A Marca da Borboleta
5 2044, 19 de Setembro. 20:00
Notas iniciais
Marinette deitou no sofá, fechando os olhos e tentando descansar.
Fazia somente meia hora que ela havia deixado o telefone de lado, depois da ligação com o avô Gabriel. Emma havia acompanhado cada decisão e troca de ideias, decidindo espionar sua mãe ao invés de ir tomar banho e se preparar para o jantar como seus irmãos foram. Acompanhar os passos de sua mãe na resolução desse grande problema era mais importante.
De onde ela a estava observando, a mulher parecia exausta e desolada. Era como se os acontecimentos daquele dia, um atrás do outro sem interrupção, sem descanso, tivessem aos poucos tirado toda a sua força.
Emma odiou ver sua mãe desse jeito.
Totalmente assustador.
Aquela era a mulher que havia a ensinado sobre persistência, sobre luta. Ela assistiu por anos sua mãe fazendo justiça a todos que haviam cometido algo contra ela e seus irmãos; assando cookies e maccarons quando não conseguia confortá-los; sendo o suporte para os bons e maus dias de seu pai. Adrien tinha um papel essencial na família, ensinando-os sobre compaixão, gentileza e paciência, porém era Marinette quem os mantinha unidos, em quaisquer circunstâncias.
E embora na história da família houvesse, de fato, ocorrido vários momentos de luta e sofrimento, Emma nunca havia visto sua mãe tão vulnerável e destruída.
Vê-la assim doía. Muito.
E a incapacidade da jovem de tornar as coisas diferentes doía muito mais.
“Estou me sentindo tão inútil”, ela murmurou desanimada.
Emaranhado nos cabelos dela, como havia se tornado seu hábito, Plagg soltou um suspiro. “É, você é mesmo”, ele disse, a boca cheia de camembert dificultando a clareza das palavras. Ela fez uma careta. Seu kwami era péssimo em confortar as pessoas. “Mas sabe, todos nós estamos meio inúteis”, completou.
A careta se desmanchou. Ainda estava incomodada, no entanto. “Sabe, Plagg, você pelo menos tenta. Te dou o mérito por isso”, disse.
“Minette, eu não tento, eu faço”, garantiu, “E agora eu estou falando a verdade: sua mãe só está nesse estado porque ela própria está se sentindo inútil. Vamos aceitar que dói menos: o pseudo Hawkmoth ganhou. Nós perdemos. O mundo vai continuar girando”.
Emma franziu o cenho. Sim, o mundo iria continuar girando. No entanto, o mundo poderia continuar girando sem a influência de Biston.
Plagg poderia ser péssimo em confortar, porém era bom em atiçar. E naquele momento, ele havia atiçado a raiva e determinação dentro dela. Ela se recusava a aceitar que haviam perdido. Tinha de haver um jeito de continuar vivendo sem o constante temor da violação de identidades. Tinha de haver um jeito de pará-lo.
“Você sabe que as coisas não são preto-no-branco desse jeito, Plagg”, a jovem disse. Ela inclinou sua cabeça para trás permitindo que os olhos verde-claros dela encontrassem os dele próprio, ele agora flutuando sobre ela: “Temos que lidar com as consequências”, assegurou, “E temos que resolver o problema antes que elas fiquem insuportáveis de lidar”.
Emma arqueava uma sobrancelha, desafiando-o a rebatê-la.
No escuro do corredor onde os dois espreitavam Marinette, os olhos grandes dele eram tudo que emanavam luz. E eles brilhavam em excitação.
“Por que tenho o pressentimento de que você vai se meter onde não foi chamada?”, ele perguntou como quem não queria nada.
Ela abriu um pequeno sorriso de canto. “Talvez seja porque eu faça exatamente isso?”, sugeriu dando de ombros, nos olhos uma falsa inocência.
Plagg flutuou para a frente do corpo dela fazendo com que ela endireitasse a cabeça. “Sabe, eu não costumo ficar animado para fazer esforço”, disse, “Mas, minette, você me deixou interessado. E nem precisou usar camembert”.
