A Maldição do Faraó
14 Capítulo XIV — O palácio
Notas iniciais
Capítulo XIV
O palácio
Depois da pequena visita do morto-vivo que assombrou toda e qualquer pessoa que se hospedava no pequeno hotel de Luxor perto do deserto, alguns dos hóspedes apressaram-se pelo corredor de cima até seus quartos, com o intuito de partir o mais rápido que podiam. Portanto, poucas pessoas repararam no som oco que saia de uma das portas do corredor, junto de um tremor que a balançava violentamente. Apenas duas moças, que se assustaram e correram mais e um homem que parou em frente, reparando a chave pendurada na fechadura.
Porém, alguém parecia socar por dentro, e cautelosamente, virou a chave e a porta foi aberta rapidamente por Uchiha Sasuke, dando um olhar gélido para o turista que acabara de o libertar, porém acenou com a cabeça calmamente, para mostrar que sua ação foi bem-vinda, e de certa forma desculpar-se pelo sobressalto que causou no homem já um bocado assustado.
Logo depois, o Uchiha correu, descendo as escadas e se não fosse um tanto atlético, teria caído de cara.
Achou Sakura e Evelin no saguão observando atentamente Carter, que estava de costas, apoiado na parede.
— Sr. Uchiha! — Lady Evelin espantou-se pela chegada repentina e Sasuke não se deu tempo de recuperar o ar.
— Naruto…. Tutankhamun o levou.
— Nós testemunhamos — Howard suspirou, passando a mão nos olhos. — Ele pode parecer um homem agora, mas tem algum poder amaldiçoado rolando, ele é superforte, e nem sei se chegou a encostar em mim direito quando me jogou.
— Você está bem, Sasuke-kun? Onde você estava? — perguntou Sakura.
— No quarto. Naruto me trancou — disse com certa naturalidade que lhe custou alguns olhares curiosos, e resolveu apenas ignorar. — Eles podem estar na tumba.
— Bom, é a opção óbvia para a múmia ir, mas ela, com certeza, não quer que a encontremos, por isso tenho minhas dúvidas se os encontraremos lá, por outro lado, não imaginaria outro lugar — disse a Haruno.
— Temos que ir — disse Carter.
— E fazer o quê? — perguntou Evelin em um tom indisfarçado de deboche, pela óbvia falta de capacidade do grupo de fazer algo contra Tutankhamun, ainda mais depois desse pequeno show.
— Salvar Naruto! — foi a resposta tão debochada quanto exasperada que recebeu do arqueólogo.
— Não temos como fazer isso — disse a moça. — Nós apenas morreremos todos, precisamos de um plano.
— Primeiro temos que ir ao museu — interrompeu Sakura.
— Que diabos….? — fez Carter.
Sakura olhou para o Uchiha para confirmar que recebia a compreensão do moreno quanto a sua ideia. Ele retribuiu o olhar.
— É uma longa história, mas talvez seremos capazes de deter a múmia, mas precisamos do antigo Livro dos Mortos.
~x~
Naruto tornou-se ciente do incômodo em seu pescoço e como sua cabeça batia em algo duro, de forma repetida, formando uma dor aguda no local. Percebeu todo o seu corpo balançando não de uma forma violenta, porém o bastante para deixá-lo meio tonto, e isso só piorou o incômodo seu pescoço e tentou o levantar de maneira apressada, o que não muito certo, então gemeu, movendo-se devagar e massageando a nuca de leve.
Arregalou os olhos e conseguia ver sua imagem contra uma superfície dourada. A luz do sol bateu em um ângulo que o cegou e fechou novamente os olhos sensíveis, de forma que foi difícil voltar a abri-los, mas fez um esforço para descobrir o que diabos acontecia ao seu redor.
