A Maldição da Wicca
39 The War - Part 1
Notas iniciais
RONY
Eu sabia muito bem que, quando tudo acabasse, teria que enfrentar a fúria elementar de Hermione por ter sumido daquele jeito.
Mas eu tinha noventa por cento de certeza de que ela tentaria enfrentar Rodrick e os Comensais sozinha.
Conhecendo-a como a conhecia, iria só esperar o suficiente para dar uma de heroína e agir furtivamente, sem o conhecimento de ninguém.
Foi por isso que, assim que foi possível, eu saí do castelo pelos muros traseiros, que davam para o bosque.
Assim que entrei na imensidão verde da floresta, ajoelhei-me no chão. Pousei as mãos na terra fofa, com o rosto contraído.
Precisava descobrir como aquilo funcionava.
Tinha que me transfigurar outra vez. Eles precisariam da maior ajuda possível.
Foi quando fui surpreendido por alguém que, surpreendentemente, havia me localizado no bosque e vinha correndo em minha direção, com o rosto branco de pavor. Em seus braços, algo chorava sem parar e desoladamente.
– Rony! O que faz aqui?
Ergui-me outra vez, pasmo.
– Eu é que pergunto, Darel... devia estar com os alunos mais novos! Não devia estar aqui com a bebê!
Tamahine chorava alto, soluçando penosamente, enquanto me encarava com os olhinhos turvados de lágrimas. Parecia, outra vez, querer me dizer alguma coisa vital, e que não conseguia me repassar.
– Rony... eu tinha que avisar... – Darel ofegou – eles vão revidar. Nyree acabou de me contar... Hermione... – ele engoliu em seco – ela terminou de se invocar.
Meu estômago afundou.
– O quê?? – recuei, boquiaberto – ela ficou louca??
Senti meu peito se apertar.
Hermione havia finalmente se invocado. Não devia ter feito aquilo...
Ela ia lutar com Rodrick. Eu sabia.
– Tenho que ir até eles, Darel – arfei – ela não pode fazer isso sozinha!
Darel, para meu espanto, deu um meio sorriso.
– E ela não vai, Rony. Todos vão lutar ao lado dela... Nyree estava espantada – ele continuou, tentando fazer Tamahine se acalmar enquanto a embalava – disse que... nunca viu nada como Hermione está agora. Não foi preciso nada para que todo mundo decidisse lutar. Ela não quer, é claro... – ele sorriu – mas acho que não vai ter muita escolha.
Ergui a cabeça, surpreso e decidido.
– Volte com os alunos menores, Darel. Eu vou atrás deles.
– Não querem mesmo que eu vá com vocês? Posso deixar Tamahine com Nyree...
Balancei a cabeça. Nunca pediria isso á ele. Não podia arriscar criar mais um órfão de toda aquela loucura dos últimos anos.
– Tamahine vai precisar dos dois pais vivos, Darel – segurei seu ombro – se cuide, irmão.
– Tome cuidado – Darel assentiu, se virando de volta para os muros e correndo com a bebê de volta para o castelo.
Decidi cortar caminho até a planície frontal de Beauxbatons através de um dos lados do muro. Corri em direção ao lado leste do bosque, tentando chegar á tempo o hall de entrada.
Repentinamente, porém, quando estava quase chegando na planície, senti uma pancada seca me atingir na cabeça, me derrubando no chão.
Encolhi-me na grama, com a visão turva e a cabeça latejando de dor.
– Olha só, Dolohov – ouvi uma risada desagradavelmente familiar – parece que achamos mais uma isca.
Tentei apanhar a varinha em meu bolso, mas senti minha mão ser pisada com vontade. Berrei quando senti os ossos trincarem e racharem.
– Nós ficamos com isso aqui, garoto – alguém se aproximou para apanhar minha varinha – acho que Rodrick vai ficar bem satisfeito... já temos o outro ruço de refém... – senti ódio quando Scabior riu – mas esse aqui... me lembro dele. É o namorado dela. Achamos ouro, Dolohov.
