A Mansão Subterrânea
10 Na fazenda
Eram onze horas da manhã quando os quatro amigos chegaram à fazenda de seu Augusto. Quando ainda se aproximavam da propriedade, tiveram uma conversa:
- Então fica assim... – começou Pedro – Contamos ao vô que pegamos o carro para explorar as redondezas, mas nos afastamos demais e acabamos nos perdendo.
- Resta saber se alguém vai acreditar nesta história. – resmungou Luísa, cruzando os braços.
- Se não nos procuraram na serra, podem até engolir a conversa. Caso o contrário estamos ferrados. – comentou Lúcia.
Todos olharam para Roberto, mas o rapaz continuava muito quieto.
Quando Pedro estacionou o carro dentro das terras do avô, ele e seus amigos perceberam que a situação estava justamente como imaginavam: havia um carro da polícia parado em frente ao casarão e eles logo sentiram o que a confusão que aprontaram causou. Foram recepcionados por Graça, uma das empregadas, que ao ver os quatro jovens da varanda do casarão, correu ao encontro deles, gritando e torcendo as mãos:
- Aleluia! Seu Augusto corre aqui! Os meninos chegaram! – depois, virando-se para os garotos, acrescentou: — Mas vejam só o que vocês aprontaram! Quase mataram todo mundo de susto! A polícia já estava até procurando sinais de acidentes e corpos na estrada, sabiam? E seu Augusto, coitado? Só ele sabe o desespero que passou esses dias! O coitado nem sabe onde encontrou coragem para ligar para os pais de vocês...
- Nossos pais estão aqui? – indagou Luísa, alarmada.
- Como eu imaginava... – disse Pedro.
- Ai, caramba! – gritou Lúcia – Meus pais aqui? Nem acredito! Vou receber um castigo daqueles!
- Todos vão, Lú. – falou Pedro, mais uma vez – O jeito agora é encarar.
Eles entraram no casarão abraçados. Na varanda, os cãezinhos pastores Bob e Dartagnan os saudaram colocando suas patinhas nas pernas dos garotos, mas estes os ignoraram. Na sala de estar, seu Augusto e as famílias dos adolescentes conversavam em voz baixa com um homem de baixa estatura e outro que parecia alguns anos mais jovem que o primeiro, que eram, nada mais, nada menos, que o delegado de polícia e o investigador. Inicialmente, nenhum deles percebeu a presença do quarteto, que ficou em pé encostado à soleira da porta, esperando que o notassem ali. E quando isso aconteceu, a sala irrompeu em gritos de viva e suspiros de alívio. Uma mulher jovem e bonita, de cabelos claros, correu para abraçar Pedro, e depois lhe puxou a orelha:
- Você é maluco, menino! Quer matar o meu pai de susto? Eu fiquei sem dormir durante noites, sabia?
- Eu sei, mãe, mas... AI! – foi tudo o que Pedro conseguiu dizer. Augusto postou-se ao lado do neto, abraçando-o e depois lhe perguntando o porquê daquela brincadeira.
Num canto da sala, Lúcia era abraçada pelos pais, mas também não escapou do sermão.
- Onde vocês estavam? O que aconteceu? Vocês saíram com o carro do seu Augusto? E ficaram este tempo todo fora? Lúcia, quando sua mãe me ligou para me dizer que você tinha desaparecido, eu quase enfartei! – resmungou o pai da menina.
As coisas, porém, pareciam mais calmas, mas menos calorosas, entre as famílias de Luísa e Roberto. Apenas a mãe da garota estava presente. Carla abraçou a filha sem nada dizer. Parecia se sentir culpada pela briga que teve com a menina na véspera de sua viagem.
- Oh, meu amor!- ela sussurrou, abraçando a jovem, que retribuiu o abraço friamente.
- Onde está meu pai? – quis saber Luísa, notando a ausência de Rogério.
- Seu pai não pôde vir. Negócios, entende?
Luísa assentiu e deixou-se ficar abraçada com a mãe por algum tempo.