Estava acomodado logo atrás de ninguém menos que Tutankhamun, novo em folha em algum tipo de carruagem antiga levada por dois cavalos que a múmia guiava pelo deserto. Naruto se perguntou se Tutankhamun havia negociado aqueles bichos ou se era algum pacote amaldiçoado que veio junto com ele quando acordou. Riria se não estivesse na situação em que estava, pois eram duas possibilidades cômicas.
Naruto esticou um pouco o pescoço para tentar identificar o local, mas era tudo areia, a cidade deveria estar bem longe àquela altura.
Quando realmente começou a ajustar-se a situação, a carruagem parou em meio ao nada.
Engoliu em seco.
Talvez Tut fosse enterrá-lo na areia e deixá-lo por vingança, quem sabe.
O ex-faraó encontrou seus olhos no instante seguinte ao descer, e Naruto não soube dizer se sua suspeita era verdadeira, pois a expressão do homem estava de tão forma neutra que só pôde esperar pelo melhor.
Então, Tutankhamun sorriu de forma contida e poderosa, estendendo a mão, como se tivesse a intenção de escoltá-lo.
Naruto olhou para a mão estendida para si, levantando os olhos para os olhos escuros e ainda indecifráveis, e então o cumprimentou com um tapinha, levantando-se da carruagem e seguindo caminho com uma confiança fingida, como se soubesse para onde deveria ir e estivesse ali por vontade própria, apenas como planejado o tempo todo.
Pelo menos sabia fingir muito bem.
Tutankhamun olhou para a própria mão, dispensada por um tapa, com um olhar neutro antes de observar o loiro seguir.
Então, murmurou palavras que mal chegaram aos ouvidos de Naruto, porém o que o seguiu foi uma leve avalanche de areia, que desceu com um barulho alto e parou aos pés do arqueólogo que deu vários passos para trás e observou em sua frente um tipo de entrada meio escondida que lhe deu algumas sensações estranhas no estômago.
~x~
— Isso parece até mais simples do que eu imaginava — comentou Carter, seguindo a passos apressados de Sakura que os acompanhava para dentro do Museu de Antiguidades.
— Simples? — sussurrou Evelin. — Isso está bem longe de simples, sr. Carter. Primeiro problema: precisamos da múmia. Aposto que ela não se comportará quando perceber que queremos a colocar de volta para dormir.
— Bem, pelo menos é possível.
— Não sabemos disso ainda — retrucou Sakura, e parou, virando-se para os companheiros. — Se não der certo, possivelmente vamos acabar todos mortos.
Howard parou logo atrás com o movimento brusco e deu uma olhada para Sasuke. O Uchiha devolveu o olhar, mas conseguia conter o temor com mais facilidade. Sai ainda era um mistério, talvez ele não tivesse certas emoções humanas.
— Precisamos achá-lo primeiro — respondeu Evelin fazendo um sinal para que a Haruno continuasse o caminho, disfarçando o próprio tremor do corpo.
~x~
Sasuke abriu a porta do carro antes mesmo que ele parasse, e Howard tropeçou atrás de si, o acompanhando até a abertura da tumba feita recentemente.
Sai se colocou na frente de todos, levantando a mão, calmamente, para que compreendessem que se a múmia estivesse lá dentro, era bom ter cuidado do que simplesmente correr para dentro para prováveis mortes.
Carter, com um cuidado de um elefante, tirou a arma emprestada do cós da calça, e ela disparou, por sorte, em direção ao céu, e ele agachou-se com o susto e todos o olharam imediatamente.
Houve um momento de silêncio em que o arqueólogo apenas olhou para todos com um constrangimento, e Sai se virou para a entrada e Sasuke também atentou-se, a mão na sua própria pistola emprestada, mas sabia que nada de adiantaria, ainda que tivesse uma boa pontaria.
Nada saiu de lá, a não ser um inseto que parecia uma barata, porém maior e Evelin soltou um grito pelo susto.
Bem, pelo menos aquilo certamente não era um sinal que alguém estava ali e apesar de não estarem ansiosas para um encontro com a múmia, isso também significava que Naruto não estava no único lugar que poderiam adivinhar de seu paradeiro.
