A Maldição: O Herdeiro
6 A volta para casa.
– Não sou sua princesa aqui! – disse Georgie com fogo nos olhos.
– Então pare de agir estupidamente como uma. – disse Will.
– Será que pode sair de cima de mim, por favor. – disse mais branda.
Will soltou os seus braços e deitou na relva ainda um pouco úmida por causa da noite. Tinha levado uma pancada nas costelas quando um dos homens lhe derrubou e estava doendo.
Estava muito silencioso, quando se virou viu a princesa indo até um dos caídos e tirou-lhe algo de suas mãos e sussurrou: “Isso é meu.”. Se virou com um punhal na mão e foi andando floresta adentro sem olhar para trás.
– Ei! Para onde está indo? – ela virou-se e continuou sua caminhada.
“Que seja.”, pensou Will, “Se ela não quer minha ajuda que vá sozinha. A ingrata nem agradeceu”. Levantou-se e foi até seu cavalo, desamarrou-o da arvore e continuou seguindo viagem noite adentro, já estava atrasado.
* * *
Georgie estava perdida. Depois de quase duas horas teve certeza, parecia estar andando em círculos e do jeito traiçoeiro que era aquela floresta não seria nada fácil sair dela, além disso estava com sede, estava tão nervosa que nem conseguiu ter a brilhante ideia de seguir rio acima, assim estaria com agua e teria uma noção para onde ir. Na verdade, mesmo assim não teria como ter certeza de para onde estar indo, nunca tinha saído tão longe assim do castelo, mas pelo menos não estaria com sede.
“Acho que não teria sido mal pedir ajuda. Mas a quem? Claro, a pessoa que ajudou no meu resgate e que eu simplesmente saí correndo.”
Esses pensamentos rondavam a mente de Georgie, e a floresta continuava escura e fria.
De súbito ouviu um barulho. Galhos estavam se quebrando. Tinha alguém por perto, e estava bem devagar para não ser percebido. Georgie segurou seu punhal e foi para trás de uma arvore. Ele estava bem perto agora, podia ouvir sua respiração profunda, uma gota de suor escorreu pelo seu rosto, mas continuou calma, pragmática, como te ensinaram. Estava muito perto para que desse uma olhada, então teria que descobrir sua localização pelo som que estava causando. Concentrou-se.
Atrás, um pouco a esquerda.
Saiu da arvore apunhalando ao mesmo tempo, mas teve uma surpresa, não era uma pessoa. Esse segundo de distração foi o suficiente para que aquele urso enorme levantasse sua pata e a golpeasse. Ela caiu no chão com seu punhal a alguns pés de distancia. O urso não estava contente de ter sido ferido e ameaçou outro golpe; já estava com a pata levantada quando avistou algo a sua frente e urrou, Georgie aproveitou para rolar para o lado, exatamente na hora em que o urso proferiu seu ataque. Pegou seu punhal e se distanciou do urso. Ele estava indo em outra direção agora. Num susto percebeu que William estava ali, enfrentando o urso.
Por milésimos de segundos seus olhos se encontraram e Will gritou:
– Corra na direção do rio a leste, – disse apontando a direção – tem um cavalo lá, pegue-o e vá embora, vou distraí-lo.
Não deu tempo de Georgie responder, ele já estava dentro das folhagens de novo e com um urso pardo gigante em seu encalço. Georgie pôs-se a correr em direção ao rio, aos tropeços ainda pelo susto e adrenalina que corria por suas veias até que encontrou um garanhão negro. Desamarrou a corda e montou, voou a galopes para oeste, não poderia deixa-lo sozinho com aquele urso.
Sentindo alguns galhos arranharem sua pele Georgie apenas fez o cavalo ir mais rápido.
* * *
Will pulava sobre os troncos caídos e tentava ir para o lugar com mais difícil acesso à um urso gigante, mas ele parecia uma montanha ambulante que estava derrubando tudo em seu caminho, até que ele avistou o rio e esperava que aquele maldito urso não soubesse nadar tão rápido quanto ele pudesse. Há quase dois metros de distancia da margem Will se jogou na agua e nadou com o resto da força que tinha, já estava chegando na outra margem quando as garras afiadas fizeram um corte em sua perna e ele gritou se arrastando para fora da agua. Poucos segundos depois uma massa de pelo escuro pingava agua ao seu lado e sem nenhum pudor lançou sua pata direita no peito de Will fazendo três rasgos profundos, desde seu ombro esquerdo ao final de seu abdômen. Will arfou, não estava sentindo dor, mas em seguida tudo começou a girar, então desmaiou.
