A Maldição do Faraó
1 Prólogo + Capítulo I ― Primeira "re"aproximação
Notas iniciais
Prólogo

Tutankhamun
“A imagem viva de Amon”
No ano de 1336 a.C. assumiu o trono do Egito, o menino Tutankhamun, o mais jovem e o que seria o mais rico faraó da história. Foi um governante firme, ao chegar em uma idade madura, e excelente arqueiro, com sua confiança limitada a sua esposa e meia-irmã e a seu ministro chamado Sadiki, o Vizir do Egito.
Seu vizir era um estrangeiro, grego, doado às divindades reais egípcias ainda menino, e ele crescera fiel ao sistema egípcio e seu Faraó, que guardava em seu coração uma admiração pelo seu ministro, maior do que guardava por sua mulher, mas que nunca lhe ameaçou sair pelos lábios, mesmo que a cada dia tivesse de segurar-se diante dos belos olhos azuis e cabelos claros incomuns naquelas terras.
Tutankhamun, como um próprio Deus em forma humana, respeitava os outros deuses e os cultuava, incluindo dessa forma o Deus dos Mortos, Osíris, que em seu livro, O Livro dos Mortos, citava transgressões que deviam ser evitadas na vida dos egípcios na Terra, como: matar, falsificar medidas, roubar, mentir, escutar conversas dos outros, provocar tumulto, cometer adultério ou manter relações homoeróticas.
Essa última lhe foi um problema para manter-se em seu lugar como um leal rei do Egito, por todo o tempo até sua morte. Morreu honrado, porém traído, assassinado aos dezenove anos de idade, tendo como sua última visão os belos olhos azuis, que também lhe despertaram raiva e angústia em seus últimos minutos. Sentimentos que lhe acompanharam até o túmulo e se desprenderam de si em escritos amaldiçoados pela sua vontade de vingança em sua vida após a morte.
Capítulo I
Primeira (re)aproximação
26 de outubro, 1922, Inglaterra
O castelo de George Edward Stanhope Molyneux Herbert, 5º conde de Carnarvon, erguido há gerações, tinha, portanto, a cor marfim gasta e a construção inglesa típica estampava a aristocracia conservadora da família.
O escritório do chefe da família, logo depois do grande salão, onde muitos nobres ingleses já gastaram uma noite dançando nos bailes organizados por Carnarvon, era rodeado por livros velhos e quadros de ancestrais moldados com ouro maciço.
Lá dentro, por trás da mesa com estrutura de madeira e em frente à cadeira de couro marrom, Lorde Carnarvon postava-se de pé. Tinha a estrutura magra coberta pelo paletó cinzento, era um adulto perto de seus cinquenta anos. Escutava os lamentos de outro homem presente na sala, que rodeava o lugar, deixando orelhas no tapete feito artesanalmente por tiras de couro do escritório.
― Eu só preciso de mais uma chance! ― disse o homem.
Seu nome era Howard Carter. Era alto e tinha maior massa que o aristocrata à sua frente. Seu cabelo, loiro escuro caía desarrumado sobre seus olhos claros, e a gravata de seu paletó estava torta. Seu rosto parecia cansado, mas ainda aparentava ser mais novo que Carnarvon.
Era um egiptólogo que, há alguns anos, por causa da falha de arqueólogos anteriores e na confiança de alguns registros históricos, seguiu atrás de encontrar um túmulo de um poderoso rei do Egito. O faraó Tutankhamun. Ainda que o chamasse de Rei Tut; os anos lhe dando certa intimidade com o morto.
― É o que me diz desde o ano passado, Carter ― respondeu Lorde Carnarvon, sério.
Tinha grande interesse na história do Egito, em seu escritório mesmo, muitos livros históricos eram vistos, e também gostava em particular de como os grandes reis do Egito eram enterrados junto de grandes riquezas. Decidiu, assim, financiar Howard Carter em sua busca há quase sete anos, porém já não possuía a mesma paciência da época em que Carter, com os olhos brilhando, contava-lhe a história de Tutankhamun, sua origem, e como com os registros de museus, livros e até achados em outros túmulos, poderia explorar o local que supostamente Tut estava.
― Mas dessa vez, dessa vez, dará certo, senhor, e mesmo que eu não tenha sucesso, pode cortar comigo de uma vez por todas, e parar a ajuda que me dá.
― Isso já se torna um prejuízo-
― Vou reembolsá-lo!
