A Maldição do Faraó
9 Capítulo IX ― Outras vidas, outros homens ― parte 1
Notas iniciais
Capítulo IX
Outras vidas, outros homens
parte 1
Apesar do calor do ambiente, conseguia sentir cada um de seus pelos do braço eriçarem-se, com o arrepio que percorreu-lhe o corpo, pela sensação da língua alheia trabalhando o caminho em seu pescoço.
“Posso ser um escravo agora, mas tenho minhas convicções e a minha fé.” Os olhos escuros atravessaram até as profundezas dos olhos celestes em sua frente. O dono destes estava em uma proximidade assustadora, os lábios entreabertos jogando o ar para colidir-se com a respiração do outro.
“Está dizendo isso para mim ou para si mesmo?” perguntou aquele de lábios tentadores.
Ofegou logo antes daquela boca voltar a sua e agarrou o lençol macio de algodão que cobriam a cama larga do interior de um grande aposento da fortaleza real.
O homem loiro, dono dos aposentos, deitado de costas, arqueou-se e soltou um gemido abafado nos lábios do outro, de cabelos escuros.
“Sua crença é distorcida?” Perguntou o dono de olhos negros e penetrantes.
“Se distorcida é o que penso que diz... Não, não é.” Respondeu o homem, um sorriso decorando sua face arredondada, com cicatrizes simétricas dos lados. “Lei de vida número sete do Livro de Anúbis... Dividir a cama com um homem significa que seu coração pesará. Um coração pesado não te garante honra ou dignidade na próxima vida.”
O beijo teve de ser interrompido por grunhidos de ambos os homens que partilhavam do regojizo em juntar suas ereções em movimentos prazerosos de vai-e-vem que fez o loiro agarrar os ombros do outro, cravando as unhas, firme.
“Então o que está fazendo, egípcio?” perguntou novamente o homem de olhos que assemelhavam-se ao fim de um abismo. Estava relutante e sua voz saiu em um fraco sussurro, pois o outro homem colou o peito coberto por uma túnica no seu completamente nu, fazendo-o sentir um calor que não queria.
“Agora eu vou dizer algo que nunca nem ao menos me passou pela cabeça até agora...” Fez uma pausa demorada o bastante para que visse o brilho ansioso naqueles olhos e curta o bastante para que continuasse com sua plena atenção. “Eu não sou egípcio. Fui criado como um, certamente, mas tenho sangue estrangeiro, grego... Talvez por isso eu não consiga tanto resistir... Ouvi dizer que eles são bem promíscuos.” Sussurrou a última frase para que fosse possível apenas aquele homem em sua frente ouvir, ainda que estivessem fechados e sozinhos.
Soltou o início de um gemido alto o suficiente para que pudesse denunciá-lo, então mordeu os lábios o mais forte que pode, deslizando seus dedos pelos músculos das costas do homem acima de si, sentindo seus músculos distenderem e voltarem conforme ele movimentava-se com mais fome para fora e dentro de seu corpo, em movimentos pungentes que poderiam cortar-lhe a carne, mas agora apenas o fazia estremecer em um prazer explícito que se manifestaria em urros, caso não estivesse tão preocupado em não chamar atenção alheia para o que fazia.
De olhos fechados, sentiu o outro mover-se para conseguir lhe dar um beijo esfomeado, enquanto o olhava com a mesma intensidade de seus movimentos.
Quando aqueles lábios tocaram os seus, hesitantes a princípio, o homem de cabelos e olhos combinados em uma cor, agarrou aquele em sua frente, pelos braços, com força, porém não o afastou como seus pensamentos gritavam-lhe para que o fizesse e apenas forçou mais as mãos em um ato desesperado enquanto seus lábios já cediam.
~x~
Um grande feito de guerra ou um presente de Deus, a criança micênica foi encontrada em meio a um campo de batalha. Feições gregas, cabelos queimados e olhos claros, não havia dúvidas, mas foi abraçada pelo rei, Aquenáton, pai de Tutankhamun, o filho mais velho. A criança cresceu com o futuro Faraó, sendo designada como um de seus fiéis sacerdotes, que lhe seriam leais para o resto da vida e estariam ao seu lado durante seu tempo de reinar e administrar o reino de Kemet.
