Notas iniciais
Olá prezado cliente. A gerencia mais uma vez declara aberta essa maravilhosa loja, pode vir freguês(a). Não se esqueça de deixar seu feedback de ouro para a manutenção do estabelecimento. E A T E N Ç Ã O para a promoção. Quem indicar novos clientes vai ganhar estrelinha nos próximos capítulos. Porque é o que eu tenho pra dar. hahahahaha Meus amigos, mais uma vez, bem vindos! A Maravilhosa Loja de Argoluli - O Terrível.

A Roda do Destino gira em círculos de fogo.

A vida é um ciclo disposto em espirais sobrepostas.

Ande atrás da roda, nunca adiante.

A roda só segue em uma direção, nunca retrocede, sempre adiante.

No dia que tu a veres atrás de ti, acabaste.

Nascemos atrás da roda e assim passamos a toda vida, tentando manter-se atrás dela.

Desafortunados nascem á sua frente, no lugar errado, para serem esmagados.

A Roda não tem outra função a não ser girar e com isso mover o mundo.

Esteja atrás da roda.

Corra, nunca pare. Nunca deixe a roda te alcançar.

A roda é implacável.

***

Argoluli não era religioso, mas se fosse seria devoto de Miridin.

Lia com frequência a liturgia do bravio acaso, o livro de Miridin, a indomável, deusa da sorte e do azar, por assim dizer.

Seu mestre, no entanto, era um devoto, fascinado pela deusa, o que era um tanto incomum entre magos.

Como todos somos influenciáveis, uns mais que os outros, com o tempo e o convívio, Argoluli acabou por adquirir sua cota de fascínio pela deusa.

Sobretudo, Argoluli se interessava pela Roda da Fortuna, artefato divino associado à deusa e que controlava o destino do mundo.

Em menor escala, o Al-Shawkian também era um manipulador de destinos.

Porém, a Roda do Destino enquanto artefato inalcançável para este mago, portanto, alegórico, era objeto de filosofia constante na mente de Argoluli.

E de preocupação também.

Sempre temia ser esmagado pela "roda", assim mantinha um estoque razoável de poções da juventude para si mesmo, de modo a estender seu tempo de vida.

Mesmo assim, mesmo assim, mesmo assim...

Sabia que um dia falharia.

— A roda é implacável. — resmungou para si mesmo. — observado de perto por Léia e Altman assim que levantou os olhos do livro que estava lendo. — O que foi? — indagou o mago.

— Está resmungando de novo? — Implicou Léia, com uma sobrancelha arqueada.

— Está escrito aqui. — disse-lhe Argoluli fadigado, apontando para a página aberta de um livro em sua mão.

— É uma liturgia, não é? — respondeu à barda. — Nunca imaginei que fosse religioso.

— Não sou. — retrucou Argoluli placidamente fechando o livro. — Esse livro pertenceu ao meu mestre. Foi um dos primeiros que aprendi a ler.

Na capa se via escrito “Liturgia do bravio acaso de Miridin”.

— Deve ser um livro muito raro e caro já que os acólitos de Miridin, não dão muito valor a palavra escrita. — disse-lhe Léia realmente impressionada.

Argoluli sorriu de canto de boca.

— Mais caro do que alguns reis podem pagar e outros matariam por ele. — respondeu-lhe Argoluli alisando a capa com carinho.

— Só falta você dizer ser oriundo de Xerxes. — Léia comentou bem humorada pela primeira vez em muito tempo.

Xerxes era um daqueles reinos devastados no início do Império Zenither e riscado do mapa por uma grande catástrofe magica. Miridin já havia sido uma divindade de porte considerável nessas terras esquecidas e a barda não acreditava no que dizia de coração, de modo que disse em tom de piada.

Argoluli fechou o sorriso do rosto.

— É só um livro. — respondeu sucinto. — A tempestade está diminuindo. Logo vai passar e poderemos prosseguir. — o mago deu o livro para Travis “engolir”. Léia sabia muito bem que o livro não estava sendo realmente devorado, mas transferido para outro lugar.