Ainda com a pata em Will o urso viu algo brilhar, um feixe de luz saia de alguma parte de sua vitima, quando tirou a pata um colar em forma de lua estava brilhando como em dia de lua cheia. Os sons da floresta ficaram mais alto, as arvores sussurravam uma com as outras, sobre esse som ouviu-se uma cantiga também sussurrante. O urso abaixou a cabeça, fez uma pequena reverencia e foi embora.
* * *
Georgie foi seguindo o rastro de destruição do urso até chegar novamente ao rio, deu uma rápida olhada, os rastros terminavam ali, mas quando olhou para a outra margem viu Will desmaiado. Largou o cavalo e nadou até a outra margem, nem sinal do urso, mas ele estava muito ferido. Georgie foi verificar se estava vivo, estava fraco, mas ainda vivo. Ela rasgou a camisa dele que já estava aos trapos e com um dos pedaços pressionou os cortes em seu peito, não estava jorrando muito mais sangue, mas se não parasse o sangramento agora talvez ele não sobrevivesse pela quantidade de sangue que perdeu. Ele estava suando, isso era um mau sinal, ou estava febril ou desidratando e nenhuma das opções eram razoavelmente boas.
* * *
Will estava sonhando. Um que ele já não tinha faz tempo.
Estava em uma colina cheia de grama, no topo uma arvore com folhas brilhantes parecidas com ouro. Will subiu até o ponto mais alto e pode ver uma mulher olhando para um campo de tulipas vermelhas. Seus cabelos eram familiares, até que ela se virou.
– Will... – a voz o chamou.
– Mãe? – assim que disse a mulher virou com olhos brilhantes.
Estava da mesma maneira que em que ele a viu pela ultima vez.
– Mãe? – repetiu a pergunta – É você?
Ela assentiu e Will correu ao seu encontro dando-lhe o abraço apertado que a tirou do chão.
– Estava com saudades... – ele disse.
– Eu também. – ela respondeu.
– Eu morri?! – ele perguntou assustado.
Com um sorriso sua mãe disse:
– Não querido, está apenas dormindo. Descansando. É a primeira vez em que você se mete em apuros de verdade não é mesmo.
– Do que está falando? – sua mãe ia dizer alguma coisa, mas suspirou e disse:
– Você tem que voltar Will, a garota está preocupada.
– O que? Que garota? – tudo a seu redor estava começando a sumir. – Não mãe, espera!
* * *
Will acordou aos berros e assustado não percebendo que tinha empurrado alguém. Tentou ficar sentado, mas a dor estava mais forte, deitou-se. Quando se acalmou um pouco reparou a presença silenciosa de Georgie a seu lado com um pedaço de pano e suas mãos ensanguentadas.
– O que está fazendo aqui? – disse Will secamente. – Lembro de ter dito para fugir.
– Não sei, apenas salvando sua vida, mas já que incomodo assim melhor eu ir embora. – disse levantando-se e indo lavar as mãos na beira do rio.
– Espera. – Will suspirou. – Desculpe. Tive uma noite ruim.
– É perceptível. – pela primeira vez olhando em seus olhos ela disse. – Obrigada por interceptar o meu resgate. E também pelo urso.
– Agradeço a ele também, isso está feio, mas você fez um bom trabalho com isso, considerando as condições. – ele soltou uma risada fraca.
– Obrigado por não me deixar morrer jorrando sangue.
– Oh! Não foi por isso, é que eu odeio vermelho. – os dois riram. – Você precisa de um médico...
– Não. Eu não preciso ir a medico algum.
– Quem está te dando escolha? Se não obedecer a sua princesa terá graves punições em futuro próximo. – ela se ergueu tirando a menor sombra de divertimento, uma prova que ela estava falando sério.
– Tudo bem então, eu te levo para o reino e depois que voltar para Heliodora procuro alguém para me ajudar com isso.
– Nem sabemos se você vai durar a viagem até o castelo, quanto mais percorrer todo esse caminho de volta a sua vila, encima de um cavalo e nessa floresta. Ela é muito perigosa.
