Notas iniciais
Ficou grande, mas vale. Boa leitura!

Santana me puxou pela mão até o centro de visitantes. Não foi muito útil, pois encontramos mais guerreiros esqueletos. Então voltamos a correr em disparada até o museu, passando pelo detector de metais como um raio. Ouvi o guarda berrar alguma coisa, mas não me importei.

Entramos rapidamente no elevador, que já fechava as portas. A guia falava com a multidão, dando algumas informações do local.

– Vamos descer mais de duzentos metros, — nossa guia turística falou animada. Ela era uma guarda-florestal, com longo cabelo preto puxado para trás num rabo-de-cavalo e óculos coloridos. Acho que ela não percebeu que eu estava sendo perseguido. — Não se preocupem senhoras e senhores, o elevador dificilmente quebra.

– Ele vai até a lanchonete? — perguntei a ela.

Algumas pessoas atrás de mim abafaram o riso. A guia turística me olhou. Alguma coisa no olhar dela fez minha pele formigar.

– Para as turbinas, minha jovem, — a moça falou. — Você não estava escutando a minha fascinante apresentação lá em cima?

– Oh, hum, claro. Tem outro jeito de sair da represa?

– É um beco sem saída, — um turista atrás de mim disse. — Pelos céus. O único jeito de sair é pelo outro elevador.

As portas se abriram.

– Sigam em frente, pessoal, — a guia turística nos disse. — Outro guarda-florestal está esperando por vocês no fim do corredor.

Não tive muita escolha a não ser sair com o grupo.

– E minhas jovens, — a guia turística chamou. Olhei para trás. Ela havia tirado seus óculos.

Seus olhos eram surpreendentemente cinzas, como nuvens de tempestade.

– Existe sempre uma saída para aqueles inteligentes o bastante para encontrá-la.

Dito isso, as portas do elevador se fecharam. Santana e eu ainda estávamos paradas, estáticas.

– San, porque eu tenho a leve impressão de que acabei de ter uma conversa com a minha sogra? – perguntei à latina.

– N-n-não acho que foi impressão, Britt-Britt. – ela respondeu, me puxando para voltarmos a correr.

Corremos até o grupo turístico, por um túnel entalhado na pedra sólida. Parecia continuar para sempre. As paredes eram úmidas, e o ar zunia com eletricidade e o rugido da água.

Saímos em uma sacada em forma de U que dava vista para esta enorme área de armazéns. Quinze metros abaixo, enormes turbinas estavam ligadas. Era uma sala grande, mas eu não via nenhuma outra saída, a menos que eu quisesse pular dentro das turbinas e ser triturado para gerar eletricidade. E eu não queria.

Outro guia turístico estava falando no microfone, contando aos turistas sobre os suprimentos de água em Nevada. Rezei para que meus amigos estivessem bem.

Eles podiam já ter sido capturados, ou estar comendo na lanchonete, completamente ignorantes de que estávamos sendo cercados. E que estupidez a minha: eu havia nos aprisionado num buraco centenas de metros abaixo da superfície.

Voltamos ao redor da multidão, tentando não parecer óbvias. Havia um corredor no outro lado da sacada — talvez um lugar onde pudéssemos nos esconder. Mantive minha mão em Contracorrente, pronta para atacar.

No momento em que cheguei ao lado oposto da sacada, meus nervos dispararam. Fiquei de costas para o pequeno corredor e observei o túnel pelo qual viera.

Então, bem atrás de mim eu escutei um agudo Chhh! como a voz de um esqueleto.

Sem pensar, destampei Contracorrente e girei, golpeando com minha espada.

A garota que eu tinha acabado de tentar fatiar ao meio ganiu e deixou cair seu guardanapo.

– Ó, meu deus! — ela gritou. — Você sempre mata as pessoas quando elas assoam o nariz?

A primeira coisa que me veio à cabeça foi que a espada não a tinha machucado. Havia passado limpa através do seu corpo, inofensivamente.