Ainda com poucos anos de vida, a criança, com pinturas simbólicas em seu corpo quase dos pés a cabeça, curvou-se perante o Faraó e sua família em um ritual de importância em que mostrava sua alma egípcia.
― Com esse nome atribuído a mim, Sadiki ― a voz infantil saiu séria. ―, juro lealdade total ao futuro Faraó, Tutankhamun.
~x~
Com imensidão alaranjada do deserto, o sol alto e a areia seca, os escravos e servos construíam barragens para construções mais distantes como era aquela agora tomando a forma da divindade encarnado que comandava o Egito, o Faraó. Trabalhavam ainda mais nos últimos dias com a homenagem que aquela construção colossal estaria presente, chegando. Trabalhavam ferozmente, com homens ao redor, com chicotes nas mãos.
O palácio tão distante e construído há muitos anos parecia uma porção de areia, porém estendia-se, era longo. Lá dentro, na sala mais importante, no salão real, o faraó dispensava três de seus administradores para organizarem seus rituais.
Ao seu lado, um homem estava disposto em pé, ao lado do trono real que se abria logo depois de um corredor entre grandes riquezas, estátuas divinas e valiosas. Vestia um saiote escarlate e um adorno na cabeça de riscas, diferenciando-se do governador, sentado, um manto por cima dos ombros e por cima de sua cabeça sem cabelo uma coroa alto, um tipo de barrete achatado que o tornava o maior dos homens.
― Senhor, a sua homenagem está a cada luz mais perto. Tem um discurso pronto? ― dirigiu-se o sacerdote.
― O que quer dizer? ― Tutankhamun virou-se para seu sacerdote, seu melhor escriba, que ao mesmo tempo analisava documentos em papiro, onde um estoque logo atrás de seu trono era guardado com cautela.
― Precisa de um discurso, senhor, talvez queira que eu lhe passe um?
― E um Deus decora discursos? ― o rei replicou, sua atenção agora voltou-se para as portas do salão que abriram-se por dois dos guardas de fora. ― Saberei o que fazer, como sempre.
O homem que introduziu-se no salão, entrou altivo, com passos leves e uma expressão bastante séria, os olhos tão claros quanto o céu por baixo da bem cortada peruca de fios negros. Abaixou-se em um reverência nos degraus que antecediam o trono.
― Majestade ― disse e logo levantou o rosto com um sorriso bem aberto, desfazendo todo o ato até ali, e fazendo o faraó retribuir imediatamente, enquanto o sacerdote o olhava com olhos céticos.
― Meu vizir ― Tutankhamun levantou-se e desceu um degrau para alcançar o outro, enquanto o homem parado ao lado do trono ainda observava.
O rei passou os braços pelos ombros de seu amigo, sentindo sua pele quente contra seus dedos.
― Chamou-me?
― Chamei ― disse o governante, fazendo-o acompanhar com o braço ao seu redor. Gostava da proximidade suficiente que tinha para tocar-lhe sem motivos aparentes. E como um de seus sacerdotes administrativos, ele poderia estar perto de si. ― Está ocupado, mas preciso de informações quanto minha escultura, novos homens trabalham nela, os tais de hebreus capturados recentemente.
― Sim ― concordou Sadiki.
― Preciso saber se estão sendo vigorosos, temos apenas alguns dias e o andamento não está adiantado.
― Logo vou para lá e entrego o relatório, majestade ― disse, desvencilhando do Faraó, fazendo-o perder o calor confortável.
Sadiki fez uma reverência a mais, antes de sair, e um gesto para o homem ao lado do governante, que não retribuiu.
~x~
Caminhou lentamente, as sandálias douradas afundando na areia fofa, sem muitas protuberâncias, enquanto observava de longe uma bela escultura formando-se, tão grande como um Deus, que personificava os traços do Faraó, e assim o homenageava. Conseguia ver, de onde estava, os trabalhadores que pareciam formigas, seguindo uma fila e fazendo suas tarefas e voltando.
Continuou descendo pelo deserto em um ritmo calmo. Vestia um saiote longo de linho e um cinto triangular no dorso desnudo, adornado por turquesas. Na cabeça, escondendo os fios naturalmente claros, uma peruca ornamental de fios escuros com uma tiara de ouro e seus olhos estavam pintados. Segurava um rolo de papiro. Aproximou-se de um homem, o que estava à frente do magnífico trabalho, e ele logo o notou.
