A Maravilhosa Loja de Argoluli — O Terrível
20 Um mímico
Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=wbFt28Ri7ps

— Mestre! Creio que o senhor vai querer ver isso.
Argoluli se ergueu retirando os pés de cima do baú que estava à frente do seu assento para atender o chamado do servo, e Léia teve certeza.
O baú se mexeu por conta própria, como um gato se acomodando.
— Isso está vivo? — apesar da convicção não pode evitar a indagação.
Argoluli a olhou de soslaio e fez um aceno como se afugentasse uma mosca.
— Notou somente agora? Depois confabulamos sobre o tema. — respondeu girando o indicador direito para o alto.
Agora Léia olhava o baú com outra perspectiva, como se estivesse diante de uma serpente. Virou-se para o homem ao seu lado.
— Está vivo! — disse-lhe.
— Eu sei. — respondeu Altman placidamente.
— É o que estou pensando? — ela Indagou incrédula. Sabia muito bem o que era.
— É provável. — diferente de Argoluli, Altman gostava de economizar palavras.
Enquanto isso Argoluli estava voltando da janela frontal. — Vamos ter que pousar.
A dor de cabeça de Léia retornou.
— O que está havendo? — perguntou a barda ou talvez o caçador. Argoluli considerou.
— Uma tempestade de areia se aproxima; Ortelis. — respondeu à Léia, que retribuiu com um olhar irritado.
— Pare de me chamar assim.
Argoluli a observava intrigado, espantado e preocupado.
“Já conheci um Ortelis antes” — pensou o mago. "É a roda do destino girando"
"Em qual direção ela vem"?
E na sequência desse pensamento, outro mais sombrio.
"Quem ela vai esmagar"?
Ortelis era outra personalidade de Léia. Um caçador de monstros, rastreador e patrulheiro, segundo ele mesmo.
Foi a personalidade que rastreou e leu o campo de batalha, se manifestando em Léia.
"Ele" aparentemente não os conhecia. Argoluli tinha lá suas dúvidas, porém depois que Ortelis se foi, havia mais coisas interessantes a descobrir.
Léia subitamente recobrou o controle e iniciou um debate dela, com ela mesma diante deles.
Além de Ortelis, havia outra personalidade que ela chamava "mãe".
Eles debateram o que parecia uma discussão antiga sobre ocupar o corpo sem permissão, onde aparentemente, Ortelis era o mais invasivo.
"A roda do destino. A maldita Miridin está zombando de nós".
— Não há como contornar? Voar acima dela? — indagou Altman.
— Talvez, mas temo que ao fazer isso percamos o rastro dos nossos amigos. Pior; precisamos saber se eles não foram pegos pela tempestade. — o mago parecia irritado. — Estávamos tão perto, eu sei. Esperar a tempestade passar sobrevoando ela também não é uma opção; minha energia para manter isso voando tem limites. — disse o mago contrariado.
— Afinal de contas, você é humano. — Arrematou Altman. Argoluli ignorou esse comentário. Estava mesmo ficando cansado.
Argoluli não tinha ninguém em conta como amigos realmente, mas tinha certo interesse por Ester.
Eu sei o que você está pensando, mas estou falando da espada Oito Olhos.
Seria uma pena perde-la.
Por fim, a carruagem pousou e Argoluli ordenou que seu servo entrasse antes que a tempestade mortal os alcançasse.
Eles observavam a nuvem monstruosa de areia e pó de cristal aproximando-se. Era toda avermelhada graças ao farelo de vidro vermelho espalhado pelo território.
Um pensamento mórbido se passou na mente de todos.
— Na tempestade de areia vermelha, você morre chorando ou rindo? — pensou em voz alta, a barda, gerando carrancas simultâneas tanto em Argoluli quanto em Altman.
Quando a tempestade os atingiu, a carruagem apesar do seu peso foi sacudida, mas dava sinais que resistiria.
Lá fora Os cavalos relinchavam de dar dó.
— Será que você pode acabar com o sofrimento deles? — irrompeu a barda irritada.
Argoluli que estava meditativo e de volta ao seu assento, ergueu os olhos para Léia — Você exige demais sem oferecer nada em troca.
— Talvez o senhor não tenha percebido, mas estamos aqui nessa situação, graças a você. — retrucou Léia.
— Ah! Você se engana senhorita, ou devo chamar de... De quê? Pessoas? Vocês?
