Teresa
O ar gélido trespassava as folhas alaranjadas de Kensington Garden. Era mais um dia de outono no qual as árvores estavam se preparando para o inverno rigoroso que logo viria. O parque estava cheio de folhas caídas no chão, fazendo um tapete sobre a terra e a grama. E mais uma vez eu estava por lá, me escondendo do mundo.
Desde que minha mãe descobriu o câncer e precisou abandonar o emprego para começar o tratamento, perdemos tudo. Vendemos nossa casa, carro, um lote que tínhamos no interior, móveis e todos os itens que nossos antepassados deixaram, que não eram poucos. Mas, o que mais doeu foi ter que deixar a casa de meus bisavós, que passou de geração a geração até que chegasse a minha mãe e os primos dela de vários graus.
Eu tinha poucas lembranças de quando era bem pequena, cerca de meus cinco anos, quando minha bisavó Wendy era viva. Meu bisavô tinha morrido há um bom tempo antes de minha mãe me ter. Wendy costumava sentar em sua cadeira de balanço e ficar por horas olhando pela janela de seu quarto, no segundo andar. Com olhos perdidos, passava a mão por seu rosto, analisando sua pele enrugada e flácida. Passava as mãos por seus cabelos prateados, penteando-os com seus dedos e trançando-os com dificuldade. Às vezes minha avó, Jane, costumava dizer que bisa sonhava com seu tempo de criança. Que quando olhava a janela queria voltar no tempo.
As marcas que o tempo deixou em seu corpo a incomodava naqueles momentos. Quando cresci, sempre me perguntei porque minha bisa era tão nostálgica e vivia tão dispersa. Lá pelos meus treze anos eu soube que ela sofria de Alzheimer. Começou quando minha mãe tinha doze anos, Wendy, já idosa, foi perdendo sua memória aos poucos. Esquecia que havia tido uma filha, esquecia nossos nomes e mais no fim de sua vida esquecia até mesmo de como comer, ir ao banheiro e demais atividades básicas. Era, de fato, uma doença muito triste, principalmente porque minha avó ouvia sempre Wendy perguntando sobre coisas que ela julgava terem sido sonhos de infância.
“Peter não voltou para me buscar”.
“Cadê meu irmão João? Não é possível que os piratas o pegaram de novo!”
Quando Wendy falava de um tal Gancho, ela se escondia debaixo de cama, armários, etc. Eram seus piores episódios. Porém, quem ela mais chamava era Peter. Seria ele um amor antigo? Minha avó dizia ter sido um amigo de infância que faleceu nos tempos da guerra. Eu não entendia muito bem nenhuma daquelas histórias. Tudo era muito turvo para mim.
Perguntei à minha mãe um dia, se minha avó Jane havia explicado melhor sobre os devaneios de bisa. E tudo que minha mãe dizia era que não se passavam de histórias, que desde que ela nasceu ouvia sobre um mundo mágico, repleto de fadas e sereias. De um menino que se chamava Peter e que levava as crianças que caíam de seus carrinhos enquanto as babás as levavam para passear nos parques. Que a cada primeiro sorriso de um bebê, uma fada nascia em algum lugar. Que uma vez ela foi em Kensington com meus avós à procura de flores que estavam prestes a brotar, para ver se havia alguma fadinha dentro. Era como acreditar em Papai Noel, Coelho da Páscoa. Uma história que nos contavam para aumentar nossa imaginação e vivenciarmos nossa infância da forma mais criativa possível.
Minha avó, Jane, ainda estava viva e morava com meu avô em uma casa perto do apartamento em que eu e minha mãe vivia. Ela me ajudava a cuidar da mamãe quando eu saía para trabalhar. Principalmente quando eu fazia plantão. Contudo, meu avô também estava doente e precisava de cuidados especiais. Eles usavam a aposentadoria para pagar uma cuidadora que praticamente morava com eles.
Com isso, ficava difícil eu ir trabalhar quando minha mãe tinha que fazer as sessões de quimioterapia. Geralmente ela passava muito mal, sua imunidade baixava muito e às vezes ficava internada no hospital por algumas semanas. Wendy herdou uma grande fortuna em ouro e joias. Mas minha mãe não sabia dizer de onde veio tal herança. Com o passar dos anos o dinheiro foi esvaindo. Houve quedas na bolsa mundial que fez com que perdessem grandes investimentos que fizeram em bancos. Outras crises vieram com os anos 80 e 90. Até que em 2018, estávamos em uma situação muito difícil, mesmo com ajuda de alguns parentes, descendentes de João e Miguel, irmãos de bisa. E alguns primos distantes de minha mãe que uma vez ou outra vinham nos visitar. Muitos moravam em outros países, Brasil, Estados Unidos, Argentina. Cada um seguia suas vidas e o legado dos Darling aumentava a cada geração.