O sorriso se alargou e ela revirou os olhos. “Ainda bem! Você acabou de comer!”, reclamou, “Se bem que essa satisfação vai durar uns dois minutos!”.
“Você me conhece bem, minette”, Plagg sorriu, as pálpebras dos grandes olhos fechados pela metade.
A hora do jantar havia passado rapidamente. Eles haviam pedido comida chinesa, visto que nenhum dos quatro estava com vontade de se aventurar na cozinha e fazer algo caseiro. Depois de cuidar da bagunça da cozinha, Louis e Hugo subiram para seus quartos a fim de cumprir a hora de dormir. Emma, no entanto, subiu apenas para tomar seu banho atrasado e discretamente retornou ao seu local de espionagem, no corredor que levava para a sala de estar.
Ela estava concentrada em Marinette, que no momento estava amarrando os cabelos em um coque. À sua frente estava o seu laptop. Estava na hora da reunião online com os outros heróis do esquadrão.
Emma se aproximou mais. Ela não se importava com o que sua mãe havia dito ao seu avô. Não se importava se sua segurança estava em risco. Os akumatizados e Biston haviam metido ela nisso desde o momento em que acidentaram seu pai.
Ela iria ouvir a discussão, mesmo que na surdina.
E iria insistir em participar, mesmo que para isso tivesse que ir contra sua mãe.
Daquela distância de Marinette, Emma poderia ouvir e ver melhor. Plagg estava com ela, não a deixando sozinha por um minuto se quer. Eles estavam nisso juntos, afinal de contas. Se ela estava se intrometendo e sendo enxerida, ele também estava.
Tikki se aproximou, se posicionando à frente do laptop para chamar a atenção de sua portadora. Marinette estava com uma expressão tão tensa e dolorosa em seu rosto, as mãos enfiadas em seus cabelos. Isso fez a kwami ficar mais preocupada. Parecia que palavras confortadoras e otimistas não ajudavam mais, não davam confiança à heroína. Essas palavras não resolviam os problemas.
A kwami sentiu seu coraçãozinho se apertar.
Ela também se sentia com as mãos atadas.
Se não o apoio, de quais outras formas ela poderia auxiliá-la, com todas as suas limitações?
“Marinette”, Tikki a chamou quando sua presença não a fez olhá-la. A mulher abriu um pequeno sorriso ao encontrar a kwami ali, porém seus olhos continuavam mostrando perturbação. “Nós podemos adiar essa reunião. E aí você vai poder tomar um banho quente, dormir mais cedo. Aconteceu muita coisa hoje, precisa descansar!”, sugeriu com tom de voz gentil.
Sua portadora tirou as mãos dos cabelos e levou uma à kwami, acariciando sua cabeça com um dos dedos. O pequeno sorriso se mantinha em seu rosto. Por um momento, parecia que ela realmente estava reconsiderando a reunião e seguiria suas sugestões. “Eu acho que não, Tikki”, disse com um pouco de relutância, “Por mais que suas ideias sejam totalmente bem-vindas agora, não podemos perder mais tempo. Biston está por aí, os akumatizados não foram libertos. Estamos em perigo e qualquer segundo perdido é um risco”.
Tikki assentiu com a cabeça, os grandes olhos tristes.
“Eu sei que não é muito de mim sugerir deixar as responsabilidades para um outro momento, mas eu estou preocupada com você, Marinette. As coisas que aconteceram hoje... Não estávamos preparados e você foi a mais atingida. Precisamos tomar conta de você. Seu bem-estar é mais importante para mim que qualquer missão”, disse com convicção, embora a voz estivesse tremendo um pouco.
“Muito obrigada, Tikki”, Marinette ainda acariciando a pequena parceira, “Você sempre esteve ao meu lado. Não sei o que faria se você não estivesse aqui”. Tikki abriu um sorriso, mesmo ainda preocupada e triste. “Mas tenho que fazer isso hoje! Eu não vou conseguir dormir sem ao menos planejarmos algo e ganharmos um pouco de controle da situação”, concluiu.
A kwami assentiu mais uma vez.