Léia moveu a boca para falar, mas não teve tempo. Argoluli ainda não havia acabado.
— Percebi que vocês estão aqui, agora, vivos, graças a mim.
Imediatamente a mão de Altman foi ao punho da espada.
— Poupe seus esforços, fantasma. Se eu quisesse realmente seu mal, não haveria tempo para isso. Nem eu sou um vilão de carochinhas que avisaria meu intento.
— O que você quer com essa cena toda? — interrogou-lhe, Léia.
— Um pouco de gratidão para começar. Estou salvando suas vidas nesse exato momento. Não é saudável morder a mão que lhes protege.
— Isso mais parece uma ameaça. — retrucou a barda.
— Se você não entendeu, é mais tola do que imaginei. Eu não faço ameaças. — respondeu Argoluli com frieza. Um contraste as emoções de Léia. — Faço acordos.
— Já chega! — interrompeu Altman por fim. — Isso não vai nos levar a lugar algum.
O relinchar dos cavalos intensificou-se.
— Você disse que os criou. — comentou Altman apontando com o queixo para fora.
— Convenhamos que isso seja muito enervante.
Argoluli mirou o agente por algum tempo. Um fantasma vivo. Indefectível para a magia e quase que imune a ela. Uma entre muitas anomalias surgidas desde a queda da lua.
— É assim que se protesta barda. — sem retirar os olhos de Altman, com um estalar de dedos, os cavalos desapareceram e o silêncio enfim veio.
Assim permaneceu, até que o baú se moveu sozinho, de novo.
Léia não se conteve. — O que é isso? — exigiu saber o que já sabia.
— Não é "isso". Assim você o magoa. — rebateu Argoluli.
— O que é! Isso?! — insistiu Léia.
— Você está impossível hoje, mocinha. Esse é o Travis. — o mago deu uma tapinha afetuosa no tampo do baú. — Diga olá, Travis.
O que parecia a tranca do baú se abriu como um olho. O tampo se abriu revelando uma fileira de dentes pontiagudos e se distorceu como uma boca em um sorriso canino enquanto uma língua que chegava até o chão desenrolou-se.
— Um mímico! — Léia estava sobressaltada. — Altman, faça algo.
Altman impassível, apenas encarava o mago.
— Não há necessidade de alarde. _ Disse Argoluli apaziguador. — Travis é meu familiar. — A voz dele tinha um toque carinhoso, como quem se refere a um animal de estimação.
— Você tem um mímico como familiar? — Léia estava sobressaltada. — Não podia ter um sapo, um gato, uma coruja como qualquer mago decente? — Quando ia avisar para gente?
— Primeiramente, eu não sou um mago decente. Em segundo lugar, se Travis é meu familiar, vocês nunca correram perigo. Ele só faria algo se vocês me ameaçassem ou se eu fosse uma ameaça para vocês. Travis é a prova de que estamos do mesmo lado. Por fim, Travis é infinitamente mais útil do que os familiares supracitados.
— O que ele faz? — dessa vez foi Altman que interveio. — Além de se fingir de objetos e abocanhar o calcanhar de outros, é claro.
Argoluli observou Altman e ficou imaginando o quanto ele sabia. Achou por bem que esse era um segredo desnecessário aquela altura dos fatos.
— Travis guarda coisas importantes para mim, que podem ser útil para nós nessa jornada.
— E o que mais? — insistiu Altman.
Ele sabia, Argoluli concluiu. Altman acabou indicando o que ele desconfiava. A Armada Fantasma já estava de olho nele há algum tempo. O quanto Altman estava preparado para aquela missão? Há quanto tempo? Não havia o que esconder.
Argoluli olhou o homenzarrão de alto a baixo.
— Ele pode trazer também coisas que não estão aqui, direto da minha loja.
— Cacete! — Léia exclamou. — Isso significa...
— Significa que por Travis eu tiro energia da minha maravilhosa loja, ferramentas e o poder para manter essa carruagem voando. O que faz dessa carruagem, uma extensão da minha loja.
— Isso é... Insano. _ Disse Léia.
Argoluli riu-se um tanto orgulhoso.
— Não senhorita. Para nós no momento, julgo que a palavra que você procura é "maravilhoso".
Levantou-se do assento e fez uma vênia exagerada e então declarou.
— Bem vindos, a maravilhosa loja de Argoluli.
Altman suspirou fundo e afundou-se no seu assento.
— Terrível. _ O fantasma concluiu.
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