A Maldição da Wicca
3 Gossip and Trouble
RONY
O dia amanheceu ridiculamente rápido.
Suspirei, me erguendo na cama e me arrumando para a primeira aula. Eu estava completamente disposto a matar aula com Harry, mas uma coisinha pequenininha me impediria de fazer isso. Coisinha essa que, provavelmente, estava batendo o pé, de braços cruzados, em frente ao quadro da Mulher Gorda, me esperando.
Desci a escadaria do dormitório, ainda bocejando. Gina acenou para mim da poltrona da sala, com os olhos inchados de quem dormiu tão bem quanto um agoureiro.
– Dia, Rony — ela bocejou também, arregalando os olhos — dormiu bem?
– Mais ou menos — esfreguei os olhos, sacudindo a cabeça como se isso fosse espantar o sono — e você?
– Idem — Gina se levantou, espreguiçando os braços — qual a primeira aula de vocês?
– Poções — revirei os olhos — nossa, estava com tanta saudade do Slughorn... aquele cara não acerta meu sobrenome nem para salvar a própria vida...
Gina riu, me acompanhando na saída da Torre da Grifinória.
Como eu havia suspeitado, assim que passei quadro afora, dei de cara com uma garota de roupas de lã e expressão petulante.
– Mas nunca acorda no horário, não é, Ronald? — Hermione balançou a cabeça, com os olhos estreitados, mas pude ver que ela ria por dentro — bem a sua cara mesmo, acordar no primeiro dia de aula depois das sete da manhã...
– Ah, vai catar balaço na praia, Hermione.
– Aliás — Gina comentou — você veio e foi que nem um fantasma na Seleção ontem... chegou de fininho, foi embora escondida.... tá fugindo de quem?
– Desse mala — Hermione me cutucou — ele me persegue agora.
– Persigo o c... — e falei algo que fez Gina exclamar "Rony!!". Para minha surpresa, Hermione gargalhou.
– Anda, Gina... — Hermione soluçava de tanto rir — vai se atrasar para a aula de Defesa Contra as Artes das Trevas...
– Quem está lecionando esse ano? — perguntei, curioso, quando Gina foi embora de cara espantada.
Hermione ainda sorria com minha resposta desbocada de minutos atrás. Era um sorriso tão lindo.. se estendia ao longo de seu rosto e deixava marcas em suas bochechas... me lembrava de quando sorria no primeiro ano. Por um minuto, podia ver ali aquela garotinha sabe-tudo de cabelo armado que eu conhecera à sete anos.
Saco... como é que eu nunca reparara nela antes de fazer tantas burradas? Como nunca descobrira que a pessoa que eu tanto queria e precisava já estava ao meu lado esse tempo todo?
– Provisoriamente, é o Profº Slughorn também... — ela respondeu.
– Quê? — saí de minha reflexão apaixonada para ficar pasmado.
– Isso aí — Hermione revirou os olhos, sorrindo.
Eu ia comentar que não aguentaria ver o focinho de morsa do Slughorn duas vezes por semana, mas algo me fez congelar aonde eu estava.
Pois, alguns passos adiante, Draco Malfoy me encarava, encostado no canto do corredor.
Hermione pareceu reparar também, e piscou pasma para o sonserino que nos observava.
"Legal", murmurou minha cabeça. "Como é que você trata uma pessoa que te infernizou a vida durante sete anos, depois de salva-la de um incêndio alguns meses atrás?"
Eu não podia chegar até ele e dizer que éramos amigos agora. isso nunca. Mas também não dava mais para ignorar ou detestar o cara. Até onde sabíamos, desde o sexto ano até então, ele e a família estavam servindo a Voldemort de má vontade, correndo risco de vida. O que, é claro, não justificava permanecerem como Comensais da Morte.
E, infelizmente, eu tinha uma leve gratidão por Draco não ter dedurado Harry quando fomos levados à mansão dos Malfoy. Talvez ele e os pais já estivessem pagando à algum tempo o preço por suas crueldades: humilhação e servidão... provavelmente os piores destinos para pessoas que se sentiam tão superiores aos que estavam ao seu redor...
Malfoy parou de nos encarar e foi embora em silêncio.
– O que ele está fazendo aqui? — cochichei para Hermione — a família dele não foi julgada ainda?
Hermione resmungou.
– Você não lê mais jornal, não? — ela revirou os olhos — Draco está em liberdade assistida... assim que terminar os estudos, vai ser condenado pelos próximos dez anos à serviços comunitários... os pais dele, assim que cumprirem os dois meses de detenção em Azkaban, também farão esses serviços...
– Legal... mais um ano aturando esse mala.
Hermione suspirou.
– Que tal a gente não falar com ele enquanto ele não falar com a gente?
– Não é essa a intenção, casseta? — brinquei, fazendo Hermione rir — bom, enquanto ele não der motivos para nos irritar, acho que dá para conviver com Draco em paz.
Hermione se manteve quieta até a hora em que nos acomodamos na classe de Poções.
– Vocês demoraram — cumprimentou-nos Harry, que guardara uma mesa para nós.
– Bom dia, meus jovens! — ouvi o Profº Slughorn dizer. Focalizei-o algumas carteiras adiante — espero que tenham tido férias revigorantes para mais um ano. Dadas as circunstâncias que nos foram impostas no ano passado, infelizmente a aprendizagem dos senhores em poções ficou lamentavelmente fragmentada... mas poderemos recuperar tudo outra vez, eh?
– Espero que eu entenda alguma coisa — bufei — já que certa pessoa não vai mais me ajudar nas lições.
Hermione pareceu receber o veneno brincalhão que lhe joguei... e tomou-o de um gole só, estalando a língua.