Na tela do laptop, uma notificação chegou de Alya com o link de acesso à reunião online. Tikki flutuou até o ombro dela e se sentou. A mulher acessou o link para entrar na sala de vídeo. Usou o tempo de todos entrarem para respirar fundo uma e duas vezes, tentando se recompor e reorganizar seus pensamentos. Era o momento de dar ordem ao caos que era sua cabeça.
Ela cumprimentou Alya e Nino, que estavam juntos na mesma tela, e assistiu Luka e Kagami entrarem logo depois. Os kwamis também estavam presentes, ocupando lugares nos cabelos, roupas e ombros deles ou somente flutuando ao lado. Com exceção de Longg e Trixx, que estavam temporariamente na Miracle Box. Max, Chloè e Kim não participariam, ela já sabia. Kim estava em outra cidade em uma competição de natação no exato momento, Chloè tinha negócios para tratar em Nova York e Max teve que trabalhar até tarde. Todos haviam se desculpado por suas ausências e estavam também muito preocupados com a situação atual, prometendo tomar cuidado com possíveis ameaças invisíveis. Tirando os três, o único que faltava na reunião era Adrien, que deveria estar ao seu lado. E Alix... que estava atrasada!
As faces perturbadas nos rostos dos oito companheiros espelhavam a dela.
Marinette sentiu um calor no peito. Eles poderiam estar enfrentando inúmeros riscos na atual conjuntura, porém estavam fazendo isso juntos. Naquele momento, ela se deu conta: não se sentia mais tão sozinha sabendo que seu fardo estava sendo compartilhado.
Após os cumprimentos e formalidades, os quais nenhum deles prolongou, ela encarou a tela. Decidiu iniciar sem Alix. Ela logo estaria online. “Bom, eu acho que todos vocês acompanharam o que aconteceu”, começou.
“Sim, Mari”, Nino confirmou enquanto os outros assentiam com a cabeça, “Não precisamos de explicações”.
“Acho que podemos ir direto ao ponto”, Kagami se pronunciou, a face muito séria, “Esse cara deixou bem claro que ele quer todos nós derrotados. Temos que recuperar aquele miraculous; esse é o único jeito de pará-lo efetivamente”.
“Concordo”, Alya disse logo após, “Com o miraculous, ele pode akumatizar quantas pessoas ele quiser, mesmo que libertemos aqueles que escaparam hoje. Seria como ter Hawkmoth de novo, cada dia um novo vilão e menos pistas sobre a identidade dele porque estaríamos muito ocupados salvando Paris”.
Marinette assentiu, confirmando as mesmas teorias em sua cabeça. “Além do Nooroo, ele roubou o livro que continha as informações dos miraculous também. Do mesmo modo que nós podemos melhorar nossos poderes, ele também pode. E pelo fato de ele já ter melhorado, só podemos deduzir que ele já traduziu uma parte do livro”, adicionou.
“Ele é rápido”, Nino disse de supetão, o olhar encarando um ponto fixo. Quando ele de fato olhou os companheiros, complementou: “ele é mais eficiente do que o Hawkmoth foi, bem mais inteligente e bem mais esperto”.
“Sim”, Kagami concordou, “Ele achou um jeito de roubar o miraculous e o livro de dentro do cofre da Marinette sem levantar suspeitas, akumatizou duas pessoas que claramente sabiam o que tinham de fazer e colocou em prática sua armadilha com perfeição. Tudo isso em menos de 24 horas. E eu tenho certeza que há um plano grande por trás disso. Esse Biston não parece fazer as coisas por impulsividade. Ele é um estrategista”.
“É, ele parece ser bem habilidoso, mas não acho que seja gênio a ponto de fazer isso tão rápido”, Luka se pronunciou pela primeira vez, o tom sério, mas sereno, “Meu palpite é que ele tem trabalhado nessas estratégias há muito tempo, talvez até carregado esse plano e nos observado por anos. Não sabemos quem ele é, talvez é alguém próximo de nós e nunca soubemos. Talvez já soubesse de nossas identidades há tempos e estava esperando o momento certo para atacar”.
