boca. Ele fixou os olhos nada contentes no “inimigo”, se posicionando quando toda a energia foi lançada em sua direção, causando uma explosão que com o impacto repeliu o restante dos moveis e quem estava por perto do receptor. A guilda foi tomada por uma nuvem densa de fumaça.
Para surpresa dos presentes, Natsu ardia em chamas, a pele do lado esquerdo do seu corpo, compreendendo da face aos pés, era feita de uma camada grossa de escamas vermelha-amarronzadas, sua mão e pé esquerdo transformaram-se em garras de unhas negras afiadas. Um chifre saia por entre os fios rosados a partir do couro cabeludo e seus orbes verdes reluziam no interior como brasas vivas. Porém, o mais ameaçador de tudo na cena aterrorizante eram as asas que surgiram por detrás de suas costas.
Ele curvou-se, com o joelho e punho direito no chão, enquanto as asas e a garra do lado oposto estavam erguidas de forma intimidadora. Expandiu as labaredas em derredor e com um urro ensurdecedor cuspiu uma rajada de fogo, não apenas no que lutara consigo, mas na direção dos demais, incendiando todo estabelecimento.
Içou-se no ar, suportado pelas extensas asas, contemplando tudo abaixo queimar e a movimentação de alguns em fuga. Deu uma última encarada em Laxus e em Makarov, como um aviso mudo para não mexerem mais consigo, e voou pela trilha de cheiro que fluía de sua escolhida.
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