― …E não há mais onde procurar, Carter, suas opções acabaram!
― É por isso mesmo que peço essa última vez. Agora que o espaço diminuiu, a chance é grande de, finalmente, eu encontrar algo. É onde ele está, Lorde Carnarvon.
― Tenta me ganhar com essas suposições sem fim, mas já parei de cair no momento que percebi que tudo que vai, não retorna.
Virou-lhe as costas e pronto estava para dar a discussão como encerrada, porém Carter estava disposto a lutar um pouco mais.
― Pense só nos tesouros que as histórias contam, Lorde Carnarvon ― aumentou o tom de voz. ― Que esse era um dos mais ricos faraós, imagina como podemos lucrar com isso.
O homem voltou sua atenção para Howard e este sorriu. Uma coisa que sabia muito bem sobre o Lorde a sua frente, era que para conseguir persuadi-lo de volta de alguma ideia, bastava lembrá-lo das riquezas que ele poderia ainda ter. Ele era muito rico, sim, mas nunca seria demais aumentar a herança de sua filha.
― A última chance ― foi o que disse por último, acendendo um charuto.
~x~
Se, por algum motivo, Naruto fosse obrigado a ficar acordado por um dia inteiro, certamente morreria. Apreciava muito suas horas de descanso. Porém, ultimamente, não sentia-se em seu melhor depois de dormir. Vinha tendo uns sonhos ― Naruto odiava sonhar ― que só o tomavam das horas em branco na cama, que normalmente o relaxavam.
Estava hospedado em um hotel de seu gosto, que escolhia na maioria das vezes, quando estava em Londres. Tinha um apartamento antes na cidade que resolveu vender quando percebeu que mais passava o tempo viajando. Era órfão, seu falecido pai era europeu, de cabelos loiros e olhos azuis legítimos, de onde Naruto tirou sua figura. Sua mãe também tinha decência europeia, mas sua família era majoritariamente do Japão, o que levou o Uzumaki muito para lá. Sua primeira língua era japonês, pois foi onde estudou a maioria de sua vida, e sua família (ou sua considerada família) toda era japonesa.
Porém, quando fez parceria com o inglês Howard Carter, mais vivia viajando pelo Egito, e agora esperava uma palavra de seu parceiro para partirem novamente. Voltou de visitar sua família havia poucas horas e cansado, resolveu recuperar as forças, o que significava um cochilo de umas dez horas. Agora, jogado na cama, com seu travesseiro para agarrar, o gorro na cabeça para esquentar as orelhas e a boca escancarada, que seu avô, Jiraya, lhe contava que muitos insetos já deveria ter engolido, Naruto sonhava.
Caminhava em um corredor, logo atrás de outros homens que carregavam o que parecia uma maca gigante e maciça com algo grande em cima. Atravessou uma porta que revelou uma sala com vários outros homens com a cabeça coberta por panos brancos, e eles depositavam peças e objetos de ouro pelo chão.
Os homens que carregavam a maca entraram em outra porta ao lado, onde era possível ver a disposição de um sarcófago de ouro aberto e eles abaixaram ao lado, tirando um pano branco do que carregavam na maca, revelando a estrutura de um corpo enfaixado.
Na porta do hotel do quarto de Naruto, duas batidas foram ouvidas, mas ele só remexeu-se um pouco. Logo veio quatro outras batidas na porta, que não surtiram efeito no homem adormecido, e logo vieram mais seis batidas insistentes que o fizeram abrir os olhos. Mas antes que se orientasse, a porta foi aberta, entrando Howard Carter e uma moça vestida com o uniforme do hotel, de olhos arregalados.
― Você está bem, senhor?
― Que? ― murmurou rouco.
― Sr. Carter disse que poderia estar tentando algum ato suicida e devo lhe dizer, sr. Uzumaki, esse tipo de atitude o fará ser expulso do nosso hotel.
Naruto olhos para Howard que sorriu.
― Não é isso, eu...
― Parece que foi engano meu, perdoe-me ― disse Carter guiando a moça para fora do quarto. Quando fechou a porta, virou-se sorridente.
― Naruto!
― Você e essas suas histórias. Toda a cidade deve me achar um suicida.
― Você não atende a porta, amigo. Enfim, tenho boas notícias. Vamos embarcar hoje mesmo.
― Deu certo? Vamos seguir, então?!
― Sim! Ainda que Lorde Carnarvon me fez prometer que essa é a última vez, temos uma chance.