A fala de Luka causou um silêncio no ar. E mais: desconfiança. Ele estava certo: qualquer um poderia ser Biston, até mesmo um dos presentes. Não foi sua intenção instaurar uma aura de insegurança entre os heróis, no entanto mesmo assim aconteceu.
“Eu não acho que seja o momento para começarmos a desconfiar das pessoas de dentro do nosso esquadrão!”, Wayzz foi aquele a quebrar. Tikki também se colocou em evidência concordando e olhando todos nos olhos através da tela, a postura inata de líder, “Isso é o que Biston quer: que a natureza secreta de seus akumatizados e da identidade dele nos separe”.
“Wayzz está certo”, Tikki reiterou, “Biston não é nenhum de nós. E eu tenho certeza porque estamos trabalhando juntos há mais de vinte anos. Nossos valores sempre foram o companheirismo, a honestidade e especialmente a confiança. Vamos nos lembrar disso”.
Os heróis se entreolharam, seus kwamis assentindo com a cabeça e tentando passar segurança. “A última coisa de que precisamos agora é de desunião no grupo”, Sass adicionou, as terminações das palavras sendo arrastadas por causa de sua língua bifurcada.
Todos assentiram, os rostos mais aliviados e a tensão se dissolvendo.
“Okay, não é nenhum de nós”, Kagami disse com convicção, “Mas o que o Luka disse faz todo sentido. Ele pode sim estar planejando isso há tempos”.
“Gente... como esse cara sabe sobre os miraculous primeiramente?”, Alya perguntou, de repente se dando conta do real cerne do problema. Ela tinha uma expressão assustada no rosto. “Digo, todo mundo em Paris sabe que nossos poderes vêm dos miraculous, Hawkmoth passou anos akumatizando todos os cidadãos para pegá-los, então meio que ele nos fez esse favor. Mas... detalhes, funcionamento, a existência da Miracle Box e do livro... a profundidade dessas informações, ninguém sabe além de nós. Como ele sabe?”, finalizou.
“Além de nós, os únicos que tinham posse de miraculous foram Hawkmoth e Mayura, vinte e três anos atrás”, Tikki adicionou, “Os únicos que sabiam dos detalhes envolvendo a nós, os kwamis, e o livro eram eles, incluindo os Guardiões na China”.
“E nós não temos nenhum motivo para desconfiar de Gabriel e Nathalie Agreste, certo?”, Kagami perguntou olhando a todos seriamente.
“Não, não temos”, Marinette disse, firme, “Tanta coisa aconteceu depois da prisão do Gabriel, ele não reestruturaria toda a sua vida para ter esse retrocesso. Eu acredito nisso. E sei que Adrien concorda comigo, porque nós dois já conversamos sobre essa possibilidade alguns anos atrás e ambos concluímos que não”.
Nesse exato momento, Alix se conectou à reunião, a face expressando urgência e pressa, assim como um pedido de desculpas. Fluff apareceu ao lado dela e sem aviso nenhum pegou uma cenoura no prato perto do laptop, se afastando rapidamente depois.
“Gente, me desculpem o atraso, mas eu estava ocupada verificando as linhas do tempo, tanto do futuro quanto do passado, e tenho informações importantes”, ela se pronunciou, interrompendo quaisquer linhas de raciocínio trabalhadas anteriormente. Os demais membros do esquadrão passaram a prestar mais atenção. “Como sempre, eu não posso falar mais do que o estritamente necessário, mas não acho que vale a pena lidar com o Biston do presente. Ele sabe demais”, continuou, “Vamos pegar o miraculous de volta e aí? Ele pode muito bem roubar novamente; ou pior, roubar mais de um ou todos. Com ele ciente sobre os miraculous, não teremos um segundo de paz! Sem falar que só reparar os danos do passado consertarão o que ele fez com a Kagami, Alya e Adrien”.
Mais um momento de silêncio.
As informações e argumentos que Alix trouxe mudou completamente a percepção dos heróis sobre a situação. Demorou um pouco para que todos entrassem novamente na mesma sintonia e elaborassem a respeito do problema de acordo com o novo raciocínio.
