A Maldição Ou Dádiva De Soraya.
1 Prefácio - O exorcismo.
Notas iniciais
Pov Soraya.
Andei pelas ruas escuras, procurando por alguma brecha, algum lugar por onde eu poderia escapar daquilo tudo.
_ Não há escapatória. Não adianta fugir. — disse um deles, atravessando a rua em segundos e chegando á minha frente.
_ Não importa. Vou procurar. — falei, decidida.
_ Como escapar de algo que está dentro de você? — perguntou o garoto á minha frente, sacudindo a cabeça negativamente.
_ Não sei. — sussurrei, para depois me corrigir: — Mas vou achar um jeito.
O garoto apenas me observou, enquanto eu procurava, em vão, uma saída daquilo tudo, que mais parecia um pesadelo sem fim. Eu sentia minhas mãos tremendo e o suor em minha testa, mas não me importava. Continuava andando, como uma lunática.
_ Pare, isso não vai ajudar. — disse o outro, aparecendo na minha frente.
_ Não me importo, não vou parar. — falei, ainda andando.
_ Você quer mesmo que Ele vença? Deixe-me ajudar! — disse o dos cabelos castanhos, parando novamente á minha frente.
_ Vão embora! Eu não preciso de ajuda! — exclamei, e o de cabelos prateados apareceu ao lado do moreno.
_ Precisa sim. Não queremos que Ele passe a controlar você. — disseram os dois juntos.
_ Não me importo! Ele não vai me controlar! — exclamei, e continuei a andar, com uma mão na testa. Minha cabeça doía.
Então, novamente aquela tonteira me cegou, fazendo com que eu caísse no chão.
_ Ei! Deixe eu te ajudar! — disseram os dois juntos, me levantando.
_ Não! Me larguem! — exclamei, tentando, em vão, me soltar das mãos presas aos meus braços.
Agora, as mãos começavam a queimar meu braço.
_ Espere, nós... — começou um deles e eu interrompi:
_ O que vocês estão fazendo comigo? — perguntei, tentando mais insistentemente me soltar das mãos.
Eles me soltaram de uma vez, fazendo com que eu tombasse no chão novamente. Passei as mãos pelos meus braços, pelas marcas roxas em minha pele.
_ Nós não fizemos nada. Eu não lhe disse que Ele iria te controlar? — disse o moreno, se sentando á minha frente.
Continuei de cabeça baixa, sabendo que a franja não tamparia completamente as lágrimas que insistiam em correr pelo meu rosto. O moreno tentou retirar a franja da frente, mas eu dei um tapa na sua mão.
_ Não encoste em mim. — falei friamente, abraçando meus joelhos e pondo a cabeça entre eles.
_ Deixe eu te ajudar, por favor. — disse o moreno.
_ Não... — tentei dizer, mas minha voz estava fraca. Tentei recuperar a voz, que sumia cada vez mais. — Eu... Eu... — resmunguei, vendo minha voz sumir. Droga!
Pisquei várias vezes, tentando ver com clareza. Aquela dor insistente na minha cabeça não ajudava em nada. Passei uma das minhas mãos pelo meu rosto, limpando o resto das lágrimas que já não corriam mais. Tentei, em vão, pensar com clareza, sacudindo fortemente a cabeça.
_ Vai nos deixar ajudar agora? — perguntou um deles, não pude distinguir qual, levantando minha cabeça.
Tudo estava embaçado e eu não conseguia enchergar em cores. Pisquei várias vezes. Então assenti. Vencer seria impossível, para mim agora, apesar de que a palavra impossível já sumira do meu vocabulário há muito tempo.
De repente, senti algo queimar a minha testa e subitamente me afastei, vendo minha visão falhar várias vezes.
_ Deixe-me fazer. Não há outro jeito. — ouvi alguma voz ao fundo e continuei parada, com todas as minhas forças.
Dessa vez, senti algo queimar meu peito e meu corpo reagiu sozinho, se afastando. Dei um passo para frente novamente, mas meu corpo me arrastou três passos para trás. O que estava acontecendo.
_ Ah, coisa! Ele já está começando a controlar ela. Temos que agir rápido. E da próxima vez, veja se deixe que ajudemos você mais rápido, sua estúpida. — disse um deles.
Eu não conseguia pensar direito! Consegui me sentar, para tentar me estancar no chão, mas minhas pernas se moviam sozinhas e esperneavam enquanto eu agarrava minhas mãos na terra úmida. Sacudi a cabeça uma outra vez, dessa vez para tentar enxergar algo. Estava tudo negro.
_ Ai caramba. — falei. Ou pensei que tivesse falado, pois tudo o que ouvi foi um sussurro.
_ Calma! — disse uma voz que não pude distinguir. Aquilo veio de mim?
_ CALE-SE, IMBECIL! E PARE DE TORTURÁ-LA! — berrou um deles ou os dois, não consegui distinguir nada.
Uma risada áspera soou e então eu consegui entender. Não era eu, era Ele. Merda, o que estava acontecendo?
Então, algo queimou com força a minha garganta, fazendo Ele gritar.
_ E fique quieto. — disse um deles no meu ouvido.
Meus braços se moveram sozinhos e me senti batendo em alguma coisa.
