A Maldição
3 Capitulo 3: Os Esquecidos 01! O menino e o vidro.
Notas iniciais
O menino
Era uma tarde de inverno nublada, levemente fria, com ventos e céu cinzento. As ruas estavam quase desertas, poucas pessoas se aventuravam em caminhar de um lado para o outro pelas estradas em lá maçadas do velho vilarejo. Quieto e pensativo, um menino acompanhava os poucos aventureiros que perambulavam pelas ruas por trás de um vidro embaçado de uma janela do hospital, que ficava no alto deste pequeno vilarejo, entre uma igreja e o cemitério, e a sua frente havia um enorme campo que dava para uma floresta, a famosa floresta da Neblina. Entretido com o pequeno movimento na rua entre carroças, cavalos e pedestres que se protegiam das pancadas de chuvas, e as bizarras cenas que aconteciam no Salão do Seu Bartolomeu protagonizado pelos bêbados que ali criavam raiz sem mais nada esperar do dia que se já ensaiava sua despedida.
Dentro do quarto em que o menino estava havia dois homens, um estava encostado na parede segurando uma prancheta com anotações e prontuário do paciente, o outro homem vagarosamente levantava de uma cadeira que se encontrava ao lado da cama e dirigiu-se vagarosamente ao lado do menino, porém, antes mesmo de chegar ao encontro do menino falou baixinho para o seu colega que cuidava atentamente das anotações deste jovem e intrigante paciente.
– Fred. Anote ai. 13 03 1913, são 14:04 da tarde de uma sexta-feira e novamente o paciente passa a ter o mesmo comportamento que vem esporadicamente demonstrando durante estes últimos anos.” Nisso Fred interrompe o Dr. Blake com uma pergunta:
– Devo Doutor novamente descrever seu comportamento bizarro ou apenas relato que o comportamento é o mesmo evidenciado em ocasiões anteriores? — O Dr. Blake olhou seu assistente atentamente e pensou em recrimina-lo por um momento, afinal parecia que sua pergunta não tinha procedência alguma, mas, pensou por alguns instantes e achou melhor responde-la sem maior estardalhaço.
– Sim Fred, relate cada detalhe para que no futuro possamos ter base de comparação a fim de definirmos um padrão de comportamento deste pobre menino. — E continuou com seus pensamentos em voz alta como se tivesse falando consigo mesmo. — Não sei por que, mas algo me diz que tudo isso no futuro nos ajudará ajudar este menino. Mas vamos lá caro Fred, faça suas anotações em voz alta para que eu também possa acompanhar.
Então, enquanto Fred fazia as anotações no prontuário do jovem paciente ao mesmo tempo relatava em voz alta cada detalhe do misterioso comportamento deste garoto, o Dr. Blake apenas ouvia e acompanhava atentamente cada palavra e cada movimento do garoto que estava ali, a sua frente, como se em um transe profundo, flertando sabe-se lá com quem em seu próprio mundo.
Dra. Deans
Nisso foram interrompidos por batidas na porta que logo se abriu. Era a bela e Jovem Psiquiatra Dra. Rebeca Deans. Embora este garoto não fosse paciente da Doutora. Rebeca a mesma nutria um interesse particular pelo seu caso, pois era uma jovem promissora e muito ambiciosa também, e era conhecida no Hospital de Monte Caumo como colecionadora de doidos, pois estava sempre em busca dos casos mais complexos. E levando em conta como este garoto apareceu na cidade e seu comportamento desde então, sem dúvida ela não via a hora de poder incluir este garoto no seu “cardápio” de pacientes.
– Sim Doutora Deans, a Senhorita pode entrar e sentar-se se quiser. — Falou do Dr. Blake que fez de conta que já não havia percebido que a Doutora já estava sentada a cama observando a cena que se desenrolava naquele quarto. O Dr. Blake era conhecido como um psiquiatra paciente, carinhoso e muito dedicado aos seus pacientes, não utilizava muito dos métodos tradicionais da época, ele aplicava sua psiquiatria na base do relacionamento, tentando interagir e conquistar a confiança dos pacientes. Era o psiquiatra mais antigo do Hospital e por diversas vezes recusou o cargo de Diretor do Hospital para não precisar se afastar de seus pacientes.
– Agradeço Dr. Blake. — Falou a bela jovem. E logo continuou: — Espero que o Senhor não se aborreça comigo aqui, mas sabe do meu interesse por este pobre jovem, tenho muita curiosidade para saber se ele de alguma forma está tendo alguma evolução. — Nisso o Dr. Blake a interrompeu.