“Alix está certa”, Luka se pronunciou depois de um tempo, “É o melhor plano, que cobre todos os danos e reequilibra a ordem correta das coisas. Paris não deveria saber sobre nossas identidades, isso só está causando o inferno em nossas vidas. E Adrien não deveria ter sofrido aquele acidente”.
“Vocês não mereceram o que aconteceu com vocês, isso é certo”, Sass concordou, assentindo com a cabeça e mantendo sua pose de patas em cima de joelhos com suas perninhas cruzadas.
“Mexer com viagem no tempo requer muito planejamento e estratégia. Precisamos ser cautelosos, se vamos realmente fazer isso”, Marinette afirmou com seriedade, “No que você está pensando, Alix?”
Alix se aproximou da tela, apoiando seus cotovelos na mesa. “Primeiro, uma missão de reconhecimento. O objetivo inicial seria descobrir quem é Biston e como ele aprendeu sobre os miraculous. Essa primeira parte pode levar um tempo. Eu penso que seria interessante começar pela mansão dos Agreste, pois lá é onde ficava o covil do Hawkmoth e o livro e os miraculous roubados”.
“Faz muito sentido”, Alya concordou, “Biston pode muito bem ter invadido a mansão ou até mesmo entrado pela porta da frente disfarçado. Aquela mansão era vigiada e impenetrável, ainda é hoje em dia, mas eu me lembro de vezes em que pessoas entraram”.
“A festa no quarto do Adrien enquanto o pai dele estava em Tóquio... é, foi um dia massa”, Nino recordou com um sorriso envergonhado, passando a mão na nuca.
“Então, o plano seria vigiar a mansão observando quem entra e sai e estudar os suspeitos um por um até que achemos um válido?”, Kagami perguntou retoricamente.
Alix assentiu. “Bem o que eu pensei mesmo”, revelou.
“A outra opção é o próprio Mestre Fu”, Marinette adicionou, “Mesmo que ele tenha sido extremamente cauteloso quando era guardião”.
“Sim, mas acho que podemos realmente começar pela mansão dos Agreste”, Alix insistiu, “Depois retomamos as demais opções. Então, continuando... Acho imprudente e desnecessário muitos heróis irem, então preciso que seja eu e mais um. O restante fica responsável pela vigilância e possíveis ataques aqui no presente. Um herói no passado pode ser discreto e eficiente. Eu fico vasculhando a linha do tempo e ele como infiltrado, fazendo a própria missão de reconhecimento”.
Todos assentiram.
No entanto, quando iam começar a fazer sugestões de quem fosse mais qualificado, uma voz os interrompeu.
“Eu! Eu vou!”, Emma se pronunciou, o tom de voz alto, enquanto adentrava a sala de estar. Plagg flutuava ao seu lado, as patas cruzadas e a expressão de desafio no rosto.
“Essa é a voz da Emma?”, Kagami perguntou da tela.
Marinette se virou para encarar a filha.
“É sim, essa é a voz da Emma”, Luka respondeu em um misto de surpresa e admiração, “Mari não vai gostar do que vem em seguida. Conheço esse olhar no rosto da pequena”.
A jovem entrou no campo de visão dos demais membros do esquadrão. Parecia determinada e segura do que estava dizendo, como se houvesse pensado nas consequências de sua decisão. E ela de fato havia pensado. Era um ato impulsivo, mas consciente. Ela sabia que não tinha a experiência que qualquer outro herói do esquadrão possuía e, embora fosse muito próxima de Plagg, não sabia como utilizar seus poderes em batalha e nem tinha domínio de táticas e trabalho em equipe. Sabia, portanto, que por consequência desses fatores, a probabilidade de obter êxito na missão e de fato descobrir a identidade de Biston e impedi-lo era pequena comparada à dos demais.
Mas ela tinha boas razões para encabeçar a missão. E estava disposta a tentar.
Além disso, teria Bunnix ao seu lado e Plagg a ajudaria a compreender coisas que nunca foi capaz, nem mesmo sendo filha de dois portadores de miraculous.