_ AH! — ouvi uma voz e prenderam meus braços. Uma nova risada ecoou pelo local.
_ Ande logo, tira a blusa dela para a gente conseguir terminar! — disse um deles.
Eu não conseguia pensar, então apenas fiquei quieta. Logo senti uma dor ardente no meu peito fazendo quem quer que fosse que estivesse me controlando berrar. Até eu gritaria se tivesse alguma voz. Aquilo era tortura mesmo! Eu não conseguia nem gritar, nem chorar!
_ Pegue a fonte! — disse um deles e senti mais dor.
Eu não podia fazer nada, mas aquele que me controlava cacarejava, parecendo mais uma galinha. Se eu ainda pudesse, acho que riria da situação. Logo percebi que aquele cacarejo estranho era um riso.
E mais dor, e mais queimaduras. Até quando iria durar? Ouvi algumas palavras desconexas e estranhas e senti minha consciência voltar aos poucos. Aquilo era um exorcismo?
E por que é que um demônio foi tentar me controlar? Ahn? Eu não estava entendendo nada. Vi minha visão voltar aos poucos e sorri, sentindo meus músculos relaxarem. Fechei os olhos, esperando meu corpo se acalmar por completo.
Quando tudo voltou ao normal, eu me sentei, atordoada.
_ O que foi isso? — perguntei.
Os dois me fitavam, curiosos. Eles já haviam soltado minhas mãos.
_ Você se sente bem? — perguntou o moreno.
_ Sim, por... — comecei, até que senti o tamanho das minhas unhas. — Caramba. — murmurei, olhando minha mão.
E minha visão estava muito melhor! O que, diabos, aconteceu? Passei a mão pelo meu rosto. Parecia normal, apesar das espinhas e dos cravos terem sumido de um modo bem estranho. Minha pele estava lisa como porcelana. E a cor da minha pele estava bem mais branca que o normal. Logo notei que não era minha pele, era o meu cabelo. Aquilo era um cabelo ou uma juba? Ele estava enorme!
_ O que foi que vocês fizeram comi... — comecei e assim que eu falei o "z" do "fizeram", eu senti alguma coisa bem pontiaguda na minha boca. Logo notei que eram os dentes. Toquei eles com meus dedos, confusa.
_ Não foi a gente não. Foi o seu "amiguinho" aqui. — disse o de cabelos prateados, indicando para a marca no meu peito. Logo notei que eu estava sem blusa e corei, me encolhendo.
_ Cade a minha blusa? — perguntei, sorrindo, meio sem jeito.
_ Ah! Desculpe, foi necessário. — disse o moreno, rindo.
Ele me entregou a blusa, que estava meio rasgada, dando um sorriso de desculpas.
_ Tudo bem. — falei, enfiando a blusa por cima dos meus novos cabelos.
Logo tive que tirar todo o cabelo de dentro da blusa. Que incômodo.
_ Toma. — disseram, me entregando um estojo de maquiagem.
Levantei as sobrancelhas, pegando e abrindo. Quase pulei com o que vi no espelho. Aquela, definitivamente, não era eu. Toquei meu rosto, vendo a cópia no espelho fazer o mesmo.
Meus cabelos estavam brancos, meus olhos pareciam olhos de gato e estavam verdes, minha pele mais branca que o normal, meus dentes pareciam serras, minhas orelhas estavam pontiagudas e o mais estranho, a do espelho era a garota mais bonita que eu já tinha visto. Nenhuma careta que eu fizesse mudava aquilo.
Os dois á minha frente pareciam rir da minha reação. Mas eu nem liguei. Me examinei por inteiro, vendo meu corpo, que agora parecia o corpo de uma modelo. Não, era mais perfeito do que isso.
_ O que foi que aconteceu comigo? — perguntei, me fitando pelo espelho.
_ Agradeça a Ele. — resmungou um deles.
Eu estava meio chocada.
_ Tem um pente? — perguntei e me entregaram um.
Penteei meus cabelos enormes, que agora pareciam estar vivos. Qualquer coisinha, eu sentia dor e uma das mechas me dava uma chicotada na mão.
Acabei desistindo, observando minhas mãos que estavam todas marcadas das chicotadas.
_ Isso não é normal. — murmurei, tendo uma idéia. E se...
Estendi a mão e vi uma das mechas do meu cabelo se enroscar no meu braço, ficando com a ponta na palma da minha mão.
Os dois caíram na gargalhada.
_ Nunca vi isso! — disse o moreno, pegando uma de minhas mechas.
_ Ei! — soltei e a mesma mecha deu uma chicotada no rosto dele, fazendo com ele rir mais.
_ Entendi de onde os gregos tiraram a Medusa. — disse o albino e os dois caíram na gargalhada.
_ Não tem graça. — resmunguei e vi meus cabelos se entrelaçarem sozinhos, fazendo uma trança da altura da minha cintura. E eles não se soltavam. — Ai que legal! E isso não cansa! — falei, pegando a trança e passando ela para frente. — Ai, bonitinhos! — soltei, acariciando os fios, que se enroscavam na minha mão como se gostassem.
Os dois me fitavam, rindo. Eu apenas ignorei, andando pela rua. Daqui para frente as coisas vão piorar bastante, eu sentia isso.
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