Numa casa grande e bonita no centro da área mais nobre daquele bairro Elyn estava tarde da noite usando ainda suas roupas pesadas. Roupas escuras, cheias de acessórios em metal.

Seus cabelos azuis iam até a cintura e junto com suas vestimentas nada comuns chocavam algumas pessoas quando ela ia na rua.

A moça trançava o cabelo de uma menina que não possuía mais do que 7 anos e se encontrava sentada em seu colo enquanto a criança arrancava adesivos de um gesso que prendia seu braço esquerdo.

— Aonde está o papai? — A menina perguntou para a mulher de cabelo exótico que estava com os olhos cheios de lágrimas.

— Ele vai voltar logo. — Elyn respondeu chorosa.

— Aonde está o papai? — A menina tornou a perguntar sem emoção alguma na voz enquanto tirava os adesivos do gesso e olhava fixamente para parede.

— Ele está resolvendo uma coisa importante. — Respondeu agitada secando as lágrimas.

— Está de noite. Aonde está o papai?

Então antes que a moça pudesse terminar de suspirar um grito ecoou no quarto aonde as duas conversavam:

— Elyn, desça para comer e traga sua irmã, vocês ainda não jantaram e está tarde.

— Aonde está o papai? — A menina tornou a perguntar insistentemente.

— ... — Dessa vez Elyn não respondeu, mas levantou-se e pegou a menina pela mão livre.

— Aonde está o papai? — Perguntou mais uma vez enquanto seguia a irmã para fora do quarto.

— ...

— Elyn, aonde está o papai? — A mais nova continuava.

— O papai não está em casa.

— Aonde está o papai?

— Eliane! O papai está preso! — Elyn berrou desolada e chamou a atenção da mãe que a olhou irritada do andar de baixo. A reação padrão da irmã seria perguntar mais vezes, mas aparentemente ficou satisfeita com a resposta mesmo sem saber o que queria dizer "preso".

Elyn olhou fundo nos olhos da irmã e largou a mão da mesma. Eliane tinha autismo e nunca entendia as coisas com tanta facilidade, apesar de que a mais velha chegou a histeria agoniada com a pergunta repetida e delicada da irmã ela não entendeu como pôde a mais nova ter se dado por satisfeita tão facilmente. Será que ela entendeu? Não parecia triste ou abalada.

A garotinha correu escada abaixo ao encontro da mãe que encarava Elyn com o semblante raivoso, certamente porque ela havia berrado. A moça simplesmente deu as costas e voltou para o seu quarto batendo os pés e a porta.

Assim que a jovem esquisita ficou sozinha um feixe de luz iluminou o quarto e de repente Felicia apareceu no centro do cômodo.

— O que diabos é você? — Elyn berrou ainda mais alto dessa vez e lançou um travesseiro sobre o ser de orelhas pontudas que caiam sob os joelhos ossudos que por sua vez se esquivou e se escondeu em baixo da cama de maneira incrivelmente veloz.

— Talvez você devesse morrer, sabe? — A elfa resmungou.

— Como é que é? — Elyn enfiou a mão em baixo da cama agressivamente e quando finalmente encostou na criaturinha elas duas foram transportadas para outro local.

Elyn estava tonta e nem se controlou quando sentiu uma vontade louca de vomitar deixando o chão emporcalhado assim que chegou, e cheia de náuseas continuou berrando:

— Quem você pensa que é, coisinha feia? Para aparecer na minha casa e dizer que eu deveria morrer? Eu... nem sei que tipo de coisa é você! Deve ser algum ser demoníaco! — A raiva foi se esvaindo enquanto ela notava que não estava mais em seu quarto. — Que diabos de lugar bizarro é esse!?

— Felicia vai buscar torta! — E a elfa sumiu novamente como todas as outras vezes apesar de que dessa vez estava apreensiva.