Desceram as escadas, e investigaram todo pedaço de cada uma das câmaras da tumba para confirmar que não havia ninguém mais ali.
Howard suspirou, sentando-se no túmulo de Tutankhamun.
— Onde ele pode estar?
— Ele saiu com uma daquelas carruagens que estava aqui na tumba, então certamente, não é um caminho curto.
Sasuke levantou os olhos e com uma franzida de sobrancelhas ele seguiu para fora do local sem uma única palavra, que deixou todos curiosos. Seguiram-no, e observaram enquanto ele olhava ao redor de um deserto onde mal dava para ver a cidade de um lado e o outro era apenas areia.
O Uchiha estreitou os olhos para a parte onde não dava para ver nada ao longe.
— O que foi?
— E o palácio? — ele perguntou.
— O quê?
— O palácio. O palácio de Tutankhamun — continuou Sasuke, virando-se para Carter. — Sabe onde é?
— Não foi nem achado ainda, Uchiha — informou o arqueólogo. — Se não foi destruído na sua brincadeira com o faraó.
— Não foi destruído.
Sasuke voltou-se os olhos para o redor e parou em uma direção fixa com os olhos estreitos pelo sol.
— Pode ser lá — ele disse. — Onde estão.
— E você sabe onde é, por acaso? — quis saber Evelin.
De forma espontânea o jornalista quase disse que “não sabia, mas podiam procurar”. No entanto, prendeu as palavras na garganta, com a boca entreaberta. De alguma maneira, não poderia dar essa resposta. Não quando sua mente fazia ligações instantâneas quando lembrava-se do lugar. Percebeu os olhares de todos crescerem para cima de si enquanto seus olhos navegavam ao redor, como um turista perdido tentando se encontrar.
— Uchiha…?
— Não é longe… eu não sei dizer como eu poderia saber, mas não é.
Howard deu de ombros.
— Ei, eu não duvido de você, com todas essas circunstâncias.
Sasuke voltou o olhar pro grupo.
— Carro não será útil. É muita areia.
Evelin soltou um resmungo.
— Teremos que ir andando?
— Podemos voltar a cidade, buscar camelos — sugeriu Sakura.
— É muita viagem — respondeu Sasuke com um suspiro. Já perdiam tempo tendo aquela conversa. Não conseguia imaginar qual era o estado de Naruto agora, mas se apressar nunca era ruim.
— Há uma feira de comércio não tão longe — Sai se pronunciou de forma calma.
— O quê? Aonde? — Carter franziu o rosto.
— Há alguns minutos aqui a oeste — apontou o atirador. — Fica fora da cidade, perto de um vilarejo desértico. Tem uma porção de coisas, homens passam negociando camelos.
— Vamos arriscar — decidiu Sakura apressando para o carro.
Howard observou Sai caminhar, indignado.
— Como…? Como você pode saber de algo assim e eu não?
~x~
Aquela fortaleza tinha mudado um bocado desde a última vez que Naruto esteve ali.
Era de se esperar, na realidade, nada ficava o mesmo depois de três mil anos.
Agora era apenas um monumento escondido, um pouco demolido até, com pó para todo lado, tirando o brilho dourado das coisas. Porém, pouco dos artefatos antigos estavam ali. Provavelmente eram todas aquelas coisas amontoadas na tumba do homem que anda poucos centímetros a sua frente, vivinho que só. Como se nunca tivesse recebido um golpe certeiro na cabeça.
E por lembrar disso, Naruto espiou a cabeça de Tutankhamun. Ele não possuía cabelo, e era, na verdade, bem visível um tipo de corte profundo, mas que no momento, parecia bem saturado e antigo.
O ex-faraó guiou o caminho até o salão aonde, antigamente, havia seu trono e tudo o que acontecia ao redor passava a ser de seu conhecimento.