Will riu.
– Perigosa? – riu um pouco mais alto. – É a floresta que tem medo de mim.
Georgie estranhou seu comportamento e reavaliou se realmente deveria ajuda-lo, ele falou de um modo estranho. Era possível encontrar no seu olhar o sangue, a matança e a ferocidade. Um caçador.
Georgie deu um passo para trás.
Will arfou de novo e dessa vez uma careta de dor surgiu.
– Temos que tirar você daqui já.
Georgie olhou para a outra margem do rio onde o cavalo estava, ela não o deixou amarrado, sua sorte foi a farta grama perto da margem do rio. Ela apoiou Will em seus ombros e assoviou para o cavalo, que atendeu a seu chamado. Ele atravessou com um pouco de dificuldade, mas quando chegou á margem cheirou o cabelo de Georgie. Deu um comando e o cavalo se agachou, neste nível ela conseguiria colocar Will nele. Montou atrás para controlar as rédeas, pois ele estava quase desmaiando.
Ela sempre teve afinidade com animais, eles pareciam entendê-la quando ninguém mais podia e depois que Nina foi embora, ela nunca parou com uma dama de honra. Nunca haveria alguém como ela. Em toda a sua vida ela foi sua única amiga. E desde aquele dia ela não sabe noticias, mas confiava nela, em um bilhete que ela entregou que dizia que se reencontrariam de novo. Isso irá acontecer.
A cavalgada foi mais perigosa e, no entanto mais lenta também, o garanhão pode ser forte, mas carregar duas pessoas ao mesmo tempo é cansativo, e o peso de Will estava quase que totalmente apoiado em seu ombro, mas não confiava que ele estava consciente. Mas ele precisava de ajuda e ela não iria comprar uma briga sabendo que ela não pode lutar.
O sol já estava amanhecendo quando chegaram à cidade do palácio. Para a sorte deles, não havia mercadores nas ruas ainda. E surpreendentemente nenhum guarda procurando por ela. Provavelmente deve ter sido dada como morta. O velho toque de recolher deve ter voltado a vigorar. Georgie foi conduzindo o cavalo para uma cabana atrás do palácio onde havia uma entrada secreta para dias difíceis. Deixou o cavalo nos estábulos e com Will ainda em seus braços desceu o porão. Aquele túnel estava lá mesmo antes do avô de Georgie nascer, já foi utilizada por algum tempo na época de invasões, mas como o todo reino está em “paz”, muitos já se esqueceram onde fica. A princesa Georgie achou por acidente enquanto brincava de pique com uma borboleta e partir dali que aquela foi a sua passagem para o mundo de fora.
Estava tudo empoeirado e com alguns bichos no chão vivos ou não, mas o importante era a utilidade, eles poderiam entrar no castelo onde tem o melhor medico. Mas a real razão para não entrar pela porta da frente é por que seu pai nunca mais irá deixar sair de seu quarto. Se ele a prendia antes, depois de três tentativas de sequestro nos últimos seis meses com certeza iria ser prisioneira. Quanto mais tarde isso acontecer melhor.
– Will me ajuda, por favor... – ele estava ficando cada vez mais pesado. – Já está perto.
Depois de dobrarem mais duas vezes a esquerda naqueles tuneis chegaram ao “Salão da Glória”, o lugar onde ficavam simbolicamente as conquistas do reino, que por sorte deles quase sempre não havia ninguém lá. Passou direto sem olhar para os lados e foi para a cozinha do palácio. Entrou na dispensa e apoiou Will em dois sacos de batata.
– Joanna, preciso de sua ajuda. – disse a princesa quando encontrou a governanta.
– Do que precisa senhora? – disse atenciosa.
– Um medico, há alguém que precisa de ajuda na dispensa.
– Uma das serviçais desmaiou? – Georgie pensou rápido.
– Na verdade um serviçal, não sei o que aconteceu com ele, está sangrando.
Georgie tentou manter segredo sobre a identidade de Will, se não seria posto para fora do castelo antes que pudesse ser ajudado, o melhor disfarce para ele agora seria a de um empregado. Mas o que mais preocupava Georgie era como explicar os machucados.
– Senhora, deveria tomar um banho e se aprontar para o café da manhã. – a mulher disse e Georgie ficou vermelha. – Eu cuido disso.
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