Roberto, por sua vez, não viu seus pais, mas eram seus avós que estavam lá. Quando perguntados pelo neto onde estavam seu pai e sua mãe, eles responderam:
- Não puderam vir, querido. Eles estão na França, mas pediram para nós avisarmos a eles quando você aparecesse.
- Ah, certo. Beleza. – disse o rapaz rapidamente, antes de sair apressado para a varanda. Nos braços da mãe, Luísa percebeu que os olhos do garoto estavam marejados e resolveu ir atrás dele. Ao chegar à varanda, o encontrou de costas, as mãos apoiadas na sacada de madeira. A jovem ficou o observando por um tempo; era um rapaz bonito, os cabelos cacheados, as costas largas, o corpo sarado. Tão arrogante e orgulhoso! Mas como alguém com uma natureza como esta poderia sentir tanto a falta dos pais?
- Rober... – sussurrou Luísa ao lado dele, que tentou esconder as lágrimas. Mas já era tarde. Ele não precisava ocultar o que estava sentindo da amiga e por isso começou um desabafo.
- Luí... Eu sei que sou arrogante, orgulhoso, metido... Sei que sempre me meti em encrencas... Mas este tempo todo eu quis uma coisa... Algo que dinheiro algum poderia me dar.
- Olha, Rober, eu sei do que você está falando, e acredite, não é o único. Veja o Peu, por exemplo. Apenas a mãe dele está aqui.
- Porque o pai dele foi um cafajeste, que o abandonou quando ele nem havia nascido. – retrucou o rapaz – Mas a mãe dele abriu mão de tudo para estar aqui quando ele chegasse. E os pais de Lúcia? São separados, mas hoje estão unidos pela filha. Digo, do que é que adianta ter pais casados se eles não te dão a mínima? Poxa, sou tão insignificante assim a ponto de eles não poderem deixar seus negócios por um tempo e vir saber do filho desaparecido?
Luísa então lembrou-se que foi pelo mesmo motivo que seu pai não estava ali com ela. Beijando o ombro de Roberto, ela o abraçou.
- Eu sei muito bem como se sente, Rober.
O quarteto teve que dar explicações para a polícia e Pedro contou exatamente o que eles haviam combinado no carro. O delegado desconfiou um pouco da história, principalmente ao notar algumas marcas da agressão que Roberto sofrera de Sérgio na primeira noite em cativeiro mas, como ele mesmo dissera, já tinha perdido tempo demais com uma brincadeira de adolescentes e foi embora, muito irritado. Após esse episódio, as famílias dos garotos resolveram levá-los de volta para Salvador. Lúcia e Pedro foram condenados a ficar de castigo até o final do recesso escolar. Luísa e Roberto, porém, passaram impunes, pois o pai da garota não dera muita importância ao caso ao ver a filha sã e salva em casa e a mãe não queria mais um motivo para brigas. E no caso de Roberto, os avós deste já sabiam que manter um jovem de dezesseis anos de castigo na faixa etária deles era praticamente impossível. Mas o garoto passou seus últimos dias de férias quieto e calado e não se envolveu nos típicos escândalos de garoto mimado e rico, como geralmente acontecia.
De volta às aulas, os quatro amigos se reencontraram e retomaram sua rotina normal de estudos, mas não falaram sobre a aventura vivida. O assunto virou tabu, em respeito a Roberto. Todavia, este tabu foi quebrado em uma determinada noite no apartamento de Lúcia, durante uma conversa regada a pizza e refrigerantes. O rapaz contou aos amigos que apesar de a ideia de ter assassinado alguém, mesmo que tenha sido o lunático da serra, não o agradasse, tinha aprendido a conviver com ela, embora preferisse não comentar muito sobre o assunto. Os amigos entenderam e os quatro continuaram a falar da serra por alguns instantes, embora não manifestassem o desejo de voltar para lá.
E após essa aventura, a vida dos quatro seguiu tranquila. A experiência serviu para uni-los ainda mais e até mesmo para fazer algumas mudanças neles. Mudanças que foram notáveis em alguns...
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