– Sim Dra. Deans, sabemos do seu interesse. Mas infelizmente não temos novidade, ainda não sabemos por que, mas o quadro se repete. De um sono profundo de repente do nada ele levanta-se, caminha até a janela, fica horas acompanhando o movimento lá fora, então ele faz o seu estranho desenho no vidro utilizando-se do vapor, caminha novamente até a beira da cama, para, olha novamente para a janela e aponta para a mesma e...., bem Dra. Deans, veja você mesma.
O Desenho
Nisso o Dr. Blake aponta para o garoto que se afasta da janela, caminha até a beira da cama, ignorando a presença de todos os três que se encontravam no quarto, para repentinamente, olha fixamente para a janela e com uma das mãos ele aponta para a mesma, faz o desenho de um triangulo no vidro, porém, as pontas das retas dos triângulos não se encontram, ficando então três retas soltas e sem ligação, com três possibilidades de entradas para o interior do desejo e abaixo do desenho escreve no seu interior:
O número “3”. E logo em seguida caminha ao redor da cama, senta-se na mesma, deita e depois adormece novamente.
– Impressionante Dr. Blake, simplesmente impressionante! — Exclamou a Dra. Deans. E o assistente do Dr. Blake então rompeu seu silêncio dizendo:
– Impressionante Doutores é isso aqui! O que será que isso quer dizer? — Apontou Fred para o desenho que o garoto havia feito com o dedo na janela.
– Ainda não sei. — Respondeu do Dr. Blake. Continuando. — Por mais que eu pense não consigo encontrar nenhuma ligação. O que será que este garoto está querendo dizer com tudo isso? — Neste momento a Dra. Deans o interrompe abruptamente.
– Isso se ele realmente estiver querendo dizer algo Doutor, isso pode ser apenas devaneio de sua personalidade perturbada. — Impaciente o Dr. Blake a questiona:
– Faz três anos Doutora que este garoto reproduz fielmente o mesmo desenho no espelho desta janela e com a mesma frase. Sem falar que toda vez que tentamos muda-lo de quarto ele demonstra uma mudança brusca de comportamento e quando nos damos por conta esta ele aqui, neste quarto novamente, olhando pela mesma janela, fitando a mesma floresta de sempre. Isso para mim Dra. Deans quer dizer algo, este menino de alguma forma esta sim tentando nos dizer algo, talvez em nossa loucura racional não tenhamos o mesmo brilhantismo para acompanhar o seu talento para se comunicar Dra. Deans.
– Por favor, Dr. Blake! Por favor! — Contrariada a Doutora respondeu e saiu de salto do quarto.
Então o Dr. Caminhou até a cama, sentou-se ao lado do garoto e o examinou mais uma vez. E ali estava aquele misterioso menino, deitado na cama de barriga para cima fitando fixamente o teto, como se nele estivesse concentrado todo o seu mundo, como se no teto estivesse o seu conforto, o seu porto seguro.
Fred sabia que este menino sem nome para o Dr. Blake era muito mais que um paciente, pois ao longo destes três anos o Dr. Havia depositado muito tempo, investido horas e horas de estudos, convencendo especialistas de outras regiões a vir até a pequena cidade para examiná-lo a fim de ouvir outras opiniões que pudessem se somar as suas e então ajudar o pobre menino. Mas todo este investimento até então havia sido em vão, nenhuma melhora havia surgido efeito. Desde que apareceu o garoto jamais fez qualquer tipo de comunicação com quem quer que seja nenhuma palavra, nenhum gesto, exceto o episódio que acontecia sempre na mesma janela e sempre do mesmo jeito, com os mesmos desenhos e com a mesma frase escrita. Em função deste único canal de comunicação o Dr. Blake não mediu esforços para impedir que o tal quarto fosse reformado e transformado num escritório, usou toda a sua influência e conseguiu um prazo até o final daquele ano, após este período o quarto “135” assim como todos os demais da sua galeria seriam transferidos para uma ala administrativa do Hospital que está em plena reforma e ampliando sua capacidade de leitos.
O tempo era algo que de fato não estava ao seu lado, pois, o tempo voava alucinantemente rápido demais e ao mesmo tempo, o menino sem nome como era chamado nas dependências do hospital pelos internos continuava da mesma maneira, do mesmo jeito, sem nenhuma evolução desde que fora encontrado vagando sem destino e sem rumo no campo que fica à frente da floresta da neblina. Parecendo que o menino sem nome era imune ao tempo, pois assim como não ocorreu nenhum avanço em seu estado clinico e mental, também não teve nenhum outro tipo de agravo, permaneceu exatamente igual o tempo inteiro nestes últimos três anos, um verdadeiro mistério.
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