Ainda cego com a pancada na cabeça, senti alguém me erguer e me amarrar com cordas.
– Me soltem! – tentei me desvencilhar das cordas.
Recebi outra pancada na perna, que fraquejou, quase me fazendo cair de volta no chão.
– Cala a boca, ruivo... continua andando...
Sentindo a dor que irradiava de minha mão, recuperei aos poucos a visão. Pude ver, finalmente, a aproximação da planície que dava para o pátio.
Mesmo ainda tonto, pude contar superficialmente a multidão de bruxos das Trevas posicionados na frente do castelo.
Eram mais de duzentos.
Quando chegamos na dianteira do enorme batalhão, fui jogado no chão, pateticamente amarrado e sem poder reagir.
Ergui a cabeça com raiva, me deparando com uma fileira inteira de Comensais que riam maldosamente. Entre eles, porém, havia um que estava encoberto por um capuz preto. Tinha, pelo que se podia ver, uma pele pálida que contrastava hediondamente com a capa negra.
O encapuzado sorriu sem emoção para mim, antes de erguer a cabeça ainda encoberta e se virar para Dolohov.
– O que vocês tem aqui, rapazes?
Estremeci quando ouvi a voz rascante e sádica.
Era Rodrick Carrow.
– Acho que o senhor vai gostar disso – Scabior disse, ansioso – demos sorte... é o namoradinho dela.
Mais risadas vieram da multidão, subitamente silenciadas por um gesto de Carrow.
Dolohov me ergueu novamente do chão, o que me fez sufocar outro grito de dor. Minha mão ficava cada vez mais latejante e dormente. Tudo doía.
– Ora, meu rapaz... – ouvi Rodrick rir, sem humor algum – erga a cabeça, meu jovem. Um puro-sangue como você não devia se curvar para o chão.
Com o corpo pulsante de raiva, me forcei á levantar o queixo, ficando frente a frente com o Wicca Negro.
– Fique longe dela – rosnei, encarando-o pelo capuz.
Rodrick finalmente abaixou a capa, revelando seu rosto.
Naturalmente, tinha muitas semelhanças com Kristina e Aleto. Todas desfiguradas no rosto descorado com olhos prateados quase mortos.
– A sua namorada? – seu rosto se distorceu num sorriso desagradável – sinto muito, rapaz. Eu tinha esperança de que Hermione recobrasse o juízo e se unisse á nós. Mesmo nascida trouxa, só um idiota não veria o potencial dela, que seria de muita valia quando eu instalasse a nova ordem – ele balançou a cabeça – mas me parece que a arrogância e o orgulho dela vão mata-la... assim como todos que estão neste castelo. Não terei outra escolha se ela nãoc ceder.
Vi ao longe um dos Comensais sustentando um corpo que se debatia.
Arfei quando reconheci Leopold, amordaçado e ameaçado com uma faca em seu pescoço.
Rodrick se voltou para Leopold.
– Ah, sim... não sabia que você se uniria a nós, então eu já tinha arranjado um pequeno chamariz para Hermione. Agora que ela pode sentir a vibração das vidas ao redor dela, vai com certeza se revelar assim que eu parar o coração de seu amigo ali.
– Não! – me debati, avançando em Rodrick. Scabior me impediu, plantando o joelho em minhas costas e fazendo-me curvar o corpo.
Rodrick ergueu a mão na direção de Leopold.
Não, Não.
– Pare! – gritei.
Mas era tarde demais.
Leopold ficou inerte, suspenso pelo Comensal, como um boneco.
Igual á Harold.
Não pude refrear as lágrimas de ódio que escorreram em meu rosto.
– Desgraçado maldito!
De joelhos, sentindo a dor física e emocional me invadirem cada vez mais, quase não notei quando os portões se abriram.
Os Comensais da Morte recuaram. O que sustentava o corpo de Harold deitou-o no chão e ergueu a faca como faria com a varinha.
Rodrick abriu um sorriso satisfeito quando a grande multidão de dentro do castelo apareceu na entrada, com as varinhas erguidas.