“O que te faz pensar que eu deixaria você ir?”, Marinette perguntou, assustadoramente calma.
“Mamãe, por favor”, Emma começou, a voz vacilante, “Quem mais iria? Como qualquer um de vocês pode deixar Paris agora e viajar para o passado?”.
“Qualquer um de...”, Marinette começou apontando para a tela com a mão e indicando todos os heróis. Tinha o cenho franzido e a boca retorcida, contrariada.
“Tia Alya e tia Kagami acabaram de ter suas identidades reveladas. Isso, por si só, já coloca elas e ambas famílias em risco, vigiadas em todos os momentos e passíveis de serem seguidas. Como a missão mantém o caráter confidencial dessa maneira?”, Emma a interrompeu, impaciente e meio desesperada.
Ela estava argumentando com a Ladybug em pessoa, alguém que ninguém costumava questionar decisões; e o pior: ela também era sua mãe. Para ela, a missão já havia começado e esse era seu primeiro obstáculo, aquele em que ela teria de provar ser qualificada o suficiente para ser escolhida. Era um dos mais difíceis, em sua opinião: provar que sua mãe, Ladybug, estava errada.
“Tio Nico é incluído nessa mesma situação, afinal ele e tia Alya têm uma família juntos”, continuou rapidamente, sem dar chance para que sua mãe rebatesse, de novo, “Tio Luka também. Todos têm famílias que precisam de proteção. Inclusive nós. A senhora não pode deixar Louis e Hugo, especialmente agora que o papai está no hospital e mesmo depois que ele sair. Especialmente agora que Biston colocou um alvo nas nossas costas ao revelar para o mundo que papai é Chat Noir”.
Os demais do esquadrão permaneceram calados assistindo à cena e de fato escutando o que a jovem tinha a dizer. Plagg e Tikki também continuavam ali, a primeira claramente chateada e o segundo se divertindo.
“E então você é a escolhida para encabeçar a missão?”, Marinette rapidamente rebateu, ainda calma, “Não percebe que está se colocando em risco, em perigo? Como eu vou proteger você, minha filha e parte da minha família, com você viajando para um tempo no passado onde Hawkmoth atacava todos os dias?”, pausou por um momento, com a pergunta retórica, “Não vou deixar você fazer isso, Emma”.
“Eu não estou mais segura aqui do que estaria lá”, a filha disse, como se fosse óbvio, “E eu tenho Plagg. A magia me deixaria resistente, sem mencionar você e papai lá comigo, mesmo jovens. Mas, mamãe...”.
“Você. Não. Vai”, a mulher repetiu, a voz e o olhar firmes.
“Como outra pessoa poderia ir, então?”, Emma continuou o discurso, desconsiderando a ordem da mãe e aproveitando um pouco mais de sua sorte, “Como essa missão pode ser discreta e confidencial sendo que qualquer parisiense sabe quem vocês são? Como tio Luka, por exemplo, pode andar livremente pelas ruas de Paris e se infiltrar sendo que existe a versão dele mais novo no mesmo espaço-tempo? O mesmo com tia Kagami, tia Alya, e especialmente você, mamãe. Ninguém me conhece! Eu sou a opção perfeita”, e finalmente finalizou, respirando fundo logo depois.
“Desculpe, bug, mas a gatinha tem razão”, Alix se pronunciou chamando a atenção de todos. Sua expressão tinha um ar decisivo e determinado, como se já tivesse feito sua escolha, “Descobrir a identidade de Biston requer vigiar a mansão durante longos períodos, falar com pessoas que poderiam dar informações, até fazer parte do cotidiano dessas pessoas, quem sabe até do de Adrien e Gabriel... Emma pode muito bem ser a garota novata da escola, fazer parte da turma de um jeito que ninguém desconfiaria, conquistar a confiança de todos”.
“Mas um Chat Noir com uma Chatte Noire? Dois miraculous do gato preto no mesmo espaço-tempo? Isso não levantaria suspeitas o suficiente?”, Alya perguntou, lábios comprimidos de preocupação.
“E levar Plagg para lá significa mais uma chance de Hawkmoth obter o miraculous”, Nino lembrou.