***

O destino revelado é aquele que está escrito. Isso se chama Maktub.

Não há como escapar dele.

Sem saber, Zaya e Argoluli compartilhavam algo em comum.

A constante vigilância sobre essa força traiçoeira do universo.

Algumas religiões apontam escolhidos profetizados entre seus deuses como pessoas especiais destinadas a grandes feitos.

Do ponto de vista de Zaya e de acordo com sua educação, todos são escolhidos.

Destinados a cumprir uma função no universo que desencadeiam outra corrente de eventos. Ela nada sabia sobre a nova teoria do caos, estudada pelos eruditos, mas na visão dela sobre destino e universo, todos são escolhidos para algo.

Logo, ninguém era especial. A não ser, talvez, ela mesmo.

Ah sim! Zaya era um poço de contradições.

Assim não são todos os jovens?

Zaya estava naquele momento diante de algo que ela lia como providência.

Uma carruagem atolada até a metade na areia pela sua tempestade.

Não parecia com nada de suas terras, era evidente que era estrangeira, e através de sua visão sobrenatural, ela sabia ao menos que era mágica, embora não soubesse dizer qual era magia que a encantava.

Nada difícil de deduzir. Tinha que ser algo relativo a transporte.

Não havia cavalos, parecia robusta como se pudesse ser levada para guerra.

Podia estar imobilizada, mas a feiticeira estava longe do auge de suas capacidades, não podia simplesmente abrir a carruagem a força, e depois disso entrar em conflito com um ou mais Malafith se acaso eles estivessem lá dentro.

Nada nas suas visões a prepararam para isso, mas quem mais poderia ser?

Ela também não queria matar inocentes pegos por acaso. No fundo, Zaya se via como uma boa pessoa, disposta a fazer qualquer coisa pela manutenção da ordem.

Qualquer coisa.

— Só me resta pô-los a prova. — sussurrou por trás do “hijab”. Tinha uma ideia.

Usou dos seus dons para sentir o ambiente ao seu redor, buscou e achou o que estava procurando.

— Deve servir. — sorriu para si mesmo satisfeita.

Concentrou-se na sua tarefa e ordenou a areia do deserto que afrouxasse o aperto sobre as portas da carruagem.

Se seus ocupantes fossem dignos, eles iriam se provar e ela descartaria a possibilidade de eles serem alguma ameaça.

***

Um grito feminino de arrepiar os cabelos foi ouvido do lado de dentro pelos ocupantes da carruagem.

— Alguém precisa de ajuda! — Exclamou Altman de um salto na cadeira. Parecia dizer o obvio, sem saber que não era bem assim.

— Vá com calma, Bernardo. — disse um Argoluli sobressaltado se dirigindo a Altman. — Além disso, a porta deve estar...

Altman era um homem alto e forte, e abriu a porta com certa facilidade.

Facilidade demais observou Argoluli.

Areia invadiu a carruagem e a porta só ficou um pouco entreaberta, mas para Altman não importava, ele se espremeu pela saída que tinha e se arremessou para fora.

Argoluli e sua mente metódica tentava processar aquela informação absurda. Imaginou que ele mesmo teria que desobstruir a porta com magia, coisa que o Agente fantasma fez com a força dos braços.

— Você vai ficar aí parado? — disse-lhe Léia se espremendo com mais facilidade pela porta.

— Alguém precisa de ajuda. — seu corpo já passara quando ela olhou lá para dentro uma última vez antes de sair. — Deixa pra lá! Pode ficar aí mesmo. Esqueci que se não tiver um lucro envolvido você não se mete. — dito isso se retirou heroicamente. Segundos depois era ela mesmo que estava gritando.

Argoluli coçava a cabeça exasperado.

— Heróis, heróis, detesto a companhia de heróis. Eles só são bons quando compram na minha loja. — Disse isso para Travis, seu mímico e familiar. — Travis, meu camarada, preciso de uma coisinha da loja.

Do lado de fora uma cena clássica.