Naruto saiu da cama e os dois comemoraram pulando por alguns segundos.
― Arrume as malas ― o inglês disse, rumando para a porta logo em seguida.
― Minhas malas estão prontas, acabei de chegar.
― O navio sai às seis ― avisou, saindo do quarto.
Naruto voltou a deitar, esquecendo de seu sonho.
~x~
Em seu escritório no jornal Questão, Sasuke Uchiha trabalhava, sem a mínima ideia do que seu irmão, Itachi Uchiha, que se encaminhava para seu escritório, lhe ofereceria.
Os irmãos, japoneses, herdaram o negócio de seu pai, porém mudaram a cede para a cidade de Londres, para expandir sua influência.
Itachi, com os traços parecidos com de seu irmão mais novo, porém mais maduros, entrou na sala, fechando a porta com o nome de Sasuke colado e um sub título de “redação”.
― Ei, Sasuke.
― Ei.
― Tenho uma aventura para você ― tocou direto no assunto.
E ainda bem que o Uchiha mais velho já não esperava alguma reação de curiosidade ou muito interesse.
― Meu grande e velho amigo, Howard Carter, o egiptólogo, sabe...
― Você não conheceu esse homem só mês passado em uma festa?
― Ele disse ― continuou, sentando-se na cadeira de frente para o irmão. ― Que posso mandar alguém para acompanhá-lo em sua próxima expedição no Egito. Ele embarca ainda hoje.
― Hoje? E você espera que eu vá?
― Sim, irmão. Eu não posso deixar o jornal agora, estamos próximos da próxima edição e confio em apenas você para ir. E é uma grande bola para nós.
― Esse não é o mesmo cara que está há uns dez anos sem progressos?
― Sim, ele é dedicado e não desisti nunca, e ainda que não aconteça nada dessa vez, garantiremos nossa presença. Melhor prevenir do que remediar, otouto.
― Então, eu vou e se esse Carter não suceder novamente, só teremos gastos e talvez uma matéria não tão interessante.
― Também considere um pequeno turismo. Você já foi ao Egito, Sasuke? ― perguntou Itachi com um sorriso. Sasuke não viajava tanto quanto o irmão e nunca foi nem próximo à terra dos faraós, e não estava preparado para ter que ir assim tão cedo. ― O navio sai às seis, é bom que faça logo as malas e prepare o que tiver de preparar, está livre pelo resto do dia.
Quando saiu, Itachi ainda deixou em cima da mesa um recorte de papel que dizia “Destino: Luxor, Egito”, deixando Sasuke com a passagem, a pressa e nada de esperança.
~x~
No fim da tarde, quando o céu cedeu o azul para tons de rosa e alaranjado, e a temperatura começava a cair, Sasuke tentava atravessar o cais e superar as ondas de pessoas, que o deixavam levemente irritado, ainda que não estivesse atrasado, como esperava estar. Faltava uma boa meia hora para o zarpar do navio, então permitia-se, assim, caminhar normalmente, recebendo um empurrão ou outro.
Sasuke logo encontrou Howard Carter. Ele estava visível, bem ao lado do navio, checando o relógio. Parecia impaciente.
Naruto gostaria de gritar. E não com as pessoas do hotel, dizendo para se apressarem com seu check-out, como o fazia agora. Gostaria de gritar de uma forma libertadora e que de alguma forma o teletransportasse para ao lado do navio que deveria estar agora.
Meia hora era o que faltava para que a viagem começasse e fazia vinte minutos que recebera o telefonema de Carter, que o acordara, perguntando se já estava pronto.
“Estou saindo do hotel agora” foi o que Naruto decidiu responder, segundo antes de correr para seu quarto e tentar enfiar nos braços alguma boa camiseta, e a mais próxima também.
E era agora, vinte e cinco minutos depois do telefonema, que entrava no táxi, berrando que o pagaria mais se o motorista violasse alguns limites de velocidade.
― Howard Carter? ― Sasuke chamou ao aproximar-se e o homem virou, o confundindo com seu irmão por um instante.
― Sasuke Uchiha ― cumprimentaram-se. ― Você parece com seu irmão. Bem, acho que conversaremos melhor a bordo do navio. Só preciso esperar uma pessoa da minha equipe para embarcar. Tenho sorte de ter só ele por aqui, o resto me espera em Luxor ― contou, as palavras saindo rápido demais.
Carter suspirou, olhando para o relógio novamente.
― Naruto é um atrapalhado.