– Não, não vou... — ela ergueu a cabeça.
Me aproximei dela, enquanto Harry ria, balançando a cabeça.
Hermione pareceu se assustar quando me viu à cinco centímetros de seu rosto.
– Por favor? — pedi — por favor, me ajuda...
Hermione piscou, com a boca levemente aberta e os olhos saltados. Virei a cabeça, como um cachorrinho pidão.
Ela não segurou e deu uma risadinha.
– Droga... tá bom... — ela empurrou Harry, que ria com gosto ao seu lado — eu ajudo... mas não é por que você é meu namorado...
– Só por que você me ama, me quer e tem dó de mim — brinquei, recebendo um tapa leve no ombro.
Não prestei muita atenção naquela aula.... estava ocupado admirando Hermione escutar Slughorn, com as mãos em volta do queixo, o cotovelo apoiado na mesa, com os olhos interessados balançando levemente ao acompanhar os movimentos do professor. Ela parecia ter alguma ideia de que eu a observava, pois corou levemente quando me olhou de relance. Nunca havia reparado em como ela ficava bonita naquela posição.
Foi quando ela arregalou os olhos que voltei a prestar atenção no professor.
– Alguém sabe que poção seria esta? — Slughorn ergueu um vidrinho mínimo, de cor branco-pérola, que produzia estranhas rachaduras em seu conteúdo quando agitada.
Hermione ergueu a mão, parecendo abobada. Franzi a testa... por que ela estava tão espantada?
– Senhor.... não tenho certeza, pois nunca vi pessoalmente — ela respondeu, tímida — mas seria uma... poção de animagia?
Todos encararam o professor, finalmente interessados e curiosos. Eu me boquiabri um pouco. Aquilo existia? De verdade?
– Correto, Srta. Granger — Slughorn sorriu — é uma poção de animagia... se tomada, torna o bruxo um animago, que se transfigurará em um animal que reflita sua personalidade... tal transformação, quando controlada, poderá ocorrer ao bel-prazer do indivíduo que tomar a poção... mil vezes mais difícil de fazer do que uma Poção da Sorte... leva literalmente meses para ficar pronta, e, se preparada com um mínimo detalhe errado, pode causar a morte ou a demência... e é rigorosamente controlada pelo Ministério... e só pode ser tomada com uma autorização judicial que comprove a necessidade do bruxo ou da bruxa de se transfigurar.
Slughorn sorriu e, pela primeira vez, parecia estar aprontando alguma coisa.
– Mas conversei com os responsáveis pelo Torneio Tribruxo no Ministério, que resolveram abrir uma exceção à esse código... esse vidrinho será dado como presente ao novo campeão de Hogwarts, escolhido pelo Cálice de Fogo!
Putz... fiquei chocado. Agora é que todo o sétimo ano ia se inscrever mesmo.
– Deixando claro, obviamente — ele acrescentou — que, assim que o campeão tomar a poção, será registrado no Ministério como animago e estará terminantemente proibido de usar as transformações durante o Torneio... um Feitiço de Contenção será lançado no campeão, impedindo-o que se transforme durante as tarefas... no tempo restante, a transformação será livre.
– Agora você se inscreve, não é, Harry? — brincou Hermione, com os olhos vidrados de admiração.
– Não, obrigado — Harry sacudiu a cabeça — é da hora, mas não... prefiro continuar tento uma vidinha tranquila depois de tudo que aconteceu.
Coitado do meu amigo. Acho que não encostaria de novo em um Cálice de Fogo nem para salvar as nossas vidas.
Mas agora eu estava realmente decidido à entrar no Torneio. Com o dinheiro, poderíamos finalmente sair das dificuldades financeiras. E ser um animago também não seria nada ruim.
O que me angustiava é pensar em Hermione se inscrevendo, e, pior, talvez sendo escolhida.
É claro que ela saberia se virar. Não haveriam perigos relativamente mortais nesse novo Torneio, já que tudo seria acompanhado nos mínimos detalhes pelo Ministério da Magia. E Hermione era um prodígio incontestável em feitiços e estratégias.
Mas imagina-la se arriscando fazia meu estômago doer de preocupação.
– Eu vou! — arfou Parvati atrás de nós — e você, Matilda?
O burburinho que começou na sala em reação à notícia obviamente encerrou as possibilidades do professor de continuar a aula. Slughorn deu um sorriso estranhamente satisfeito e se sentou na mesa do professor, esperando pacientemente a aula acabar.
– Rony? — Hermione inclinou a cabeça, me encarando — está tudo bem?
Ah, ela e seu quinto sentido para distinguir angústias alheias. Ergui os olhos para ela, desanimado.
– Tem certeza que quer se inscrever? — murmurei, tenso.
Hermione finalmente deu um sorriso de compreensão.
– Sim... — ela segurou minha mão — vai ficar tudo bem, Rony. Primeiramente, nada garante que vou ser escolhida. talvez seja você... talvez seja outra pessoa... e... — ela se aproximou mais, encostando a testa na minha — se for você, também vou ficar preocupada... entendo o que quer dizer.
– Tem razão — suspirei — tem razão...
– E depois — Hermione acrescentou, brincando — se eu mantive vocês dois vivos por quase um ano, podemos sobreviver sozinhos à uns três dias de tarefas, concorda?
– Provavelmente — ri, um pouco mais tranquilo, dando um beijo na bochecha de Hermione.
Abracei-a de lado, ouvindo os murmúrios de excitação dos alunos ao nosso redor, pensando em qual de nós dois, se não fosse outra pessoa, seria escolhido para entrar novamente em encrenca — só que, desta vez, em rede nacional.
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