– Você é mortal!

Ela olhou para mim incrédula.

– O que isso quer dizer? É claro que sou mortal! Como você passou essa espada pela segurança?

– Eu não — Espere, você pode ver que é uma espada?

A garota rolou os olhos, que eram azuis como os meus. Ela tinha cabelo liso castanho. Seu nariz estava vermelho, como se estivesse gripada.

Ela vestia um grande moletom grená de Harvard e jeans cobertos de manchas de canetinhas e pequenos buracos, como se ela usasse o tempo livre para espetá-los com um garfo. Uma touca velha cobria sua cabeça e suas orelhas. Ela era realmente muito bonita, mesmo vestida em um moletom velho.

– Bem, ou é uma espada ou é o maior palito de dente do mundo — ela disse. — E por que não me feriu? Quero dizer, não que eu esteja reclamando. Quem é você? E, uau, o que é isso que você está vestindo? É feito de pelo de leão? E quem é a morena ao seu lado? Ela não parece gostar muito de mim...

Ela me fez tantas perguntas, tão rápido, que era como se ela estivesse jogando pedras em mim. Eu não conseguia pensar no que falar. Olhei para as minhas mangas para ver se o casaco do Leão de Neméia tinha de algum jeito voltado a ser pelo, mas continuava parecendo um casaco marrom de inverno pra mim.

Eu sabia que os guerreiros esqueleto ainda estavam nos perseguindo. Não havia tempo a perder. Mas eu apenas encarei a menina ruiva. Então me lembrei do que Quinn fizera no Westover Hall para enganar os professores. Talvez eu pudesse manipular a Névoa.

Eu me concentrei bastante e estalei meus dedos.

– Você não vê uma espada — eu disse à garota. — É apenas uma caneta esferográfica.

Ela piscou.

– Hum... não. É uma espada, sua esquisita.

– Quem é você? – Santana exigiu com uma cara nada boa.

– Meu nome é Marley, Marley Rose. Agora vocês vão responder as minhas perguntas ou vou ter que gritar pelos seguranças?

– Não! – San e eu dissemos em uníssono.

– E-estamos com alguns problemas. Estamos com pressa. – falei.

– Com pressa ou com problemas?

– Hum, acho que os dois.

Ela olhou sobre os meus ombros e seus olhos se arregalaram.

– Banheiro!

– O quê? – San perguntou

– Banheiro! Atrás de mim! Agora!

Não sei por que, mas eu a escutei. Escorregamos para dentro do banheiro feminino e deixamos Marley Rose permanecer do lado de fora. Depois, aquilo me pareceu covarde. Também estou quase certo de que salvou nossas vidas.

Ouvi os sons tirintantes e sibilantes dos esqueletos enquanto eles se aproximavam.

Meu aperto se intensificou em Contracorrente. O que eu estava pensando? Eu deixei uma garota mortal lá fora para morrer. Estava me preparando para irromper e lutar quando Marley começou a falar no seu jeito de metralhadora automática.

– Ó, meu deus! Vocês viram aquele garoto? Já era tempo de vocês chegarem aqui. Ele tentou me matar! Ele tinha uma espada, pelo amor de Deus. Vocês da segurança deixaram um espadachim lunático entrar em um monumento nacional? Quero dizer, nossa! Ele correu na direção daquelas coisas das turbinas. Acho que ele foi pela lateral ou algo assim. Talvez tenha caído.

Os esqueletos tirintaram excitadamente. Eu os escutei indo embora.

Marley abriu a porta.

– Tudo limpo. Mas é melhor vocês se apressarem.

Ela parecia abalada. Sua face estava pálida e suada.

Espiei o canto. Três guerreiros esqueleto estavam correndo em direção ao outro extremo da sacada. O caminho para o elevador estava livre por poucos segundos.

– Eu te devo uma, Marley Rose.

– O que são essas coisas? — ela perguntou. — Pareciam...