― Vizir!
― Relatório, comandante ― curvou os belos olhos pelos trabalhadores. Parou quando cruzou com um par de olhos o encarando. Um jovem claro e saudável, porém marcado por algumas linhas nos braços e costas. Seu peito descoberto subia e descia rapidamente com a respiração ofegante, mas seus olhos não demonstravam isso. Se notava que era um dos novos capturados, com olhos ainda intensos e raivosos. Um guarda chamou a atenção com violência pela pausa no trabalho. Ele fez uma cara feroz e continuou, carregando um cesto trançado sobrecarregado por pedras.
― Vizir Sadiki?
As safiras se desviaram do escravo, fitando o comandante quase vagamente.
― Peço dois dias, os trabalhadores estão dando o seu melhor ― lembrou-o com o chicote em mãos.
― Muito bem ― respondeu apertando o papiro entre as mãos e voltando o olhar rapidamente para o homem pálido que o espiava de canto de olho.
~x~
Quando o fim do dia chegara, o sol parecia maior e começava a sumir pela areia, Sadiki terminava de arrumar-se em seu aposento espaçoso lançado ao corredor do palácio, e ouviu duas batidas na porta de lenho antes de uma saudação e a identificação de um de seus soldados, fiéis a si como a Tutankhamun, ou mais.
O guarda entrou depois de uma permissão verbal, atrás de si vinha, preso, o escravo em que o vizir vira mais cedo na construção.
― Aqui está, vizir ― o guarda apontou para o homem amarrado.
― Nos dê um minuto ― ordenou e o guarda colocou o escravo de joelhos perante Sadiki, antes de sair.
― Levante ― ordenou novamente, agora para o homem pálido e ele obedeceu.
Os olhos encararam-lhe com a mesma intensidade de antes com aquele brilho sério, impassível porém insubmisso, não estava tão perto de implorar por sua vida, se fosse o caso.
― É um novo trabalhador ― começou Sadiki. ― Percebi que tem a pele muito clara, hebreu. Rá não tem piedade.
O escravo fez um leve trejeito discreto, mas que os olhos do vizir captaram antes que lhe desse as costas e caminhasse até a comoda de madeira dourada.
― O Deus-Sol ― ele explicou e não viu a expressão do outro voltando a ficar crua. ― Qual é o seu nome?
Não obteve resposta e quando virou-se, o escravo apenas observava quietamente seus movimentos.
― Qual é o seu nome? ― voltou a perguntar, mais suave e ele o encarou.
― Daibidh.
― Daibidh... ― ele murmurou, coletando um pequeno pote redondo de argila, do fundo de seus pertences, digerindo lentamente a voz cortante que aquele homem possuía, combinava com sua atitude.
Voltou-se para ele, caminhando até ficar próximo o suficiente para ver certo incômodo aflorar em sua expressão.
Estendeu o pote até as mãos amarradas em frente ao corpo.
― É um pouco de creme, feito por um de nossos médicos, vai ajudar com queimaduras, passe nos ombros, principalmente.
O escravo olhou para o pote, mas não o segurou, o que fez o vizir colocar entre suas mãos, fazendo-o sentir o calor de seus dedos, quase o sobressaltando.
― Vai te ajudar ― disse o loiro, enfim, olhando-o.
Daibidh não parecia próximo de agradecer-lhe, os seus olhos veementes mostravam que não cederia, mesmo em sua condição.
Sadiki afastou-se, chamando o guarda para levá-lo.
~x~
Era o meio da noite quando o Faraó abriu as portas dos aposentos de Sadiki. Ele dormia de barriga para baixo, um braço para fora da cama. Tutankhamun sempre achou graça o jeito que dormia. Desde criança, era espaçoso e, às vezes, desajeitado.
Sadiki não sabia que Tutankhamun sabia disso. Do jeito como ainda dormia. As visitas noturnas eram só sabidas pelo próprio rei, que tirava um tempo apenas para tirar alguns fios dourados que o fascinavam, do lugar, de um modo que não poderia fazer com os olhos claros e brilhantes abertos, conscientes. Sua mulher e sacerdotisa, Anchesenamon, também por vezes acordava sem sua presença.
Achava, entretanto, que era um segredo só seu, uma pequena tentação cravada no peito que tinha certeza que não passaria disso.
~x~
Fale com o autor