Rodrick fez sinal para que os Comensais esperassem, enquanto encarava o grupo embasbacado que se deparou com os Comensais.
Vi de relance meus amigos em meio á multidão.
Harry e Gina pareciam horrorizados ao me verem. O grito de Luna ao ver Harold entrou em meu peito como uma faca enferrujada.
– Bem, meus amigos – O Wicca encarou todos – onde está a sua salvadora? Espero que sejam sensatos em escolher me entrega-la, em vez de, talvez, planejarem revidar. Acho que já cometeram esse erro uma vez... e não vão fazer de novo.
Todos os bruxos no hall levantaram as varinhas na direção dos Comensais em resposta.
– Não recebemos ordens de assassinos – Harry surgiu na linha de frente, também com a varinha erguida – solte-o!
Rodrick gargalhou, erguendo a mão na direção da multidão.
Recuei quando, vinda do nada, uma bola de fogo surgiu, se chocando na fronteira entre o pátio e os Comensais. Ouvi a multidão gritar e recuar, tentando se afastar das chamas.
– Podemos evitar mais mortes por aqui, Harry Potter – O Wicca estendeu o braço na direção de Leopold – vocês não tem a mínima capacidade de sequer me fazerem espirrar... já que estão dispostos a morrer, lutem com seus iguais. Estou disposto á me divertir com alguém um pouco mais qualificada.
Vi, confuso, uma movimentação estranha surgir no centro da multidão, como se todos abrissem passagem.
Baixei a cabeça, angustiado, encarando o corpo de Leopold.
– CARROW!
Senti minha coluna se arrepiar de medo quando ouvi a voz potente e ameaçadora que surgiu no hall de entrada.
Como se fosse concebível aquela voz estar daquele jeito.
Quando levantei os olhos para a escadaria, fui forçado por puro reflexo á baixar a cabeça, sem, porém, tirar meus olhos maravilhados do que estava vendo.
Quando Darel falara da invocação de Hermione... eu nunca poderia ter imaginado aquilo ali.
Hermione surgiu na frente da multidão, com os olhos de cor prata cintilando de fúria.
Era impossível não se sentir inferior ao olha-la.
Uma aura latejante e perigosa a circulava como um manto. Seus cabelos esvoaçavam levemente, apesar de não haver vento algum – exceto o que parecia emanar dela. Seus pulsos estavam contraídos, o que era péssimo sinal. As roupas negras, unidas á aparência e ao próprio poder que parecia pulsar dela, faziam-na ter uma beleza hedionda, cruel e sufocante o suficiente para que apenas isso subjugasse os que estavam ao redor.
Aquela não era mais a minha garota... era uma Wicca completamente bela, perigosa e furiosa, tão intimidante que mesmo os do castelo pareciam apavorados ao seu lado.
Rodrick, naturalmente, não se impressionou.
– Finalmente, Hermione... – ele ergueu os braços – tem certeza que não quer reconsiderar minha oferta? Sabe que isso vai decidir o destino de todos que estão aqui.
Hermione desceu uns dois degraus, encarando Carrow. Será que ela já havia visto Leopold? SE o visse... nem podia imaginar o que isso provocaria em seu emocional já quase estourado.
Seus olhos finalmente pousaram em mim. E, finalmente, reconheci, naquela figura mortal e deslumbrante, por trás de todo o ódio latente, a expressão de angústia e preocupação da minha verdadeira Hermione.
– Sim, Carrow. Eu sei – senti, ao meu redor, até mesmo alguns Comensais se retraírem com o som da voz dela – isso vai decidir o seu destino. A única coisa que reconsiderarei é qual elemento vou usar para livrar o mundo de você. Solte-o agora.
Os dois lados pareciam hesitantes agora ao observar o confronto entre os dois Wiccas. Todos aguardavam, com as varinhas erguidas, esperando que um dos dois finalmente acendesse um fósforo.