“Assim como aconteceria com qualquer um de nós”, Luka também lembrou, “Todos estamos passíveis de virarmos alvos do Hawkmoth. Emma só terá de ser cuidadosa”.
“E eu estou confiante de que ela cuidaria desses problemas menores. Você não deixaria seus pais do passado saberem de sua identidade, deduzirem que ficarão juntos e assim destruírem Paris, além de partirem a lua ao meio, não é gatinha?”, Alix adicionou abrindo um sorriso macabro enquanto falava.
Emma arregalou os olhos. À sua frente, Marinette soltou um suspiro e murmurou um “ai meu Deus!”, abaixando a cabeça. “Isso é absurdamente específico!”, a jovem comentou, assustada, “Isso realmente aconteceu?”.
Plagg abriu um sorriso satisfeito, soltando um miado. “É muito ruim eu estar orgulhoso do alcance e poderio do meu cataclysm?”, comentou casualmente.
“Sim, eu acho que sim, considerando que Chat Noir estava akumatizado quando isso aconteceu”, Tikki rebateu cruzando os bracinhos e o olhando irritada.
“Vamos tentar ter foco, gente”, Wayzz se pronunciou em um tom elevado de voz, a face séria.
Todos imediatamente se voltaram ao kwami. Era uma característica de Wayzz fazer todos ouvirem e demonstrarem respeito, com sua voz firme e calma, apesar da estatura minúscula.
“Acredito que todos concordamos que Emma seria qualificada. Você levantou pontos muito importantes, jovem, o raciocínio lógico e estratégico é uma habilidade que te recomenda. Me lembra muito sua mãe, quando ela começou”, complementou olhando Marinette que por sua vez, mantinha os ouvidos atentos e cabeça ainda baixa, “Mas também falando sobre Marinette, ela é a mãe de Emma e devemos ouvir o que ela tem a dizer. A segurança da jovem é algo que devemos considerar, igualmente”.
“Wayzz está certo, Marinette”, Tikki tomou a vez no discurso, “A decisão final te compete mais”.
Marinette levantou a cabeça, olhando Emma longamente. Havia dor e frustração em sua expressão, como se tivesse passado os últimos momentos em uma luta interna. A jovem sentiu um aperto no peito, sentindo sua mãe prestes a se quebrar mais uma vez na sua frente. Ela sentia vontade de abraçá-la e compartilhar suas lágrimas, mais uma vez. No fim, somente assistiu-a suspirar. “Eu entendo, minha filha”, ela começou, “E também considero tudo que você disse válido. Eu só... com tudo que está acontecendo, eu... não poderia aguentar...”, e parou com um soluço.
“Eu sei, mamãe. Mas você não vai me perder”, Emma disse se assegurando.
A mulher continuou a olhá-la por mais alguns segundos chorando silenciosamente; e depois assentiu. Passando a mão nas pálpebras para secar as lágrimas, ela se voltou para os heróis na tela de seu computador. Havia assumido a posição de líder novamente, tentando recobrar a confiança de antes. “Eu acho que temos uma escolhida, então. Emma irá com Bunnix na missão de reconhecimento. Acho que podemos discutir os detalhes depois dos preparativos serem feitos. Temos algo mais para discutir?”, disse, a voz ainda trêmula.
Kagami e Luka se limitaram a negar com a cabeça, ambos satisfeitos com a decisão final e sem assuntos a mais para a reunião. Sass manteve-se em silêncio. Por sua vez, Alix abriu um sorriso, enviando uma piscadela para Emma, atrás de Marinette. E Nino a cumprimentou com a cabeça, Wayzz ao seu lado também sorrindo.
“Acho que devemos dizer ‘bem-vinda ao esquadrão, Emma’”, Alya disse fazendo um joinha com o dedão, mais receptiva à escolha que antes.
“É, você é quase uma vingadora agora, gatinha”, Alix brincou, Fluff flutuando ao seu lado, pelo uma vez prestando atenção em algo.
Emma abriu um sorriso de canto. “Gatuna”, disse, “Me chamem de Gatuna”.
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