– Esqueletos?

Ela assentiu, apreensiva.

– Faça um favor a si mesma, — eu disse. — Esqueça isso. Esqueça que alguma vez nos viu.

– Esquecer que você tentou me matar?

– É. Isso também.

– Mas quem é você?

– Brittany... — eu comecei a dizer. Então os esqueletos se viraram. — Tenho que ir!

– Que tipo de nome é Brittany Tenho-que-ir?

Disparamos para a saída. Segurei a mão de Santana que tinha uma expressão irritada no rosto. Parei-a no meio do corredor, sem me importar com o fato de que estávamos no meio de uma fuga apressada. Prensei seu corpo contra a parede e segurei seu rosto entre minhas mãos. Aproximei nossos lábios e beijei-a com vontade.

– Brittany... Esqueletos – Santana disse virando o rosto.

– Isso tudo é ciúme? – perguntei voltando a selar nossos lábios.

– Não. Não estou com ciúmes... – ela disse entre nossos beijos.

– Você é muito mais gostosa do que ela, San. E eu te amo, só você. Não gosto de olhos iguais aos meus.

– Prestou atenção nos olhos dela, Brittany? – Ela disse arqueando uma sobrancelha.

– Prestei. Ainda prefiro os seus. – respondi abraçando sua cintura.

– Agora vamos, temos que chegar rápido à lanchonete.

A lanchonete estava repleta de crianças aproveitando a melhor parte do passeio — o almoço da represa. Quinn, Rachel, Blaine e Harmony estavam justamente se sentando com suas comidas.

– Temos que ir — arquejei. — Agora!

– Mas nós acabamos de pegar nossos burritos! — Quinn disse.

Harmony se levantou, murmurando um antigo insulto grego.

– Ela está certa! Olhem.

As janelas da lanchonete envolviam todo o andar de observação, o que nos dava uma linda visão panorâmica do exército de esqueletos que viera nos matar.

Contei dois no lado leste da estrada da represa, bloqueando o caminho para o Arizona. Mais três no lado oeste, guardando Nevada. Todos estavam armados com cassetetes e pistolas.

Mas nosso problema imediato estava bem mais próximo. Os três guerreiros esqueleto que estiveram nos perseguindo na sala das turbinas apareciam agora nas escadas. Eles nos viram do outro lado da lanchonete e rangeram seus dentes.

– Elevador! — Quinn disse. Disparamos naquela direção, mas as portas se abriram com um agradável ding, e mais três guerreiros pisaram para fora.

Estávamos completamente cercados.

Então tive teve uma ideia brilhante.

– Guerra de burritos! — gritei, e arremessei Guacamole Grande no esqueleto mais próximo.

Agora, se você nunca foi atingido por um burrito voador, considere-se sortudo. Em termos de projéteis letais, está no topo da lista junto com granadas e balas de canhão. O lanche de Quinn acertou o esqueleto e derrubou completamente seu crânio de seus ombros. Não tenho certeza do que as outras crianças na lanchonete viram, mas elas enlouqueceram e começaram a jogar seus burritos e cestas de batatas fritas e refrigerantes umas nas outras, guinchando e gritando.

Os esqueletos tentaram mirar suas armas, mas foi inútil. Corpos e comidas e bebidas estavam voando por toda parte.

No caos, Q e eu derrubamos os outros dois esqueletos nas escadas e os mandamos voando para a mesa de condimentos. Então nós todos corremos escada abaixo, Guacamoles Grandes zunindo pelas nossas cabeças.

– E agora? — Blaine perguntou quando irrompemos ao ar livre.

Eu não tinha uma resposta. Os guerreiros na estrada estavam se aproximando por ambos os lados. Atravessamos a rua correndo para o pavilhão com as estátuas aladas de bronze, mas isso apenas colocou nossas costas contra a montanha.