Também havia mudado; as estátuas que guiavam o caminho até o trono não estavam ali, mas a cadeira larga e alta continuava, empoeirada porém conservada e como que presa ao chão, não moveu-se um centímetro desde que Naruto era Sadiki, e ainda uma criança, ajoelhando-se como um estrangeiro para o faraó, o pai de Tutankhamun.
Porém, havia mais uma peça, diferente do que se lembrava, no grande espaço do salão. Era uma mesa comprida de pedra, parecia pesada e de tempos mais recentes que Tutankhamun.
Naruto ponderou onde, afinal, Tutankhamun estava conseguindo coisas para redecorar.
Não deveria ser difícil, na verdade, o cara voltou com a vontade dos deuses e a força para conseguir o que desejasse, poderia muito bem ter tocado um bom terror enquanto não podia entrar no hotel durante todos aqueles dias.
O loiro estancou perante a mesa e Tutankhamun voltou o corpo para si o guiando pelos ombros até uma cadeira maciça, e o fez sentar, acomodando-o mais perto da mesa.
Talvez o faraó o tivesse sequestrado para um bom jantar, pensou ignorando o pergaminho rústico em cima da mesa perto de si, e a ideia não pareceu ruim, tentou consolar-se Naruto. Estava mesmo com fome.
Mas o homem aproximou-se, ao seu lado, e a mão dele deslizou da cadeira para sua nuca, até seu rosto e fez um carinho terno, apesar de sua expressão continuar impassível.
— Sadiki… — murmurou e suas mãos desceram pelos braços de Naruto até suas mãos que foram erguidas na altura de seus olhos. — Sadiki… — voltou a repetir e forma tranquila, como se possuísse todo o tempo de mundo. — Talvez você não seja Sadiki agora, mas se lembrará de quem é, e voltará a ser quem era… quem era antes de ser corrompido.
Naruto arregalou os olhos para o que viu ouviu em alto e bom som. Tutankhamun estava falando inglês, um inglês quebrado e pausado, mas, ainda assim, inglês.
Tut se afastou e o arqueólogo soltou a respiração, tentando fazer os pulmões voltarem a funcionar.
Sentia o corpo ainda com um formigamento estranho desde que tocara Sasuke daquela forma vergonhosa antes que Tutankhamun chegasse, mas o toque do faraó o esfriou inteiro, dando calafrios. Talvez fosse a mão gelada.
Tentou não deixar na cara o tanto de vezes que seu olhar seguia para a porta, de forma até inconsciente, enquanto as últimas palavras da múmia subiam por todo seu corpo, arrepiando-o de forma desagradável.
~x~
— Nós estamos tão perdidos — murmurou Evelin, e seu camelo (que também carregava Sakura a sua frente, afinal eles precisaram economizar) soltou um ronco e ela acariciou seu pelo.
Sasuke conseguiu ouvir as palavras da moça e ele não podia discordar.
Tudo a sua frente era um monte de areia e ele nem sabia dizer o que fazia ali. Ele guiava o grupo até o meio do nada.
Howard, logo atrás, também soltou um resmungo. Mas não podia dizer se era pelo perdido ou pelo fato de ter Sai em sua frente, dividindo um camelo, de forma apertada.
Prestes a virar-se e dar-se por vencido contra o deserto, um relincho cortou sua ação.
— Cavalos! — exclamou Carter, ao que Sakura pediu silêncio. Dois cavalos davam pequenos passos, um ao lado do outro, presos pela carruagem antiga. Pareciam entediados.
— É a carruagem, mas onde está Tutankhamun?
Sasuke apertou os olhos observando os animais, e de certa forma, aquele monte de areia não se parecia tanto com um monte areia agora. Concentrou-se de tal forma que conseguia ver toda a construção antiga, como era. Não sabia ser era uma visão real ou uma memória brincando com sua percepção, mas isso não importava.
— É o palácio.
~x~
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