A Maldição Ouija
1 Um
Tudo estava um só silêncio dentro da sala de aula. Todos aguardavam aflitos para que o sino tocasse logo, para que se vissem livres das perguntas de história que enfartavam o quadro diante deles.
“Tim”. Enquanto o professor ainda dava os últimos avisos, os alunos saiam apressadamente, engolindo mesas, cadeiras e portas que apareciam no caminho. A jovem pálida, que se escondia atrás de óculos, foi uma das últimas a deixar o local. Carregava seus livros abraçados na barriga enquanto passava em silêncio pelos corredores.
Porém, sentiu alguém lhe abraçar fortemente. Antes que visse quem era, já sabia perfeitamente.
– Vá com calma, Alice.
– Tá, Danny. E então, o que eles resolveram?
A melhor amiga da pálida, a cativante loira dos olhos azuis, Alice, era uma pessoa bem extrovertida. As duas cessaram os passos após a pergunta, Daniela se manteve séria enquanto Alice começava a perder as esperanças.
– Já sei... Eles não vão mais, né?
– Eles vão sim! – Ela sorriu. Mais uma vez foi abraçada pela amiga, que pulava loucamente. – Vão sair de viagem às 19 horas. Pelo que sei, só irão voltar pela manhã do domingo. Ou seja, dois dias só da gente.
– E o resto do pessoal já sabe?
– Não. Na verdade, ainda nem sei quem devo convidar. É claro, vai ter algumas coisinhas sim, como bebida e aquelas coisas dos garotos, sabe... Mas não quero chamar gente que vai ser como um furacão, quebrando tudo lá em casa.
– Sei como é, e sabe muito bem que concordo com você. Nossos amigos não são assim, pelo menos parte deles. Então, quem vai convidar?
– Acho que vou chamar o Tony e o Gibson.
– O Gibson? Aquele vagabundo, drogado farreiro de uma figa? – Alice odiava seu ex-namorado.
– Qual é, Alice? Pelo menos ele tem vários contatos e pode conseguir facilmente muita bebida.
– Tudo bem. E os demais?
– Também estou pensando em convidar a Helen, ela é legal. Mas estou em dúvida, pois sei que se a convidar, o Wallace vai ir junto. E sabe como ele é quando está bêbado, né? Quebra tudo que surge em sua frente.
– Acho que lá ele se controla. Mas... Você está se esquecendo da pessoa mais importante... – Alice se auto-apontou com o indicador. – Sua melhor amiga, aqui, euzinha.
– Como posso esquecer da minha melhor amiga, sua boba. Claro que está convidada. E espero que vá bem cedo, às 18 horas. Preciso que me ajude a preparar o palco das festividades!
– Tudo bem. Assim que eu sair daquele curso chato de química eu vou pra lá.
– Ótimo. Agora eu preciso ir embora o mais rápido possível, tenho que fazer algumas coisas para a minha mãe. Enquanto isso, encontre o resto da galera e avise-os pra mim.
– Pode deixar, amiga.
As duas deram um pequeno beijo com abraço e cada uma foi para um corredor. Alice se dirigiu ao pátio, onde encontrou os demais sentados ao redor de uma mesa. Já Daniela foi para a saída da escola, porém quando descia as escadas, com o reflexo do sol em seus olhos, chocou-se de frente com alguém e deixou seus livros caírem.
– Desculpe. – Tentou ver melhor.
– Quem pede desculpas sou eu.
Ela reconheceu o rapaz com quem trombara, era Rian, um aluno novo que entrou para sua sala. Ele tinha cabelos loiros e olhos verdes, era bem inteligente, porém um pouco tímido demais. Coincidentemente, ele morava na mesma rua que ela. Eram, quase que, vizinhos.
– Rian...
– Oi, Daniela. Peço desculpas outra vez.
– Não precisa, foi minha culpa.
Ele pegou os livros dela e entregou-a.
– Está indo embora? Bom que me faz companhia...
– Ah, não, desculpe. Vou ter de passar num mercadinho primeiro para a minha mãe, sabe? Ela vai fazer uma viagem e coloca todas as suas coisas pra cima de mim.
– Seus pais também vão viajar?
– Meus pais não, minha mãe. Ela vai visitar um parente nosso que faleceu ontem. E, sobre meu pai, ele morreu quando eu era pequeno... então...
– Desculpe, eu não sabia...
– Não tem que se desculpar. Não fico triste quando lembro dele, fico triste por não saber o que aconteceu com ele.
– Ah... É, Rian, a propósito, você quer ir numa festa hoje à noite na minha casa?
– Não sei... Acho que sou chato, não curto muito essas festanças com muita gente, sabe?
– Não, não... Só terá os meus amigos, no máximo umas 8 pessoas. Vai ser muito bom se for, pelo menos não fica sozinho em casa. E então, vai ir, por favor?
– Tudo bem. Agora eu tenho que ir. Até mais!
– Te vejo às 19 horas!
Ao despedir-se, Daniela se dirigiu para casa. Porém, quando passava em frente a uma pequena banca de jornais, pensou que em uma festa não podiam ter só bebidas e drogas, necessitava de algo a mais... Ela se aproximou do trailer antigo onde estavam as mercadorias, foi buscando um atendente até esbarrar-se de costas nele.
– Ai. – Levou um susto, se virando. Logo, viu o pasmo e parado rapaz que a encarava seriamente. Ele tinha várias tatuagens, brincos, argolas... Gótico.
– O que você quer?
– Randall... – Leu o nome do mesmo num crachá em seu peito. — Posso saber se tem algum jogo legal... pra amigos?
– Desculpe, só dama ou xadrez. E algumas cruzadinhas e caça-palavras.
– O quê? Nossa, só tem esses jogos?
– Sim.
Desapontada, Daniela se virou e começou a andar de volta a seu rumo, porém viu de relance um tabuleiro de madeira, objeto quadrado, que estava meio escondido entre jornais e revistas.
– E aquilo, Randall? – Apontou com o dedo.
– Isso? – Ele pegou-o nas mãos. – É uma tábua Ouija. Na verdade, eu nem sabia que tinha isso aqui.
– “tábua Ouija”? É algum tipo de jogo?
– Na verdade, é um meio de comunicação com espíritos.
– O quê? – Ela tomou um susto, mas refletiu sobre tal. – Apesar de eu ter medo, meus amigos com certeza irão gostar muito de jogar algo assim.
– Garota, isso não é um jogo. – Disse secamente o atendente. – É algo que pode ser perigoso demais para quem não usar as regras...
– Vou comprar.
Daniela deu o dinheiro e pegou a tábua, se virando e iniciando seus passos. Ela nem ligou para as palavras de aviso do atendente, somente ficou observando, na tábua, o desenho de letras e números, além de um sol, uma lua e as palavras “Sim”, “Não” e, no centro, “Ouija”. Plastificado junto ao tabuleiro, também tinha uma pedra com um furo no centro, parecia de porcelana. O kit era uma coisa bem anormal, não se achava aquilo nos supermercados...
Ainda observando a garota, o moço acenava negativamente com a cabeça.
– Só espero que ela saiba usar... Caso contrário, estará com as horas contadas!
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