Os esqueletos se adiantaram, formando um semicírculo à nossa volta. Seus irmãos da lanchonete estavam correndo para se juntar a eles. Um ainda estava colocando seu crânio de volta sobre os ombros. Outro estava coberto de catchup e mostarda. Mais dois tinham burritos alojados entre as suas costelas. Eles não pareciam felizes com isso. Sacaram seus cassetetes e avançaram.

– Quatro contra onze, — Harmony murmurou. — E eles não podem morrer.

– Foi legal me aventurar com vocês, — Rachel disse, sua voz trêmula.

Algo brilhante capturou minha atenção pelo canto do meu olho. Olhei às minhas costas, para o pé da estátua.

– Uau, — eu disse. — Os dedos deles realmente são brilhantes.

– Britt! — Quinn falou. — Este não é o momento.

Mas não consegui parar de encarar os dois caras gigantes de bronze com altas asas cortantes como abridores de cartas. Eles estavam marrons por sua exposição ao clima, exceto pelos dedos dos pés, que brilhavam como moedas novas por causa de todas as vezes que as pessoas os esfregaram para ter sorte.

Boa sorte. A benção de Zeus.

Pensei sobre minha caríssima sogra no elevador. Seus olhos cinzas e seu sorriso. O que ela dissera? Existe sempre uma saída para aqueles inteligentes o bastante para encontra-la.

– Q, — eu disse. — Reze para o seu pai.

Ela me olhou fixamente. “Ele nunca responde.”

– Apenas esta vez, — pedi. — Peça ajuda. Acho... acho que as estátuas podem nos dar alguma sorte.

Seis esqueletos ergueram suas armas. Os outros cinco avançaram com cassetetes.

Quinze metros de distância. Dez metros.

– Faça logo! — San gritou.

– Não! — Quinn disse. — Ele não vai me responder.

– Desta vez é diferente!

– Quem disse?

– Minha sogra.

Quinn franziu a testa como se tivesse certeza que eu havia enlouquecido.

– Tente. – Rach pediu.

Q fechou os olhos. Seus lábios se mexeram em uma prece silenciosa.

E nada aconteceu.

Os esqueletos se aproximaram. Levantei Contracorrente para me defender. Quinn ergueu seu escudo. Harmony empurrou Blaine para trás dela e mirou uma flecha na cabeça de um esqueleto.

Uma sombra caiu sobre mim. Pensei que talvez fosse a sombra da morte. Então percebi que era a sombra de uma asa enorme. Os esqueletos olharam para cima tarde demais.

Um lampejo de bronze, e todos os cinco carregando cassetetes foram varridos para o lado.

Os outros esqueletos abriram fogo. Levantei meu casaco de leão para me proteger, mas nem precisava. Os anjos de bronze passaram à nossa frente e entrelaçaram suas asas como escudos. Balas retiniam nelas como chuva em teto ondulado. Ambos os anjos golpearam para fora, e os esqueletos saíram voando pela estrada.

– Cara, é tão bom levantar! — o primeiro anjo disse. Sua voz soava metálica e rústica como se ele não tivesse bebido nada desde que fora construído.

Por mais atordoado que eu estivesse com os anjos, eu estava mais preocupado com os esqueletos. Alguns deles estavam se levantando de novo, reagrupando-se, mãos ossudas tateando por suas armas.

– Problema! — eu disse.

– Tirem-nos daqui! — Quinn gritou.

Os dois anjos olharam para ela.

– Filha de Zeus?

– Sim!

– Posso ter um por favor, Senhorita Filha de Zeus? — um anjo perguntou.

– Por favor!

Os anjos olharam um para o outro e encolheram os ombros.

– Podia me esticar um pouco — um decidiu.

De repente um deles agarrou Blaine, San e a mim, o outro agarrou Harmony e Quinn, e nós voamos direto para cima, sobre a represa e o rio, os guerreiros esqueleto diminuindo até serem minúsculos pontos abaixo de nós e o som de tiros ecoando nas laterais das montanhas.

Notas finais
Aprovado?