― Naruto? ― Sasuke perguntou mais por reflexo do que interesse.
― Meu ajudante. Ele sempre arranja um jeito de se atrasar ― suspirou mais uma vez. ― Pode subir, amigo, eu e Naruto logo entraremos também.
O Uchiha assentiu, seguindo caminho. Não teria a menor intenção de esperar o tal do ajudante junto de Carter, e como ele mesmo disse, poderiam conversar melhor a bordo.
― Pare de ser lerdo, motorista ― Naruto reclamou quando o homem acompanhou o calmo fluxo de veículos da rua.
― Não posso arriscar perder minha licença, senhor ― respondeu o motorista aborrecido.
― Estou pagando o dobro! ― ainda insistiu.
Quando Naruto chegou, faltavam quatro minutos para o embarque e ele quase correu na direção oposta quando viu a expressão de Howard.
― To aqui! ― exclamou como uma forma de animá-lo.
― Você disse que estava saindo àquela hora! O que está pensando? Não podemos perder esse navio! ― o arqueólogo soltava enquanto os dois apressavam-se para subir.
― E não vamos! Estava trânsito, H.C., o que eu posso fazer?
Carter ainda resmungou.
― Pronto, nada com o que se preocupar ― Naruto comentou otimista e ofegante pela corrida, e ignorando o olhar raivoso do amigo, quando chegaram finalmente ao piso de madeira do navio.
De esguelha, logo viu um homem moreno, provavelmente de sua idade, apoiando uma mala de mão em uma das mesinhas redondas dispostas fora da cobertura, ele parecia verificar algo.
Sua pele estava arrepiada, parecendo reagir apenas à presença daquele cara. Aquela expressão que ele mostrava, séria e distraída de si lhe parecia tão familiar, ao mesmo tempo que suas memórias não verificavam a presença dele em sua vida, nunca o vira antes.
― Aquele é Sasuke Uchiha ― informou Carter.
― Uchiha? ― Naruto reconheceu aquele nome sim, mas sabia que nunca tinha conhecido um Uchiha.
― É, do Questão, se não me engano. Ele está aqui para acompanhar e registrar a escavação.
Naruto virou-se, indignado.
― Você não me contou! E não precisamos de um jornalista para se meter nas nossas vidas enquanto tentamos fazer nosso trabalho.
― Naruto, você vive falando do momento em que seremos reconhecidos quando desenterrarmos o Tut e isso só é possível pelo trabalho de pessoas da imprensa. Vamos falar com ele ― se afastou, fazendo um sinal para que o outro o seguisse.
Naruto ainda relutou um pouco, aborrecido, mas o o seguiu depois de alguns segundos.
― Não sinto uma boa vibração saindo desse cara ― sussurrou antes de chegarem em Sasuke.
― Você não sente uma “boa vibração”? O que quer que façamos? Joguemos ele para fora, nesse momento? ― perguntou Carter ironicamente.
Naruto quase cedeu ao impulso de constatar para o outro que ainda não se moviam, portanto, o homem não iria se machucar tanto ou afogar-se.
― Só lhe digo que confio muito nos meus sentidos.
― Sr. Uchiha ― Carter chamou ao pararem ao lado de Sasuke que ainda não sentara na cadeira atrás de si. ― Fico feliz que esteja nessa viagem conosco. Agora, deixe-me apresentar meu amigo, o atrasado ― apontou para o seu lado. ― Esse é Naruto. Naruto Uzumaki.
Sasuke o encarou, impassível, percebendo de cara a expressão cética que aquele homem jogava em sua direção, e percebeu que a presença daquele Naruto também não o agradava. A sua pessoa o incomodou, e não soube explicar o que havia de errado, tirando a viagem que pouco tinha vontade de seguir.
― Prazer ― estendeu a mão para aquele de traços mais europeus que o próprio Carter, ainda que o nome denunciasse que não era, e cicatrizes paralelas dos dois lados do rosto, que o deixavam aparentemente mais jovem que Sasuke.
Naruto, automaticamente apertou a mão pálida e sua careta foi acentuada ao sentir um estremecimento causado pelo toque.
Howard, depois de algumas palavras, tirou Naruto dali, pois este não conseguia disfarçar seu desagrado. Sasuke não pareceu atingido por isso, mas era bom afastar o parceiro antes que dissesse coisas desnecessárias. Revirou os olhos quanto Naruto insistiu que seus sentidos nunca lhe falharam.
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