– Você é só uma menina, Granger – Rodrick riu – uma garotinha que não sabe o que fazer com o poder que ganhou, que não está preparada o suficiente nem mesmo para salvar a própria vida. Uma criança que remoeu a vida toda sobre uma pessoa que a abandonou ainda pequena, que nunca a amou de verdade, e que tentou desvia-la da melhor decisão. Sabe que não vai sobreviver se escolher lutar... nem você, nem seus amigos. Posso mostrar muito mais do que lhe permitiram apenas tentar. Posso ajuda-la á usar esse poder como nunca conseguiu. Posso tornar você uma verdadeira Wicca. Faça a escolha certa, Lontrinha.
Hermione se retraiu quando Rodrick disse seu apelido. Seus olhos, já amedrontadores, ficaram ainda mais brilhantes.
Finalmente, ela pareceu focalizar o corpo de Leopold atrás de nós.
Quando senti o chão vibrar, sabia que Hermione dera o estopim.
Antes que eu me desse conta, ouvi gritos seguidos de dezenas de alunos que avançaram em debandada na direção dos Comensais.
Não demorou muito para que feitiços voassem por todos os lados. A confusão anuviou minha visão, enquanto eu tentava enxergar através dos corpos que corriam.
Amarrado, tive que me esgueirar pelo chão enquanto tentava fugir do meio dos confrontos que se iniciaram entre os Comensais e os outros bruxos. No meio da confusão, havia perdido Hermione e Rodrick de vista. Mesmo quando me ergui, vi que haviam desaparecido do hall de entrada.
Meu Deus... aonde eles estavam?
Senti alguém me segurar em meio aos duelos ao meu redor.
– Calma, sou eu – Gina remexeu nas cordas em meu pulso, soltando-as – caia fora e a encontre... vou procurar Harry. ABAIXE!
Ela me jogou no chão, desviando-nos de um jato de luz verde que por pouco não nos atingiu.
Apertei seu pulso com a mão boa, estremecendo com os gritos.
– Tome cuidado, mana.
–Você também – ela beijou minha bochecha entes de desaparecer novamente no meio da batalha.
Ergui-me, esfregando a mão quebrada, e comecei á correr em direção ao bosque leste, por onde eles deviam ter ido. Sabia que Hermione procuraria um lugar afastado para confrontar Carrow. Não ia querer arriscar mais mortes.
Foi quando tropecei num tronco de árvore, justamente na perna que estava dolorida.
Encolhi-me no chão, guinchando de dor. Tentei me levantar outra vez, mas meu corpo fraquejou novamente.
Para meu choque, senti as gavinhas de uma planta no chão se enroscarem na perna ferida. Um ramo de árvore se enrolou magicamente na minha mão quebrada.
– O quê... – arfei, admirado.
Senti a dor na mão diminuir até sumir por completo, como se tivesse se esvaído através do ramo da árvore. A mesma coisa aconteceu com a perna. Ambos os ramos se soltaram de mim em seguida.
– O quinto elemento... – sussurrei – ah... Hermione.
Como ela fizera aquilo?
Era como ela estivesse sustentando o quinto elemento através da terra. Um elemento alimentando o outro.
Mas aquilo também devia enfraquecê-la.
Enquanto eu admirava, chocado, meus ferimentos curados, uma mensagem marcada á fogo surgiu na árvore ao meu lado.
SAIA DAQUI. EU IMPLORO. PROTEJA-SE.
Ela sabia que eu a seguiria.
– Sabe que não posso – sussurrei para o vento.
Continuei andando, ficando angustiado enquanto ouvia mais gritos e via mais lampejos verdes vindos da planície. Eu queria ajuda-los... mas se algo acontecesse com Hermione...
Era tudo culpa minha.
Não devia tê-la deixado-a sozinha com Becky. Não devia sequer ter saído do castelo.
A fúria acumulada em meu corpo finalmente se dispersou dentro de mim, para todas as direções, me estendendo completamente.
Dessa vez, recebi com prazer a transformação que me tornou outra vez uma fera blindada e letal.
Fale com o autor