Muitas vezes eu faltava trabalho para poder ficar com a minha mãe e assim fui demitida de diversos empregos. Foi indo, passei a fazer bicos aqui e ali, o que surgia geralmente de última hora. Como ser garçonete em festas, trabalhar em empresas de limpeza terceirizadas, como faxineira em algumas casas vizinhas. Ser babá de crianças e às vezes até professora particular.
Cheguei a terminar o ensino médio, apesar de ter reprovado duas vezes no processo, não tive um tostão para pagar uma universidade, pensei até mesmo em mudar para outro país para tentar em alguma faculdade pública em algum lugar. Porém, logo minha mãe recebeu o diagnóstico de câncer de mama. Sua avó por parte de pai havia morrido de câncer no útero aos cinquenta e poucos anos, e eu morria de medo de que minha mãe tivesse o meu destino tão cedo.
Os tratamentos eram caros, porém estavam dando um excelente retorno. Ela retirou as mamas, fez a quimio e ficamos por três anos sem termos notícia de alguma volta da doença. Até o momento que cheguei de madrugada em casa após pernoitar trabalhando em uma boate, vi minha mãe chorando no sofá, segurando um lenço e olhando uma folha de papel.
Perguntei o que aconteceu e ela me entregou uma folha, era o resultado dos últimos exames que fez de rotina. O câncer havia voltado e estava se espalhando para o estômago e em uma parte do esôfago. Eu me desesperei, mesmo ela dizendo que ficaria tudo bem, era difícil de acreditar. Eu não sabia como a ajudaria com o tratamento, não sabia como teria psicológico para passar por tudo de novo. A pensão que meu pai deixou, após falecer de parada cardiovascular, mal dava para pagarmos as contas. Assim, fugi até o parque para espairecer e pensar em algo que eu poderia fazer.
O sol estava nascendo, atrás dos prédios e casas que cercavam o parque. Deitei-me debaixo de uma das árvores ocas onde eu escondia alguns maços de cigarro e bebidas. Meu pai sempre dizia que os vícios eram um dos maiores males que alguém poderia ter. E ele tinha razão. Eu sabia que precisava procurar ajuda para tratar da minha ansiedade. Eu não chegava a ser totalmente alcoólatra, contudo, estava a um passo de me tornar uma. Costuma às vezes perder os sentidos quando estava angustiada e queria fugir do mundo. Os cigarros, foram algo que aprendi com minha avó Jane que fumava desde que eu me entendia por gente.
Minha mãe reclamou a vida toda que minha avó tinha que parar de fumar, que acabaria dando um câncer de pulmão. Até que minha avó realmente parou e quando minha mãe teve câncer ela realmente se arrependeu até mesmo de ter começado. E era exatamente o que eu deveria fazer. Eu devia procurar uma psicóloga, só que não era fácil conseguir vaga nos programas de psicólogos gratuitos do governo. Já tinha um ano que eu estava à espera. E com a situação de casa piorando cada vez mais comecei a ter episódios de pânico. Sempre que isso acontecia eu fugia, não queria que minha família carregasse mais essa preocupação.
Cochilei e sonhei com um botão de rosa que tinha em um dos canteiros do parque. Sonhei que era noite e ele brilhava como o sol. O botão começou a se abrir e uma luzinha saiu de seu interior. A luz ondulava entre as folhas e piscava junto às estrelas. Até que acordei com um som horrível que soava do meu celular, o toque estridente que minha amiga de um dos meus trabalhos colocou para me sacanear. A foto de minha mãe tremeluzia na tela. Enquanto eu não atendia, o celular não parou.
“Filha, onde você está? Meu amor, vai ficar tudo bem, por favor volte para casa.”
“Oi, mãe. Desculpa-me. Desculpe por ser uma péssima filha. Desculpe por não saber o que fazer.” E desabei a chorar.
“Venha para casa. Vamos dar um jeito, como sempre demos. Somos Darling e os Darling nunca desistem.”
Desliguei a chamada, enxuguei meu rosto e levantei-me. Eu era uma Darling. E os Darling nunca desistem de seus sonhos.
Vamos dar um jeito, mãezinha.
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