Tão roteirizada, que se nossos heróis parassem um pouco para analisar, talvez rissem do quadro que contemplavam. Se era convincente ou não, julgue você mesmo.

Havia uma frágil garota jogada ao chão. Próximo dela havia três ameaçadores escorpiões atrozes do tamanho de cavalos.

Aproximavam-se dela e recuavam rodeando-a sem nunca fechar um cerco, sabe-se lá porque, mas você a essa altura está entendendo.

A garota parecia indefesa e chorosa, bela e exótica. Isso era o bastante para Altman.

Anos de treinamento e algumas dezenas de missões o preparam para isso. Afinal não podia contar com magia, então tinha que ser um lutador considerável, e aquela era uma ameaça física que ele julgava poder dar cabo.

— Fique aí, Léia. — ordenou Altman instintivamente. — Quando eu tirar a garota dali ajude-a chegar à carruagem. Esses bichos não vão conseguir penetrá-la. — olhou para a barda confiante e partiu para o ataque.

Zaya os viu, e os reconheceu dos sonhos. Eram eles, o Malafith.

Sem que Altman percebe-se, ela sorriu por baixo do “hijab”.

“Finalmente” — pensou triunfante que se conseguisse acabar com um deles pelo menos, o Malafith estaria quebrado.

Ele vinha em sua direção, espada em punho, mas não conseguiria quebrar a carapaça de um escorpião gigante com um golpe só, por melhor que fosse, e ainda haveria outros dois livres para ataca-lo sob seu comando. O tolo vinha para a morte.

Sem aviso o chão eclodiu em areia e Zaya se viu sendo arrastada para um buraco.

“Destino”. — ela pensou.

Mais um e apenas um verme surgiu, e esse não estava sob seu controle. Veio no encalço dos escorpiões por baixo da areia e pretendia pegar quem estivesse mais próximo o que nesse caso, era Zaya.

Todavia nosso “herói”, Altman, o fantasma vivo, a alcançou bem a tempo.

Rufem os tambores.

— Segure minha mão! — gritou para Zaya que o fez por instinto, e assim evitou o pior.

Por enquanto.

Altman a salvou de cair na armadilha e na bocarra do novo anfitrião.

No processo deixou sua espada cair no buraco e Zaya perdeu o controle dos escorpiões, pois rompeu a concentração necessária para mantê-los sob sua vontade.

Léia não sabia o que fazer, porém, por extinto tentou correr na direção de Altman na clara intenção de ao menos resgatá-lo, quando uma mão impediu seu avanço.

Olhou sobre o ombro e não viu ninguém. Olhou para baixo e viu Argoluli.

— Me solta! — berrou ela.

— Deixe comigo. — ela olhou para ele incrédula e atordoada, porém antes que respondesse qualquer coisa ele disse. — Feche bem os olhos se quiser viver.

Notas finais
º Roda da Fortuna Na nossa mitologia “A Roda da Fortuna” é o tear das Moiras, Cloto, Láqueis e Átropos – as deusas gregas que fiavam, teciam e cortavam o fio da vida. Trata-se de uma metáfora dos processos de nascimento, crescimento e desenvolvimento, e desencarne. O fio da vida na roca do destino. Na mitologia de Thronus, a própria Miridin, uma divindade obscura do panteão, já foi uma dessas moiras. Mudando seu nome ao ascender para o panteão maior e designando uma substituta. É consenso que as moiras sejam três e que representem passado, presente e futuro, mas também há quem considere a hipótese de serem trezentos e sessenta e cinco moiras, e mais uma secreta. O que é totalmente absurdo. Espero. A roda da fortuna nessa mitologia, é mais visualizada como uma roda de um moinho sempre se movendo em círculos. º Maktub Maktub é uma palavra em árabe que significa "já estava escrito" ou "tinha que acontecer". Esta palavra é considerada um sinônimo de "destino", porque expressa alguma coisa que estava predestinada ou um acontecimento que já estava "escrito nas estrelas". Neste caso, apesar de possuirmos o livre arbítrio, as coisas que acontecem já estavam destinadas a acontecer.