A cidade era bela, os cidadãos revoltados com a situação financeira atual não conseguiam ver essa beleza, dinheiro era a única coisa que importava naquele momento, nada mais.

Eu não precisava de dinheiro, não mais, a última vez que precisei fora muitos anos atrás, muitos mesmo, então a beleza da cidade era visível para mim, ainda mais naquela noite bela, com todas as luzes acesas daquela pequena metrópole. Essa era outra verdade que os cidadãos não iriam concordar comigo, para eles aquele lugar era o centro do mundo, simplesmente por ser a cidade mais relevante de um país tão grande como aquele. Infelizmente, ser o centro empresarial de um país economicamente e politicamente falido não aumentava o tamanho da cidade para mim, mas sim diminuía.

Olhei para baixo e vi os pequenos cidadãos andando pela rua, aliás, daquela distância eles eram minúsculos. Do quinquagésimo andar tudo parecia minúsculo. Todas aquelas pequenas pessoas andando abaixo dos meus pés languidos balançando no vazio e da grade de proteção (medida tomada pela administradora do prédio para evitar que um tropeço fosse fatal), eles deviam se achar tão importantes, tão relevantes em sua sociedade, mas, na verdade, eles eram apenas um grão de areia na história do universo. Eu sentia inveja daquelas pessoas. Ser apenas um grão de areia na história e ter uma data de fabricação e data de validade seria perfeito.

Não que eu não tivesse, mas, infelizmente minha data de validade não significava meu fim. Por algum motivo inexplicável, quando eu morria eu voltava. A logística era bem simples, quando eu morria, eu renascia, imediatamente depois, em outro lugar como um novo ser. Esse ser sempre tinha aparência de um humano, o que diferenciava eram os adicionais. Já fui loiro, já fui moreno, já fui careca, também já fui alto e algumas vezes extremamente baixo, já fui brasileiro como já fui sueco e americano, já fui juiz e já fui jogador de futebol, já fui um vampiro, já fui muito veloz e já fui um dos homens mais fortes do mundo. Não me recordo facilmente de tudo que já fui, minha memória é boa, mas nem a melhor memória conseguiria lembrar de mais de um milênio de experiências tão facilmente – meus diários ajudam nessa tarefa.

Eu sou imortal, ou melhor, eu sou eterno, eu não morro, meus personagens sim.

É por esses e outros motivos que estou aqui no heliponto desse prédio de cinquenta andares, parado com metade dos meus pés no concreto e a outra metade sobre o vento, decidindo o que farei. Devo iniciar um novo ciclo ou continuar nesse até que o destino acabe com ele?

- Ei! – era uma voz masculina. – Você está bem, senhor Red? – era o segurança do local, eu o conhecia, ele deixara eu subir até lá.

Me virei para olhá-lo, nós estávamos distantes um do outro, mas sorri da mesma forma para acalmá-lo.

- Estou bem – disse. – Pode ficar tranquilo.

Aquilo não foi o suficiente para fazê-lo ir embora.

- Senhor, você não pode ficar nesse local, é muito perigoso – enquanto falava, suas pernas traziam seu corpo para próximo de mim. – Além disso, se alguém te ver aí eu posso perder meu emprego.

- Entendo. Eu vou sair daqui, tudo bem? – nesse momento ele parou. – Só preciso de dois minutos.

Parado há poucos metros de mim o segurança digeriu aquele pedido.

- Pode ser? – questionei, esperando que a resposta fosse positiva.

- Não – droga!. – Infelizmente preciso que você saia daí, senhor Red – conseguia imaginar o que passava na cabeça dele “ele irá cometer suicídio se eu deixa-lo aqui”, era razoável a preocupação daquele homem.

- Tudo bem.

No passado eu poderia persuadi-lo a cumprir meu pedido, ou simplesmente utilizar força para tirá-lo dali, mas nesse ciclo eu era apenas um ser humano, o que eu sempre quis.

Calma! Eu era apenas um humano, sem nenhum poder ou fator sobrenatural. Eu era comum, como na minha primeira existência. Isso só podia significar uma coisa: era o fim do ciclo. Talvez se eu morresse nesse ciclo tudo isso acabaria. Não era certeza, mas aquele “talvez” era o suficiente para mim, eu precisava acabar com aquele ciclo eterno.

- Obrigado – disse para o funcionário do prédio, seu nome era João.

Dei as costas para João e andei até a ponta do heliponto. O que restava agora era pular e foi exatamente o que eu fiz, curvei minhas pernas e me joguei em direção ao nada. Agora percebi o quão inútil era a proteção do prédio.

A calçada aproximava-se rapidamente do meu corpo, logo tudo acabaria.

Abri meus braços e relaxei.

Quando meu corpo bateu no chão, senti cada osso do meu corpo quebrando, desde o crânio, até os ossos do pé. A dor foi imensa, mas o sentimento de liberdade foi maior.

Esse deveria ter sido meu fim, mas não foi.

Notas finais
Inicialmente iria fazer um one-shot com essa história, porém a criatividade veio e percebi que podia ir além de um simples capítulo.
Hoje postei apenas a sinopse, mas postarei semanalmente novos capítulos contando as "aventuras" de Mal.
Caso não tenham entendido, quando o Mal morre, ele retorna em um novo corpo, as vezes um corpo já adulto outras vezes um jovem - não ignorando o fator sobrenatural.
Considerando isso, o que vocês acham que será o próximo "adicional" do Mal? Vidência? Controlar o tempo? Voar?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.